“SURFISTAS TÊM 3 VEZES MAIS CHANCES DE CONTRAIR BACTÉRIAS SUPER-RESISTENTES”

Surfistas

A contaminação de extensas áreas de praias do litoral brasileiro com resíduos de esgotos é uma triste realidade, que nas temporadas de Verão ganha contornos dramáticos – milhões de turistas buscam lazer e diversão nas praias, normalmente alheios aos riscos de contaminação.

Reportagem publicada pela BBC Brasil detalha uma pesquisa realizada no Reino Unido que comprovou que surfistas têm 3 vezes mais chances de contrair bactérias super-resistentes – a contaminação se dá pela maior ingestão de água do mar contaminada. Como o assunto está diretamente ligado ao tema das postagens que estamos publicando, optou por reproduzir aqui a matéria e tecer alguns comentários relevantes.  Vejam a matéria:

“Poucos sabem disso, mas a prática do surfe pode expor atletas a bactérias difíceis de eliminar.

Um estudo da Universidade de Exeter, no Reino Unido, aponta que os surfistas têm três vezes mais possibilidade de carregar bactérias super-resistentes a antibióticos que o resto da população.

Estudos anteriores já haviam demonstrado que os praticantes do esporte engolem dez vezes mais água que outras pessoas que nadam no mar habitualmente.

A partir disso, os autores dessa nova pesquisa quiseram averiguar se eles eram mais vulneráveis às bactérias que contaminam as águas.

 

Super-resistentes

A equipe de pesquisadores analisou as fezes de 143 surfistas e de 130 pessoas que nadam regularmente na costa do Reino Unido. O objetivo era examinar se seus estômagos abrigavam a bactéria E. coli resistente a cefotaxima, antibiótico muito usado clinicamente.

Os resultados, publicados na revista científica Enviroment International, revelaram que 9% dos surfistas tinham essa bactéria resistente, versus 3% dos demais nadadores que participaram do estudo. Isto significa que a E. coli continuaria em seus estômagos mesmo se eles tomassem o antibiótico mais usado para combatê-la.

A coordenadora da pesquisa, Anne Leonard, acredita que como os surfistas são “geralmente jovens, estão em forma e se sentem saudáveis, é pouco provável que se preocupem com sua saúde”.

A cientista acredita que as bactérias chegam até o mar sobretudo por meio de resíduos de esgotos e de fazendas em épocas de chuva forte.

Uma forma de evitar a ingestão dessas bactérias, recomenda ela, é que os surfistas e nadadores permaneçam fora da água durante dois dias, mais ou menos, de forma regular e que evitem entrar na água depois de uma chuva forte.

 

Alerta global

Segundo os pesquisadores, os riscos a que os surfistas estão expostos podem se estender para grupos mais vulneráveis da população, como idosos e crianças.

“(Os surfistas) têm o potencial de transmitir essas bactérias, caso não tenham uma boa higiene ou não lavem as mãos para preparar os alimentos”, diz Leonard.

No final do ano passado, a Organização Mundial de Saúde (OMS) advertiu que a resistência aos antibióticos é hoje uma das maiores ameaças para a saúde mundial, a segurança alimentar e o desenvolvimento. Trata-se de um problema que pode afetar qualquer pessoa, de qualquer idade, em qualquer país.

O uso indevido desses medicamentos no ser humano e nos animais está fazendo com que as bactérias fiquem cada vez mais resistentes, tornando mais difícil tratar infecções como pneumonia, tuberculose, gonorreia e salmonela.

“A resistência a bactérias tem sido reconhecida como uma das maiores ameaças do nosso tempo. E há agora uma grande atenção ao fato de como a resistência pode se espalhar pelos ambientes naturais. Nós precisamos, urgentemente, saber mais sobre como os seres humanos estão expostos a essas bactérias e como elas colonizam nossos estômagos”, avalia a coordenadora da pesquisa com surfistas”.

Um detalhe importante da pesquisa merece destaque – as taxas de coleta e de tratamento de esgotos nas cidades do Reino Unido estão bem próximas de 100%: as maiores fontes de bactérias são os dejetos animais das fazendas da ilha, que são arrastados para as calhas dos rios nos períodos de chuva e, assim, conseguem chegar até o mar. No Brasil, como venho apresentando nas últimas postagens, os índices de contaminação das praias por esgotos é muito mais alto, especialmente nas cidades com fachada oceânica, o que, muito provavelmente, eleva os riscos de contaminação dos nossos surfistas e também de banhistas de um modo geral. Seria muito importante a realização de pesquisas similares em nossas águas por instituições brasileiras, avaliando os riscos de contaminação de nossas populações por bactérias super-resistentes.

As bactérias Escherichia coli (mais conhecida pela abreviatura E. coli), são encontradas no trato gastrointestinal inferior dos organismos de sangue quente (endotérmicos). A maioria das estirpes de E. coli são inofensivas, mas alguns sorotipos podem causar graves intoxicações alimentares nos seres humanos. O uso indiscriminado de antibióticos pelas populações, na forma de remédios e de produtos de limpeza, como os sabonetes com bactericidas, tem levado a mutações genéticas e ao surgimento de cepas de bactérias super-resistentes aos antibióticos, o que torna o tratamento dos pacientes muito difícil.

A descoberta da penicilina em 1928 por Alexander Fleming foi um dos maiores avanços da medicina no século XX e foi um marco na luta contra as infecções que surgiam nos pacientes e que resultavam na morte de milhares de pessoas. As superbactérias são um dos maiores desafios da medicina na atualidade, muitas vezes sendo necessária a combinação de até 20 diferentes tipos de antibióticos para o controle de um único tipo.

Todo o cuidado com as bactérias super-resistentes é pouco.

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