FRANÇA ALERTA PARA UM POSSÍVEL RACIONAMENTO DE ENERGIA ELÉTRICA, OU “O GATO SUBIU NO TELHADO” 

Muitos dos leitores devem conhecer a anedota do gato que subiu no telhado. Conta-se que um cidadão informou bruscamente seu vizinho sobre a morte do seu gato – o animal caiu de um telhado e morreu. Recuperado do susto, esse homem passou a dar “dicas” ao vizinho sobre como dar notícias ruins, ou seja, ele deveria contar a história passo a passo “preparando o terreno” – e o fato do gato subir no telhado seria apenas o início do trágico desfecho da notícia. 

O Governo da França parece estar seguindo à risca os ensinamentos dessa técnica de dar más notícias para a sua população. Durante a sua participação em um evento no MEDEF – Movimento das Empresas da França, no último dia 29 de agosto, a primeira-ministra Élisabeth Borne alertou que o país deve se preparar para um racionamento de energia elétrica

A premier, inclusive, pediu que os empresários que preparem planos de moderação, uma vez que as empresas serão as primeiras a sentirem o impacto de um racionamento, tanto de energia elétrica quanto de gás. “Se cada um não fizer sua parte, pode haver interrupções repentinas na distribuição de gás, com graves consequências econômicas e sociais” complementou a primeira-ministra. 

Dias antes, o presidente do país, Emmanuel Macron, alertou os franceses sobre “eventuais sacrifícios” diante de um cenário de fim de abundância, especialmente com a proximidade da chegada do inverno. Segundo Macron, o país está entrando em uma nova fase marcada por mudanças climáticas e pelas consequências do conflito entre a Rússia e a Ucrânia. 

Qualquer ouvinte/leitor um pouco melhor informado vai entender que esses políticos estão afirmando que “o gato francês está subindo no telhado” e que uma enxurrada de más notícias vai chegar em muito pouco tempo. Vamos lembrar algumas delas: 

Toda a Europa está vivendo um profunda e preocupante crise energética, problema que aumentará muito dentro de poucos meses com a chegada do inverno. O continente criou uma forte dependência do gás natural da Rússia, produto que está chegando com volumes cada menores devido aos impasses criados após a agressão dos russos aos ucranianos. 

Desde a década de 1950, quando o Leste Europeu vivia sob o julgo da “cortina de ferro” da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, que sistemas de transporte e distribuição de gás natural vindo de campos da Rússia começaram a se espalhar pelos países da Europa. Um dos casos mais emblemáticos é o da antiga Alemanha Oriental – a dependência desse combustível passou também para o lado ocidental do país após a reunificação em 1990. 

O gás natural passou a ser utilizado em centrais termelétricas, transformadas nas principais fontes de energia elétrica em muitos países. Contando como uma fonte energética bem mais limpa, esses países passaram a desativar gradativamente suas antigas e poluentes centrais termelétricas a carvão.  

Além de inúmeras aplicações industriais, o gás natural também é um combustível essencial para o aquecimento residencial. Para a maioria de nós brasileiros, acostumados a um clima bem mais ameno e com invernos pouco rigorosos (a exceção da nossa Região Sul), esse tópico parece ser irrelevante. Porém, para os habitantes de países onde a temperatura despenca para valores negativos nos meses de inverno, esse aquecimento é uma questão de sobrevivência. 

A França, ao contrário dos seus vizinhos, optou por priorizar a geração de energia elétrica a partir de centrais nucleares – cerca de 70% da energia consumida no país vem dessas fontes. O país possui 19 plantas nucleares em operação e planos para construir outras mais. 

O forte calor e a seca que estão assolando a Europa nos últimos meses, passou a ameaçar a geração de energia por fontes nucleares na França. Falando de forma bastante resumida, centrais nucleares geram grandes volumes de calor a partir da fissão de combustíveis radioativos – esse calor é usado para formar o vapor que gera eletricidade em turbinas. 

O excesso de calor dessas usinas precisa de grandes volumes de água para seu resfriamento. É aqui que surgem os problemas – como grandes e importantes rios da França estão com baixíssimos níveis, a quantidade de água quente que pode ser eliminada pelas usinas nucleares teve de ser reduzida a fim de não prejudicar a flora e a fauna aquáticas. Segundo as notícias, metades das plantas nucleares da França foram obrigadas a reduzir a sua geração de energia. 

A seca também está criando uma enormidade de problemas para a agricultura, a pecuária e o abastecimento de populações em toda a França. As atividades agropecuárias são de enorme importância no país, que um dos maiores produtores de alimentos no continente. Com escassez de água, a produtividade das fazendas cai, com reflexos diretos no preço dos alimentos. 

Essa questão está sendo agrava pelo conflito entre a Rússia e a Ucrânia, dois grandes celeiros agrícolas da Europa. Ou seja – haverá falta de alimentos por causa da queda de produtividade nos campos franceses e também pelas dificuldades de importação a partir dos países do Leste Europeu. 

É interessante observar que os discursos desses líderes políticos estão incluindo as mudanças climáticas. Tanto a seca atual quanto o conflito entre a Rússia e a Ucrânia tem data marcada para acabar – a história ensinou que tais tragédias naturais e humanas sempre chegam a um fim, deixando um rastro de destruição em seu caminho. 

A inclusão das mudanças climáticas nos discursos, entretanto, tem o objetivo de alertar para problemas muito mais longos e de difícil solução. Basicamente, o Governo francês está falando que a vida da população nunca mais será como era antes. 

Seria bem mais honesto falar que o gato subiu no alto da Torre Eiffel e não sabe como descer… 

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