AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS NOS ANDES TROPICAIS, OU O LAGO TITICACA SOB RISCO

Geleira

As polêmicas mudanças climáticas globais, conjunto de fenômenos que dividem opiniões nos meios científicos e políticos – com muitos afirmando que são eventos naturais e outros insistindo que são antrópicos (causados por ações humanas), estão provocando alterações visíveis nos quatro cantos do mundo.

Na América do Sul, os Andes Tropicais, trecho da Cordilheira que vai da Bolívia ao Sul até Colômbia e Venezuela ao Norte, é uma das regiões do mundo onde as alterações climáticas são mais visíveis – dezenas de geleiras Andinas desapareceram nos últimos anos: só restaram 5 geleiras das 10 que existiam na Venezuela em 1952; na Colômbia, 8 geleiras desapareceram restando apenas 6; no Equador, as geleiras dos vulcões Antizana, Cotopaxi e Chimborazo perderam entre 42 e 60% de suas massas; as 722 geleiras existentes na Cordillera Blanca no Peru sofreram uma redução de 22,4% desde 1970 e na Bolívia, as geleiras de Charquini perderam entre 65 e 78% das suas áreas nas últimas décadas, entre outros derretimentos confirmados. O abastecimento de água de milhões de pessoas está ameaçado – os rios com nascentes formadas pelas águas de degelo dos Andes estão desaparecendo lentamente.

O Lago Titicaca, maior corpo de água doce da América do Sul e o mais importante manancial da região do altiplano na divisa entre Peru e Bolívia, encabeça a lista dos ameaçados. Vamos entender o que está acontecendo:

Nas altas montanhas Andinas (com altitudes entre 5 e 6 mil metros) a precipitação anual normalmente se situa na faixa entre 1.200 e 1.500 mm, resultando num acúmulo de neve entre 2 e 3 metros. Ao longo de milhares de anos, essa neve anual foi se compactando e formando todo um conjunto de glaciares de Norte a Sul da Cordilheira. Nessas regiões, a precipitação é controlada, principalmente por correntes de ar vindas do Oceano Pacífico, que se misturam com massas de ar vindas da região amazônica. As altas montanhas interceptam as massas de ar, resultando em precipitação e acúmulo de neve – o derretimento gradual de uma pequena parte dessa massa de gelo está na origem das nascentes de água de todos os rios andinos, inclusive os rios que alimentam o Lago Titicaca.

Estudos climáticos vêm indicando um aumento anormal da temperatura global da atmosfera nas últimas décadas, produzindo alterações nas condições meteorológicas do Oceano Pacífico e modificando os ciclos do El Niño e La Niña, conjunto de fenômenos atmosférico-oceânicos caracterizados por, respectivamente, um aquecimento e um resfriamento anormal das águas superficiais no Oceano Pacífico Tropical. Estes fenômenos cíclicos produzem alterações em grande parte do clima mundial. A redução do albedo, reflexão difusa da luz solar na neve, é outro fenômeno preocupante, que tem contribuído para o aumento das taxas de derretimento das geleiras.

O branco intenso da neve fresca reflete grande parte da radiação solar que incide no topo das altas montanhas – essa reflexão evita o acúmulo do calor do sol, que teria como consequências o derretimento das geleiras. Nas últimas décadas, a redução dos volumes de neve provocou uma exposição cada vez maior da superfície rochosa das montanhas – essas rochas em cores escuras absorvem quantidades cada vez maiores da radiação solar e dissipam esse calor contra o gelo, que derrete cada vez mais. O albedo é tão relevante no controle do degelo dos glaciares que alguns importantes cientistas já levantaram a hipótese de se “pintar” as rochas já expostas com uma tinta especial na cor branca, substituindo artificialmente a cobertura de neve e reduzindo a temperatura e o derretimento do gelo.

A combinação de todas estas alterações climáticas resulta em cada vez menos água descendo das nascentes das montanhas, especialmente nos rios que alimentam  o Lago Titicaca, que continua a perder água por evaporação. Fenômenos climáticos semelhantes estão destruindo geleiras em todos os cantos do planeta e ameaçando as nascentes de importantes rios, responsáveis pelo abastecimento de bilhões de pessoas.

Sentado em sua poltrona enquanto lê está postagem, você pode se perguntar que importância tem o derretimento de glaciares nas distantes montanhas da Cordilheira dos Andes ou que diferença faz o eventual desaparecimento do Lago Titicaca. Eu respondo – importantes rios brasileiros como o Amazonas e o Madeira nascem a partir do derretimento de algumas dessas geleiras; alterações climáticas com força para desestabilizar o clima nos Andes também podem provocar alterações significativas no regime das chuvas que caem aí na sua cidade.

Aliás, todos nós já estamos percebendo alterações nos volumes e nas regiões onde caem ou não as nossas chuvas – alguns dos grandes reservatórios brasileiros estão secando e a Região Nordeste vive uma das secas mais intensas do último século. Será que já são as tais mudanças climáticas?

O LENDÁRIO LAGO TITICACA SOB AMEAÇA

Lago Titicaca

A Ilha do Sol, no Lago Titicaca, é considerada o berço da civilização Inca. Ali, acredita-se terem chegado Manco Capac e Mama Ocllo, os filhos do “Deus Sol”, em busca de um lugar apropriado para formar o povo Inca e difundir sua cultura. A partir do Lago Titicaca, os Incas se espalharam por um extenso território ao longo da Cordilheira dos Andes e criaram um dos mais poderosos impérios da América Pré-Colombiana, que subsistiu até a conquista final pelos espanhóis liderados por Francisco Pizarro.

O império controlado pelos Incas, o povo que formava a elite dominante do Peru, se estendia por 4.500 km, desde o Chile e Argentina ao Sul até a Colômbia ao Norte, governando mais de 15 milhões de pessoas de diferentes etnias e línguas. A capital do Império ficava na cidade de Cusco, que na língua quéchua significa “umbigo do mundo”. Tawantinsuyu era a palavra usada pelos Incas para descrever seus domínios – “império dos quatro cantos”; e de todos os cantos, o Lago Titicaca era o mais sagrado.

Com aproximadamente 8.500 km², o Lago Titicaca é o maior corpo d’agua da América do Sul, encravado na fronteira entre o Peru e a Bolívia. Na margem nordeste do Lago, em território boliviano, fica a Cordilheira Real (vide foto) onde se localizam algumas das montanhas mais altas dos Andes. O derretimento de glaciares ou geleiras no alto destas montanhas forma alguns dos rios que alimentam o Lago Titicaca; no lado peruano, são cerca de 20 rios tributários, com nascentes em 91 glaciares nos Andes do Peru.

Diferente do Lago Poopó, o Titicaca é um lago com profundidades de 140 a 180 metros, o que reforça a sua importância como principal manancial de água na aridez do altiplano. São cerca de 25 rios que deságuam no lago, compensando a perda constante de água provocada pela intensa radiação solar nas altitudes superiores a 3.800 metros acima do nível do mar e pelos fortíssimos ventos do planalto seco. Ao sul do Titicaca formou-se um pequeno rio, o Desaguadero, responsável pela drenagem da água excedente do Lago – a água que vaza por este rio era a formadora principal do Lago Poopó. Na década de 1990, autoridades bolivianas realizam obras de desvio das águas do Rio Desaguadero, direcionando o fluxo para áreas agrícolas e para o abastecimento de vilas. Essas obras modificaram a dinâmica natural da bacia hidrográfica e é apontada como uma das principais responsáveis pela “morte” do Lago Poopó. Depois deste desastre ambiental consolidado, veja comentários em postagens anteriores, a recuperação do fluxo de água neste rio é vista como uma das possíveis soluções para ressuscitar o Poopó.

Mas há um outro problema ambiental muito mais sério na região – o próprio Lago Titicaca vem apresentando sinais de redução do seu nível, fato negado com veemência pelas autoridades. No setor de Huanucollo do distrito de Desaguadero, província de Chuchuito, os moradores informam que a margem já retrocedeu mais de 50 metros e que o nível do Lago baixou 1 metro nos últimos anos. Especialistas locais afirmam que, de acordo com medições sistemáticas, o problema é bem mais sério que isto e que o nível do Lago Titicaca vem diminuindo sistematicamente desde 1986.

A situação causa extrema preocupação para os mais de 300 mil habitantes da região, que dependem das águas do Titicaca para tudo: abastecimento, agricultura, pecuária, pesca e aquicultura, e especialmente para o turismo local – o Lago é uma das maiores atrações turísticas da Bolívia e do Peru, recebendo centenas de milhares de turistas de todo o mundo.

Apesar de toda a sua importância, o Lago Titicaca é um corpo de água maltratado – os esgotos de toda essa população é despejado nas suas águas sem maiores preocupações com o tratamento – só a cidade de Puno, no lado peruano, tem 222 mil habitantes. As águas retiradas do Lago para irrigar as plantações, principalmente de papa (batata) e quinoa, muitas vezes são as mesmas que voltam arrastando grandes volumes de resíduos de pesticidas e fertilizantes que contaminam ainda mais o Lago. Lixo e resíduos sólidos, descartados sem qualquer controle, são arrastados pelas escassas chuvas e se misturam às canas de totora das margens – a planta é usada para construir as embarcações e as ilhas flutuantes típicas do Lago. As águas sagradas do Titicaca são profanadas cada vez mais e tratadas como se infinitas fossem, erro comum em outras partes do nosso mundo.

Em meio a tudo isso e para a perdição dos homens, o Lago Titicaca está evaporando um pouco mais a cada dia, se perdendo nos céus do Deus Sol.

Vamos entender melhor o fenômeno no próximo post.

“OS ESTRANHOS ANIMAIS HÍBRIDOS CRIADOS PELAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS”

Grolar

Nas últimas semanas, fiz diversas referências aos impactos das mudanças climáticas sobre as fontes de água potável e aos riscos potenciais que populações de diversas regiões do mundo estarão expostas nos próximos anos. Porém, essas mudanças não se limitam apenas ao meio físico – os seres vivos que habitam essas regiões e formam a biota (conjunto de todos seres vivos de um determinado ambiente ou de um determinado período), também estão sofrendo com as alterações climáticas.

Segue uma reprodução de interessante matéria publicada pela BBC Brasil tratando deste assunto:

“Casos de espécies diferentes cruzando entre si e gerando estranhos animais híbridos, vem se tornando cada vez mais comum em meio às mudanças climáticas.

Pesquisadores da Universidade de Tuscia, na Itália, flagraram uma cena de cruzamento inter espécies no parque de Partenio, no sul do país. A fêmea é um exemplar do sapo-europeu (Bufo bufo), uma espécie encontrada em quase todo o continente, enquanto que o macho é um sapo-balear (Bufotes balearicus), característico do sul da Itália, Córsega e Ilhas Baleares (Espanha).

Há vários casos naturais de hibridização, especialmente quando as espécies têm genomas semelhantes. O que espantou cientistas no flagra dos sapos foi que as duas espécies estão geneticamente separadas por 30 milhões de anos no processo de evolução.

As duas espécies voltaram a se misturar na reprodução por causa do aquecimento global, o que pode se tornar uma tendência cada vez mais frequente, segundo um estudo publicado no periódico científico PeerJ (em inglês). 

“A hibridização é muito mais comum entre espécies de plantas e animais que estão estreitamente relacionadas. Para se ter uma ideia, cerca de 25% das plantas e 10% dos animais sofrem um processo de hibridização”, explicou à BBC Mundo Daniele Canestrelli, autora principal da pesquisa.

O estudo sugere que as mudanças climáticas acabaram atrasando o ciclo reprodutivo do Bufo bufo, que coincidiu com a do Bufotes balearicus. Enquanto isso, essa última espécie tem se expandido para outras áreas geográficas.

Outros casos:

  • Grolar: um híbrido gerado pelo cruzamento do urso pardo com o urso polar (vide foto).
  • Coywolf: nome em inglês que surge do cruzamento de coiotes e lobos.
  • Hibridização entre a foca-anelada e a foca-manchada.
  • Narluga: híbrido entre o narval (também conhecido unicórnio do mar) e a beluga (cetáceo que habita o Ártico).
  • Esquilo-voador-do-sul e esquilo-voador-do-norte.
  • Lebre-europeia e lebre-da-montanha.

Vantagens e desvantagens

De acordo com Canestrelli, há consequências diferentes para a hibridização natural e aquela influenciada pelo homem.

“As espécies mais relacionadas entre si compartilham parte de seu genoma como consequência da hibridização. Ou seja, os híbridos são em parte viáveis e férteis, enquanto que as espécies mais distantes costumam não ter trocas genéticas”.

No caso do casal de sapos, os girinos apresentaram malformações, e nenhum chegou a completar o ciclo completo de metamorfose até se tornar um anfíbio adulto.

Apesar do papel importante das mudanças climáticas no caso de hibridização de sapos – e no de ursos, influenciada pelo derretimento de gelo no Ártico – há outros fatores que pesaram, “como por exemplo as alterações de habitats provocadas pelo homem ou a introdução de espécies em outros ambientes”, dizem os pesquisadores.

Entre os riscos da hibridização provocada pela ação humana, estão a fusão de espécies (como o caso de alguns peixes africanos) ou a substituição de uma espécie por outra (como se vê em muitos casos de espécies invasoras), segundo Canestrelli.

No entanto, quando o processo ocorre naturalmente, ele pode trazer benefícios evolutivos. No caso do homem moderno, por exemplo, fomos capazes de colonizar latitudes mais elevadas por conta da hibridização com neandertais, nossos parentes mais próximos e já extintos.”

Moral da história: em função das mudanças climáticas que estão em andamento, nós corremos o risco de viver num mundo sem fontes de água potável, dividindo espaço com animais híbridos – isso até parece coisa de filme de ficção científica de segunda categoria…

LAGO POOPÓ – ¿DONDE LAS AUTORIDADES AMBIENTALES ESTABAN?

Desaparecimento do Lago Poopó

Um lago com 2.500 km² não desaparece de uma hora para outra sem que as autoridades de um país fiquem sabendo. Eu não conseguiria conceber, por exemplo, a Lagoa dos Patos sumindo sem que a “gauchada” esperneasse e cobrasse providências do Governo local – e olhem que estamos falando de um corpo d’água quase dez vezes menor que o Lago Poopó.

Apesar de ser um completo desconhecido para nós aqui no Brasil, o Poopó era uma “celebridade” na Bolívia – em 2002, a sua bacia foi declarada “um ecossistema de importância internacional onde a água é o principal fator que controla o ambiente, assim como a vegetação e a fauna”. Longe das serpentinas e dos confetes dessa celebração, estamos falando do segundo mais importante corpo de água da região do altiplano boliviano, região de uma aridez impressionante e onde o acesso a água é a diferença entre a vida e a morte, situação totalmente adversa das planícies baixas do país que integram a gigantesca Bacia Amazônica.

De acordo com o La Razón, importante jornal da região de Oruro, o Governo da Bolívia e a União Europeia firmaram um acordo em 2002 (quando foi feito o discurso ambientalista “fajuto” acima), segundo o qual haveria um fundo de cerca de US$ 15 milhões para o programa Cuenca (Bacia Hidrográfica) del Poopó. De acordo com o periódico, o prefeito de Oruro à época da assinatura do acordo, Luis Aguilar, alegou que houve um “mal assessoramento” no manejo dos recursos após a sua saída do governo, que foi usado para “projetos sem sentido” e foi “esbanjado” sem conseguir a recuperação do lago.

Para o vice-ministro de Recursos Hídricos e Irrigação da Bolívia, Carlos Ortuño, a culpa pela destruição do Poopó cabe ao fenômeno climático El Niño que, de acordo com dados científicos, produziu um aumento de 2,06° C na temperatura local nos últimos 56 anos. O fenômeno provocou uma seca prolongada na região, levando à completa evaporação do corpo d’água. As mudanças climáticas, “provocadas pelas grandes emissões de poluentes dos países ricos do Norte” também deram a sua contribuição para o colapso.

Depois do desastre consumado, autoridades bolivianas divulgaram planos para “reconstruir” o Lago Poopó, como se isso fosse possível. O citado vice-ministro de Recursos Hídricos e Irrigação e o governador de Oruro, Víctor Hugo Vásquez, estão destinando US$ 3,25 milhões em ajuda humanitária e para trabalhos técnicos que permitam a recuperação do fluxo original das águas do rio Desaguadero ao Lago Poopó. Também anunciaram um financiamento internacional de US$ 130 milhões para a implementação do “Plano Diretor da Bacia do Poopó”. Informações de agências de notícias internacionais confirmam que o Governo do Presidente Evo Morales realmente pediu ajuda à União Europeia para este plano. Entretanto, grandes personalidades da comunidade científica internacional classificam a tragédia como “irreversível”, uma vez que toda a vida que existia no local foi extinta e o fundo do antigo lago foi transformado em um depósito de rejeitos de mineração, com altos níveis de metais tóxicos – o máximo que o Plano conseguiria seria a formação de uma grande poça de água contaminada sem vida. Já as chances de se obter o financiamento – são quase nulas.

O Ministério do Meio Ambiente e Água do país demonstrou um completo descolamento da realidade – emitiu um comunicado “confirmando a perda de uma grande quantidade de espécies únicas”. O comunicado deixou claro que as autoridades não têm certeza da quantidade exata de espécies perdidas na tragédia e informa que se “planeja um estudo para realizar uma contagem”. Cientistas independentes falam da perda de 200 espécies endêmicas de peixes, aves, mamíferos, répteis e anfíbios, além de uma infinidade de plantas e insetos. O Lago Poopó também era uma escala para uma infinidade de aves migratórias, o que aumenta ainda mais as perdas da biodiversidade local.

Em meio ao jogo de empurra-empurra entre as autoridades, o colunista do jornal La Prensa, Enrique A. Miranda Gómez, escreveu: “O custo desse desastre deve ser manejado com absoluta rigidez na identificação de seus responsáveis”, sendo necessário “reprocessar o curso das águas que vêm do Titicaca e investir em ajuda para populações afetadas, dando a elas infraestrutura produtiva, apoio social e sobretudo segurança aos mais jovens”. O desabafo do jornalista mostra a preocupação com a comunidade tradicional dos Urus, povo que dependia exclusivamente das águas do Lago Poopó para a sua sobrevivência

Enquanto se busca responsabilizar as autoridades por descaso e se elaboram planos mágicos para se reverter a destruição do insubstituível ecossistema, os fortes ventos do altiplano levantam nuvens de poeira e sal naquela que, até o final de 2016, era a bacia do Lago Poopó…

POOPÓ: CADÊ O LAGO QUE ESTAVA AQUI?

Lago Poopó

Imagine um lago de água salgada, com um tamanho equivalente a seis vezes a Baia da Guanabara ou três vezes o tamanho da cidade de São Paulo, desaparecendo literalmente no ar – por mais inacreditável que isso possa parecer, foi exatamente o que aconteceu com o Lago Poopó no altiplano da Bolívia.

O Poopó ficava (é estranho usar esse tempo passado) no departamento de Oruro, região que faz divisa com o Chile, onde o espelho d’água se espalhava por uma área que podia chegar a 2.500 km² nos períodos de cheia. O nível do lago se encontrava numa altitude de 3.686 metros acima do nível do mar, com uma profundidade média de 2,5 metros, podendo chegar em alguns trechos a 6 metros. Todo esse complexo lagunar está reduzido hoje a três áreas úmidas com superfície total inferior a 1 km² e profundidade máxima de 30 centímetros.

Pesquisando dados sobre esta catástrofe ambiental, encontramos diversas matérias publicadas em jornais locais que, desde a década de 1990, já alertavam as autoridades sobre a redução sistemática do Lago Poopó – todas as matérias, rigorosamente, contém declarações de autoridades locais informando que a situação estava sendo monitorada e cada qual dando o seu diagnóstico carregado de ideologia – o mais frequente era se falar e colocar a culpa no aquecimento global provocado pelas grandes nações capitalistas do hemisfério Norte; providências – nenhuma.

A hidrologia do Lago Poopó está ligada diretamente ao Lago Titicaca, o maior corpo de água da América do Sul, localizado ao Norte, na divisa da Bolívia com o Peru – vamos falar do Titicaca em outros posts. Um conjunto de aproximadamente vinte e cinco rios, formados a partir do degelo de glaciares no alto dos Andes, corre para as terras mais baixas do altiplano alimentando o Lago Titicaca – uma fenda natural na parte sul do Lago, conhecida como Rio Desaguadero, funcionava com uma espécie de “ladrão”, escoando todo o excedente de água na direção do Poopó, localizado num trecho mais baixo do altiplano ao Sul, que funcionava como lago terminal da bacia hidrográfica; ciclos de evaporação das águas e realimentação via drenagem do Lago Titicaca mantinham a estabilidade do Lago Poopó.

Apesar de inúmeros desmentidos das autoridades locais, o nível do Lago Titicaca rebaixou em pelos menos 1 metro nos últimos anos, reduzindo a quantidade de água drenada pelo Rio Desaguadero. Para aumentar o problema, o Governo local realizou obras no Rio, desviando as águas para outras regiões, para usos em sistemas agrícolas e abastecimento de comunidades (o Titicaca tem água doce). Como já comentamos em outras publicações, lagos terminais como o Mar de Aral, o Mar Morto e o Lago Chade, precisam ser reabastecidos periodicamente com grandes aportes de água para compensar as perdas por evaporação – sem receber despejos de água, os lagos secam, como aconteceu com o Lago Poopó.

Mas a tragédia tem outro componente fundamental – a mineração predatória e intensa realizada na região desde o tempo dos conquistadores espanhóis. Usando técnicas das mais rudimentares, os mineiros nunca se preocuparam com a construção de barragens de rejeitos minerais. No altiplano boliviano, o Lago Poopó foi transformado “na barragem” de rejeitos, recebendo sedimentos arrastados pelas escassas chuvas ao longo dos séculos, que reduziram gradativamente a profundidade do lago e amplificaram os efeitos da evaporação das águas. O nível de contaminação das águas com metais pesados chegou a um nível altamente critico, matando 30 milhões de peixes em um único dia – milhares de aves, que se alimentaram destes peixes envenenados tiveram o mesmo fim. As aves e animais que conseguiram fugir a tempo, ganharam uma sobrevida em outras regiões – os flamingos rosados, por exemplo, migraram para o pequeno Lago Oruro, que também está secando; a carência de nutrientes no novo ambiente já afeta estes flamingos – as vistosas penas rosas agora estão brancas. Cerca de 200 espécies de aves, peixes, mamíferos, répteis, anfíbios e uma grande variedade de plantas desapareceram junto com o Lago Poopó.

O desastre também teve um custo humano. Cerca de 350 famílias das comunidades indígenas locais, em sua maioria pescadores do lago, foram afetadas. Os Urus eram os donos do lago e tiravam o seu sustento das suas águas – 38 espécies de animais entre peixes, aves e mamíferos: nada sobrou. De acordo com as leis bolivianas, o território dos Urus é a água dos lagos e eles não podem cultivar as terras, que pertencem aos Aymaras.

E assim, todo um ecossistema e uma cultura milenar evaporaram junto com as águas salgadas do Lago Poopó. Quanta tristeza!

AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS QUE MUITA GENTE NÃO VÊ, OU AVIÕES, NUVENS, SARDINHAS E GELEIRAS

Nuvem Asperitas

Há poucas semanas, a equipe econômica do Presidente Donald Trump enviou para o Congresso Americano a proposta orçamentária para o próximo ano, onde se destaca um grande aumento nas despesas com as forças armadas dos Estados Unidos. Nos últimos dias vimos a sinalização da “nova política externa” americana: um pesado ataque de mísseis contra instalações militares na Síria e a ordem para o deslocamento de uma poderosa frota naval para a região da península coreana. Não estamos aqui para tratar destes assuntos, mas há uma sutileza em tudo isso: para aumentar o orçamento militar, a administração Trump cortou despesas em outras áreas – o Sistema Ambiental americano foi uma das áreas mais afetadas e perdeu metade de suas verbas. O Presidente Donald Trump é um árduo adversário do tema mudanças climáticas – para ele e para algumas dezenas de milhões de americanos, não existem provas que o clima da Terra esteja sofrendo mudanças no clima devido a ações humanas.

Vejamos algumas notícias recentes, publicadas em mídias diferentes, que contradizem a opinião desses ianques conservadores:

Estudo publicado na revista Advances in Atmospheric Sciences indica que haverá um aumento severo das turbulências nos voos, que se tornarão duas vezes e meia mais fortes até o final deste século. Essas turbulências são aquelas que podem surpreender passageiros sem cintos ou derrubar objetos dos bagageiros e que são o pesadelo de quem tem medo de voar. Essas turbulências são geradas por correntes de ar mais fortes que, com as mudanças climáticas já em andamento, tenderão a se tornar cada vez mais intensas. 

As turbulências em voos têm múltiplas origens, incluindo o deslocamento de ar provocado por descargas elétricas nas nuvens, mudanças bruscas na pressão atmosférica ou grandes diferenças na temperatura do ar. Algumas vezes, em voos com “céu de brigadeiro”, tripulantes e passageiros são surpreendidos com fortes turbulências devido à súbitos encontros de massas de vento com direções e velocidades diferentes. O problema é tão sério que motivará mudanças conceituais e estruturais no projeto e construção de novos modelos de aviões, além de forçar mudanças nos procedimentos operacionais dos voos. Provavelmente, as futuras versões do jato Presidencial americano, o Air Force One, já sairão de fábrica com muitas modificações para enfrentar essas fortes turbulências, mesmo que o “titular” confesse abertamente que tais mudanças não existam.

As mudanças climáticas inventadas pelos ambientalistas também estão provocando mudanças nos tipos de nuvens do planeta. Depois de mais de quarenta anos, o Atlas Internacional das Nuvens, publicação de referência para os estudos meteorológicos, sofreu uma atualização e doze novos tipos de nuvens foram incorporadas à publicação – algumas dessas nuvens são produzidas por ações antrópicas e estão associadas as mudanças climáticas que “não existem”.

Uma dessas novas nuvens ganhou o simpático nome de “asperitas” (vide foto), palavra em latim que está na raiz da palavra aspereza. São nuvens que se formam em baixas altitudes a partir do choque e sobreposição de duas massas de ar com temperatura e densidade diferentes. A parte de baixo dessa nuvem apresenta movimentos que lembram as ondas de um mar revolto. A “homogenitas” é formada por uma classe inteira de nuvens criadas por ações humanas, incluindo o rastro de vapor de água que é deixado pela passagem de aviões a jato. As nuvens “cavum” possuem um buraco no meio, chamado “murus” e flutuam abaixo de tempestades intensas, que volta e meia se tornam parte dos tornados – aliás, vocês repararam como aumentou a frequência de tornados violentos aqui no Brasil nos últimos anos?

As mudanças climáticas que não existem também estão provocando o derretimento de geleiras ou glaciares em cadeias montanhosas de todo o mundo – eu tratei deste tema poucos dias atrás. As geleiras são fundamentais para a formação de importantes rios de montanha, cujas águas resultantes do derretimento vão se aglutinando e formando os cursos de água que seguirão para as partes baixas do terreno. Aqui na América do Sul, dezenas de geleiras já desapareceram na Cordilheira dos Andes, colocando em risco o abastecimento de milhões de pessoas. A Bolívia é um dos países sob maior risco e com menor capacidade de adaptação para as inevitáveis mudanças climáticas já em andamento (pelo menos na opinião de algumas pessoas e onde eu me incluo). Há poucos dias atrás foi anunciado que o Lago Poopó, o segundo maior corpo d’água do país, secou completamente.

E uma outra notícia fresquinha: até as sardinhas, um dos peixes mais baratos e mais consumidos pelos brasileiros estão em falta. As capturas dessa estação estão abaixo de um terço dos valores do ano passado e os pesquisadores já falam que são as “folclóricas” mudanças climáticas as responsáveis pela dispersão dos cardumes.

Se você acredita nas mudanças climáticas, está convidado a ler o nosso próximo post, onde falaremos do célebre desconhecido e agora inexistente Lago Poopó.

DELTA DO OKAVANGO: UM PANTANAL EM RISCO NO DESERTO DO KALAHARI

Delta do Okavango

Os africanos costumam falar que o Rio Okavango não tem pressa: ele nasce nas montanhas da região central de Angola e escorre preguiçosamente pelas planícies semiáridas até a fronteira com a Namíbia, marcando a fronteira dos dois países por mais de 400 quilômetros até entrar no território de Botsuana. O Okavango entra no Deserto do Kalahari e, mostrando gostar do calor, desiste de prosseguir até o mar e se divide em inúmeros canais, formando o maior delta interior do mundo após um percurso total de 1.600 quilômetros. Enquanto milhares de seres vivos se nutrem de vida neste paraíso, as águas do rio evaporam lentamente, aguardando a chegada da nova temporada de chuvas, num ciclo, até hoje, interminável.

A região do delta do Rio Okavango em Botsuana é considerada um dos últimos refúgios selvagens de toda a África e uma das maiores atrações turísticas da região Austral do continente. A luxuriante vegetação alimentada pelas águas do rio é um verdadeiro paraíso para a vida selvagem, sustentando grandes mamíferos como elefantes, girafas, hipopótamos, búfalos e zebras, que por sua vez atraem os grandes predadores: leões, leopardos, guepardos e mabecos, sendo acompanhados por toda uma sequência de carniceiros como as hienas e abutres. A ciência ainda não dispõe de estudos completos acerca do delta do Okavango, mas, até o momento, já identificou 50 espécies de pássaros, 128 de mamíferos e 150 de répteis e anfíbios – o número de espécies de peixes e de insetos ainda é desconhecido. A bacia hidrográfica do Rio Okavango é o lar de, pelo menos, um milhão de pessoas.

Esse paraíso africano das águas, porém, poderá simplesmente desaparecer em poucas décadas – o ciclo de cheias e secas do delta corre sérios riscos  de interferências e alterações antrópicas, condenando toda a vida selvagem e, por que não, humana ao risco de extinção regional.

Depois de mais de 37 anos de uma guerra civil devastadora, Angola se esforça para se reerguer e recuperar o tempo perdido. A região das nascentes do Rio Okavango, que foi um foco importante dos conflitos, iniciou em 2002 um intenso trabalho de localização e remoção de minas terrestres, criando condições para o retorno de centenas de milhares de famílias expulsas pelos conflitos armados – órgãos oficiais estimam que a população na região chegará aos 2 milhões de habitantes nos próximos quarenta anos. Os frágeis e pouco férteis terrenos de savanas, não conseguindo responder às expectativas de produção dos agricultores, passaram a ser trocados pelas áreas de florestas, que após a derrubada e as queimadas (a coivara, técnica agrícola usada por populações indígenas, quilombolas e ribeirinhas do Brasil), apresentam resultados um pouco melhores: até 100 kg de painço por hectare – para efeito de comparação, a produtividade média da soja no Brasil é de 2.882 kg por hectare e em algumas regiões da Europa se produz 7.000 kg de trigo na mesma área. Esse avanço sobre a floresta costuma ser fatal para as nascentes de água, que diminuem a produção e sofrem com o entulhamento das erosões de solo.

Um outro risco regional é o avanço de grupos internacionais, especialmente chineses, interessados na implantação de grandes projetos agroindustriais com irrigação nas planícies. O baixo preço da terra, a aparente grande oferta de água do Rio Okavango, mão de obra farta e a baixos custos (70% da população de Angola vive da agricultura), num país com governo ditatorial e com instituições fracas, são convites para um desastre nos moldes da Ásia Central.

Na Namíbia, que tem grande parte do seu território coberta por desertos, qualquer fonte permanente de água é considerada como uma verdadeira benção para a escassa população de 2 milhões de habitantes. A agricultura responde por 6% do PIB – Produto Interno Bruto e emprega 70% da população do país. A criação de animais, com rebanhos de 2,4 milhões de bovinos, 2,7 milhões de ovinos e 2.1 milhões de caprinos consome volumes da ordem de 90 milhões de metros cúbicos de água ao ano (dados de 2008), onde há um desperdício médio de 50% entre infiltrações no solo e evaporação. O Governo da Namíbia tentou por diversas vezes implementar a construção de canais de irrigação, projetos que foram vetados por Angola e Botsuana, países que compartilham o uso das águas e a gestão da bacia hidrográfica do Rio Okavango. Angola e Namíbia tem planos para a construção de uma usina hidrelétrica conjunta no Okavango, ideia que está muito longe de um consenso entre os três países e com consequências imprevisíveis para a região úmida do delta.

Em Botsuana, onde o Rio escolheu encerrar seu curso formando um magnífico delta no meio de um dos mais áridos e desabitados desertos do mundo, as pressões antrópicas sobre as águas são mais baixas – para o povo local, o Delta do Okavango é uma fonte de renda inesgotável graças ao grande número de turistas que vem de todos os cantos do mundo para se maravilhar com suas belezas naturais.

Por fim, o maior de todos os riscos – projeções meteorológicas baseadas em modelos matemáticos indicam grandes alterações nos padrões das chuvas das montanhas de Angola nas próximas décadas devido as mudanças climáticas globais. Sem estas chuvas regulares, o delta do Okavango poderá desaparecer em poucos anos e a humanidade perderá mais um dos seus grandes tesouros naturais…

O DRAMÁTICO ENCOLHIMENTO DO LAGO CHADE

Lago Chade

Se você leu a sequência de posts onde falamos da tragédia do Mar de Aral e da redução gradativa do nível do Mar Morto, já percebeu que os lagos terminais são sistemas extremamente sensíveis e que respondem com grande velocidade aos processos de redução dos volumes de água dos seus tributários. Vamos analisar um outro exemplo preocupante: o lago Chade.

O lago Chade ou Tchad já foi um dos maiores do mundo – no início da década de 1960 seu espelho d’água ocupava uma superfície de 25 mil km², o que corresponde a quatro vezes o tamanho original do Mar Morto ou pouco menos da metade da superfície do já foi o Mar de Aral. Uma população de 30 milhões de pessoas vive ao redor de suas margens, distribuídas nos quatro países que o cercam: Chade, Camarões, Níger e Nigéria. Durante milênios, o lago Chade vem sendo o grande manancial de águas permanente numa região de transição entre as savanas e o grande deserto do Saara, condição que vem mudando dramaticamente nas últimas décadas.

De acordo com estudos realizados pelo PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o Lago Chade perdeu 95% do seu espelho d’água entre 1963 e 1998, com sérios riscos de desaparecer por completo dentro de uns poucos anos. A superfície atual do Lago apresenta um espelho d’água com pouco mais de 1.000 km². Observe os números do dramático processo de encolhimento do Lago Chade:

Entre junho de 1966 e janeiro de 1973, a superfície do espelho d’água passou de 22.772 km² para 15.400 km²;

– Em 1982, a superfície total do Lago estava reduzida a 2.276 km²;

– Em fevereiro de 1994, as imagens captadas pelo satélite Meteosat mostravam que a superfície do Lago estava reduzida a 1.756 km²;

– Em 2007, a superfície do Lago Chade se resumia à menos da vigésima parte da superfície encontrada em 1963 – 1.350 km².

Estudos geológicos indicam que o Lago Chade vem sofrendo um processo contínuo de encolhimento devido a processos naturais de mudanças climáticas no Norte da África em andamento há vários milênios – há dois mil anos atrás, o Lago Chade era do tamanho da Alemanha (357 mil km²). Porém, o quadro atual de redução acelerada de sua superfície, não pode ser explicado apenas por processos naturais – é preciso incluir na equação a superexploração dos recursos hídricos para abastecimento da população, dessedentação de animais e formação de pastagens, além do uso de grandes volumes de água em sistemas de irrigação agrícola altamente ineficientes. O resultado da combinação de tudo isso – a perspectiva de uma crise humanitária sem precedentes na região dentro de poucos anos.

Estudos climáticos mostram que, a partir de 1950, houve uma sutil mudança no cinturão de chuvas tropicais da faixa subsaariana, que se deslocou mais para o Sul, reduzindo o volume de água despejado no Lago Chade – quase que simultaneamente, passou a se verificar um aumento da retirada de água para uso em irrigação agrícola. A captação de água para os sistemas de irrigação se manteve estável até o final da década de 1980. Entre 1984 e 1994, com a implantação de grandes projetos de irrigação nas áreas de entorno, a retirada de água quadruplicou e o volume passou a equivaler a todo o volume despejado no lago pelos rios Chari e Lagone, seus grandes tributários. Essa equação é bem conhecida: a retirada de grandes volumes de água, para uso em agricultura e em pastagens, somada as perdas por evaporação sendo menores do que o volume de água que entra no sistema é igual a um lago em encolhimento contínuo – exatamente o que está acontecendo no Lago Chade.

Os Governos do Chade, de Camarões, do Níger e da Nigéria esboçaram vários planos para a construção de um canal para a transposição de águas da bacia hidrográfica do Rio Congo, a maior da África, em socorro ao Lago Chade. A falta de recursos financeiros e a total falta de capacidade de articulação política entre as nações impediram qualquer avanço. Como se não bastasse todos os problemas derivados desta situação caótica, as áreas de entorno do Lago Chade foram transformadas em território do grupo radical islâmico Boko Haram, que luta para impor, na base do terror, um califado religioso nos moldes de sua leitura radical dos ensinamentos do Alcorão. Entre a falta de água e a brutalidade da guerra religiosa, as populações padecem.

Com dificuldades cada vez maiores para a prática da agricultura, sem água e pastagens para a criação de animais e com recursos pesqueiros cada vez mais escassos, as perspectivas futuras de 30 milhões de pessoas são incertas e a sobrevivência do Lago Chade improvável.

PS: 200° publicação

A AGRICULTURA IRRIGADA EM ISRAEL

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No último post foi levantado um paralelo entre a tragédia do Mar de Aral na Ásia Central e a redução do nível do Mar Morto, localizado na divisa entre Israel e Jordânia. Em referência a Israel, as semelhanças ficam por aqui.

O Estado de Israel é um país muito pequeno – são 22 mil km², incluindo-se algumas áreas em litígio: isso equivale a pouco menos que três vezes a área da Região Metropolitana de São Paulo ou ainda, uma área equivalente a Sergipe, o menor Estado brasileiro. A população israelense é de pouco mais de 9 milhões de habitantes, equivalente à soma das populações das cidades de Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Apesar destes números “insignificantes” em termos mundiais, Israel é um gigante quando se fala em agricultura. Por si só, isso já seria uma grande façanha, mas tem mais: o território de Israel é formado por terrenos difíceis para as atividades agrícolas: 60% do território é formado por regiões semiáridas e desérticas – metade da área restante é formada por solos rochosos.

As primeiras experiências em agricultura na moderna Israel datam da última década do século XIX, quando os primeiros colonos judeus chegaram a Palestina e se estabeleceram em terras compradas por companhias internacionais. Fazendas foram adquiridas em regiões semiáridas abandonadas havia séculos, consideradas como “impossíveis” de serem cultivadas pelos palestinos e árabes de diversas etnias que habitavam na região. Com apoio internacional de dezenas de entidades judaicas de todo o mundo, esses colonos pioneiros iniciaram um intenso trabalho de pesquisa, desenvolvendo técnicas de recuperação de solos, limpeza de terrenos rochosos, dessalinização de campos, construção de terraços agrícolas e contenção de encostas, drenagem de pântanos, reflorestamento entre outras atividades. Paulatinamente, foram dominadas as técnicas no trato e cultivo dos solos locais, possibilitando a expansão dos projetos agrícolas e a aquisição de novas e maiores propriedades.

A moderna colonização de Israel foi baseada em produção pelo sistema de cooperativas, com dois tipos de assentamentos: o kibutz, comunidades coletivas em que os meios de produção, as responsabilidades e os eventuais lucros são de propriedade geral, e o moshav, vila agrícola onde cada família tem o direito a manter sua própria casa e trabalhar em sua própria terra, vendendo a sua produção para uma cooperativa. Foi a partir dessas bases de produção agrícola que foi formado o Estado de Israel, alçado à independência em 1947, e em conflito permanente com os palestinos, antigos habitantes da região, assunto que não discutiremos aqui.

Um ponto chave no desenvolvimento da agricultura israelense foi a criação de tecnologias de irrigação altamente eficientes, com destaque para a irrigação por micro gotejamento, técnica que transformou o país em referência mundial. Graças ao alto grau de desenvolvimento tecnológico em irrigação, sistemas de cultivo e ao desenvolvimento de espécies vegetais altamente adaptadas às condições de solo e clima, Israel consegue uma produção até 30 vezes maior por hectare que a maioria dos países. Entre as espécies vegetais desenvolvidas em institutos de pesquisa do país são destaques o tomate cereja, o melão Galia, diversas espécies de frutas cítricas e uvas, além de morangos, caquis e framboesas que crescem fora das estações. As variedades de algodão desenvolvidas também são destaque, com uma produtividade de 55 kg por hectare.

Diferentemente do que aconteceu na Ásia Central com seus sistemas de irrigação ineficientes e onde as perdas de água superam 90% entre absorção pelo solo e evaporação, a baixíssima disponibilidade de recursos hídricos em Israel obrigou, desde os primeiros anos da consolidação do país, a uma busca incessante pela excelência no uso racional de cada litro de água. O setor agropecuário representa 2,5% do PIB – Produto Interno Bruto, de Israel e 3,6% das exportações, respondendo por 95% do consumo interno de produtos naturais do país.

As áreas irrigadas em território israelense, incluindo áreas de deserto, possibilitam a produção de uma infinidade de culturas, com destaque para: cereais como o sorgo, trigo e milho; mais de quarenta tipos de frutas com destaque para o abacaxi, melão, tâmaras, tangerina, maçã, pera, morangos, caqui, nectarina, romã, cereja, laranja, limão, kiwi, goiaba, abacate, banana e manga; frutos e legumes como o tomate, pepino, pimentão e abobrinha; diversas espécies de uvas, o que tem impulsionado o crescimento da indústria vinícola no país. Outra área com intenso crescimento e exportações é produção de flores (vide foto). Na área de produtos de origem animal, o leite é destaque, com espécies locais de vacas com produtividade superior às congêneres holandesas, consideradas grandes produtoras. Os maiores importadores de produtos agropecuários de Israel são os países da Comunidade Européia.

Apesar dos inevitáveis problemas ambientais que estão sendo criados no Mar Morto, apresentados no último post, a eficiência dos sistemas de irrigação e a altíssima produtividade da agricultura de Israel merecem ser estudadas e copiadas pelas regiões semiáridas do Brasil, particularmente neste momento em que as águas da transposição do Rio São Francisco começam a chegar ao sertão Nordestino.

Chegaremos lá nos próximos posts.

A “MORTE” DO MAR MORTO, OU UMA HISTÓRIA QUE SE REPETE

Mar Morto

Distante uns bons 3.000 km da Ásia Central e muito mais conhecido que o moribundo lago das estepes, o Mar Morto, na fronteira entre Israel e Jordânia, guarda uma semelhança preocupante com o Mar de Aral: a retirada de grandes quantidades de água do Rio Jordão, seu único tributário, para uso em sistemas de irrigação já provocou uma redução da sua superfície em 35% desde 1954 e, a cada ano, o seu nível está se reduzindo em 1 metro.

Como o Aral, o Mar Morto é um lago terminal, alimentado unicamente pelos despejos do Rio Jordão que, historicamente, compensavam as perdas por evaporação. Em 1930, quando foi feita a primeira medição criteriosa do Mar Morto, a superfície do espelho d’água era de 1.050 km² – em 2014, a superfície total estava reduzida a 650 km². As águas do Mar Morto têm uma característica única, com dez vezes a quantidade de sal encontrada nos oceanos – logo, é uma água que não é utilizada para consumo humano ou irrigação agrícola: a redução no seu nível se deve ao altíssimo consumo de água para fins de irrigação, que reduziram as contribuições do Rio Jordão em 98%.

Desde a Independência do Estado de Israel em 1948, a área total cultivada no país aumentou de 165 mil hectares para 435 mil hectares. No mesmo período, a produtividade agrícola aumentou 16 vezes, enquanto o crescimento da população foi de apenas 3 vezes. A chave deste crescimento foi o uso cada vez mais intensivo das águas do Rio Jordão em projetos de irrigação – 60% do território israelense é formado por solos de semiárido, terrenos inadequados para a prática de agricultura convencional. Como o Rio Jordão e o Mar Morto formam uma bacia hidrográfica endorreica, ou seja, fechada, a água que é retirada do rio para fins agrícolas é a água que deixa de chegar ao Mar Morto; sem a reposição da água perdida pela evaporação, o Mar Morto seca um pouco a cada ano.

O rio Jordão tem 190 km de extensão, com nascentes no Monte Hermon no Norte de Israel. Os principais afluentes são os rios Hasbani ou Snir, com nascentes no Líbano, e Dan e Banias, rios com nascentes em território israelense, e foz no Mar Morto ao Sul, que se localiza numa depressão a 430 metros abaixo do nível do mar. O compartilhamento das águas do rio Jordão é conflituoso, envolvendo israelenses, jordanianos e palestinos. Apesar de toda a sua importância regional, o Jordão é um rio pequeno para os padrões que nós brasileiros estamos acostumados: tem profundidade máxima de 5,5 metros e uma largura média de 18 metros – é um rio com pouca água para atender as necessidades de muita gente.

A carência de recursos hídricos é marcante na região – as chuvas são escassas e mal distribuídas; no Norte de Israel a precipitação média anual é de 70 mm e nas áreas desérticas do Sul cai para meros 5 mm anuais. O Governo de Israel é extremamente rígido na concessão de outorgas para uso de água para fins agrícolas, atividade que consome 75% do recurso estimado em 1,6 bilhão de metros cúbicos ao ano, além de cobrar taxas entre US$ 0,2 e US$ 0,4 por metro cúbico. Apesar de todos esses cuidados, a baixa oferta de água e alta necessidade de consumo torna necessário o “sacrifício” do Mar Morto, uma das maiores atrações turísticas de Israel, o que vem gerando uma intensa pressão dos setores de turismo e hospedagem sobre o Governo israelense. A Suprema Corte de Israel, inclusive, já tomou decisão contra o Governo, recomendando que se encontre uma solução para o problema.

Diferentemente das Repúblicas da Ásia Central no caso Mar de Aral, o Governo de Israel tem demonstrado grande preocupação com o problema (particularmente quanto às perdas de arrecadação de impostos pela redução do fluxo de turistas). Uma alternativa que vem sendo estudada há vários anos, em conjunto com o Governo da Jordânia, que compartilha a bacia e os problemas do Mar Morto com Israel, e com acompanhamento da Autoridade Nacional Palestina, é a construção de um canal entre o Mar Vermelho e o Mar Morto, permitindo o fluxo de água do mar por força da gravidade (lembrando que o Mar Morto está abaixo do nível do mar) para compensar o volume de águas do Rio Jordão que deixa de desaguar no lago. O projeto inclui a construção de uma usina hidroelétrica para o aproveitamento da força da água. Esse projeto encontra resistência de grupos de ecologistas, que alegam sérios danos ao meio ambiente, e, especialmente, das industrias que exploram minerais na bacia do Mar Morto, que vem se beneficiando da redução do nível das águas.

Torço para que o Mar Morto continue “morto” mas com um bom “corpo presente”.