A REUTILIZAÇÃO DE ÁREAS DE ANTIGOS ATERROS SANITÁRIOS E LIXÕES

USP-LESTE

No final do ano de 2013, a USP-Leste – Universidade de São Paulo – Campus da Zona Leste (foto), foi interditada após a confirmação da presença de altas concentrações de gás metano. Os alunos ficaram sem acesso às salas de aula por longos sete meses, sendo transferidos para outros prédios da região até que uma empresa contratada instalasse equipamentos especiais para a captação e retirada do gás metano das instalações da Universidade. Estudos foram realizados para que se determinasse a origem do gás – ficou comprovado que durante as obras de construção do Campus foi usada terra irregular e contaminada com substâncias tóxicas em obras de aterro e nivelamento do solo, transformando a área num verdadeiro aterro irregular. Calcula-se que o volume de terra despejado no terreno corresponda a 18 mil caminhões basculantes – cerca de 7 mil alunos ficaram expostos às emissões de gases por cerca de 2 anos. Sindicâncias internas e do Governo Estadual buscam identificar os responsáveis por essa verdadeira “tragédia” ambiental.

O caso da USP-Leste é extremo, uma vez que a área escolhida para a instalação do novo Campus não era um aterro desativado, mas é didática para mostrar os perigos de se construir nestas áreas. Os resíduos sólidos enterrados em valas normalmente contêm grandes quantidades de matéria orgânica, que ao entrar em decomposição através da ação de bactérias (inicialmente aeróbias e depois anaeróbias) liberam diversos gases, com destaque para o metano, o dióxido de carbono e o sulfeto de hidrogênio. Com a devida técnica e monitoramento, aterros desativados podem ser liberados para uma série de usos como a instalação de parques, áreas verdes, quadras e campos de futebol, campos de golfe (muito populares em diversos países), espaços de educação ambiental, viveiro de mudas entre outros usos.

Porém, antes dos administradores públicos procederem à liberação do uso de antigas áreas de aterro para qualquer um destes fins, é necessário que se realizem alguns monitoramentos:

Monitoramento ambiental: consiste em verificar e medir o volume de gases emitidos pelos resíduos que além do mal cheiro característico e incômodo, também pode causar, em casos de concentrações extremas, explosões. Estudos realizados em aterros sanitários saturados (quando se atinge o limite máximo de resíduos depositados) indicaram uma produção intensa de gases durante os primeiros 10 anos, sofrendo a seguir uma redução e estabilização a partir de 16 anos – a depender do volume de resíduos sólidos e da matéria orgânica depositados, a liberação de gases poderá se estender por até 40 anos. Esse monitoramento também avalia a qualidade do solo e dos recursos hídricos.

Monitoramento geotécnico: visa acompanhar e monitorar o processo de deformação e compactação do solo, avaliando a capacidade de suporte de cargas.

Uma vez liberadas, essas áreas precisam passar por alguns serviços de conservação e manutenção como recomposição de aterros e taludes danificados por processos erosivos, correção de aparecimento de chorume, implantação e conservação de cobertura vegetal, desobstrução e limpeza de dispositivos de drenagem etc. Esse conjunto de serviços evita que os problemas aumentem e exijam maiores intervenções.

Dificilmente uma área de aterro evoluirá até o ponto de readquirir as características mecânicas de resistência para o suporte de uma edificação de grande porte. O terreno poderá apresentar recalques e deformações horizontais e verticais, além de gerar líquidos percolados e gases. Com o devido processo de licenciamento ambiental, onde serão necessários estudos de diversos especialistas, a área poderá ser liberada para uso em qualquer uma das atividades descritas e voltará a ter uma função social e uso relevante para o município e para as comunidades. Um bom exemplo citado em postagem anterior é o Parque Ecológico do Tietê, na Zona Leste da Cidade de São Paulo, que no passado abrigou um lixão, mas há 35 anos vem prestando ótimos serviços ambientais e de lazer para uma das regiões mais carentes da cidade, recebendo 330 mil visitantes a cada mês.

Com responsabilidade, técnica e monitoramentos adequados, o pesadelo dos antigos aterros sanitários e lixões pode ser transformado em excelentes áreas de lazer, de educação ambiental ou, simplesmente, a criação de aprazíveis áreas verdes para as comunidades, especialmente as mais carentes e que normalmente moram nas vizinhanças.

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