AS ENCHENTES AO LONGO DA CALHA DO RIO DOCE

Um outro importante rio de Minas Gerais que vem sofrendo devido às fortes chuvas no Estado é o rio Doce. De acordo com medições feitas ontem, dia 15 de janeiro, pelo SAAE – Serviço Autônomo de Águas e Esgotos, de Governador Valadares, o rio Doce está 1,72 metro acima do nível normal. Há cerca de 10 dias atrás, o rio estava mais de 4 metros acima do nível normal e o transbordamento afetava milhares de famílias ao longo de toda a calha do rio (vide foto). 

De acordo com informações do SAAE de Governador Valadares, a chamada cota de inundação, ou seja, o nível a partir do qual o rio começa a transbordar, é de 2,8 metros, o que demonstra a situação crítica que foi criada na região. Felizmente, as chuvas deram uma trégua e o nível do rio vem baixando gradativamente nos últimos dias. 

O rio Doce se forma na Serra da Mantiqueira no município de Ressaquinha a partir da junção das águas dos rios Piranga e do Carmo. Desse ponto até sua foz no Oceano Atlântico em Linhares, no Espírito Santo, o rio Doce percorrerá cerca de 853 km. A bacia hidrográfica do rio inclui, total ou parcialmente, um total de 228 municípios, sendo 202 em Minas Gerais e 26 no Espírito Santo, onde vivem 3,2 milhões de habitantes. 

Essa bacia hidrográfica ocupa uma área total superior a 83 mil km² na faixa Leste de Minas Gerais e no Noroeste do Espírito Santo. Toda a drenagem de águas pluviais dessa extensa região é feita pela calha de uma infinidade de rios tributários, que por fim acabam chegando no rio Doce. Logo, a temporada de chuvas é sempre uma fonte de preocupação para as populações ribeirinhas. 

É inevitável falar do rio Doce sem lembrar da tragédia que ocorreu aqui em 2015, quando o rompimento de uma barragem de rejeitos de mineração em Mariana provocou uma gigantesca tragédia ambiental que, até hoje, tem consequências graves para a vida de milhares de pessoas. 

No final da tarde do dia 5 de novembro de 2015, uma barragem de rejeitos de mineração na região de Bento Rodrigues, um distrito de Mariana, se rompeu e deixou vazar um volume de aproximadamente 62 milhões de metros cúbicos de lama e resíduos de ferro, manganês e outros minerais. 

Essa onda de resíduos soterrou em poucos minutos cerca de 250 edificações em Bento Rodrigues e destruiu, pelo menos, 150 hectares de matas ciliares das margens dos rios Gualaxo e do Carmo, afluentes do rio Doce. A onda de destruição só não foi maior porque a barragem Candonga, da Usina Hidrelétrica Risoleta Neves, conseguiu segurar grande parte da onda de lama e de entulhos, que nesse ponto atingiu 17 metros de altura. 

Gradativamente, toda essa lama e os rejeitos minerais passaram a se misturar com as águas do rio Doce e, depois de apenas cinco dias, já era percebida na foz no Oceano Atlântico, na cidade de Linhares, Espírito Santo. Oficialmente, 19 pessoas, entre moradores de Bento Rodrigues e funcionários da mineradora, morreram no acidente. A proprietária e operadora da barragem de rejeitos é a Samarco Mineração S.A., uma empresa formada pela associação da Vale S.A. e da empresa australiana BHP Billiton Brasil LTDA. 

Além do distrito de Bento Rodrigues, a onda de lama atingiu com um impacto um pouco menor as comunidades de Paracatu de Baixo, Gesteira e Barra Longa. Ao todo, 39 cidades foram afetadas nos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo, ao longo de um trecho de mais de 650 km da calha do rio Doce. O “acidente” (eu não gosto muito de usar essa palavra) foi classificado como o maior desastre ambiental já ocorrido no país e um dos maiores já registrados na área da mineração no mundo. 

Ao longo de vários meses após esse desastre, dezenas de cidades ao largo da calha do rio sofreram com a falta de água para o abastecimento de suas populações. Essas cidades, que captavam e tratavam as águas do rio Doce, precisaram realizar obras emergenciais em fontes alternativas de água. Dezenas de milhares de famílias passaram a depender de caminhões pipa para seu abastecimento. 

Pescadores, barqueiros e outros profissionais que dependiam das águas do rio também ficaram sem sua fonte de sustento, sendo que muitos sofrem até os dias de hoje devido aos altos índices de poluentes minerais que ainda são encontrados nas águas do rio Doce. 

Durante o período das fortes chuvas, como esse que estamos vivendo, muitos sedimentos que ainda estão acumulados no fundo da calha do rio acabam sendo revolvidos e são transportados pela correnteza, situação que deixa as populações em estado de atenção. De acordo com especialistas, a recuperação do rio Doce vai levar mais de três décadas. 

Um dos principais problemas do rio atualmente é a presença de metais pesados em suas águas. Entre os metais pesados destacam-se o mercúrio, chumbo, cádmio, manganês, níquel, ferro, estanho, cromo e arsênico (classificado como semimetal). Esses minerais se acumulam gradativamente no organismo de pessoas e animais, sendo difíceis de serem eliminados. Provocam inúmeras doenças como o câncer, doenças cardiovasculares, doenças degenerativas como o mal de Alzheimer, doença de Parkinson, entre outras. 

Desde o famigerado acidente, as empresas proprietárias da mineradora têm feito pesados investimentos em ações de recuperação ambiental e em ações de “ajuste de conduta”, ou seja, mudanças em seus procedimentos operacionais a fim de evitar a ocorrência de novas tragédias. Infelizmente, em janeiro de 2019, um outro acidente do mesmo tipo aconteceu em Brumadinho – por uma “estranha coincidência” a proprietária do empreendimento é a Vale do Rio Doce. 

Imagens gravadas do acidente mostram que a barragem de rejeitos da Mina do Córrego do Feijão literalmente se liquefez, deixando vazar uma onda de lama e de rejeitos da ordem de 12 milhões de metros cúbicos. Apesar de ter um volume bem menor do que o do acidente em Mariana, o rompimento dessa barragem deixou um número maior de vítimas fatais – foram cerca de 270 mortos. 

A onda de lama e rejeitos minerais se espalhou por todo o vale do Córrego do Feijão até chegar na calha do rio Paraopeba, afluente do rio São Francisco. Casas ribeirinhas, plantações, matas e até um segmento de uma ponte ferroviária foram destruídos. De acordo com o IEF – Instituto Estadual de Florestas, cerca de 150 hectares de matas nativas foram destruídos pela lama. 

Como é bem fácil de notar, a preocupação de muitas populações ribeirinhas que vivem ao largo de grandes rios de Minas Gerais vai muito além da cheia e dos transbordamentos das águas… 

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