A IMPACTANTE E INEFICIENTE USINA HIDRELÉTRICA DE SAMUEL EM RONDÔNIA

IMG_2618

Quando falamos em problemas ambientais e sociais criados pela construção de uma usina hidrelétrico em rios da Bacia Amazônica, é muito difícil não lembrar da Usina Hidrelétrica de Samuel, localizada a cerca de 60 km da cidade de Porto Velho em Rondônia, no município vizinho de Candeias do Jamari. A Hidrelétrica foi construída no rio Jamari, um afluente do rio Madeira, num local onde existia uma cachoeira chamada Samuel. Em tese, a potência instalada em Samuel, 261 MW, seria suficiente para abastecer uma grande parte do território de Rondônia, um Estado isolado na Amazônia Ocidental. Sem contar com linhas de transmissão que lhe permitissem receber a energia elétrica gerada em outras regiões do país, Rondônia dependia da geração por centrais hidrelétricas a diesel. 

Apesar das boas intenções, a bacia hidrográfica do rio Jamari é relativamente pequena, com cerca de 15 mil km², e, consequentemente, a vazão média anual do rio Candeias é de apenas 366 m³ por segundo. Em decorrência dessa “falta de água”, a produção média de energia elétrica em Samuel fica limitada a uma “média” de 76 MW. Por outro lado, o represamento do rio Jamari levou a formação de um reservatório com cerca de 540 km² e que exigiu a supressão de uma área de floresta com cerca de 420 km². Como a região de Samuel é muito plana, foi necessária a construção de 57 km lineares de diques para limitar a expansão lateral do reservatório – se essas obras não tivessem sido feitas, o lago de Samuel ocuparia uma área muito maior.  

Essa relação entre uma grande área alagada e uma baixa produção de energia elétrica, coloca a Usina Hidrelétrica de Samuel na lista das mais ineficientes do Brasil. Cada metro quadrado de área alagada do reservatório resulta na geração de apenas 0,40 W, o que não chega à metade da potência esperada de 1 W e fica muito longe dos 10 W/m² das mais eficientes barragens de usinas hidrelétricas do país. O custo estimado do empreendimento, calculado em US$ 1 bilhão (o custo real nunca foi divulgado pelas empresas estatais responsáveis), também mostra uma péssima relação custo/benefício. Em resumo, falamos de uma área alagada e de custos de construção grandes demais, para uma produção de energia elétrica muito pequena.  

A construção de Samuel começou no início da década de 1980, ainda no tempo do Regime Militar, época em que grandes projetos de infraestrutura estavam sendo tocados em todas as regiões do país. No caso da Amazônia, região considerada estratégica pelos militares, era vital um rápido aumento da presença do Estado brasileiro para a garantia da soberania na região – os adeptos da “teoria da conspiração” temiam movimentos das grandes potências mundiais, que falavam abertamente da internacionalização da região, algo semelhante ao que foi feito em relação ao Continente Antártico, cujo Tratado de Internacionalização foi assinado em 1959. Foi dentro deste contexto, que a Região Amazônica recebeu pesados investimentos no período e surgiram obras como a Rodovia Transamazônica, a Usina Hidrelétrica de Tucuruí, o Projeto Carajás de mineração e a Zona Franca de Manaus. Apesar de ineficiente e altamente impactante ao meio ambiente, a construção da Usina Hidrelétrica de Samuel, que acabou se estendendo por 16 anos, se justificou dentro desse contexto histórico e político. 

A História da Hidrelétrica de Samuel está diretamente associada ao Projeto POLONOROESTE, financiado pelo Banco Mundial em 1981, projeto esse que reconstruiu e pavimentou a Rodovia BR-364, via que ligou os antigos Territórios Federais de Rondônia e do Acre ao restante do país a partir da cidade de Cuiabá. Após a conclusão dessa rodovia, o Estado de Rondônia passou a ser “inundado” com imigrantes vindos de outras regiões do país, especialmente da Região Sul, e passou a apresentar uma das maiores taxas de crescimento demográfico do país. A cidade de Porto Velho, citando um exemplo, cresceu a uma taxa de 7,6% ao ano entre 1970 e 1991, quando quadruplicou de tamanho. Esse crescimento explosivo da população também se refletiu no consumo de eletricidade, que passou de 5,8 Mil MW em 1970 para 145 mil MW em 1980, algo que foi fundamental para a decisão de se iniciar construção da Usina Hidrelétrica de Samuel já em 1982

Os impactos sociais gerados pela construção de Samuel foram relativamente pequenos – um total de 238 famílias que viviam na área de formação do lago, além de 20 famílias que viviam na região da Cachoeira de Samuel, tiveram de ser realojadas. A formação do lago também interrompeu uma estrada de acesso a um assentamento rural criado pelo INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, que passou a depender de uma travessia por balsa e recebeu a promessa de construção de uma ponte, o que, diga-se de passagem, só ficou na promessa. Os indígenas da tribo Uru-Eu-Uau-Uau, que habitam as cabeceiras do rio Jamari, também acabaram impactos indiretamente – o represamento do rio alterou negativamente a migração dos peixes e a fauna aquática ficou reduzida a algumas espécies da família dos bagres, consideradas de sabor ruim pelos índios e populações ribeirinhas. Eu cheguei a pescar junto à barragem da Hidrelétrica em 2010 (vide a foto que ilustre essa postagem, de boné branco e muito acima do meu peso atual) e só peguei esses “bagres”. 

Do ponto de vista dos impactos ambientais, a Usina Hidrelétrica de Samuel superou todas as expectativas. Comecemos falando dos mosquitos anofelinos, que encontraram no lago da Hidrelétrica um criadouro ideal. A região do reservatório, que fica entre as cidades de Ariquemes e Porto Velho, recebeu o título de “Capital Mundial da malária” em 1995, ano em que foram registrados mais de 29 mil casos da doença nessa região

Outro problema gravíssimo criado pela Usina Hidrelétrica de Samuel são as emissões de  GEE – Gases de Efeito Estufa. Em 1990, as emissões de GEE pela Hidrelétrica foram 11,6 vezes maiores do que a geração equivalente feita anteriormente por usinas termelétricas movidas a partir da queima de combustíveis fósseis, como no caso da Usina Termelétrica Rio Madeira, em Porto Velho. Para efeito de comparação, as emissões de GEE na Usina Hidrelétrica de Tucuruí se situaram entre 1,8 e 2,6 vezes no mesmo ano. Essas emissões tem origem na decomposição de plantas aquáticas da família das macrófitas, que infestam o reservatório, e também de restos de árvores que não foram cortadas antes da inundação. Essas emissões aumentam consideravelmente no período da seca, quando o espelho d’água sofre um forte deplecionamento ou redução. O nível do reservatório chega a baixar até 14 metros e as áreas expostas se transformam em verdadeiras fábricas de gás metano. No reservatório da Usina Hidrelétrica de Itaipu, citando um exemplo para comparação, a redução média do nível do reservatório é de, no máximo, 40 centímetros. 

O lago de Samuel também provocou uma forte elevação do lençol freático nas regiões de entorno. Em várias cidades próximas, como é o caso da cidade de Itapoã do Oeste, o nível do lençol freático chegou muito próximo da superfície, transformando as ruas em verdadeiros lamaçais. As prefeituras dessas cidades foram obrigadas a cavar canais ao largo das ruas, numa tentativa de escoar o excesso de água. Essa subida das águas subterrâneas também passou a provocar um forte estresse nas árvores de uma grande faixa de vegetação ao redor do lago, que passaram a sofrer com diversas doenças vegetais, fungos e parasitas. 

Samuel também criou uma brecha legal para a exportação de madeiras em toras, algo que havia sido proibido em 1965, e que levou a um grande desmatamento em outras regiões da Amazônia. As madeiras exploradas na região precisavam passar por um beneficiamento mínimo antes da exportação, como forma de gerar empregos nas madeireiras. Essa exceção foi criada para facilitar e simplificar a supressão e o corte das árvores da área sujeita ao alagamento da Usina de Samuel, mas acabou sendo usada por muitos espertalhões de toda a Região Norte. 

A liberação de mercúrio nas águas do rio Jamari, algo que acontece em represas por toda a Amazônia, é outro problema grave. Os solos da Amazônia apresentam fontes naturais de mercúrio, formadas ao longo de milhões de anos, originadas especialmente das erupções vulcânicas que lançaram esse metal tóxico na atmosfera. Com a formação das represas, esse mercúrio dos solos é dissolvido e passa a contaminar as águas na sua forma tóxica – o metil mercúrio. Esse mercúrio passa a contaminar e a se acumular em cadeia nas criaturas aquáticas, de plantas a peixes, que por fim acabam contaminando populações que comem os peixes capturados nos rios. O mercúrio ataca o sistema nervoso central dos seres humanos e causa uma série de problemas como fraqueza muscular, dormência nas mãos e pés, perda de memória, entre outros problemas graves. 

Se você pesquisar, vai descobrir que a lista de problemas criados pela Usina Hidrelétrica de Samuel é bem mais extensa. 

Anúncios

One Comment

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s