OS PROBLEMAS DE EROSÃO DE SOLOS NO PARANÁ

Araucária solitária

Ao longo do século XX, conforme apresentamos na postagem anterior, o Paraná foi um dos Estados brasileiros que mais perdeu cobertura florestal – de uma área original que cobria aproximadamente 83% da sua superfície, o Estado possui hoje uma cobertura florestal estimada entre 5 e 17% da área original, conforme a fonte pesquisada. A intensa derrubada de árvores pelas madeireiras e a abertura de campos agrícolas figuram entre as principais responsáveis por essa destruição. 

Esse intenso desflorestamento teve um alto custo ambiental, que foi desde a perda de biodiversidade, animal e vegetal, até a intensificação da erosão dos solos, destruição das fontes de água e assoreamento dos corpos d’água. Calcula-se que 1/3 dos solos agricultáveis do Paraná. estimados em 6 milhões de hectares, necessitem de trabalhos de recuperação e/ou prevenção por causa de processos erosivos (em diferentes graus de intensidade). De acordo com dados do PROSOLO – Programa Integrado de Conservação de Água e Solo do Paraná, cada tonelada de solo perdido tem um custo calculado em US$ 2.33 – em todo o Estado, essas perdas somam US$ 212 milhões a cada ano. Na cotação atual do dólar (16/08/2018), falamos de perdas anuais na casa dos RS 800 milhões

Durante várias décadas, o Paraná foi líder nacional na produção de grãos, posição perdida recentemente para o Estado de Mato Grosso. Na safra de 2017, quando o Brasil atingiu a marca de 232 milhões de toneladas, o Paraná atingiu a cifra de 41,5 milhões de toneladas, perdendo apenas para a produção de Mato Grosso, que atingiu a marca de 58 milhões de toneladas. Essa alta produtividade das terras paranaenses, onde encontramos extensas faixas de solos de terra-roxa, mostra a importância da agricultura na economia do Estado e, de certo modo, “justificam” a intensidade das terras afetadas por processos erosivos. 

Entre as décadas de 1980 e 1990, o Paraná foi um dos líderes brasileiros em trabalhos de conservação de solos através da gestão de microbacias. Lavouras foram refeitas e colocadas em “curva de nível”, técnica que minimiza enormemente o efeito das correntes superficiais de água nos dias de chuva e reduz os processos erosivos. Estradas rurais, inclusive, foram refeitas, de forma a controlar adequadamente as enxurradas e evitar que essa água entrasse nas propriedades. Os avanços do Estado do Paraná no combate à erosão nessa época se tornaram uma referência mundial e foram noticiados em revistas técnicas de agricultura e em reportagens de inúmeras redes de televisão de todo o Brasil e do mundo. 

Outro cuidado que passou a fazer parte do dia a dia dos agricultores paranaenses nessa época foi o uso da palha das culturas na proteção dos solos, um recurso simples e eficiente contra os impactos das chuvas e do sol, mantendo a umidade dos solos por mais tempo e garantindo ótimos resultados no plantio direto das novas culturas. Essa combinação dos terraços agrícolas criados a partir das linhas de nível com a cobertura dos solos com palha, onde eram usadas uma média de 6 toneladas por hectare, garantiram durante muito tempo a proteção dos solos do Paraná. 

Infelizmente, com o avanço da mecanização e modernização da agricultura nos últimos anos, muito desses avanços no controle da erosão dos solos foram se perdendo. Para reduzir os custos com o preparo da terra, plantio e colheita, os produtores rurais passaram a comprar máquinas agrícolas cada vez maiores, mais rápidas e mais potentes. Essa mecanização permitiu o ganho de tempo, reduzindo os riscos de perdas com secas, geadas e chuvas temporãs. O plantio em terraços, muitas vezes estreitos, dificultava ou limitava o uso dessas máquinas – a solução encontrada por muitos produtores rurais era a simples eliminação ou redução desses terraços. Uma das práticas mais comuns, de acordo com pesquisadores do IAPAR – Instituto Agronômico do Paraná, era a eliminação de 1 a cada 3 terraços. E como resultado, a erosão e a perda de solos agrícolas voltou a crescer em todo o Estado.

Apesar dos aumentos da produtividade agrícola alcançados através da mecanização, houve um aumento proporcional dos custos – passaram a ser necessários gastos cada vez maiores para a reposição artificial dos nutrientes dos solos, especialmente de elementos como o nitrogênio, o fósforo e o potássio, essenciais para o crescimento e a frutificação das culturas. Esses custos foram, automaticamente, incorporados aos preços dos alimentos e representaram impactos diretos no consumo das famílias, indústrias e das commodities exportadas. Entre os impactos ambientais, mais difíceis de serem contabilizados, destacam-se o assoreamento e o entulhamento dos corpos d’água com todo o tipo de sedimentos, além da contaminação da água com resíduos dos fertilizantes. Essa contaminação é a responsável por processos de nitrificação e eutrofização das águas, com graves consequências para toda uma cadeia de organismos aquáticos. 

Esses problemas, é claro, não são uma exclusividade do Paraná – eles estão presentes em todos os Estados brasileiros, porém, em volumes muito significativos em regiões com intensa atividade agrícola. E como solos agricultáveis e água são bens naturais cada vez mais finitos e escassos, é preciso uma atenção e um cuidado cada vez maior com os usos que fazemos desses solos e dessas águas. 

A DESTRUIÇÃO DAS MATAS NO ESTADO DO PARANÁ

Araucárias

Na última postagem falamos da destruição da Mata das Araucárias na região Sul do Brasil e do risco de extinção da gralha-azul, uma carismática ave que encontrava nessas matas um habitat perfeito para viver. A sinergia entre as araucárias (vide foto) e a gralha-azul se completava com um curioso hábito alimentar: as aves “estocavam” as sementes das araucárias, os pinhões, em áreas delimitadas dentro do seu território, tanto nos solos quantos em troncos de árvores caídas – muitas dessas sementes acabavam esquecidas e brotavam, ajudando na renovação das matas. 

A Mata das Araucárias, porém, não foi a única vítima da destruição das matas para abertura de campos agrícolas e exploração madeireira na região Sul – todos os sistemas naturais, incluindo-se as florestas úmidas, pampas, banhados e cerrado, entre outros, sucumbiram igualmente diante do avanço do “progresso”. E o Estado do Paraná, que está na lista dos que mais destruíram a sua cobertura florestal nas últimas décadas, é um grande exemplo disso. 

O Estado do Paraná tem uma área total de pouco mais de 199 mil km². Até o final do século XIX, a cobertura florestal original do Estado estava praticamente intocada, apresentando uma área total com, aproximadamente, 168 mil km² ou algo em torno de 83% do território paranaense. Essa cobertura florestal original era formada pela Floresta Estacional Semidecidual ou Florestal Pluvial, concentrada nas faixas Norte e Oeste, a Mata das Araucárias, concentrada nas áreas Central e Sul, e a Floresta Ombrófila Densa, mais conhecida como Mata Atlântica, na faixa Leste. Além dessas formações florestais, eram encontradas áreas de Campos Naturais em regiões do Sul e do Centro Leste, algumas pequenas manchas de Cerrado dispersas ao Norte, além de áreas de manguezais e de restinga no litoral. 

O marco inicial dos desmatamentos no Paraná está diretamente associado à inauguração da Ferrovia Curitiba-Paranaguá em 1888, quando a logística do transporte das madeiras até as áreas portuárias foi imensamente facilitada. Rapidamente, o Paraná se transformou em um grande exportador de madeiras, com destaque para o pinho das araucárias e de outras espécies nobres como a imbuia, a peroba, o marfim, o cedro e a canela. De acordo com informações disponíveis, o Planalto de Curitiba já estava completamente devastado no ano de 1900, tamanha a “fúria” das empresas madeireiras. Em 1910, com a conclusão do trecho conhecido como Linha-Sul da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, a exploração madeireira avançou rapidamente para a região entre Ponta Grossa e União da Vitória. 

A partir da década de 1920, a derrubada de áreas de matas para a implantação de grandes campos agrícolas veio se juntar ao processo de devastação florestal já em andamento há várias décadas por conta da exploração madeireira. Reinhard Maack (1892-1969), um geólogo e explorador alemão que viveu grande parte da sua vida no Brasil e foi um dos maiores estudiosos das florestas primitivas do Estado do Paraná, escreveu um artigo em 1931, mostrando-se completamente assombrado com o avanço dos desmatamentos no Planalto Paranaense. Vejam esse trecho: 

O que os homens do Paraná executaram pelas derrubadas e queimadas da floresta não pode ser descrito. Em nenhum outro país do mundo a floresta é tão absurdamente destruída como aqui e enormes áreas cobertas de matas, que no ano de 1926 me impressionaram pela sua primitiva grandiosidade, encontrei em 1930 como capoeira. 

Os dados disponíveis endossam esse choque de Maack: em 1930, uma larga faixa de matas já havia desaparecido no Leste do Paraná, reduzindo a área florestal para aproximadamente 64% da cobertura original; em 1937, o avanço dos desmatamentos já reduzia essa cobertura florestal para 58% e para 23,92% em 1965. A redução da cobertura florestal continuou avançando ao longo dos anos e, atualmente, restam entre 5 e 17% das matas originais do Estado (há divergências entre as fontes pesquisadas)

Um capítulo trágico da destruição das matas paranaenses e que merece destaque nesta postagem foi o grande incêndio florestal de 1963, que durou cerca de quatro meses e que consumiu cerca de 1 milhão de hectares de matas nativas, áreas de capoeira e também áreas de reflorestamento na região conhecida como Segundo Planalto do Paraná. Das exuberantes matas encontradas no Estado nos primeiros tempos da colonização da Brasil, restam hoje remanescentes florestais na Serra do Mar e no Parque Nacional do Iguaçu, respectivamente no Leste e Oeste do Paraná, além de outros fragmentos florestais transformados em parques e Unidades de Conservação. Essa drástica redução das áreas de florestas teve profundos impactos na fauna nativa, nos solos e nas águas. 

Falaremos disso na próxima postagem. 

O DESAPARECIMENTO DA MATA DAS ARAUCÁRIAS E A AMEAÇA DE EXTINÇÃO DA GRALHA-AZUL

Gralha-azul

Eu participei por cerca de dez anos, nos já bastante longínquos tempos da adolescência, das atividades de um clube similar ao dos escoteiros – o Clube dos Desbravadores. E como garoto de cidade grande, adorava as viagens e acampamentos nas regiões de matas ao redor da Região Metropolitana de São Paulo – muito do que hoje eu sei sobre meio ambiente e recursos hídricos foi fruto dessas viagens.  Nos acampamentos com o Clube, uma das atividades mais temidas eram as rondas da madrugada, quando alguns garotos eram escolhidos para ficar de segurança à noite, enquanto a maioria dormia confortavelmente nas barracas.

Numa dessas rondas noturnas em um acampamento em São Lourenço da Serra, cidadezinha a aproximadamente 80 km do centro de São Paulo, passei por um susto terrível: um pontilhão de madeira num dos acessos ao nosso campo apresentava, de vez em quando, uns estalidos fortes como uma rajada de metralhadora. Sempre que o ruído aparecia, eu e meu companheiro de ronda apontávamos as lanternas e não víamos nada. Foi só na manhã seguinte, depois de muito medo (as histórias de fantasmas e assombrações são muitas nesses acampamentos), é que descobrimos a fonte do barulho – uma grande araucária ou pinheiro-do-paraná, exatamente ao lado do pontilhão, soltava dezenas de pinhões a cada sopro mais forte do vento e as sementes “pipocavam” sobre o piso de madeira.

A Araucaria angustifolia é uma espécie de árvore classificada como gimnosperma , ou seja, cujas sementes possuem uma casca dura e não são protegidas pela polpa dos frutos (a grande maioria das árvores são classificadas como angiospermas, ou seja, que produzem frutos com sementes). É uma espécie adaptada para regiões de clima subtropical, com temperaturas mais baixas nos invernos, encontradas comumente nos planaltos da região Sul do Brasil, especialmente nos Estados do Paraná e de Santa Catarina, e também nas regiões serranas de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. A madeira dessas árvores é de ótima qualidade e foi utilizada intensamente pelas indústrias moveleiras do Sul do Brasil. Foi justamente essa exploração da madeira e a derrubada das matas para a criação de áreas agrícolas as principais responsáveis pelo desaparecimento da maior parte da chamada Mata das Araucárias no Sul do Brasil.

A Mata das Araucárias é um dos muitos sistemas florestais formadores da Mata Atlântica, a antiga floresta que cobria grande parte da faixa Leste do Brasil, desde o Rio Grande do Sul até o Rio Grande do Norte, com muitos trechos entrando pelo continente e chegando até áreas da Argentina e do Paraguai. Estima-se que as araucárias chegaram a cobrir cerca de 40% do território do Paraná, onde aliás a árvore é um dos símbolos do Estado, 30% da superfície de Santa Catarina e 25% do Rio Grande do Sul. Nessas regiões, as araucárias costumavam crescer consorciadas com uma outra espécie extremamente importante para as populações sulinas – a erva-mate, matéria prima do famoso chimarrão.

A semente da araucária, o pinhão, é um alimento extremamente importante na culinária da região Sul e também em extensas áreas do Estado de São Paulo. Ele pode ser comido puro após ser cozido em água ou ser incluído em inúmeras receitas de carnes, sopas, pães e bolos, entre uma infinidade de receitas. Os índios das etnias do grupo linguístico , que possuíam diversas tribos na região Sul do Brasil, eram ávidos comedores de pinhão e, com a chegada dos colonizadores portugueses e espanhóis, acabaram ensinando muitos desses hábitos alimentares aos recém chegados. Muitos desses índios construíam casas subterrâneas para se proteger dos ventos gelados e, involuntariamente, acabaram se transformando em plantadores de araucárias – sementes caíam no chão e acabavam brotando. Porém, o grande plantador das araucárias é na verdade uma ave – a gralha-azul (vide foto).

A gralha-azul (Cyanocorax caeruleus) é uma ave com aproximadamente 40 cm de comprimento, com coloração das penas do corpo de um azul vivo e com a cabeça, a parte frontal do pescoço e partes do peito na cor preta. Essas aves costumam viver em pequenos bandos, se alimentando de frutas, insetos e, especialmente, dos pinhões das araucárias. Durante os meses de outono, época em que as araucárias produzem os pinhões, as gralhas-azuis coletam os pinhões e os “estocam” em áreas delimitadas do solo ou os encravam em troncos caídos no solo, criando assim uma reserva de alimentos para o período do inverno. Muitos desses pinhões acabam esquecidos pelas aves e germinam, produzindo novos exemplares de araucárias.

Infelizmente, esse fantástico mecanismo de interdependência de espécies criado pela natureza, através de um longo processo evolutivo, está seriamente ameaçado – a Mata das Araucárias está reduzida a cerca de 4% da sua antiga área original.  Com a destruição do seu habitat e sem um dos seus mais importantes alimentos – o pinhão, as populações de gralha-azul encontram-se ameaçadas de extinção e está sendo cada vez mais difícil encontrar grupos dessas aves livres na natureza.

O desaparecimento de um sistema florestal tão importante e bonito como a Mata das Araucárias, que leva junto todo um conjunto de espécies vegetais e animais como as simpáticas gralhas-azuis, é um exemplo vivo dos grandes impactos da agricultura no meio ambiente. É provável que as novas gerações só venham a conhecer muitos desses animais em jardins zoológicos e as imponentes araucárias só serão lembradas a partir das histórias de velhos acampantes como eu.

Que triste sina!

OS IMPACTOS AMBIENTAIS DA CRISE DA CULTURA CACAUEIRA

Cacau africano

Nesta série de postagens temos mostrado alguns dos impactos da agricultura no consumo de água e na devastação de áreas florestais e de solos. Exemplos disso podem ser constatados na história da cultura da cana-de-açúcar na faixa Leste do litoral da região Nordeste e no efêmero ciclo do café no Vale do Paraíba, Leste do Estado de São Paulo. Felizmente, há casos onde a prática de culturas agrícolas conseguiu conviver em razoável harmonia com o meio ambiente – a cultura do cacau no sul da Bahia foi um desses casos.

Relembrando rapidamente a postagem anterior, as primeiras mudas de cacaueiro foram plantadas nas matas do sul da Bahia a partir de meados do século XVIII. O consumo do cacau na forma de chocolate ganhou imensa popularidade na Europa e nos Estados Unidos ao longo de todo o século XIX e o consumo só fez crescer. O Brasil passou a exportar cacau a partir de meados da década de 1820 e até o início do século XX foi o maior produtor mundial. Assim como aconteceu com a extração do látex das seringueiras, a Hevea brasiliensis, que teve sementes contrabandeadas por ingleses e plantadas em colônias desse país no Sudeste Asiático, superando rapidamente a produção da Amazônia, repetiu-se o mesmo com a produção do cacau em possessões inglesas na África.

Desde fins do século XIX, plantações de cacau começaram a ser formadas na chamada Costa do Ouro, região do Oeste da África, em países como Gana, Costa do Marfim, Nigéria e Camarões. Em 1895, quando se registra a primeira exportação de cacau nessa região, 13 toneladas do produto seguiram em direção da Europa. Dez anos depois, essas exportações atingiram a marca de 5,7 mil toneladas; passada mais uma década, o volume exportado passou à expressiva marca de 78,5 mil toneladas. Ao longo da década de 1920, a Costa do Ouro passou a responder por 40% da produção mundial de cacau – atualmente, a região fornece mais de 70% de todo o cacau consumido no mundo. Denúncias e reportagens recentes mostraram ao mundo que essa produtividade africana não é nenhum milagre – os produtores locais se utilizam fartamente de mão de obra escrava e infantil (vide foto).

A cultura do cacau, que foi um marco da prosperidade no Sul da Bahia, conheceu seu apogeu na década de 1920 e, paulatinamente, viu sua importância declinar, sem deixar, porém, de ser uma atividade econômica importante. Milhares de pequenos produtores mantiveram a produção do cacau ou como atividade principal ou como secundária em suas propriedades, fato que garantiu a sobrevivência de importantes faixas da Mata Atlântica na região. Em 1989, infelizmente, foi confirmada a presença da vassoura-de-bruxa, uma praga agrícola originária da Bacia Amazônica, em cacaueiros das regiões de Ilhéus e Itabuna. A doença afeta os tecidos das plantas e reduz dramaticamente a produtividade.

Os impactos da vassoura-de-bruxa rapidamente foram sentidos na produção do cacau no Sul da Bahia: entre os anos de 1991 e 2000, a produção despencou de 320 mil toneladas/ano para pouco mais de 190 mil toneladas/ano, reduzindo a participação do produto brasileiro no mercado mundial de 14,8% para parcos 4%. Indústrias brasileiras de alimentos se viram forçadas a importar cacau a fim de manterem as suas linhas de produção. Além do fortíssimo impacto econômico dessa perda de produtividade, há um lado social extremamente delicado: cerca de 2,5 milhões de pessoas dependem direta ou indiretamente da produção do cacau. E sem a possibilidade de manter a cultura em suas terras, muita gente acabou sendo forçada a mudar de atividade – um dos resultados dessa brusca mudança no uso da terra foi o início de um processo de derrubada de matas no Sul da Bahia para a formação de campos agrícolas e de pastagens.

Estimativas indicam que, em 1945, a Mata Atlântica cobria uma área superior a 2 milhões de hectares no Sul da Bahia. Conforme comentamos em postagem anterior, essa região era habitada por tribos indígenas das mais agressivas, sendo inclusive antropófagas, o que impediu que a cultura da cana-de-açúcar no período colonial avançasse contra as matas da região. E foi justamente essa preservação ambiental o fator mais importante para o início da cultura do cacau na região, lembrando que o cacaueiro necessita da sombra de outras árvores para se desenvolver. No início dos anos 2000, dados obtidos a partir de imagens de satélite indicavam que restava apenas 7% da antiga cobertura vegetal encontrada em 1945 – 164.825 hectares de matas simplesmente desapareceram.

Esse intenso desmatamento, ocorrido em décadas recentes, se deve basicamente à perda da importância da produção do cacau, cuja produtividade e custos aqui no Brasil não têm conseguido concorrer em pé de igualdade com o produto africano. Outro fator importante, que não pode ser desprezado nessa análise, foram os impactos da vassoura-de-bruxa na destruição dos cacaueiros da região – sem outra alternativa de renda, os pequenos produtores simplesmente passaram a erradicar os cacaueiros e também as matas que os protegiam. Importantes fragmentos florestais que, por séculos, conseguiram resistir ao avanço da agricultura e da pecuária, simplesmente tombaram vencidos pelo “cansaço”. Sem a proteção das matas, solos e nascentes de água da região passaram a assistir aos inevitáveis problemas provocados pela agricultura em todo o mundo: empobrecimento de solos, erosão e destruição de corpos d’água por assoreamento e entulhamento de canais, além da destruição das nascentes de água.

Entidades e órgãos públicos ligados à agricultura tem redobrado esforços para encontrar formas e soluções para o controle e a erradicação da vassoura-de-bruxa do Sul da Bahia. Mudas de cacaueiros trazidas de outras regiões e países produtores, aparentemente resistentes à doença, têm sido plantadas em larga escala, numa tentativa de recuperar a cultura do cacau na região.  Intensos estudos e até o mapeamento genético do fungo causador da vassoura-de-bruxa, o Moniliophtora perniciosa, têm sido feitos por institutos de pesquisa e universidades em busca de um mecanismo de controle, porém, ainda sem maiores resultados.

Enquanto não se encontra uma solução definitiva para essa crise criada pela vassoura-de-bruxa, os últimos fragmentos da Mata Atlântica do Sul da Bahia têm um futuro incerto, tão incerto quando o de outras formações florestais importantes, que sucumbem um pouco a cada dia diante do implacável avanço dos campos agrícolas em nosso país.

 

OS CACAUEIROS E AS MATAS DO SUL DA BAHIA

Cacaueiro

O açúcar foi, por mais de 200 anos, o principal produto agrícola do Brasil colônia. A principal região produtora do país foi a faixa litorânea do Nordeste, entre o Recôncavo Baiano e o Rio Grande do Norte. Outros centros produtores secundários foram o litoral Norte e Leste do Estado do Rio de Janeiro e trechos da Capitânia de São Vicente, embrião do futuro Estado de São Paulo. Conforme já comentamos em postagens anteriores, foi a cultura da cana-de-açúcar a principal responsável pela destruição da Mata Atlântica e de diversos rios no litoral da região Nordeste.

Se você prestou atenção nessas principais regiões produtoras, percebeu que uma extensa faixa litorânea entre o Sul da Bahia e o Norte do Rio de Janeiro ficou fora da zona produtora de cana-de-açúcar. Esse “vácuo” não foi obra do acaso – essas regiões eram habitadas por tribos indígenas ferozes, conhecidas e temidas pelos rituais de antropofagia: os prisioneiros eram mortos e comidos pelos índios em cerimonias. Existem inúmeros relatos de ataques desses índios a engenhos e núcleos habitacionais a partir da região de Ilhéus rumo ao Sul; o rio Doce, que faz a ligação natural entre o Oceano Atlântico e a região mineradora de Ouro Preto, nunca foi usado para o escoamento do ouro das Geraes no período colonial: a região da foz do rio era repleta de tribos desses índios antropófagos.

Essa periculosidade foi determinante para o abandono de diversos planos de colonização nessas regiões, problema que persistiu até o início do século XIX, quando Dom João VI, rei de Portugal refugiado no Brasil, instituiu diversas medidas para o extermínio, puro e simples, dessas tribos. Foi instituída, inclusive, a figura do bugreiro, caçador profissional de índios. Essas lamentáveis páginas de nossa história, que normalmente costumam ficar esquecidas, tiveram ao menos um ponto positivo – uma importante faixa da Mata Atlântica, entre o Sul da Bahia e o Norte fluminense, escapou ilesa da destruição provocada pelo plantio da cana-de-açúcar.

É aqui que prosperou a cultura do cacau (Theobroma cacao), planta nativa das regiões tropicais das Américas, encontrada desde a Amazônia até as florestas do Sul do México. O cacau era apreciado pelas civilizações pré-colombianas da América Central desde tempos imemoriais, onde era considerado uma planta sagrada, a partir da qual se produzia uma bebida amarga, conhecida como chocola’j, chokola’j ou xocolātl, de consumo exclusivo da nobreza. Os índios da região Amazônica também consumiam o cacau sob diversas formas. Os primeiros colonizadores europeus conheceram as propriedades do cacau já nas primeiras décadas após o descobrimento. Há registros de cultivos de cacau no Pará a partir de 1612, região a partir da qual a cultura se irradiou pelo resto do Brasil. Sementes da planta acabaram sendo levadas para outras regiões do mundo, especialmente para o Oeste do continente africano, onde os cacaueiros se adaptaram plenamente. O chocolate se popularizou muito no século XIX, quando se desenvolveram preparos do alimento com açúcar e leite, e quando houve uma explosão o consumo na Europa e nos Estados Unidos – a iguaria conquistou para sempre mercados e paladares em todo o mundo.

As regiões de matas preservadas do Sul da Bahia começaram a receber as primeiras mudas de cacaueiros em meados do século XVIII. Uma característica importante da planta, que foi fundamental para a preservação das áreas florestais, é a necessidade que os cacaueiros têm de sombra para se desenvolver. Diferente de outras espécies de árvores, que necessitam de luz solar direta para se desenvolver e produzir frutos, o cacaueiro necessita apenas da luz solar filtrada pela copa das grandes árvores e do calor úmido para se desenvolver. Esse plantio consorciado com a floresta foi fundamental para a preservação de extensas áreas florestais nessa região até anos bem recentes.

A primeira exportação oficial registrada de cacau baiano data de 1825, quando 26,8 toneladas foram enviadas para a Inglaterra – em 1900, as exportações do produto já atingiriam a marca de 13 mil toneladas. O Estado da Bahia foi, durante décadas a fio, o maior produtor brasileiro de cacau, respondendo por cerca de 90% da produção nacional e por cerca de 20% das receitas do Estado. O Brasil chegou a responder por cerca de 40% da produção mundial de cacau. A região de Ilhéus, no Sul da Bahia, foi durante muito tempo de uma prosperidade ímpar graças ao cacau – os grandes coronéis dos tempos áureos da cultura deixaram as suas marcas por toda a região. Nos romances de Jorge Amado, como Gabriela, Cravo e Canela, encontramos relatos vivos desse apogeu regional.

Crises econômicas internacionais, a II Guerra Mundial e, especialmente, a grande produtividade de países da África, pouco a pouco minaram a prosperidade da indústria cacueira do Sul da Bahia e marcaram o fim do reinado de muitas “dinastias” de grandes produtores baianos. Em anos recentes, o segredo da produtividades dos países africanos acabou revelada por diversas reportagens de grandes revistas internacionais – uso intensivo de mão de obra escrava e infantil; grandes empresas europeias de produtos à base de chocolate tiveram as suas imagens arranhadas por participação ativa nessas infames cadeias produtivas.

Apesar de não apresentar mais o esplendor de tempos passados, o cultivo do cacau sobreviveu no Sul da Bahia e as matas continuaram em pé. Uma praga agrícola originária da bacia amazônica, conhecida popularmente como vassoura-de-bruxa, foi detectada na região de Ilhéus-Itabuna em 1989. A doença é causada por um fungo, o Moniliophtora perniciosa, que destrói tecidos das plantas e reduz imensamente a produtividade dos cacaueiros. Entre 1991 e 2000, a produção de cacau no Brasil caiu de 320,5 mil toneladas para 191,1 mil toneladas por causa da vassoura-de-bruxa. A participação do cacau brasileiro no mercado mundial caiu de 14% para 4% e nossas indústrias de alimentos passaram a depender da importação do produto.

Na próxima postagem, vamos falar dos impactos da vassoura-de-bruxa nas matas e rios do sul da Bahia.

A RECUPERAÇÃO DAS NASCENTES NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO, OU O RENASCIMENTO DA FLORESTA DA TIJUCA

Floresta de Tijuca - Mirante

A cidade do Rio de Janeiro, que nos últimos anos têm sofrido imensamente com os desgovernos e com a violência urbana, ainda pode se orgulhar, e muito, de possuir algumas das mais belas paisagens do mundo. Espremida entre as praias, a Baía de Guanabara, as florestas e as montanhas, a cidade é um dos cartões postais mais conhecidos do Brasil em todas as partes do mundo. Um dos recantos locais que eu mais gosto é a Floresta da Tijuca, um dos grandes patrimônios naturais da capital fluminense, que fornece ainda hoje preciosos serviços ambientais e atrai milhares de turistas a cada ano. Lembro claramente da minha primeira visita à Floresta cerca de 30 anos atrás, quando acompanhei um grupo de turistas em uma longa caminhada por uma das trilhas da mata. Uma recordação marcante desta caminhada foi o cheiro de um sem número de jaqueiras carregadas de frutas, que enchiam o ar com um sabor adocicado.

Na última postagem abordamos uma fase complicada da história do Rio de Janeiro, quando sucessivas secas ao longo das primeiras décadas do século XIX ameaçavam a sobrevivência da população e da cidade. As antigas nascentes de águas nas montanhas e serras há muito já vinham sofrendo com a degradação da cobertura florestal e já não tinham produção suficiente para atender as necessidades crescentes da população da cidade. Data da década de 1820 a decisão de se desapropriar as primeiras terras na região da Tijuca para reflorestar as nascentes de água potável, cada vez mais escassas. Acreditava-se, de forma empírica, que o reflorestamento aumentaria o volume dos riachos. E foi revegetando as encostas da Tijuca que se reparou, em parte, os danos causados pela remoção indiscriminada de toda a sua vegetação para se produzir, sucessivamente, cana-de-açúcar, café, lenha e carvão vegetal e, finalmente, abrigar a produção de alimentos e a criação de animais destinados ao consumo da crescente população.

Ao longo das décadas de 1820 e 1830, a cidade do Rio de Janeiro enfrentou vários períodos de seca prolongada, com grande escassez de água potável e grandes problemas para a dispersão do esgoto residencial que se acumulava nos canais. Surgia na opinião publica da cidade uma forte pressão sobre os governantes para a adoção de políticas para o aumento da capacidade dos sistemas produtores de água. E aqui cabe um parêntese: não se tratava de reclamações de simples moradores da antiga Colônia portuguesa – com a fuga da Família Real para o Brasil em 1808, dezenas de milhares de portugueses da alta sociedade lisboeta também acabaram mudando para as nossas terras e exigiam uma mínima infraestrutura urbana em suas casas. A partir de 1845 inicia-se, de fato, o trabalho sistemático de recomposição florestal das encostas e as desapropriações de fazendas se intensificaram. As primeiras experiências de reflorestamento haviam apresentado ótimos resultados e partia-se, agora, para um aumento na escala nas intervenções florestais.

A partir de 1861, por ordem do imperador Dom Pedro II, grandes fazendas na região da Tijuca foram desapropriadas e iniciou-se um processo contínuo de reflorestamento em grande escala. A realização deste trabalho foi confiada ao Major Manuel Gomes Archer que, de forma totalmente amadorista e sem nenhum critério científico, iniciou os trabalhos de plantio de árvores. Contando com uma pequena equipe de trabalhadores, entre escravos e assalariados, foram plantadas ao longo de 13 anos mais de 100 mil mudas de árvores, especialmente mudas de espécies da Mata Atlântica, que ainda resistia em pequenos fragmentos florestais. Ao longo de várias décadas, os trabalhos de reflorestamento foram sendo ampliados e a oferta de água potável se estabilizou; o abastecimento da crescente população ficou garantido até a criação de novos sistemas produtores a partir do final do século XIX. Em resumo – a Floresta da Tijuca foi responsável pela sobrevivência de grande parte da população carioca ao longo do século XIX, tendo garantindo o abastecimento contínuo de água em volume e qualidade satisfatórios.

Em 1961 a floresta foi elevada a condição de Parque Nacional do Rio de Janeiro, nome alterado anos depois para Parque Nacional da Tijuca, ou simplesmente Floresta da Tijuca para os cariocas, com área total de 3.953 ha. Além de abrigar excepcional patrimônio natural da Mata Atlântica, o Parque concentra dentro dos limites de sua área valiosos bens culturais e históricos, constituindo a maior floresta artificial urbana do mundo, contemplando maciços rochosos, quedas d’água, riachos, fauna e flora da Floresta Atlântica, mirantes, ruínas de antigas fazendas e da Real Fábrica de Pólvora entre outras atrações.

O caso da Floresta da Tijuca é um dos grandes exemplos mundiais dos impactos que  implantação de grande projetos de agricultura podem provocar em antigas áreas florestais e também mostra como é possível se reverter grande parte desses impactos com programas de recomposição florestal.

Em um mundo com mais de 7 bilhões de seres humanos que precisam de alimentos e de produtos com origem na agricultura, não há como negar a importância da produção no campo. O que precisamos é aprender a conciliar a agricultura com a preservação ambiental – o nosso Planeta é finito e a história dessa crise nos recursos hídricos na antiga cidade do Rio de Janeiro esta aí para nos lembrar disso.

OS IMPACTOS DA AGRICULTURA NA ANTIGA CIDADE DO RIO DE JANEIRO

Arcos-da-Lapa

Um exemplo histórico dos impactos que a agricultura pode produzir numa região pode ser constatado na história da cidade do Rio de Janeiro. Quando a cidade foi fundada em 1565, as montanhas e serras da região eram cobertas por uma imponente cobertura florestal, constituída exclusivamente por espécies da Mata Atlântica. Eram árvores de grande porte, com algumas espécies podendo chegar até 45 m de altura, com troncos de mais de dois metros de diâmetro. A partir de meados do século XVII, as matas foram sendo derrubadas e substituídas por plantações de cana-de-açúcar, que também ocuparam grandes áreas da Baixada Fluminense. Além de necessitar de grandes extensões de terras para as plantações, a cultura da cana-de-açúcar também exige a queima de grandes quantidades de madeira para a produção do calor necessário nas várias etapas da produção do açúcar – eram usados até 20 kg de lenha para a produção de um único kg de açúcar.

Em 1763, após o início da exploração do ouro nas Minas Gerais, a capital da colônia foi transferida de Salvador para a cidade do Rio de Janeiro. A proximidade geográfica com as zonas produtoras facilitaria imensamente a administração da produção e a exportação do precioso metal para a Metrópole – a pequena cidade portuária viveu nesse momento a sua primeira explosão populacional, assumindo em pouco tempo o título de maior cidade da colônia.

No final do século XVIII, as plantações de café, produto com demanda crescente e que começava a se popularizar na Europa e nos Estados Unidos, começaram a ocupar as áreas desflorestadas dos antigos canaviais – o Rio de Janeiro foi o berço da cultura do café, que aos poucos foi se espalhando pelo interior do estado até chegar a São Paulo e a Minas Gerais, se transformando no maior produto de exportação do Brasil até o fatídico ano de 1929, quando ocorreu a desastrosa quebra da Bolsa de Valores de Nova York e o mundo inteiro passou a experimentar uma das maiores depressões econômicas da história.

Em 1808, com a chegada da família Real Portuguesa, a modesta cidade colonial do Rio de Janeiro foi promovida a Metrópole do Império Ultramarino Português e sofreu uma segunda explosão populacional. Com a eminente invasão de Portugal pelas tropas francesas comandadas por Napoleão, toda a Corte Portuguesa (estamos falando de um número entre doze e vinte mil pessoas, conforme a fonte) acompanhou a família real para um “exílio” em terras brasileiras – a cidade do Rio de Janeiro, bastante modesta para o padrão das capitais europeias da época, era de longe a cidade com a “melhor infraestrutura da colônia” e candidata natural a receber todo esse contingente estrangeiro. Para acomodar, alimentar e manter toda essa crescente população, os recursos florestais passaram a ser explorados ao máximo: madeiras para a construção civil e para a fabricação de móveis e utensílios, lenha para as cozinhas, liberação de novas áreas para a produção de alimentos e criação de animais.

A pequena capital da colônia já tinha um longo histórico de problemas no abastecimento de água e este súbito crescimento populacional só viria a piorar a situação nos anos vindouros. Inaugurado cerca de 60 anos antes, o sistema de abastecimento trazia as águas do rio da Carioca até o centro da cidade através de um sistema de tubulações que incluía um trecho em forma de aqueduto – os famosos Arcos da Lapa (vide foto). Essa água jorrava através de um conjunto de fontes públicas e era carregada por moradores e escravos em jarros até as residências. Em períodos de estiagem, a vazão da água diminuía muito e provocava reclamações da população. Também haviam relatos de danos às tubulações provocados por grupos de escravos fugitivos, que se escondiam nas matas ao redor da cidade e que buscavam dessa forma algum tipo de vingança contra os antigos senhores.

Estima-se que a população do Rio de Janeiro na época da chegada da família real portuguesa era de 60 mil habitantes, divididos entre a zonas urbana e rural; se considerarmos que metade dessa população estivesse concentrada na área urbana, podemos imaginar facilmente o que o súbito incremento da chegada de todo esse contingente provocou ao chegar na cidade em um curto período de tempo. Somente na frota da Marinha da Inglaterra, país aliado de Portugal e que disponibilizou cerca de 40 navios para a evacuação de Lisboa, aproximadamente 11.500 pessoas se espremeram nas naus para acompanhar a Família Real e se beneficiar desta segurança para a fuga.

Ao longo dos meses seguintes inúmeros navios mercantes aportaram na cidade, desembarcando outros milhares de exilados. Após o caótico período que se seguiu à chegada da Corte Portuguesa ao Rio de Janeiro, quando milhares de casas tiveram de ser construídas às pressas para acomodar os recém chegados, a cidade do Rio de Janeiro se transformou no maior mercado comprador de escravos da colônia – as nobres famílias necessitavam de mão-de-obra para os serviços domésticos e os prestadores de serviços e agricultores também; a pressão sobre os recursos hídricos não pararia mais de crescer com o sempre crescente incremento da população.

Com as antigas áreas florestais das regiões de entorno do pequeno núcleo urbano substituídas por grandes plantações,  as inúmeras pequenas nascentes de água que alimentavam os escassos rios ou secaram ou tiveram a sua vazão imensamente reduzida.O impacto ambiental não poderia ser outro – o volume de água disponível para o abastecimento da população diminuiu muito e a água passou a ser uma espécie de artigo de luxo na cidade do Rio de Janeiro. A água passou a ser tão escassa que os canais usados para dispersar os esgotos e o lixo ficaram completamente tomados pelos dejetos e entulhos – o mal cheiro era insuportável!

Na próxima postagem, mostraremos o que foi feito para recuperar as nascentes e aumentar substancialmente o volume de águas para o abastecimento da cidade do Rio de Janeiro.

A HISTÓRIA DO CAFÉ NO VALE DO PARAÍBA

Vale do Paraíba

Uma importante cultura agrícola brasileira que nos legou preciosos ensinamentos sobre o uso irracional dos solos foi o café, produto que entre meados do século XIX e o início da década de 1930, época da quebra da Bolsa de Valores de Nova York, foi o principal produto da pauta de exportações do Brasil. Sozinho, o café chegou a representar 50% das exportações brasileiras, façanha que fez o Brasil ser reconhecido por muito tempo como a “terra do café”. 

Segundo a tradição oral, o café é originário da região de Cafa, na Etiópia, país do Nordeste da África. Segundo as lendas dessa região, um jovem pastor de cabras observou que os seus animais ficavam muito ativos após comerem as folhas e as frutas vermelhas de alguns arbustos. Esse fato chamou a atenção dos moradores locais, que passaram a preparar chás a partir das folhas e frutos da planta – foi a partir desse uso que se desenvolveu o preparo do café que conhecemos hoje em dia. 

Consta que o café foi introduzido no Brasil por Francisco Palheta no Estado do Pará em 1727.  A planta foi sendo disseminada por todo o Brasil colônia, onde era cultivada para uso exclusivamente doméstico nas fazendas e casas das vilas e cidades. Comercialmente, o valor do café era quase nulo. Foi somente no decorrer do século XVIII que o café adquiriu status nos mercados internacionais, passando a ser considerado um artigo de luxo nos grandes centros urbanos da Europa e dos Estados Unidos. 

As primeiras sementes de café chegaram ao Rio de Janeiro por volta de 1774, onde foram semeadas no Convento dos Frades Barbadianos. A partir do início do século XIX foram implantadas as primeiras plantações comerciais de café em sítios e fazendas, especialmente na região Oeste do Estado do Rio de Janeiro, próximas ao rio Paraíba do Sul. Sem maiores possibilidades de expansão nessa região, a cultura cafeeira passou a se expandir na direção do Vale do Paraíba, já no Estado de São Paulo, por volta de 1850. 

Diferentemente de outros produtos agrícolas, o café é uma planta que apresenta uma série de restrições físicas para o seu cultivo, bastante diferente da cana-de-açúcar ou do algodão, produtos de grande destaque na época. Os limites de temperatura ideais para o cultivo da planta oscilam entre 5 e 33º C. É uma planta muito sensível tanto a geadas quanto ao excesso de calor e insolação. Requer ainda chuvas regulares e bem distribuídas e é muito exigente em relação à qualidade do solo. É uma planta de cultivo permanente, cujo início da produção exige um período entre 4 e 5 anos a partir do plantio das mudas. A maior parte do território brasileiro não se adequava à produção do café. Foi no estado do Rio de Janeiro e, sobretudo, nas regiões vizinhas dos estados de São Paulo e Minas Gerais, que a cultura cafeeira, propriamente dita, foi iniciada no Brasil. 

O Vale do Paraíba, a ligação natural entre São Paulo e Rio de Janeiro, foi a porta de entrada do café no Estado de São Paulo, transformando-se em poucos anos no primeiro grande cenário da cultura cafeeira no Brasil. As condições naturais da região eram esplendidas: altitudes entre 300 e 900 metros, com temperaturas dentro dos limites ideais para o café e ciclo de chuvas regulares. O relevo acidentado da região proporcionava encostas bem protegidas contra o vento, um fator importante para uma planta arbustiva como o café. O Vale do Paraíba, em meados do século XIX, tornou-se um grande centro condensador de população e riqueza do Brasil.  

Toda esta prosperidade não durou muito tempo. A produção cafeeira entrou em decadência por volta de 1875 devido ao esgotamento dos recursos naturais da região. Os terrenos da região apresentam forte declividade e não suportaram por muito tempo a supressão da cobertura vegetal e a exposição do solo à ação das intempéries; o trabalho da erosão foi muito rápido. Os cafeicultores da região agiram sem o menor cuidado quanto ao manuseio dos solos: a mata foi arrasada sem nenhum critério, mesmo nas partes mais altas dos terrenos; plantou-se o café sem outra preocupação senão o lucro imediato – o sistema de cultura implantado distribuiu as plantas em linhas retas, perpendiculares às encostas dos morros, quando a forma ideal de plantio é em curvas de nível: não poderia ter sido utilizada técnica mais favorável à erosão.  

Esse plantio do café em linhas retas teve uma outra razão – visibilidade. Um capataz montado em seu cavalo poderia acompanhar o trabalho de um grupo entre 100 e 150 escravos a partir da base do terreno; se o café fosse plantado acompanhando as curvas de nível das encostas, como manda a boa prática agrícola, os escravos ficariam escondidos atrás das plantas e a “produtividade” seria bem menor. 

Os impactos nessa região, sobretudo nas encostas da Mantiqueira, foram a intensificação dos usos e ocupação das terras antes recobertas pela primitiva Mata Atlântica, deixando como herança o aumento da degradação ambiental, o manejo inadequado dos recursos naturais, o desrespeito à topografia acidentada e a devastação extensiva da cobertura vegetal. A somatória de todos esses problemas promoveu o empobrecimento e a exaustão quase completa dos solos, intensificando os processos erosivos e transformando-os em pastos

Bastaram uns poucos decênios para a produção cafeeira apresentar rendimentos aceleradamente decrescentes, com enfraquecimento das plantas e o aparecimento de pragas destruidoras. Nas palavras de Caio Prado Junior, “inicia-se então a decadência com todo seu cortejo sinistro: empobrecimento da população, abandono sucessivo das culturas e rarefação demográfica”. O Oeste paulista, com seus famosos e férteis solos de terra roxa e relevo muito menos acidentado, acabou se transformando numa alternativa ao Vale do Paraíba – rapidamente, as grandes plantações de café migraram para essas novas terras, deixando para trás uma “terra devastada”. Em 1919, o grande escritor brasileiro Monteiro Lobato (1882-1948) lançou o livro Cidades Mortas, onde ele narra a decadência econômica e social das cidades do Vale do Paraíba após a derrocada da cultura cafeeira. 

Uma última observação: o Vale do Paraíba continuou com um ótimo clima, com chuvas regulares e boa oferta das águas do rio Paraíba do Sul. Porém, sem solos férteis, não havia como se continuar praticando a cultura do café na região.

É sempre assim – vão-se os solos e ficam as tristes histórias… 

A DEGRADAÇÃO DOS SOLOS E OS RISCOS PARA A HUMANIDADE

Desertificação

Nas últimas postagens começamos a falar de um assunto bastante relevante para a agricultura e para o meio ambiente – a perda de solos aráveis em todas as regiões brasileiras. Um estudo do Instituto Agronômico de Campinas estima que para cada hectare de terra cultivada hoje no Brasil, há uma perda anual de 25 toneladas de solo arável – somando-se a área total do país que é ocupada por culturas agrícolas, essa perda chega à casa de 1 bilhão de toneladas a cada ano, o que significa que estamos perdendo uma fina camada de 1 cm da superfície de 8,5 milhões de km² de nosso território

Infelizmente, não estamos sozinhos nessa jornada suicida: de acordo com dados da CNUCD – Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação, calcula-se que as perdas mundiais de solo arável se situem na casa dos 24 bilhões de toneladas a cada ano. Essa perda corresponde a uma área equivalente a 12 milhões de hectares ou três vezes a área da Suíça. O desmatamento é a principal causa dessa perda de solos aráveis, especialmente em razão da expansão de áreas agrícolas, implantação de sistemas geradores de energia elétrica e projetos de mineração. Conforme já comentamos em postagem anterior, solos desnudos e sem a proteção da vegetação ficam expostos a erosão e ao carreamento de sedimentos em períodos de chuva. 

A perda de solo arável trás no seu encalço um outro gravíssimo problema – a desertificação. A água é um dos componentes formadores do solo. Sempre que chove, os solos atuam como uma espécie de “esponja”, retendo quantidades substanciais de água, água essa que será usada pelas plantas. Sem condições de armazenar água, os solos “restantes” perdem a capacidade de sustentar vida vegetal, que por sua vez é a responsável pela geração de matéria orgânica, outro componente formador dos solos – o que restará serão minerais inertes como a areia e argila. O continente Africano é um caso extremamente crítico nessa área – 45% dos solos agricultáveis estão vulneráveis à seca e a degradação e já se admite que até o ano de 2025 dois terços dos solos produtivos  da África estarão afetados. 

Essa questão ganha uma importância ainda maior quando se avalia a tendência de crescimento da população mundial – até o ano de 2050 será necessário um aumento na produção mundial de alimentos da ordem de 50% a fim de alimentar uma população que chegará a cifra de 9 bilhões de pessoas. Na contramão dessa necessidade de crescimento da produção agrícola, projeções indicam que a degradação dos solos e as mudanças climáticas irão reduzir a produção mundial de alimentos entre 13% e 45%, conforme a metodologia utilizada – é uma conta que não fecha. E olhem que os problemas ligados aos recursos hídricos não foram colocados nessa “equação”. 

A degradação e perda de solos é um fenômeno que pode ser observado em todo o Brasil. Em muitas regiões, o problema já tornou gravíssimo e a desertificação avança com muita força. A Região Nordeste é a que apresenta um maior número de áreas afetadas gravemente por processos de desertificação. Estima-se que uma área total de 230 mil km² de áreas da caatinga estejam em processo extremo de desidratação (graves ou muito graves), estágios em que os solos tendem a se tornar imprestáveis para qualquer uso. No Norte do Estado de Minas Gerais, existe uma área de 69 mil km² em risco extremo de desertificação, englobando um total de 59 municípios nas regiões dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. Para que você tenha ideia da área total destas duas regiões em risco graves ou muito graves de desertificação, ela é maior que a soma das áreas dos Estados de São Paulo (248 mil km²) e Rio de Janeiro (43,7 mil km²). Se consideradas todas as áreas do país em risco de desertificação, incluindo-se aquelas em risco inicial, baixo e intermediário, chegamos aos 900 mil km², mais de 10% do território brasileiro. 

O Estado de Alagoas é um dos mais afetados pelo processo, com 62% dos municípios apresentando áreas em processo de desertificação, sendo que os casos mais graves são encontrados nos municípios de Ouro Branco, Maravilha, Inhapi, Senador Rui Palmeira, Carneiros, Pariconha, Água Branca e Delmiro Gouveia. No Estado da Bahia, uma área com extensão de 300 mil km² no sertão do São Francisco tem solos que já não conseguem reter água, sinal de alerta para o risco de desertificação; os municípios ribeirinhos do Rio São Francisco de Petrolina, em Pernambuco, e de Paulo Afonso, na Bahia, têm áreas mapeadas em estado crítico de desertificação, que ameaçam, respectivamente, 290 mil e 108 mil habitantes.  

Esses são apenas alguns números deste gravíssimo problema, que tem potencial para afetar a vida de todos nós. 

O DERRAME DE TRAPP E A FORMAÇÃO DOS SOLOS DE TERRA ROXA

Kilauea

Na última postagem falamos resumidamente do processo de formação dos solos, onde foi apresentado como exemplo a erupção do vulcão havaiano Kilauea (vide foto), um dos vulcões mais ativos do mundo, e que está derramando diariamente grandes quantidades de lava sobre o solo e formando grandes campos rochosos, inclusive avançando contra o oceano.

Esses campos de rocha estéril, pouco a pouco, passarão a apresentar fragmentação e desfolhamento das camadas mais superficiais pela ação do sol, das chuvas, dos ventos e da pressão atmosférica, entre outras forças; colônias de líquens se fixarão nessas rochas e começarão a produzir pequenas quantidades de matéria orgânica, que irão se misturar aos detritos das rochas e formar solo fértil: dentro de alguns milhares de anos, esses campos rochosos estarão cobertos por uma camada generosa de solo fértil e por uma densa floresta. Num resumo bem resumido, é assim que surgem os solos férteis. 

Destaco a importância da água no processo da formação dos solos – a chuva é uma das forças da natureza que provoca a erosão e a fragmentação das rochas, produzindo partículas de argila, silte e areia, entre outros importantes minerais, que determinarão as características estruturais dos solos. Na gênese dos solos, esses minerais se misturarão com a matéria orgânica produzida inicialmente pelos líquens, onde a água será o elemento que dissolverá e distribuirá esses componentes.

Por fim, depois de formados, os solos passam a funcionar como uma espécie de esponja, armazenando quantidades substanciais de água, água essa que nutrirá a vegetação. Essa mesma água que foi tão fundamental no processo de formação dos solos e nutrição de todas as formas de vida que vivem nas formações vegetais que ali se desenvolveram, também pode se transformar numa grande vilã: a remoção da cobertura vegetal de uma determinada região, por exemplo para a formação de campos agrícolas, pode desencadear processos erosivos e destruir em poucos anos todo um trabalho milenar de criação dos solos

Deixem-me apresentar um exemplo prático: as famosas terras roxas que se estendem desde a região Oeste do Estado de São Paulo até o Rio Grande do Sul, com alguns trechos na Argentina e no Paraguai, foram originadas há milhões de anos atrás a partir de um fenomenal derramamento vulcânico, mais conhecido como Derrame de Trapp ou Trapp do Paraná. A terra roxa é considerada um dos solos mais férteis do Brasil. Os solos são profundos, com elevado teor de ferro e macronutrientes, com grande potencial para o desenvolvimento de coberturas vegetais densas. Dentro do Sistema Brasileiro de Classificação de Solos, a terra roxa é classificada como Latossolos Vermelhos e Nitossolos Vermelhos.

O Derrame de Trapp teve início quando o Supercontinente de Gondwana começou a se romper. Essa formação continental era formada pela América do Sul, África, Antártica, Ilha de Madagascar, Índia (o famoso subcontinente indiano), Austrália, Nova Zelândia, Nova Caledônia e algumas outras ilhas. Esse evento teve início há cerca de 165 milhões de anos e, ainda hoje, esses “fragmentos” de Gondwana ainda se movem (pesquise Tectônica de Placas).

Com o início da ruptura continental, dezenas de vulcões entraram em erupção simultaneamente – um dos períodos de maior intensidade das erupções aconteceu no Período Cretáceo, entre 137 e 127 milhões de anos atrás. Na América do Sul, os derramamentos de lava, calculados em 650 mil km³, cobriram uma área de aproximadamente 1,2 milhão de km², especialmente na região onde encontramos hoje a bacia hidrográfica do rio Paraná. Em Angola e na Namíbia, países do Sudoeste da África, também se encontram rochas de origem vulcânica associadas ao Derrame de Trapp

Eu fiz questão de falar desse grande evento vulcânico, que está na origem da formação dos solos de terra roxa, para chamar a atenção de todos para o tempo total decorrido: foram várias dezenas de milhões de anos entre o resfriamento dos derrames vulcânicos de Trapp e a formação dos solos de terra roxa, tão fundamentais para a agricultura de São Paulo e dos Estados do Sul do Brasil.

E todo esse patrimônio ambiental sofre constantemente devido ao mal-uso que fazemos dos solos: de acordo com estudos do Instituto Agronômico de Campinas, estima-se que para cada hectare cultivado aqui no Brasil (relembrando: 1 hectare equivale a uma área de 10 mil m²) há uma perda de 25 toneladas de solo arável por erosão; isso significa uma perda anual de 1 bilhão de toneladas ou uma camada de 1 cm do solo de todo o país. Nessa conta se incluem as terras roxas, solos de massapê, de Cerrado, Amazônicos, entre outros. É um uso absolutamente insustentável que estamos vendo em nossas terras. 

E para onde vão esses solos erodidos?  

Para o leito dos nossos rios, que ficam entulhados e assoreados, prejudicando o abastecimento das populações, a biota aquática, os transportes fluviais e, especialmente, o uso pela agricultura, que é a maior consumidora de água do país e do mundo. 

Como se vê, os solos e a água estão intimamente ligados. 

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