OS PROBLEMAS DE EROSÃO DE SOLOS NO PARANÁ

Araucária solitária

Ao longo do século XX, conforme apresentamos na postagem anterior, o Paraná foi um dos Estados brasileiros que mais perdeu cobertura florestal – de uma área original que cobria aproximadamente 83% da sua superfície, o Estado possui hoje uma cobertura florestal estimada entre 5 e 17% da área original, conforme a fonte pesquisada. A intensa derrubada de árvores pelas madeireiras e a abertura de campos agrícolas figuram entre as principais responsáveis por essa destruição. 

Esse intenso desflorestamento teve um alto custo ambiental, que foi desde a perda de biodiversidade, animal e vegetal, até a intensificação da erosão dos solos, destruição das fontes de água e assoreamento dos corpos d’água. Calcula-se que 1/3 dos solos agricultáveis do Paraná. estimados em 6 milhões de hectares, necessitem de trabalhos de recuperação e/ou prevenção por causa de processos erosivos (em diferentes graus de intensidade). De acordo com dados do PROSOLO – Programa Integrado de Conservação de Água e Solo do Paraná, cada tonelada de solo perdido tem um custo calculado em US$ 2.33 – em todo o Estado, essas perdas somam US$ 212 milhões a cada ano. Na cotação atual do dólar (16/08/2018), falamos de perdas anuais na casa dos RS 800 milhões

Durante várias décadas, o Paraná foi líder nacional na produção de grãos, posição perdida recentemente para o Estado de Mato Grosso. Na safra de 2017, quando o Brasil atingiu a marca de 232 milhões de toneladas, o Paraná atingiu a cifra de 41,5 milhões de toneladas, perdendo apenas para a produção de Mato Grosso, que atingiu a marca de 58 milhões de toneladas. Essa alta produtividade das terras paranaenses, onde encontramos extensas faixas de solos de terra-roxa, mostra a importância da agricultura na economia do Estado e, de certo modo, “justificam” a intensidade das terras afetadas por processos erosivos. 

Entre as décadas de 1980 e 1990, o Paraná foi um dos líderes brasileiros em trabalhos de conservação de solos através da gestão de microbacias. Lavouras foram refeitas e colocadas em “curva de nível”, técnica que minimiza enormemente o efeito das correntes superficiais de água nos dias de chuva e reduz os processos erosivos. Estradas rurais, inclusive, foram refeitas, de forma a controlar adequadamente as enxurradas e evitar que essa água entrasse nas propriedades. Os avanços do Estado do Paraná no combate à erosão nessa época se tornaram uma referência mundial e foram noticiados em revistas técnicas de agricultura e em reportagens de inúmeras redes de televisão de todo o Brasil e do mundo. 

Outro cuidado que passou a fazer parte do dia a dia dos agricultores paranaenses nessa época foi o uso da palha das culturas na proteção dos solos, um recurso simples e eficiente contra os impactos das chuvas e do sol, mantendo a umidade dos solos por mais tempo e garantindo ótimos resultados no plantio direto das novas culturas. Essa combinação dos terraços agrícolas criados a partir das linhas de nível com a cobertura dos solos com palha, onde eram usadas uma média de 6 toneladas por hectare, garantiram durante muito tempo a proteção dos solos do Paraná. 

Infelizmente, com o avanço da mecanização e modernização da agricultura nos últimos anos, muito desses avanços no controle da erosão dos solos foram se perdendo. Para reduzir os custos com o preparo da terra, plantio e colheita, os produtores rurais passaram a comprar máquinas agrícolas cada vez maiores, mais rápidas e mais potentes. Essa mecanização permitiu o ganho de tempo, reduzindo os riscos de perdas com secas, geadas e chuvas temporãs. O plantio em terraços, muitas vezes estreitos, dificultava ou limitava o uso dessas máquinas – a solução encontrada por muitos produtores rurais era a simples eliminação ou redução desses terraços. Uma das práticas mais comuns, de acordo com pesquisadores do IAPAR – Instituto Agronômico do Paraná, era a eliminação de 1 a cada 3 terraços. E como resultado, a erosão e a perda de solos agrícolas voltou a crescer em todo o Estado.

Apesar dos aumentos da produtividade agrícola alcançados através da mecanização, houve um aumento proporcional dos custos – passaram a ser necessários gastos cada vez maiores para a reposição artificial dos nutrientes dos solos, especialmente de elementos como o nitrogênio, o fósforo e o potássio, essenciais para o crescimento e a frutificação das culturas. Esses custos foram, automaticamente, incorporados aos preços dos alimentos e representaram impactos diretos no consumo das famílias, indústrias e das commodities exportadas. Entre os impactos ambientais, mais difíceis de serem contabilizados, destacam-se o assoreamento e o entulhamento dos corpos d’água com todo o tipo de sedimentos, além da contaminação da água com resíduos dos fertilizantes. Essa contaminação é a responsável por processos de nitrificação e eutrofização das águas, com graves consequências para toda uma cadeia de organismos aquáticos. 

Esses problemas, é claro, não são uma exclusividade do Paraná – eles estão presentes em todos os Estados brasileiros, porém, em volumes muito significativos em regiões com intensa atividade agrícola. E como solos agricultáveis e água são bens naturais cada vez mais finitos e escassos, é preciso uma atenção e um cuidado cada vez maior com os usos que fazemos desses solos e dessas águas. 

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