ESTUDO SUGERE QUE AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS ESTÃO PROVOCANDO UM AUMENTO DOS INCIDENTES COM COBRAS 

Um estudo realizado por pesquisadores da Geórgia, Estado localizado no Sul dos Estados Unidos, e publicado na revista GeoHealth, analisou os dados de hospitalização nesse Estado e concluiu que o aumento das temperaturas está aumentando o risco de as pessoas serem picadas por cobras venenosas. 

Os casos avaliados correspondem ao período entre 2014 e 2020. Os pesquisadores perceberam que um aumento na temperatura máxima diária da ordem de 1º C aumenta em 5,6% as chances de uma pessoa ser picada por uma cobra venenosa. A primavera é a época do ano mais propícia para esses incidentes. 

A Geórgia abriga 17 espécies de cobras venenosas dentro do seu território, possuindo uma das maiores diversidades e densidades de ofídios peçonhentos dos Estados Unidos. 

Cobras e outros répteis são animais ectotérmicos, ou seja, que dependem da temperatura do ambiente para regular a temperatura corporal interna. Com o aumento das temperaturas – lembrando aqui do famoso aquecimento global, esses animais provavelmente estão ficando mais ativos e se aventurando cada vez mais longe de suas tocas. 

Em países temperados como nos Estados Unidos, onde os invernos têm temperaturas muito baixas, cobras e outros répteis entram em um estado de hibernação nesse período. Foi justamente esse mecanismo corporal dos animais que levou os pesquisadores a especularem essa relação entre temperaturas mais altas e um número crescente de casos de picadas.  

E as especulações não param por aí – temperaturas mais altas tendem a tornar o período ativo das cobras maior ao longo do ano. Ou seja – o período do inverno tende a ficar menor e a primavera e o outono tendem a ficar com uma média de temperaturas mais altas. 

É importante deixar registrado que este estudo analisou dados de uma região geográfica muito limitada – a Geórgia possui pouco mais de 150 mil km², algo equivalente ao nosso Estado do Ceará. É importante que outras pesquisas sejam feitas em regiões de clima semelhante para que se possam comparar os resultados. 

Resumindo – se esses dados forem confirmados, haverá uma tendência de aumento dos incidentes com cobras conforme a média de temperaturas no mundo forem aumentando. Profissionais de saúde, unidades de pronto atendimento e hospitais precisarão estar prontos para atender esse eventual aumento de demanda. 

As mudanças climáticas vão exigir enormes mudanças em nossas vidas – de adaptações a novos climas a riscos de picadas de cobras. 

NIGÉRIA DECLARA SITUAÇÃO DE EMERGÊNCIA POR CONTA DA GRAVE ESCASSEZ DE ALIMENTOS

Na última sexta-feira, dia 14 de julho, o Presidente da Nigéria – Bola Tinubu, decretou situação de emergência no país por conta da escassez e do aumento generalizado nos preços dos alimentos. 

A região mais afetada é o Nordeste do país, especialmente os estados de Borno, Adamawa e Yobe, que ficam dentro da região do Sahel, uma extensa faixa de terrenos semiáridos de transição entre o Deserto do Saara e as savanas da África Central. A crise afeta diretamente mais de 4,3 milhões de pessoas. 

Populações africanas sofrendo de falta de alimentos e fome não são nenhuma novidade dentro de um continente cheio de conflitos étnicos e problemas climáticos. O que chama a atenção nesse caso é que a Nigéria é simplesmente a maior economia da África e o segundo maior produtor de petróleo do continente. 

A crise nigeriana é o triste resultado da combinação de problemas climáticos resultantes da falta de chuvas nna faixa Norte do país, combinado com conflitos religiosos e mudanças na política de subsídios dos combustíveis. 

A Nigéria é o país mais populoso da África com uma população de cerca de 190 milhões de habitantes. O país é habitado por mais de 250 grupos étnicos, divididos em dois grandes blocos religiosos – muçulmanos ao Norte e cristãos ao Sul, além de diversas minorias praticantes de religiões tradicionais africanas como jgbo (ou Ibo) e iorubá.  

Esses diferentes grupos religiosos vivem em um estado de tensão permanente, o que é agravado pela extrema pobreza em que vive a grande maioria dos nigerianos. Na faixa Norte do país esse conflito é potencializado pela presença do grupo radical islâmico Boko Haram. Esse grupo defende o fundamentalismo religioso e o combate à influência ocidental com a implantação radical da lei islâmica, a sharia

Além da atuação do Boko Haram, as populações da faixa Norte da Nigéria sofrem com a escassez de chuvas e com sucessivas perdas na produção agrícola de subsistência. Até poucas décadas atrás, a faixa do Sahel era coberta por uma vegetação de estepe seca, o que ajudava a conter o avanço das areias do Deserto do Saara. 

Após décadas seguidas de desmatamentos, essa “barreira” de proteção deixou de existir, passando a permitir o avanço contínuo das areias do Saara rumo ao Sul. Conforme já tratamos em postagens anteriores, diversos Governos africanos se uniram para criar a Barreira ou Muralha Verde do Sahel, um enorme programa de reflorestamento que já consumiu mais de US$ 8 bilhões. 

Entre as espécies de árvores que estão sendo plantadas destacam-se a acácia, o mogno, o nim e o baobá, todas adaptadas aos solos e ao clima do Sahel. O grande destaque dessa lista é o baobá, uma árvore que possui um tronco grosso e bulboso, que tem uma grande capacidade para armazenar água. O projeto prevê o reflorestamento de uma faixa de 8 mil km de terrenos semiáridos no sentido Leste-Oeste. 

Apesar das boas intenções, o projeto da Muralha Verde está longe de ser concluído. Além da falta de coordenação entre os diferentes países, existem inúmeros problemas ligados à corrupção de autoridades públicas e desvios de verbas, problemas que desgraçadamente, são bem comuns na\ África. 

Como se todo esse pacote de problemas já não fosse o suficiente, o Governo do país retirou uma série de subsídios dos combustíveis, o que resultou em aumentos de preços para os consumidores do país de até 200%.  

Essa verdadeira “cassetada” tarifária, entre outros problemas, está criando dificuldades generalizadas para a produção de alimentos e produtos. Grande parte da geração de energia elétrica na Nigéria depende de geradores alimentados com derivado de petróleo como diesel e gasolina. Com esse aumento brutal de custos, essa produção precisou ser reduzida, afetando toda a economia do país. 

Como sempre acontece nessas situações, a corda arrebentou no lado mais fraco – a imensa massa de pobres do país, que passaram a depender de ajuda internacional e de ajuda governamental. 

Não custa lembrar que os problemas criados pelo aquecimento global poderão impactar na produção de alimentos em todo o mundo, criando situações pareciadas com a que está assolando a Nigéria. 

CICLONE EXTRATROPICAL PROVOCA ESTRAGOS NOS ESTADOS DO SUL DO BRASIL

Um ciclone extratropical que se formou ao largo da costa do Rio Grande do Sul na noite da última quarta-feira, dia 12, provocou fortes ventos, chuvas e muitos estragos no Estado. De acordo com boletim divulgado pela Defesa Civil na tarde dessa quinta-feira, dia 13, 52 municípios gaúchos foram afetados. Santa Catarina e Paraná também tiveram problemas. 

De acordo com o mesmo boletim, os vendavais deixaram 1 morto e ao menos 24 feridos. No total foi relatado que 261 pessoas ficaram desabrigadas e outras 343 desalojadas. Um total de 3,9 milhões de pessoas, ou 1/3 da população do Rio Grande do Sul, foram afetados pela tormenta. 

A cidade gaúcha de Pelotas foi uma das mais castigadas. As redes de energia elétrica foram atingidas pela queda de árvores e mais de 120 mil residências ficaram sem energia elétrica. O problema também afetou os sistemas de tratamento e fornecimento de água na cidade. 

Foram relatadas rajadas de vento com velocidade acima dos 100 km/h – em Rio Grande, cidade localizada no litoral Sul do Rio Grande do Sul, os ventos chegaram a atingir 140 km/h. 

Mais de 1 milhão de pessoas ficaram sem o fornecimento de energia em toda a Região Sul, principalmente no Rio Grande do Sul, onde um total de 746 mil residências ficaram às escuras. Em Santa Catarina foram 200 mil afetados e 174 mil no Paraná. 

Esse foi o terceiro ciclone a atingir o Rio Grande do Sul em menos de um mês. De acordo com informações do INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, o ciclone deverá perder força e se dirigir para o alto mar a partir de hoje. 

Ciclones extratropicais são fenômenos meteorológicos que se desenvolvem em latitudes médias como é o caso da Região Sul do Brasil. Eles se caracterizam pela ocorrência de grandes tempestades e fortes vendavais e são formados pelo contraste de temperaturas de grandes massas de ar. Também estão associados com a chegada de frentes frias. 

Esses fenômenos são relativamente comuns no Sul do Brasil, entretanto, a chegada do El Niño, um fenômeno climático global que já apresentamos em postagens anteriores, pode aumentar a frequência e a intensidade desses ciclones. 

Esse El Niño é mesmo um chato… 

TEMPERATURAS EM ILHA DA GROENLÂNDIA SOBEM 10º C ACIMA DO ESPERADO 

A Groenlândia é a maior ilha do mundo e fica localizada ao largo da costa Atlântica do Canadá. Seu território ocupa uma área total com cerca de 2,1 milhões de km², sendo equivalente ao território da Arábia Saudita. O país é considerado um território autônomo da Dinamarca e possui uma população de menos de 60 mil habitantes – muitos deles são leitores do blog

A maioria dos mapas costuma mostrar a Groenlândia como um território imenso, inclusive parecendo ser maior que o Brasil. Na verdade isso é uma distorção cartográfica resultante do uso de uma técnica antiga para a confecção de mapas – a projeção de Mercator. É essa mesma distorção que faz a Rússia e o Canadá também parecem ser bem maiores nos mapas. 

Em função das constantes notícias e estudos falando sobre as mudanças climáticas e os diversos problemas ambientais que elas têm provocado em todo o mundo, a Groenlândia tem sido uma “frequentadora” constante das postagens aqui do blog. Hoje não vai ser diferente. 

Localizada em sua maior parte dentro do Círculo Polar Ártico, a Groenlândia possui mais de 80% de seu território coberto por um manto de gelo. Em tempos de aquecimento global, é bem fácil acompanhar a perda dessa massa de gelo na grande ilha. 

E foi justamente isso o que fizeram pesquisadores da Agência Espacial Europeia usando imagens do satélite Sentinel-2. Imagens da Ilha de Nares, na costa Norte da Groenlândia, foram captadas entre os dias 29 de junho e 3 de julho, mostrando que houve uma significativa perda da camada de neve e gelo da ilha. 

Segundo os pesquisadores, a ilha vem sofrendo os reflexos das altas temperaturas observadas em diversas áreas do Oceano Atlântico e está apresentando temperaturas até 10º C acima da média que seria esperada para essa época do ano. 

Conforme comentamos em uma postagem anterior, o dia 4 de julho foi considerado o dia mais quente da história de acordo com as medições feitas pelos Centros Nacionais de Previsão Ambiental dos Estados Unidos, entidades ligadas a NOAA – Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, na sigla em inglês. 

Entre outras causas, essas altas temperaturas são decorrentes da chegada do fenômeno meteorológico El Niño, caracterizado por temperaturas acima da média em uma extensa faixa ao longo da linha do Equador no Oceano Pacífico e que tem repercussões no clima de todo o mundo.  

Muitos especialistas defendem que essa “versão” 2023 do El Niño será mais extrema que em eventos anteriores – talvez seja até algo como um Super El Niño. O derretimento de grande parte da capa de gelo da Ilha de Nares seria uma espécie de avant première dos seus “superpoderes”.

O que mais esse garoto travesso (lembrando que El Niño é “o menino” em espanhol) irá aprontar nos próximos meses? 

CALOR DO VERÃO 2022, MATOU 61 MIL PESSOAS NA EUROPA

Postagens tratando dos problemas decorrentes das mudanças climáticas se tornaram frequentes aqui no blog. Isso se deve à grande quantidade de notícias e estudos sobre essa questão que inundam os sites de notícias. 

Normalmente, essas postagens são cheias de expressões que falam sobre possibilidades. Um exemplo foi uma postagem publicada há dois dias atrás, onde o título era “Caatinga poderá sofrer impactos em 99% de sua vegetação até 2060, por causa das mudanças climáticas”. 

Fugindo da futurologia, gostaria de destacar um estudo que foi publicado ontem pela revista científica Nature Medicine: 61.672 pessoas morreram de calor na Europa durante o verão de 2022 no Hemisfério Norte. Os dados analisados correspondem ao período entre 30 de maio e 4 de setembro de 2022. Tudo preto no branco. 

Exemplos do que foi esse verão estão documentados em inúmeras postagens aqui do blog

No dia 22 de junho de 2022, falamos de uma forte onda de calor que estava assolando diversas regiões do continente no segundo dia do verão. Um símbolo de todo esse calor foi o que se viu no Aeroporto de Heathrow, em Londres, onde os termômetros marcaram 40,2º C dia 19 de julho.

Essa onda de calor foi acompanhada por inúmeros incêndios florestais em países como Portugal, Espanha, França e também na Croácia.  Um dos mais graves atingiu o Sudoeste da França. As equipes precisaram ser apoiadas por aviões que fazem o lançamento de água sobre o fogo. Além do forte calor, a região apresentava fortes ventos, o que realimenta constantemente o fogo.  

Em Gironde, departamento que fica no Sudoeste do país, mais de 750 hectares de matas foram destruídos pelo fogo. Mais de 11 mil pessoas foram retiradas de suas casas pelas autoridades locais. Esses incêndios demoraram para ser controlados. 

O calor escaldante também provocou uma fortíssima seca em inúmeras regiões da Europa. De acordo com dados do EDO – Observatório Europeu da Seca, em um comunicado divulgado em agosto de 2022, quase metade do território da União Europeia estava sofrendo com a falta de chuvas. 

De acordo com um relatório do órgão, até 10 de agosto, 47% da UE estavam em risco de seca, com 17% da área em estado de alerta, com prejuízos para a vegetação e as colheitas. Em julho, o índice já era de 46%. 

Até alguns anos atrás, temperaturas tão altas e secas prolongadas eram comuns apenas em países localizados em regiões tropicais, áridas e semiáridas. Na Europa, esses eventos eram raros. De alguns anos para cá, entretanto, esses problemas estão se tornando cada vez mais comuns – as mortes associadas a altas temperaturas também. 

Vamos acompanhar as informações do verão 2023, na Europa e torcer para que o número de mortes não aumente ainda mais. 

AS TEMPERATURAS DO PLANETA BATERAM RECORDES SUCESSIVOS NOS ÚLTIMOS DIAS

Uma postagem rápida: 

Há exatos três dias publicamos uma postagem aqui no blog comentando um estudo que apontou o último mês de junho como o mais quente da história. Ao que tudo indica, o mês de julho não vai ficar muito atrás. 

Pesquisadores norte-americanos analisaram uma série de dados climáticos e descobriram que a temperatura média do planeta atingiu a marca de 17,23º C na última quinta-feira, dia 6 de julho. E não é só isso – essa temperatura recorde superou a marca anterior de 17,18º C, atingida na terça-feira dia 4, e também a marca de 17,01º C, atingida na segunda-feira, dia 3. 

Os cientistas estão atribuindo grande parte dessa sucessão de temperaturas recordes à chegada do fenômeno climático El Niño, caracterizado por um aumento anormal das temperaturas em uma longa faixa equatorial do Oceano Pacífico. Também estão sendo registradas grandes ondas de calor em diversas partes do mundo e também nos oceanos

Conforme já tratamos em diversas postagens anteriores, o El Niño é um fenômeno climático sazonal que tem repercussões em todo o mundo. Em 2015, o surgimento de um forte El Niño prejudicou lavouras de cacau, chá e café em toda a Ásia e África. Também provocou uma forte seca no Sudeste Asiático, favorecendo o surgimento de vários incêndios florestais.    

Naquele ano também se observou o inverno mais quente já registrado nos Estados Unidos. Na América do Sul, o surgimento do El Niño pode resultar em períodos de seca na região Centro-Norte do continente, em especial na Amazônia, e de maior umidade nas regiões mais ao Sul do Brasil e na Argentina.  

Vamos acompanhar os desdobramentos desse novo clima mundial.    

CAATINGA PODERÁ SOFRER IMPACTOS EM 99% DE SUA VEGETAÇÃO ATÉ 2060, POR CUSA DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS 


Um estudo do Instituto de Biologia da UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas, mostrou um cenário preocupante para as próximas décadas no Semiárido Nordestino – as mudanças climáticas poderão causar a perda de espécies vegetais em 99% da Caatinga até o ano de 2060. 

Esse estudo utilizou mais de 400 mil registros de banco de dados relacionados a mais de 3 mil espécies vegetais. Essas informações foram processadas em computadores com algoritmos de inteligência artificial e metodologias estatísticas. 

As regiões que poderão sofrer os maiores impactos são a Chapadas Diamantina e do Araripe, além de grande parte do Planalto da Borborema. Só para relembrar, a Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro e ocupa uma área equivalente a 10% do território do Brasil. A Região do Semiárido ou Domínio da Caatinga compreende 925.043 km², ou seja, 55,6% do Nordeste brasileiro. Estima-se que uma população de 30 milhões de pessoas habite a região.  

A Caatinga engloba áreas dos estados nordestinos do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Alagoas e Bahia, possuindo o mais baixo índice pluviométrico do território brasileiro. Uma microrregião do Norte do Estado de Minas Gerais, também de clima semiárido, é associada ao sertão Nordestino numa conceituação geográfica conhecida como Polígono das Secas.   

A característica mais marcante dessa extensa área territorial é o seu clima semiárido do tipo tropical seco, com chuvas escassas e irregulares. A região possui uma média de temperatura elevada. O solo do sertão é em geral pouco espesso apresentando manchas de solos argilosos muito férteis, principalmente nas depressões e nos baixios. Os solos nessas manchas formam os chamados tabuleiros aluvionais e as várzeas de tabuleiros.   

Em função do clima e dos tipos de solos, essa vegetação pode ser dividida, de forma muito rudimentar, em três áreas: o agreste, a caatinga e o alto sertão. Cada uma destas áreas possui uma quantidade imensa de subdivisões dos tipos de vegetação, formando biomas independentes e completos.   

De acordo com o professor Mário Moura, primeiro autor da pesquisa, “50 espécies de plantas poderiam ser extintas na Caatinga, e no cenário pessimista esse número chegaria a 250. Então 99% do território vai ter perda de espécies, especialmente a região Sul do bioma e a Noroeste, que são pontos turísticos muitas vezes“. 

De acordo com as projeções, cerca de 40% da vegetação da Caatinga poderá sofrer um processo de simplificação. Isso significa que espécies raras e exclusivas de uma região poderão ser substituídas por espécies comuns, diminuindo drasticamente a diversidade do bioma. 

Segundo uma explicação bastante didática do autor, seria como se colocar as espécies vegetais da Caatinga em um grande liquidificador e bater. Isso reduziria a eficiência dos serviços sistêmicos, como por exemplo o sequestro de carbono, além de reduzir a resiliência do bioma aos impactos do clima. 

As condições climáticas do Semiárido Nordestino são o resultado de uma combinação de correntes de ventos vindas do Oceano Atlântico e do relevo da região, fatores que influenciam o volume de chuvas que caem sobre a região. A vegetação e a vida animal se adaptaram gradativamente para as condições do bioma.  

De acordo com esse estudo, as mudanças na composição vegetal da Caatinga serão irreversíveis devido a todas as mudanças ambientais criadas pela elevação das temperaturas globais. O máximo que poderá ser feito é a minimização de alguns dos seus efeitos. 

Uma das únicas formas de se deter esse processo seria a contenção das mudanças climáticas globais, o que só seria possível com uma redução drástica das emissões de gases de efeito estufa, dos desmatamentos e de uma série de outras grandes agressões ambientais. 

Até o momento, a prática mostrou que nada disso é possível. Pobre Caatinga… 

JUNHO DE 2023 – O MÊS MAIS QUENTE DA HISTÓRIA DA TERRA 

De acordo com informações do Copernicus, componente de observação da Terra do Programa Espacial da União Europeia, o último mês de junho foi o mais quente da história a nível global. Segundo as medições realizadas, as temperaturas ficaram pouco mais de 0,5º C acima da média do período entre 1991 e 2020. A temperatura média planetária foi de 16,51º C. 

As explicações para esse calor extremo estão no aumento da temperatura dos oceanos, em uma série de mudanças climáticas e, especialmente, da chegada do fenômeno climático El Niño, que é caracterizado pelo aumento das temperaturas de uma extensa faixa das águas do Oceano Pacífico. 

O Copernicus utilizou como referência uma base de dados climáticos da década de 1950, além informações da NOAA – Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, na sigla em inglês. 

Foram encontradas temperaturas recordes no Nordeste da Europa e também temperaturas consideravelmente mais quentes em algumas regiões do Canadá, Estados Unidos, México, Ásia e Leste da Austrália. No Oeste da Austrália, no Oeste dos Estados Unidos e também no Oeste da Rússia as temperaturas ficaram abaixo da média. 

Nos últimos 15 anos tem sido comum que as temperaturas do mês de junho fiquem acima da média, porém, dessa vez, a elevação surpreendeu. O recorde anterior havia sido batido em 2019, ano em que as temperaturas ficaram 0,37º C acima da média. 

Os pesquisadores do Copernicus destacam que essas temperaturas acima da média foram influenciadas principalmente pelas elevadas temperaturas dos oceanos, lembrando aqui que essas águas cobrem cerca de 70% da superfície do planeta. 

O Atlântico Norte, citando um exemplo, enfrentou uma série de ondas de calor marinho no mês de junho, fato que surpreendeu muita gente. Entre as causas foram observadas velocidades de vento mais baixas em grandes áreas do Atlântico Norte e também um anticiclone dos Açores mais fraco para um mês de junho desde 1940. 

Ondas de calor marinho extremas também foram encontradas no Mar Báltico e ao redor da Irlanda e da Grã-Bretanha. De acordo com dados preliminares dos Centros Nacionais de Previsão Ambiental dos Estados Unidos, o dia 3 de junho foi o mais quente já registrado em qualquer mês da história do planeta. 

Do outro lado do planeta, na Antártica, o gelo marinho apresentou a sua menor extensão para um mês de junho desde que as medições começaram a ser feitas em 1979 (vide imagem com o gráfico). Segundo o Copernicus, essa extensão foi 17% menor que a média. Em fevereiro, no final do período do verão Austral, a superfície do gelo marinho atingiu o mínimo histórico pelo segundo ano consecutivo. 

De acordo com dados do NSIDC – Centro Nacional de Dados de Neve e Gelo, na sigla em inglês, a extensão do gelo marinho na Antártica registrou 11,7 milhões de km² no dia 27 de junho. Isso corresponde a 2,6 milhões de km² abaixo da média histórica observada entre os anos de 1981 e 2010. Esse valor é 1,2 milhão de km² menor que a menor extensão já registrada no mesmo dia, que foi observada em 2022. 

Desgraçadamente, isso é só o começo desses novos e problemáticos tempos de mudanças climáticas e aquecimento global – preparam-se para novos recordes de temperatura! 

FALANDO UM POUCO DAS ABENÇOADAS E COBIÇADAS ÁGUAS DOS RESERVATÓRIOS SUBTERRÂNEOS 

Na nossa última postagem falamos de um estudo da AGU – União Americana de Geofísica, na sigla em inglês, publicado na última edição do periódico Geophysical Research Letters, que demonstrou que a retirada de grandes volumes de água de reservas subterrâneas está alterando o eixo de rotação de nosso planeta. 

Como é de praxe aqui no blog, gostamos de apresentar as informações com profundidade. Por isso, vamos falar um pouco sobre essas reservas subterrâneas de água, dos seus usos e, principalmente, dos seus inúmeros problemas. 

É comum que pessoas leigas imaginem que o subsolo possui extensas cavernas e que esses locais armazenam grandes quantidades de água. Na verdade, até existem algumas cavernas com essas características, mas elas são a exceção à regra. 

Na realidade, os grandes depósitos subterrâneos de água são formados por camadas de rochas altamente porosas como os arenitos, que armazenam grandes quantidades de água. Um bloco de arenito com volume de 1 metro cúbico pode armazenar até 600 litros de água. 

Um exemplo bastante didático de como isso funciona é pegar um cubo de açúcar e encostá-lo no café de uma xícara. Rapidamente será possível ver o açúcar mudando de cor devido a absorção do café. Outra forma de imaginar essa absorção de água é imaginar o arenito como uma grande esponja de lavar louça.

Esses depósitos subterrâneos de água podem ocupar áreas que vão do tamanho de um lote residencial até enormes extensões como a ocupada pelo Aquífero Guarani, um dos maiores reservatórios subterrâneos de água do mundo. Esse aquífero ocupa uma área de 1,2 milhão de km² dentro no Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai.  

Em muitas regiões áridas e semiáridas do mundo, a extração da água desses reservatórios é, literalmente, “a salvação da lavoura”. Essa água garante o abastecimento das populações humanas, a dessedentação dos animais e a prática da agricultura. 

O uso desenfreado dessas águas, que é o que está acontecendo em vários lugares do mundo, causa uma série de problemas. Para começar, o tempo de recarga de algumas dessas reservas subterrâneas pode levar alguns milhares de ano. 

Deixem-me citar o caso do Aquífero Guarani, que começou a se formar há cerca de 130 milhões de anos durante o Derrame de Trapp. Dezenas de vulcões entraram em erupção simultaneamente e derramaram enormes volumes de lava vulcânica sobre as areias de um antigo deserto que existia na região onde encontramos atualmente a bacia hidrográfica do rio Paraná. 

As areias desse deserto foram comprimidas por grandes massas de rochas vulcânicas, principalmente granitos e basaltos, se transformando em arenito com o passar do tempo. A água foi infiltrando lentamente através da camada de rochas superficiais – o aquífero levou dezenas de milhares de anos para ser carregado. 

Todo esse enorme patrimônio natural pode ser destruído em poucas décadas pela exploração de grandes volumes de água – a velocidade com que a água é consumida é milhares de vezes mais rápida que a velocidade da recarga do aquífero. Esse é um problema comum em muitos aquíferos do mundo. 

Outro problema sério diz respeito às nascentes formadoras de córregos, riachos e rios – essas fontes são alimentadas pela água armazenada em aquíferos e outros depósitos subterrâneos de águas. 

Estudos indicam que entre 15% e 21% das bacias hidrográficas do mundo já sofreram redução nos seus volumes de água devido a retirada excessiva de água das reservas subterrâneas. Até o ano de 2050, algo entre 40% e 79% das bacias hidrográficas poderão estar impactadas por essa prática. 

Por fim e não menos importante, a perfuração excessiva de poços pode permitir que contaminantes – esgotos, derivados de petróleo, chorume resultante da decomposição de lixo e outros resíduos, resíduos da mineração, entre outras fontes, possam se infiltrar através desses poços e contaminar as águas subterrâneas. 

De uma forma bastante resumida, essas são algumas das principais ameaças às reservas subterrâneas de água do nosso mundo. E é mais uma questão grave para nos preocuparmos. 

A EXTRAÇÃO DE GRANDES VOLUMES DE ÁGUAS SUBTERRÂNEAS ESTÁ DESLOCANDO O EIXO DE ROTAÇÃO DO PLANETA

Quem tem automóvel já deve ter feito o balanceamento das rodas pelo menos uma vez na vida. Durante esse procedimento, o mecânico retira as rodas, que são colocadas em uma bancada de teste e onde se determina os pontos da roda onde precisam ser colocados pesos de chumbo. Esses pesos compensam as distorções e/ou desgastes que estejam prejudicando a rotação equilibrada das rodas. 

Nosso planeta, que é uma gigantesca esfera que gira em torno do sol, desenvolveu ao longo das eras um balanceamento muito semelhante a uma roda de carro bem ajustada. Graças a esse balanceamento, o planeta consegue girar mantendo um eixo de rotação bastante estável. 

Esse eixo de rotação é o ponto em torno do qual o planeta gira. Esse eixo imaginário se estende entre o Polo Norte e o Polo Sul – a cada 24 horas, ou seja, a cada dia, o planeta dá uma volta completa ao redor desse eixo. Um globo terrestre escolar mostra esse eixo de rotação de forma bastante didática. 

Pois bem – um estudo da AGU – União Americana de Geofísica, na sigla em inglês, publicado na última edição do periódico Geophysical Research Letters, mostrou que o balanceamento do nosso planeta sofreu uma leve distorção nos últimos anos e a culpa recai sobre a extração de grandes volumes de águas subterrâneas. 

Segundo o estudo, a extração e o transporte de águas subterrâneas fizeram o eixo de rotação do planeta se inclinar quase 80 cm para o Leste entre os anos de 1993 e 2010. O impacto da extração da água na rotação da Terra foi descoberto em 2016. 

O estudo considerou inicialmente os deslocamentos de água resultantes do derretimento das calotas polares e de geleiras de montanhas devido ao aumento das temperaturas globais. A partir daí foram considerados diferentes cenários de distribuição dessa água. 

De acordo com as estimativas, foram extraídas 2.150 Gigatoneladas de água subterrânea no período entre 1993 e 2010. Considerando que grande parte desse volume de água corre na direção dos oceanos, isso corresponde a um aumento de mais de 6 mm no nível dos oceanos. 

Essa água é retirada principalmente de grandes aquíferos subterrâneos. Segundo os pesquisadores, “o eixo de rotação da Terra realmente muda muito. O Estudo mostra que, entre as causas relacionadas ao clima, a redistribuição das águas subterrâneas tem o maior impacto na deriva rotacional dos polos.” 

Segundo os pesquisadores, a redistribuição da água nas latitudes médias tem um impacto maior no eixo de rotação do planeta. No período em que foi realizado o estudo, os maiores volumes de água redistribuída estavam localizados no Oeste da América do Norte e no Noroeste da Índia, ambas regiões localizadas em latitudes médias. 

A exploração de reservas subterrâneas de água normalmente tem como objetivo o reforço das reservas de água em locais onde existe uma superexploração das águas superficiais. Um exemplo e a região da bacia hidrográfica do rio Colorado, nos Estados Unidos, uma das bacias mais exploradas do mundo. 

Outra situação bastante comum são as regiões com climas árido e semiárido, onde as reservas superficiais são bastante reduzidas ou até inexistentes. Esse é justamente o caso do Rajastão, Estado localizado no Noroeste da Índia. 

Os especialistas recomendam reduzir a captação e o transporte de água de fontes subterrâneas para se conseguir minimizar os efeitos no eixo de rotação do planeta. Entretanto, em um mundo em plena crise climática por causa do aquecimento global, pensar nesse tipo de medida é absolutamente impensável. 

Vamos ver o que o futuro nos reserva.