A CONTAMINAÇÃO DE VERDURAS E LEGUMES POR ESGOTOS NO BRASIL: UM ESTUDO DE CASO

Verduras e vegetais

Na última postagem, nós apresentamos alguns dados preocupantes sobre o uso de águas contaminadas por esgotos na irrigação de lavouras de verduras e de legumes. Hoje, apresentamos um raro estudo de caso feito aqui no Brasil, publicado pela Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical em sua edição de março-abril de 2007

Entre fevereiro de 2000 e setembro de 2001, a Vigilância Sanitária Municipal de Ribeirão Preto, cidade localizada na região Noroeste do Estado de São Paulo, realizou um estudo sobre a qualidade das hortaliças vendidas na cidade, onde também foi avaliado o uso de águas contaminadas na irrigação de plantações produtoras dessas hortaliças. O estudo avaliou a qualidade de 103 hortaliças e suas respectivas águas de irrigação, provenientes de 88 hortas diferentes. As amostras de água foram recolhidas em frascos de 250 ml, esterilizados e específicos para análise microbiológica. Das hortas selecionadas para o estudo, 47 já haviam sido avaliadas em um estudo anterior e 41 nunca haviam sido avaliadas. 

Alguns números da pesquisa: 

  • 67 hortas passaram por testes para avaliação da presença de coliformes fecais a 45° C na água e nas hortaliças – 30 hortas ou 44,8% apresentaram níveis acima do limite tolerado
  • 21 hortas foram analisadas de acordo com a legislação em vigor da Autarquia – 6 hortas ou 28,5% apresentaram água de irrigação com níveis de coliformes fecais acima do limite tolerado a uma temperatura de 45° C. Relembrando: coliformes fecais são encontrados nos intestinos de animais de sangue quente como bovinos, suínos, aves e seres humanos, o que indica a contaminação das águas por fezes
  • A presença simultânea de parasitas foi detectada em 15 hortas ou 17% das 88 hortas avaliadas, sendo que em uma das amostras foi encontrada a Giardia spp, um parasita altamente resistente, que pode contaminar água e alimentos; 
  • 40,9% das hortas avaliadas estavam em desacordo com a legislação higiênico-sanitária em vigor no município;
  • Parte dos problemas identificados no estudo tinham como origem a contaminação por patógenos encontrados no esterco animal in natura, utilizado como fertilizante em diversas das plantações.

Em qualquer lugar do mundo, esse índice de contaminação das hortas seria considerado alarmante. Porém, há um detalhe neste estudo que nos enche de preocupação: Ribeirão Preto é uma das cidades paulistas mais ricas e com uma infraestrutura de saneamento básico muito acima da média brasileira. No último ranking geral do saneamento básico, edição de 2018, publicado pelo Instituto Trata Brasil, Ribeirão Preto apareceu na 21ª colocação entre as 100 maiores cidades brasileiras. Esse ranking utiliza dados do SNIS- Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento

Em comparação à imensa maioria dos municípios brasileiros, Ribeirão Preto está, há muito tempo, entre as cidades brasileiras que lançam as menores quantidades de esgotos em suas águas; logo, as águas utilizadas na irrigação das hortas do cinturão verde da cidade estão entre as que apresentam os menores índices de contaminantes. Agora, tente avaliar as condições das águas utilizadas na irrigação de hortas de verduras e de legumes aí na sua cidade e nas demais regiões e municípios do Brasil.

Como se não bastasse a falta de infraestrutura de saneamento básico das cidades brasileiras, a própria natureza conspira contra os cinturões verdes: conforme as águas poluídas de córregos e rios correm, os próprios mecanismos naturais se encarregam de depurar e limpar as águas. O grande exemplo que podemos citar é o rio Tietê, considerado o mais poluído do Brasil – de rio praticamente morto dentro da Região Metropolitana de São Paulo, o rio renasce a pouco mais de 250 km da cidade de São Paulo, sem qualquer interferência humana. No caso das áreas dos cinturões verdes, que estão sempre muito próximas das cidades, não há tempo suficiente para a natureza depurar e limpar as águas – elas sempre estarão contaminadas ao atravessarem as áreas das plantações e serem usadas na irrigação das plantas. Nesses casos, a única alternativa será a intervenção humana, construindo e operando ETEs – Estações de Tratamento de Esgotos

Como, frequentemente lembramos nas postagens aqui do blog, construir e tratar esgotos é o tipo de obra “invisível”, que não costuma render votos para os políticos, reforço a recomendação: antes de consumir hortaliças e vegetais, faça sempre uma higienização desses alimentos numa solução de hipoclorito de sódio

Se você quiser saber mais sobre os problemas ligados aos esgotos e à contaminação dos corpos d’água, consulte nos arquivos do blog uma série completa de postagens sobre o tema a partir de 23 de agosto de 2016.

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