OMS ALERTA: ENVENENAMENTO POR CHUMBO MATA 1 MILHÃO DE PESSOAS A CADA ANO

Candido Portinari (1903-1962) foi um dos maiores pintores da história do Brasil. Ele nos deixou um legado de mais de 5 mil pinturas e desenhos, que vão de pequenos esboços a painéis gigantescos como o mural “Guerra e Paz”, obra que foi doada em 1956 para a sede da ONU – Organização das Nações Unidas, em Nova York. 

Esse gigantesco painel, com dimensões de 10 x 14 metros, ocupou Portinari por cerca de 5 anos. O artista fez mais de duzentos desenhos, que depois foram transformados em setenta lâminas, que depois seriam montadas como um verdadeiro quebra-cabeças.  

Um detalhe triste dessa grande saga: Candido Portinari nunca conseguiu ver a sua obra completamente montada na sede da ONU. Ele morreu em 1962, vítima de uma grave intoxicação por chumbo, elemento presente em grande quantidade nas tintas que usava diariamente em seus trabalhos. 

Essa triste lembrança de Candido Portinari serve como uma introdução a um importante alerta da OMS – Organização Mundial de Saúde. Em comunicado, a organização informa que cerca de 1 milhão de pessoas morrem todos os anos em consequência do envenenamento por chumbo. 

O chumbo é um metal pesado altamente tóxico que está presente em inúmeros produtos que utilizamos em nosso dia a dia. Além das tintas, o chumbo é usado em pilhas e baterias, cabos elétricos, mantas de blindagem, aditivos para gasolinas, entre muitos outros produtos. 

A exposição contínua leva a acumulação do chumbo no organismo humano. Isso pode afetar as funções cerebrais, os rins, os sistemas digestivo e reprodutor, inclusive podendo se reverter em mutações genéticas em descendentes. Também são relatadas diversas doenças no sangue. 

Os principais sintomas dessa intoxicação são irritabilidade, cefaleia, tremor muscular, alucinações, perda de memória e de capacidade de concentração. Esses sintomas podem progredir para delírios, convulsões, paralisias e coma. As sequelas desses problemas podem afetar a memória e o aprendizado. 

Um dos mais graves e rumorosos casos de intoxicação por chumbo aqui no Brasil foi o que ocorreu na cidade de Santo Amaro, na Bahia. Nessa cidade funcionou por mais de 30 anos uma empresa de beneficiamento de chumbo. Essa empresa faliu em 1993, deixando um passivo ambiental de cerca de 500 mil toneladas de resíduo desse metal. 

Além de afetar gravemente a saúde da população da cidade, essa contaminação também chegou as águas do rio Subaé e atingiu todo o seu estuário na Bahia de Todos os Santos. Caetano Veloso, cantor e compositor natural de Santo Amaro, lançou uma canção de protesto chamada “Purificar o Subaé” em 1981, gravada em parceria com Maria Bethânia, Gilberto Gil e Nicinha. 

Além dos contatos frequentes com tintas residenciais e industriais com altos níveis de chumbo, trabalhadores de todo mundo são expostos frequentemente ao contato com esse metal. Uma das atividades que mais expõem trabalhadores a esse risco é a reciclagem de materiais. 

A coleta, o transporte e a seleção de materiais recicláveis é o ganha pão de milhões de pessoas pobres em todo o mundo. Esses trabalhos, na esmagadora maioria dos casos, é feito de maneira artesanal e improvisada, onde não se respeitam as normas mínimas de segurança como o uso de EPIs – Equipamentos de Proteção Individual. 

Entre as sucatas mais cobiçados por esses recicladores estão as de metais como o alumínio, o cobre e o chumbo, materiais que tem um alto valor de revenda no mercado. No caso do chumbo, uma das principais fontes do metal são as baterias velhas de automóveis e caminhões (vide foto). 

Essas baterias são formadas basicamente por uma caixa plástica de baixo valor e por um conjunto de valiosas placas e contatos elétricos feitos de chumbo. As baterias também contêm uma solução ácida tóxica, que é descartada no meio ambiente sem maiores preocupações. 

As baterias são desmontadas sem maiores cuidados, o mesmo ocorrendo com a manipulação das peças de chumbo. Em muitas “recicladoras”, as peças de chumbo são derretidas de forma improvisada com maçaricos e transformadas em lingotes, um formato que valoriza o material junto aos compradores. 

Outra importante fonte de contaminação são atividades de reciclagem do chamado lixo eletrônico. Conforme já tratamos em postagens anteriores, componentes eletrônicos e placas de circuito impresso utilizam uma série de metais nobres e altamente valorizados. Destaco o cobre, o estanho, a prata, o alumínio, e, em quantidades bem menores, o ouro. 

A separação desses metais nobres de partes plásticas e de porcelana dos componentes é uma atividade que não é fácil e que demanda muita mão de obra. Países miseráveis como Gana acabaram sendo transformados em verdadeiros “cemitérios” mundiais de lixo eletrônico. Nesses países a mão de obra barata abunda. 

São justamente esses trabalhos miseráveis, que garantem as mínimas condições para a sobrevivência de milhões de pessoas, as principais fontes de contaminação por chumbo em todo o mundo. Sem nenhuma outra opção de trabalho, essa massa de trabalhadores se intoxica – com chumbo, mercúrio, cádmio e tantos outros metais perigosos, um pouco mais a cada dia. 

O alerta da OMS é providencial, mas o tamanho e a complexidade do problema são descomunais. 

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