NA CIDADE DO MÉXICO, O ENCONTRO ENTRE MITO, CULTURA E AGRICULTURA

Chinampas

Os astecas eram um povo formado por um aglomerado de tribos guerreiras e nômades, que há vários séculos vagavam pelas planícies e regiões semiáridas do México. Uma antiga profecia afirmava que, quando encontrassem o lugar exato para a construção da capital do seu império, eles receberiam um sinal dos deuses. De acordo com a mitologia asteca, o deus da guerra Huitzipochtli mostraria uma águia pousada sobre um cacto com flores, com uma serpente presa em seu bico. Depois de muitas buscas, finalmente encontraram esse sinal dos deuses numa pequena ilha no pantanoso lago de Texcoco – foi ali que fundaram a cidade de Tenochitlan, que séculos mais tarde passaria a ser conhecida como a Cidade do México. A águia com a serpente, inclusive, está estampada na bandeira mexicana. Esse encontro aconteceu por volta do século XII – já no século XVI, quando da chegada dos primeiros espanhóis ao México, Tenochitlan já era uma cidade com perto de 1 milhão de habitantes. 

Existe uma infinidade de teorias para explicar essa súbita evolução de um grupo humano, nômade e sem maiores conhecimentos em ciência e agricultura, que se transformou num dos maiores impérios do continente americano em um espaço de tempo relativamente curto. Essas teorias vão do contato com sobreviventes do lendário continente de Atlântida à visita de extraterrestres. Porém, fugindo dessas questões polêmicas, podemos afirmar que foi o desenvolvimento de técnicas agrícolas altamente sofisticadas a chave para o sucesso e o crescimento do Império Asteca

A congestionada e poluída Cidade do México dos nossos dias, com perto de 9 milhões de habitantes, ainda conserva muitos vestígios da civilização asteca, que acabou subjugada pelo conquistador espanhol Hernán Cortés no ano de 1521. Na zona Sul da Cidade do México, na região conhecida como Xochimilco, ainda encontramos uma parte do antigo lago, onde ainda resistem os jardins flutuantes criados pelos astecas – os chinampas

Essas ilhas flutuantes passaram a ser construídas logo após a fundação da cidade de Tenochitlan. Os astecas escolhiam as áreas mais rasas do lago, onde misturavam os sedimentos do fundo com estruturas de galhos, formando sucessivas camadas até superar o nível do espelho d’água. Era nesses “terraços” que plantavam o precioso milho, alimento básico da população, e todos os tipos de vegetais, legumes e plantas medicinais. Entre essas ilhas existia um impressionante conjunto de canais, que facilitavam o transporte dos alimentos até os núcleos populacionais. A água do lago se infiltrava com extrema facilidade no subsolo dessas ilhas, mantendo assim uma irrigação permanente das plantas, muito parecido com as técnicas de plantio hidropônico usadas hoje em dia. A extrema fertilidade e umidade dos solos dessas ilhas permitiam a produção de alimentos em larga escala, o que sustentou o Império Asteca por séculos. 

Se você fizer uma pesquisa histórica, vai perceber facilmente que todos os grandes impérios que surgiram ao longo da história da humanidade, só se expandiram após o desenvolvimento e a consolidação de sistemas autossuficientes de produção de alimentos – somente após ter soldados com barriga cheia e com estoques de alimentos para longos períodos, é que os reis do passado saíam em busca da conquista de novos territórios. No caso do Império Asteca, os chinampas garantiam alta produtividade durante todo o ano, apesar da grande capital estar localizada num platô a 2.250 metros de altitude e com um longo período de seca na época do inverno.

Essa antiga rede de canais e ilhas pouco a pouco foi desaparecendo – com a destruição do Império Asteca e o domínio espanhol no México, o lago Texcoco passou a ser aterrado sistematicamente para permitir a ampliação da Cidade do México. Na região de Xochimilco muitos desses canais e ilhas ainda resistem, formando um importante ponto turístico da moderna Cidade do México. Nas ilhas ainda continuam sendo produzidos diversos alimentos e também flores e bonsais. Em 1987, a técnica agrícola dos chinampas foi incluída na Lista do Patrimônio da Humanidade da UNESCO – Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura. A região de Xochimilco tem 800 hectares de chinampas. A técnica agrícola foi “exportada” para outras regiões do México e atualmente existem cinco áreas chinampeiras no país, com um total de 2 mil hectares de solos agricultáveis.

Essa verdadeira “Veneza mexicana” é hoje um ponto de encontro de famílias e de turistas, que circulam pelos canais em embarcações típicas, conhecidas como trajineras (vide foto). Essas embarcações possuem mesas e cadeiras, onde se pode apreciar os mais típicos alimentos da culinária mexicana, como o milho cozido e assado na espiga e as tortilhas, e relembrar os tempos de glória do antigo Império Asteca. 

 

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