REUTILIZANDO LATAS, LATINHAS E LATÕES

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Existe muita confusão entre reciclagem e reutilização. Vou aproveitar o assunto das embalagens de aço para esclarecer um pouco as coisas.

Reciclar significa, literalmente, recomeçar um ciclo – no caso dos materiais, reciclagem remete ao início do ciclo de produção: garrafas de vidro voltam aos fornos para derretimento e posterior remoldagem ou sopro em diferentes formatos do vidro, papel e papelão são transformados em pasta de papel e reprocessados, plásticos são triturados e recebem resinas para a produção de diferentes tipos de plásticos reciclados. No caso das sucatas de metais (ferrosos e não ferrosos) também há o derretimento em fornos e o metal liquefeito é laminado em placas planas ou em barras, tubos, perfis, fios e outros produtos siderúrgicos e metalúrgicos.

Reutizar significa dar novo uso a um produto ou resíduo, adaptando algumas de suas características para um novo uso. No caso das latas, latinhas e latões isso significa cortar, remodelar, furar, pintar, soldar, rebitar e demais processos afins.

Um dos reusos mais simples para as latinhas de aço que consigo lembrar são as canequinhas – é rebitada uma alça numa lata sem tampa e sem rebarbas, que passa a ser usada para tomar leite e café: nas lembranças das férias da infância no sítio dos meus avós estão presentes algumas canecas de latas – ainda hoje é fácil de encontrar essas canecas em mercados populares de regiões interioranas. Muito em moda em tempos mais recentes é a produção de brinquedos a partir do uso de diferentes tipos de latas, como no caso da imagem que ilustra este post. Sejam feitos diretamente pelas crianças num processo lúdico ou por artesãos com técnica mais refinada, esses brinquedos são excelentes ferramentas de educação ambiental.

As latinhas também podem ser encontradas em todo o tipo de artesanato, onde após receber pintura, colagens e outros acabamentos passam a funcionar como porta trecos diversos: talheres, lápis e canetas, parafusos, temperos etc. ou modificadas para uso como vasos, luminárias, enfeites e tudo mais que a criatividade permitir.

Lata d’água na cabeça” diz o refrão da clássica música da cantora Elza Soares e nos remete ao uso mais popular das latas grandes usadas para a venda de óleo e de tintas, que limpas e sem tampas eram e ainda são preciosos vasilhames para o transporte e armazenamento de água nas comunidades mais carentes ou em regiões com falhas no abastecimento da rede de água. Cortadas, furadas, dobradas e trabalhadas de diferentes maneiras, as latas grandes viram churrasqueiras, formas de bolos e todo o tipo de utensílios domésticos, brinquedos e artesanatos que se possa imaginar.

Os grandes latões e tambores metálicos entraram definitivamente na moda: na recente crise hídrica que assolou a Região Metropolitana de São Paulo, para citar um único exemplo, quem dispunha de um desses tambores em casa podia ser considerado felizardo – com uma capacidade entre 100 e 200 litros, esses recipientes representavam uma reserva preciosa de água para os momentos frequentes de falha no abastecimento. Churrasqueiras com tampa feitas com um tambor cortado ao meio se transformaram em uma sensação e objeto do desejo dos amantes de uma boa mesa: aliar a ecologia aos prazeres de uma boa carne é tudo de bom para esse grupo. De design mais sofisticado, os móveis feitos com tambores têm conquistado admiradores em todas as camadas sociais – são cadeiras, mesas, armários e poltronas refinadas, que concorrem em condições de igualdade com as melhores peças à venda nas lojas especializadas.

A reutilização e a reciclagem são fundamentais em nosso mundo, cada vez mais frágil e debilitado pela exploração incessante dos recursos naturais. A esses dois conceitos deve ser incluído um terceiro – a redução. A redução do consumo, a reutilização de resíduos e de produtos e a reciclagem ampla dos resíduos formam o conceito conhecido como 3R, usado amplamente na educação ambiental.

Reduzir, reutilizar e reciclar – três grandes idéias que devem fazer parte do nosso dia a dia.

 

RECICLANDO AS LATAS, OU FALANDO DE ICEBERGS E TRANSATLÂNTICOS

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Problemas ambientais são muito parecidos com icebergs, aquelas gigantescas montanhas de gelo flutuante que representam um enorme risco para os navios (o Titanic que o diga): normalmente se consegue ver apenas a ponta do iceberg acima da superfície da água, mas o verdadeiro risco está submerso: 80% da massa de gelo fica abaixo da superfície do mar; se você assistiu ao filme que conta a história deste famoso transatlântico que afundou em 1912, vai lembrar que foi o impacto contra o gelo submerso que rasgou a estrutura de aço da embarcação, resultando no naufrágio do navio e na morte de 1.514 pessoas (número oficial). A moral da história no nosso contexto é: problemas ambientais, assim como icebergs, não podem ser subestimados.

Quem leu os meus últimos posts falando sobre alguns dos problemas associados à indústria das embalagens de aço, conhecidas popularmente como latas (mineração, derrubada de matas nativas para a produção do carvão vegetal inclusive com uso de mão de obra infantil e a recuperação das áreas devastadas por atividades mineradoras) vai achar o texto de hoje extremamente “light”, pois estaremos falando do final da cadeia produtiva do aço.

Vamos aos números: considerando dados disponíveis do ano de 2012, a produção total de aço no Brasil corresponde a aproximadamente 3,5 milhões de toneladas/ano, sendo que aproximadamente 600 mil toneladas  foram destinadas à produção de embalagens de aço, o que corresponde a um quarto do consumo total. Aproximadamente 47% das embalagens de aço produzidas no Brasil são recicladas, incluindo-se neste universo as populares latas de alimentos como carnes, peixes, vegetais, doces, molhos, bebidas, tintas e massa corrida e os mais diferentes tipos de produtos químicos; inclui-se neste montante as tampas de aço destas embalagens.

Esses números são ao mesmo tempo animadores, pois indicam que quase metade das embalagens de aço são recicladas, e preocupantes pois mais da metade destas embalagens são descartadas ou diretamente no meio ambiente ou enviadas para os aterros sanitários e lixões. O aço é o material mais reciclado do mundo, com um volume anual de 385 milhões de toneladas. Aproximadamente um quarto do aço novo produzido é originário das sucatas recuperadas.

A coleta seletiva de materiais feita pelos próprios consumidores é o melhor caminho para aumentar o percentual da reciclagem – o valor de mercado pago aos coletores/recicladores de materiais pelo quilograma de sucatas em geral (onde se incluem as embalagens de aço) é de apenas R$ 0,20; uso os valores pagos pelas empresas de reciclagem próximas da minha casa – esses valores variam muito de uma região para outra. Como citei em post anterior quando comparei as diferenças de volumes na reciclagem das latinhas de alumínio em relação às garrafas plásticas PET, o baixo valor pago pelas sucatas ferrosas não estimula a sua coleta. Numa certa ocasião eu dispunha de mais de 100 kg de restos de tubos de aço carbono para descarte, que foram oferecidos para um catador de recicláveis que apareceu na empresa: o homem simplesmente afirmou que “não iria se matar carregando todo aquele peso na sua carrocinha para ganhar uma miséria”; por falta de melhor opção na época, a sucata acabou descartada no lixo comum.

Diferente dos materiais plásticos que precisam passar por um processo prévio de seleção (lembrando que cada um dos tipos de resíduos plásticos serve para reutilização em diferentes tipos de produtos), as sucatas de materiais ferrosos (eletroímãs são usados para separar os metais ferrosos dos não ferrosos) não apresentam qualquer tipo de discriminação – todo o material recuperado e entregue nas usinas de fundição segue diretamente para fornos com temperatura média de 1.550° C. Quando atingido o ponto de fusão, o metal liquefeito pode ser laminado em chapas ou moldado em peças para uso nos mais diferentes setores industriais; as sucatas também podem ser misturadas ao aço novo produzido pelas usinas siderúrgicas.

As características físicas do aço reciclado são idênticas às do aço novo, o que possibilita a reciclagem infinita dos materiais metálicos, sem implicar em qualquer prejuízo na qualidade dos produtos que serão fabricados com esta matéria prima. O descarte inadequado das embalagens de aço (e do aço em geral) não trará grandes impactos ambientais devido à deterioração, mais rápida ou mais lenta, dos metais ferrosos na natureza – latas comuns se deterioram em 5 anos e o outrora poderoso Titanic jaz em lenta decadência no fundo do mar. A reutilização de toda a sucata de aço é muito mais racional a fim de se evitar a necessidade de novas retiradas de minérios do solo, o que sempre causa danos irreparáveis ao meio ambiente.

Portanto, fique de olho na destinação das suas latas – a natureza sempre agradece!

A HISTÓRIA DAS EMBALAGENS DE LATA

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A preocupação com o armazenamento e a preparação dos alimentos acompanha a humanidade desde os primórdios da espécie. As cabaças (palavra derivada do árabe kara bassasa) foi uma das primeiras plantas cultivada pelos seres humanos. Originárias da África, assim como nossos ancestrais Homo sapiens, as sementes da planta foram carregadas inicialmente para a Ásia, depois para a Europa e Américas, cultivadas principalmente para prover as famílias de um recipiente impermeável para o armazenamento de água, de grãos, óleos, essências e temperos como o sal. A dureza e a resistência das cabaças eram ideais para acompanhar nossos ancestrais nas suas intermináveis expedições de caça e coleta.

Com o nosso desenvolvimento cultural e tecnológico, vieram as cerâmicas, as peças em madeira entalhada, em pedra, em couro, em vidro, até finalmente chegarmos a era dos metais, tão raros e caros que foi somente na alta Idade Média que as populações mais pobres tiveram acesso a esse tipo de recipiente. Foi por volta do ano 1600 na Alemanha que alguns artesãos começaram a fabricar latas com o objetivo de armazenar alimentos secos como farinhas e grãos. Eram utilizadas folhas de zinco, chumbo e, particularmente, as folhas de ferro zincadas, um processo secreto criado na Bavária no século XI e guardado a sete chaves pelos governantes dos Estados Alemães.

No final do século XV o processo de fabricação dessas folhas metálicas lentamente começou a ser divulgado para o resto da Europa e, após alguns aperfeiçoamentos, surgiu a famosa folha de flandres – uma folha fina de ferro, isenta de ferrugem, que era mergulhada num tanque com estanho fundido, processo que criava um material resistente à corrosão e que passou a permitir o acondicionamento de alguns alimentos úmidos e óleos.

Em meados do século XVIII as tabacarias inglesas passaram a utilizar latinhas de folha de flandres para embalar rapé e tabaco. Porém, até o final deste século continuaram os receios com a utilização das latas para embalar alimentos úmidos e líquidos pois se temia a contaminação dos alimentos. 

Foi o imperador e famoso general Napoleão Bonaparte (1769-1841) o grande responsável pelo incentivo ao desenvolvimento e aperfeiçoamentos dos processos de enlatamento dos alimentos. Preocupado em desenvolver uma tecnologia que permitisse a conservação, transporte e armazenamento de alimentos para as suas tropas militares, Napoleão Bonaparte criou um concurso, com alta premiação a quem apresentasse uma alternativa prática e segura. O vencedor da premiação foi Nicholas François Appert (1750-1841), que desde o ano de 1795 vinha desenvolvendo experimentos de esterilização de alimentos em frascos de vidro hermeticamente fechados, fervidos em água quente por um curto espaço de tempo. Appert observou que alimentos acondicionados em latas e fervidos também conservavam suas características e duravam por um longo período. Em 1810, Napoleão Bonaparte entregou pessoalmente a Appert o prêmio de 12.000 francos, dinheiro usado pelo inventor para iniciar a primeira empresa comercial de alimentos enlatados do mundo.

Em 1852, um sobrinho de Appert, Raymond Chevallier-Appert patenteou o sistema autoclave, que usava a pressão e vapor em altas temperaturas para esterilizar os alimentos com maior eficiência, e também o manômetro, instrumento que permitia controlar a pressão e a temperatura destas autoclaves. Em 1855, foi patenteada uma invenção que tornou o consumo dos alimentos e demais produtos enlatados ainda mais simples: o abridor de latas criado pelo inglês Robert Yates. Em 1866, o americano J. Osterhoudt simplificou ainda mais o processo de abertura com a criação das latas com ranhura e com uma chavinha de arame fixa.

Ao longo de todo o século XIX diversos cientistas se dedicaram ao estudo da conservação dos alimentos, com atenção especial ao processo do enlatamento, que todos sabiam funcionar, sem que ninguém entendesse exatamente o porquê. Destacam-se os estudos do químico Joseph Louis Gay Lussac (1778-1850) e de Louis Pasteur (1822-1895), que em 1862 comprovou que eram os micro organismos presentes nos alimentos os causadores da deterioração e que o calor aplicado aos alimentos já enlatados matava esses organismos, que não conseguiriam recolonizar o ambiente por causa do fechamento hermético das latas.

O século XIX com a colonização do Oeste americano e de grandes extensões da América do Sul e da África, além de diversos conflitos armados, deu um grande impulso para as empresas processadoras de alimentos e produtos enlatados, estimulando o aperfeiçoamento dos processos de preparação, fechamento, esterilização e distribuição dos produtos enlatados. O século XX, com duas Grandes Guerras – a Primeira entre 1914 e 1918, e a Segunda entre 1939 e 1945, entre outros grandes conflitos regionais, elevou a produção e o consumo de produtos enlatados a níveis inimagináveis no século anterior, popularizando esse tipo de embalagem em todo mundo.

Continuaremos no próximo post.

CADÊ O MORRO QUE ESTAVA AQUI? OU OS PROBLEMAS DA MINERAÇÃO

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Pode até parecer um “causo” daqueles contados por gente do interior do país, mas trata-se de uma história verídica: no final de 1997, assumi o cargo de gerente de vendas e marketing de uma empresa de iluminação – um dos maiores revendedores da empresa ficava em Belo Horizonte e frequentemente tinha de ir até esta cidade; normalmente fazia esse percurso de carro a partir de São Paulo.

Desde a minha primeira viagem, passei a prestar atenção em um morro, já bem perto de Belo Horizonte, onde uma mineradora extraía minério de ferro – a cada viagem era possível observar alguma mudança e se percebia nitidamente que o morro ficava menor. Deixei esse trabalho no início do ano 2.000 e fiquei uns bons anos sem repetir aquele trajeto; em 2013 fui convidado a participar de um evento em Ouro Preto e, para meu espanto, descobri que aquele morro simplesmente desapareceu, consumido pela retirada incessante de minérios.

Em resumo, é essa a atividade de mineração: localizada uma jazida minério (que é um mineral com importância econômica), é feito o dimensionamento das reservas, um plano de mineração para determinar a forma mais lucrativa de remover o minério – projetados os custos e o faturamento e havendo uma boa margem de lucro, é feito uma solicitação de lavra junto ao órgão responsável do governo. Como é uma atividade extremamente agressiva com o meio ambiente, essa autorização de lavra fica vinculada a um plano de recuperação ambiental: a montanha que a empresa fizer desaparecer, deverá ser “substituída” por uma floresta plantada.

Nem um de vocês precisa ser um expert em ciências ambientais para perceber que a substituição de uma montanha (numa analogia com a história que contei) por uma recomposição vegetal sobre o que restou do solo não será exatamente uma equivalência, a começar pelo tamanho da área. Se você imaginar uma montanha como um cone, a antiga área antes do evento da mineração corresponderia à superfície do cone – após a atividade da mineração ter sido concluída, a área que restou é apenas a base do cone: quando você está desenhando um cone, basta que a altura seja maior que 0 (zero) para que a área da superfície seja maior que a área da base; isso significa que a antiga área florestal que cobria a montanha era maior do que a área que sobrou e que vai ser reflorestada. Adicione-se a isso a geologia do solo que foi completamente destruída, alterando a velocidade dos ventos e o impacto das chuvas, as diferenças de altitude e seus reflexos na vida animal e vegetal, entre outras alterações.

Falando simplificadamente da recomposição ou replantio de uma área florestal, serão necessários ao menos 50 anos para que as árvores atinjam a fase adulta e se definam os diferentes estratos ou níveis da floresta: desde o vermes que vivem no subsolo até as aves que ocupam o dossel (copa superior das árvores). Você deve imaginar a floresta como um edifício com muitos andares – em cada um destes andares vivem criaturas diferentes: uma espécie de bromélia vai crescer, por exemplo, a 30 metros do solo e vai abrigar uma determinada comunidade de insetos; esses insetos serão predados por uma determinada espécie de ave, um determinado grupo de saguis irá beber da água acumulada nessa bromélia e uma determinada cepa de vírus só será encontrada ali – os vírus, aliás, serão os últimos colonos a chegar. Será que numa empresa mineradora com ações na bolsa de valores, com investidores ansiosos por lucros e executivos sedentos em receber a bonificação anual por bons resultados, haverá qualquer preocupação por uma cepa de vírus numa bromélia perdida no meio de um “matagal”?

Por mais verdadeiras e honestas que venham a ser as intenções dos profissionais de meio ambiente e de engenharia florestal envolvidos no processo de recuperação ambiental dessa área, é fácil perceber que “nada será como antes” nessa mata – qualquer que seja o resultado do processo de recuperação, ele nunca será suficiente para repor tudo o que foi perdido.

No próximo post vamos falar, por fim, das latas. Até mais!

FALANDO DE LATAS DE AÇO, OU OS MENINOS CARVOEIROS

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Comecemos com um pouco de poesia:

Os meninos carvoeiros
Passam a caminho da cidade.
— Eh, carvoero!
E vão tocando os animais com um relho enorme.

Os burros são magrinhos e velhos.
Cada um leva seis sacos de carvão de lenha.
A aniagem é toda remendada.
Os carvões caem…

Esses são os versos iniciais do antológico poema Meninos Carvoeiros, escrito em 1921 por um dos maiores poetas da história do Brasil – Manuel Bandeira.

Eu imagino que sua pergunta inicial é: o que tem a ver latas com meninos carvoeiros? Muita coisa – vou explicar:

Existe uma extensa faixa à leste do território do Estado de Minas Gerais (faixa existente também em estados da região Nordeste) conhecida por Zona da Mata – ironicamente, você vai ter de viajar por muitos e muitos quilômetros nessa região para conseguir avistar alguns fragmentos florestais remanescentes da antiga mata, a Mata Atlântica. E por que isso?

O Brasil, apesar de possuir algumas das maiores reservas de minerais ferrosos do mundo, é extremamente pobre em carvão mineral. Esse mineral, fundamental para a operação dos altos-fornos das empresas metalúrgicas e siderúrgicas, só é encontrado em minas na região sul do país, particularmente em Santa Catarina. Esse carvão brasileiro é de baixa qualidade, com baixo poder calórico e quantidade de elevada cinza – mais da metade do carvão mineral usado aqui no Brasil é importado.

Desde o início da atividade mineradora, com destaque ao ciclo do ouro nos séculos XVII e XVIII, o carvão vegetal foi o combustível que ardeu nos fornos, transformando os minerais extraídos do chão em metais – do cobiçado ouro ao ordinário ferro do dia a dia da população. E foram as árvores dos antigos domínios da Mata Atlântica que foram derrubadas e transformadas no carvão que alimentou ininterruptamente as fornalhas insaciáveis dos fornos mineiros. Respondendo ao mistério do desaparecimento da Mata: virou carvão.

Apesar de todos os esforços que são feitos até hoje pelo uso de carvão vegetal de florestas plantadas de eucaliptos, são muitas as pequenas produtoras de ferro gusa (ferro pré processado que vai para as grandes siderúrgicas) que ainda fazem vista grossa e compram o produto de carvoarias familiares que usam árvores derrubadas dos fragmentos florestais que teimam em sobreviver. Com a escassez cada vez maior de matas, são as folclóricas veredas (tipo de formação vegetal do Cerrado encontrada nas florestas de galeria), dos textos de Guimarães Rosas, que estão nos fornos carvoeiros dos sertões do norte das Minas Gerais a arder nos dias de hoje. E como é difícil separar o meio ambiente dos meios econômico e social, essas carvoarias clandestinas utilizam da mão de obra infantil, transformando o delito ambiental num crime completo: “Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligencia punindo na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais (Artigo 5 da Lei nº, 8.069/90, de 13 de julho de 1990 – Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA).”

Se você pesquisar os gráficos que mostram a evolução dos índices de desmatamento em Minas Gerais, vai perceber um intenso crescimento a partir de meados da década de 1950 – o início da produção dos automóveis do Brasil também foi um marco do início do fim da Zona da Mata mineira. Os fornos arderam dia e noite para produzir o ferro gusa, matéria prima básica para a produção do cobiçado aço, que por fim seria transformado em carros, caminhões, eletrodomésticos, panelas, talheres e também nas singelas latas, embalagens das mais comuns do nosso cotidiano.

Nas Minas Gerais de hoje, talvez pela falta de matas ou pelo controle cada vez maior das autoridades, é cada vez menos frequente o uso de carvão vegetal clandestino; infelizmente, nos Estados do Maranhão e do Pará, o uso deste tipo de carvão é crescente, alimentando as grandes siderúrgicas que foram instaladas na região. Mas há um grande diferencial – lá se queimam árvores da Floresta Amazônica. E no encalço de um crime seguem-se todos os outros, especialmente o uso de crianças nos trabalhos insalubres das carvoarias.

Continuaremos a falar das latas nos próximos posts.

PS: Para nossa tristeza, pouco tempo após a conclusão deste texto, foi divulgada a morte do maior poeta do Brasil contemporâneo : Ferreira Gullar. RIP

A VÁRZEA E AS ENCHENTES

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Águas pluviais, enchentes, avenidas de fundo de vale, canalizações mal planejadas e ocupação irresponsável das várzeas de rios e córregos foram temas exaustivamente abordados aqui. Nesse momento em que grande parte do nosso país está entrando na época das temidas chuvas de verão, é sempre bom relembrar esse assunto.

Essa ilustração resume de forma brilhante e didática tudo o que foi dito aqui – uma imagem vale muito mais que 1.000 palavras!

POLÍMERO SUPERABSORVENTE, OU UM TAL DE FLOC GEL

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No final da década de 1970 foi desenvolvido um polímero superabsorvente, com capacidade de absorver até 800 vezes o seu peso em água – o nome deste “milagre da química”: poliacrilato de sódio ou floc gel, um nome bem conhecido por todos nós. Um material com essas características não tardou a encontrar as mais diferentes aplicações práticas, com destaque em produtos de higiene como fraldas infantis e geriátricas e em absorventes femininos, além de aplicações na agricultura e na área de segurança ambiental; em anos mais recentes o floc gel conquistou sua participação no mercado dos animais de estimação, em fraldas e tapetes higiênicos para os pets.

A tecnologia de fabricação dos produtos de higiene a base de floc gel é basicamente a mesma: uma camada exterior de polietileno sintético, que é um derivado de petróleo, e uma camada interna de papel de alta absorção recheado com floc gel; o liquido atravessa a camada de polietileno, que é totalmente perfurada, sendo rapidamente absorvido pelo papel e armazenado a seguir pelo floc gel. O mecanismo de absorção do floc gel é a osmose – relembrando as aulas de química: a pressão osmótica faz o poliacrilato de sódio absorver o líquido para equilibrar a concentração de íons sódio dentro e fora do polímero.

Apesar de toda a praticidade e segurança contra os vazamentos, os produtos com floc gel representam um grande problema ambiental – diferente do papel higiênico, feito com papel extremamente macio e de rápida desintegração, o tempo de decomposição de qualquer produto com floc gel na natureza é calculado em 500 anos.

Uma única criança, entre o nascimento e a fase onde não precisará mais usar o “acessório”, poderá utilizar até 3.000 fraldas, o que vai resultar em um volume de resíduos a ser descartado de 120 quilogramas de polietileno e entre 200 e 400 quilogramas de pasta de papel com floc gel; temos que considerar também que a mãe e outras mulheres da casa utilizarão e descartarão quantidades de absorventes higiênicos – havendo animais de estimação na residência, haverá também o descarte de fraldas e/ou tapetes higiênicos.

Além de representar uma fatia considerável do volume total de resíduos sólidos, os produtos higiênicos com floc gel apresentam um complicador a mais – não existem tecnologias de reciclagem destes produtos disponíveis aqui no Brasil; na Inglaterra, por exemplo, já existe uma usina especializada na reciclagem destes produtos e o governo britânico está construindo mais três usinas estrategicamente distribuídas no território. Os diferentes materiais são separados, lavados e processados, fornecendo matéria prima para a fabricação de telhas e capacetes para ciclistas entre outros produtos. Segundo informações publicadas pela BBC – British Broadcasting Corporation, emissora pública de rádio e televisão do Reino Unido, o custo de cada uma destas usinas é US$ 17 milhões. 

Aqui no Brasil, por falta de instalações similares e pela falta total de planos para a construção das mesmas, o destino dos resíduos com floc gel são os aterros e lixões, condenados à sina da acumulação sem fim de resíduos, até que as leis da física cobrem o seu preço e se atinjam os níveis de saturação.

Quando alguém se acostuma com a praticidade e higiene ímpar proporcionada pelas fraldas, absorventes e demais produtos que utilizam o mágico “pó de pirlimpimpim” que faz os líquidos sumirem, é difícil imaginar um retorno para as fraldas laváveis de algodão ou, pior ainda, para os paninhos ou toalhinhas que as mulheres do passado eram obrigadas a usar durante seus ciclos menstruais. Existem algumas opções de produtos “sustentáveis” que utilizam papéis e plásticos biodegradáveis, o que resolve em parte o problema.

Quando consideramos os volumes de recursos desviados dos orçamentos públicos em todos os níveis, mostrados dia após dia nas manchetes dos jornais e telejornais, fatos que nos enchem de indignação, verificamos que nosso país teria plenas condições de implantar algumas destas usinas de reciclagem de resíduos com floc gel, o que garantiria uma sobrevida importante a muitos aterros que estão em vias de saturação.

Que essas informações ajudem de alguma forma na nossa busca por soluções para esses resíduos. Até mais ver!

A RECICLAGEM DO PAPEL

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Quem acompanhou a sequência de posts em que tratei dos problemas ambientais ligados à produção do papel deve ter percebido que existe um custo ambiental que nem sempre é divulgado pelas empresas fabricantes. A implantação de grandes plantações de pinus e eucalipto causa impactos ao meio ambiente e problemas sociais nas comunidades vizinhas; os vazamentos de caulim, matéria prima usada na fabricação do papel, poluem os igarapés e afetam o abastecimento de água das populações ribeirinhas; os processos de fabricação da celulose e do papel geram rejeitos com alto potencial de contaminação do meio ambiente – mostramos o rompimento de uma barragem de rejeitos na cidade de Cataguases em Minas Gerais. Também mostramos que a produção do papel consome muitos recursos: cada tonelada de papel gasta 100 mil litros de água, 5 mil KW/h de energia e gera 800 kg de resíduos.

Falar em reciclagem do papel é, portanto, um caminho natural com perspectivas de grande economia de recursos naturais, redução dos impactos ambientais e minimização dos impactos sociais.

Segundo dados do Green Peace, conceituada organização internacional de proteção ao meio ambiente, a reciclagem de papel é altamente positiva, com ótimos resultados na redução da poluição gerada pelas indústrias de papel e celulose, resultando também em maior lucratividade no processo produtivo:  redução de 74% da poluição do ar e de 35% da poluição da água, além de uma redução dos gastos operacionais em 64%

Dados do IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas, demonstram que a reciclagem do papel possibilita uma redução de 50% no consumo de energia do processo. A reciclagem de 500 mil toneladas de papel, por exemplo, proporciona uma economia de 40 mil toneladas de petróleo. No Brasil, o índice de reciclagem do papel corresponde a 30,3% do total produzido, sendo 80% da produção destinada aos papéis de embalagem, 18% para a produção de papel sanitário (papel higiênico, guardanapos e papel toalha absorvente) e 2% para papéis de impressão.

Os índices de reciclagem do papel no Brasil são bem inferiores quando comparados aos índices de outros países, mais preocupados com a questão do meio ambiente, como por exemplo Canadá, Alemanha, Reino Unido e também de países com fontes limitadas de recursos naturais como Japão, Taiwan e Coréia do Sul. Observe alguns dados comparativos da reciclagem de papel entre alguns países.

País / Índice de Reciclagem (Volume em milhares de toneladas e percentual)

Japão: 29 mil tons – 52,6%

Canadá: 16 mil tons – 52,6%

China: 14,8 mil tons – 32,4%

Alemanha: 12,7 mil tons – 50,3%

França: 7,3 mil tons – 45,9%

Reino Unido: 4,9 mil tons – 59,6%

Coréia do Sul: 4,9 mil tons – 73,3%

Brasil: 4,8 mil tons – 30,3%

Taiwan: 3,7 mil tons – 95,6%

Observem o índice de reciclagem de papel de Taiwan, uma ilha na costa da China com área pouco superior a uma vez e meia a área do Estado de Sergipe, que consegue reciclar mais de 95% dos papéis utilizados pela população, índice três vezes maior que no Brasil.

A reciclagem do papel começa com a separação nas residências, escolas, comércios e indústrias, quando os resíduos são segregados de outros materiais contaminantes como os resíduos orgânicos.  Em cooperativas de reciclagem, os resíduos passam por um processo de triagem, onde são separados em diferentes categorias e encaminhados para reprocessamento e uso como matéria prima nas indústrias. O papel de jornais, por exemplo, pode ter até 80% das suas fibras recuperadas e reutilizadas na produção de papel novo.

A reciclagem do papel e dos demais resíduos gerados por nossa sociedade esbarram em problemas de toda ordem, a começar pela falta de compromisso dos cidadãos com a separação dos resíduos e com a falta e/ou pequena escala de coleta seletiva nos serviços públicos das nossas cidades. Porém, como demonstrado no exemplo do papel, os impactos dos resíduos sólidos começam bem antes de sua produção, quando as empresas retiram ou processam as matérias primas a partir do meio natural – cada tonelada de resíduos reciclados corresponde a uma economia de várias toneladas de matérias primas, com ganhos econômicos, ambientais e sociais para todos envolvidos.

Continuamos no próximo post.