OS IMPACTOS DA AGRICULTURA NA ANTIGA CIDADE DO RIO DE JANEIRO

Arcos-da-Lapa

Um exemplo histórico dos impactos que a agricultura pode produzir numa região pode ser constatado na história da cidade do Rio de Janeiro. Quando a cidade foi fundada em 1565, as montanhas e serras da região eram cobertas por uma imponente cobertura florestal, constituída exclusivamente por espécies da Mata Atlântica. Eram árvores de grande porte, com algumas espécies podendo chegar até 45 m de altura, com troncos de mais de dois metros de diâmetro. A partir de meados do século XVII, as matas foram sendo derrubadas e substituídas por plantações de cana-de-açúcar, que também ocuparam grandes áreas da Baixada Fluminense. Além de necessitar de grandes extensões de terras para as plantações, a cultura da cana-de-açúcar também exige a queima de grandes quantidades de madeira para a produção do calor necessário nas várias etapas da produção do açúcar – eram usados até 20 kg de lenha para a produção de um único kg de açúcar.

Em 1763, após o início da exploração do ouro nas Minas Gerais, a capital da colônia foi transferida de Salvador para a cidade do Rio de Janeiro. A proximidade geográfica com as zonas produtoras facilitaria imensamente a administração da produção e a exportação do precioso metal para a Metrópole – a pequena cidade portuária viveu nesse momento a sua primeira explosão populacional, assumindo em pouco tempo o título de maior cidade da colônia.

No final do século XVIII, as plantações de café, produto com demanda crescente e que começava a se popularizar na Europa e nos Estados Unidos, começaram a ocupar as áreas desflorestadas dos antigos canaviais – o Rio de Janeiro foi o berço da cultura do café, que aos poucos foi se espalhando pelo interior do estado até chegar a São Paulo e a Minas Gerais, se transformando no maior produto de exportação do Brasil até o fatídico ano de 1929, quando ocorreu a desastrosa quebra da Bolsa de Valores de Nova York e o mundo inteiro passou a experimentar uma das maiores depressões econômicas da história.

Em 1808, com a chegada da família Real Portuguesa, a modesta cidade colonial do Rio de Janeiro foi promovida a Metrópole do Império Ultramarino Português e sofreu uma segunda explosão populacional. Com a eminente invasão de Portugal pelas tropas francesas comandadas por Napoleão, toda a Corte Portuguesa (estamos falando de um número entre doze e vinte mil pessoas, conforme a fonte) acompanhou a família real para um “exílio” em terras brasileiras – a cidade do Rio de Janeiro, bastante modesta para o padrão das capitais europeias da época, era de longe a cidade com a “melhor infraestrutura da colônia” e candidata natural a receber todo esse contingente estrangeiro. Para acomodar, alimentar e manter toda essa crescente população, os recursos florestais passaram a ser explorados ao máximo: madeiras para a construção civil e para a fabricação de móveis e utensílios, lenha para as cozinhas, liberação de novas áreas para a produção de alimentos e criação de animais.

A pequena capital da colônia já tinha um longo histórico de problemas no abastecimento de água e este súbito crescimento populacional só viria a piorar a situação nos anos vindouros. Inaugurado cerca de 60 anos antes, o sistema de abastecimento trazia as águas do rio da Carioca até o centro da cidade através de um sistema de tubulações que incluía um trecho em forma de aqueduto – os famosos Arcos da Lapa (vide foto). Essa água jorrava através de um conjunto de fontes públicas e era carregada por moradores e escravos em jarros até as residências. Em períodos de estiagem, a vazão da água diminuía muito e provocava reclamações da população. Também haviam relatos de danos às tubulações provocados por grupos de escravos fugitivos, que se escondiam nas matas ao redor da cidade e que buscavam dessa forma algum tipo de vingança contra os antigos senhores.

Estima-se que a população do Rio de Janeiro na época da chegada da família real portuguesa era de 60 mil habitantes, divididos entre a zonas urbana e rural; se considerarmos que metade dessa população estivesse concentrada na área urbana, podemos imaginar facilmente o que o súbito incremento da chegada de todo esse contingente provocou ao chegar na cidade em um curto período de tempo. Somente na frota da Marinha da Inglaterra, país aliado de Portugal e que disponibilizou cerca de 40 navios para a evacuação de Lisboa, aproximadamente 11.500 pessoas se espremeram nas naus para acompanhar a Família Real e se beneficiar desta segurança para a fuga.

Ao longo dos meses seguintes inúmeros navios mercantes aportaram na cidade, desembarcando outros milhares de exilados. Após o caótico período que se seguiu à chegada da Corte Portuguesa ao Rio de Janeiro, quando milhares de casas tiveram de ser construídas às pressas para acomodar os recém chegados, a cidade do Rio de Janeiro se transformou no maior mercado comprador de escravos da colônia – as nobres famílias necessitavam de mão-de-obra para os serviços domésticos e os prestadores de serviços e agricultores também; a pressão sobre os recursos hídricos não pararia mais de crescer com o sempre crescente incremento da população.

Com as antigas áreas florestais das regiões de entorno do pequeno núcleo urbano substituídas por grandes plantações,  as inúmeras pequenas nascentes de água que alimentavam os escassos rios ou secaram ou tiveram a sua vazão imensamente reduzida.O impacto ambiental não poderia ser outro – o volume de água disponível para o abastecimento da população diminuiu muito e a água passou a ser uma espécie de artigo de luxo na cidade do Rio de Janeiro. A água passou a ser tão escassa que os canais usados para dispersar os esgotos e o lixo ficaram completamente tomados pelos dejetos e entulhos – o mal cheiro era insuportável!

Na próxima postagem, mostraremos o que foi feito para recuperar as nascentes e aumentar substancialmente o volume de águas para o abastecimento da cidade do Rio de Janeiro.

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