AS TEMPESTADES QUE ASSOLAM MINAS GERAIS

Chuvas em Belo Horizonte

Depois de tantas postagens sobre os problemas criados pela forte estiagem em diversos Estados, começamos a receber notícias que falam das fortes tempestades que vem assolando várias regiões de Minas Gerais. Em um país de dimensões continentais como o nosso, encontramos algumas regiões onde não cai uma única gota de chuva há vários meses e, em outras, é o excesso de água das chuvas quem está causando aflição na população.

Na capital do Estado, Belo Horizonte, o volume de chuvas nestes primeiros dias do mês de dezembro equivale praticamente a previsão para todo o mês – na região Oeste da capital, choveu o equivalente a 292 mm nos primeiros 4 dias do mês, o que corresponde a 91% da previsão para o mês de dezembro; já na região Noroeste da cidade, o volume de chuvas registrado no mesmo período atingiu a marca de 80% do previsto para o mês. A média de chuvas histórica em Belo Horizonte para o mês de dezembro é de 319,4 mm. A forte intensidade das chuvas num período tão curto de tempo colocou a cidade inteira em estado de alerta – a Defesa Civil Municipal registrou, até o dia 5 de dezembro, um total de 319 ocorrências relativas a alagamentos, deslizamentos de encostas, erosão, desabamentos de muros e quedas de árvores.

A chegada das chuvas de Verão volta a expor um antigo problema das cidades brasileiras – a falta de uma infraestrutura adequada para dar vazão aos intensos volumes de chuvas: estou falando, é claro, da famosa Rede de Drenagem de Águas Pluviais, sistema que muita gente, inclusive autoridades dos Governos, costuma confundir com as Redes Coletoras de Esgotos. Na capital mineira existem, pelo menos, 700 km de rios e córregos que formam a rede de drenagem natural da cidade – essa rede é o resultado de todo um processo de erosão natural desenvolvido ao longo de milhões de anos e que deu à região onde encontramos a cidade de Belo Horizonte as suas feições de relevo. Durante muitos milhares de anos, essa região esteve coberta por matas e outros sistemas vegetais, que absorviam boa parte da água das chuvas e que também controlavam a velocidade que a água chegava até os corpos d’água – os rios e córregos da região acabaram sendo moldados para receber as águas das chuvas dentro destas condições. Quando construímos as nossa cidades, gradativamente passamos a cortar a vegetação nativa e em seu lugar construímos casas, prédios, ruas e avenidas pavimentadas, que alteram completamente a absorção de água pelo solo e também a velocidade das enxurradas; também canalizamos córregos e urbanizamos as margens dos rios para liberamos áreas para a construção de ruas e avenidas.

Completando o quadro da tragédia anunciada, transformamos os corpos d’água da cidade em pontos de descarte de lixo e entulhos – quando as chuvas de Verão chegam, falta espaço nos canais da rede de drenagem para o volume total das águas das chuvas – é exatamente este o problema que testemunhamos em Belo Horizonte nos últimos dias e que, com toda a certeza, vamos assistir nas grandes cidades brasileiras nos próximos meses: enchentes, desmoronamentos de casas, deslizamentos de morros, desabrigados e, infelizmente, muita gente morrendo afogada ou soterrada. No Estado de Minas Gerais, duas pessoas já morreram neste início de mês por causa das chuvas. De acordo informações da Defesa Civil Estadual, até o dia 5 de dezembro 80 pessoas estavam desalojadas, 12 desabrigadas; 4 casas foram destruídas e 181 foram danificadas pelas chuvas. As informações também citam danos em uma 1 hospital e em 4 escolas municipais.

As relações conflituosas entre as atividades humanas e as chuvas não se limitam apenas às áreas urbanas. Na agricultura, a remoção de grandes extensões de cobertura vegetal para a formação das culturas resulta em alterações nos volumes de absorção de água pelo solo e formação de grandes correntes de água: sem a proteção da vegetação que reduz a velocidade da correnteza, grandes volumes de solo agricultável são arrastados para os leitos dos rios, deixando um rastro de erosões e voçorocas pelo caminho. O assoreamento dos rios reduzirá cada vez mais a capacidade da sua calha em receber futuros excedentes de águas de chuva – a água avançará cada vez mais na direção das bordas das margens e produzirá cada vez maiores assoreamentos neste rio. Cria-se uma continuidade de problemas que crescem cada vez mais.

Nas cidades, é o crescimento desenfreado das construções em áreas cada vez mais problemáticas o que está interferindo cada vez mais na dinâmica das chuvas:

1. A ocupação cada vez maior de encostas de morros urbanos leva a remoção da cobertura vegetal e ao corte do solo para a construção de habitações. Os terrenos nestas regiões normalmente são mais baratos, o que tem empurrado as camadas mais pobres à sua ocupação (ou invasão). Períodos de chuva mais intensos saturam o solo com água, o que pode provocar sérios desmoronamentos, com alto risco para os moradores;

2. A impermeabilização do solo resultante da aplicação de imensas faixas de asfalto nas ruas, concretagem de calçadas e quintais, reduz drasticamente a absorção de água pelo solo e provoca a formação de fortes enxurradas, com enorme potencial de inundações;

3. Construções ocupam grandes extensões de solo e concentram nos seus telhados grandes volumes de água que descem velozmente por sistemas de calhas e se somam as volumosas enxurradas do solo;

4. Áreas de várzea, que originalmente absorviam os excedentes de águas nos períodos de chuva, foram aterradas para permitir o aumento da área disponível para as construções;

5. Margens de rios e córregos foram retificadas e urbanizadas, diminuindo a área de recepção das águas excedentes e, em muitos casos, diminuindo a velocidade da correnteza do curso d’água, e aumentando assim o tempo de drenagem das águas da chuva;

6. Restaram nas áreas urbanas poucas áreas verdes e remanescentes florestais com grande capacidade de absorção de água nos seus solos e pela vegetação.

As consequências dessa somatória de interferências humanas no meio ambiente urbano são enchentes cada vez maiores e mais frequentes nas cidades, deslizamentos de encostas de morros, prejuízos econômicos enormes e, tristemente, danos algumas vezes irreparáveis na saúde de populações inteiras, inclusive com situações de invalidez permanente ou morte dos mais desafortunados.

O que estamos assistindo nestes últimos dias em Belo Horizonte e em outras cidades do Estado de Minas Gerais é uma pequena demonstração do que vamos assistir ao longo deste novo período de chuvas que está apenas começando em parte do país. Muito melhor que sair culpando a natureza pela violência das chuvas, precisamos mesmo é refletir sobre nossas ações e as suas consequências no meio natural.

Lembrando mais uma vez do imortal dramaturgo e poeta alemão Bertold Brecht (1898-1956):

“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento.
Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”.

E como comprimimos e oprimimos as margens de tantos rios neste nosso país..

OS CANAVIAIS DE CASTELO, OU A QUEBRA NA PRODUÇÃO DE CACHAÇA NO PIAUÍ

Serra do Apiapaba

Na divisa entre os Estados do Ceará e do Piauí encontramos a Serra da Ibiapaba (vide foto) também chamada de Serra Grande, Chapada de Ibiapaba e Cuesta da Ibiapaba. A imensa massa rochosa domina o relevo de Norte a Sul, com altitudes médias de 750 metros. Na face nordeste da Serra, que fica voltada para a Depressão Cearense, o relevo é bastante íngreme, apresentando uma vegetação densa, considerada como um fragmento da Mata Atlântica. A região é uma zona de transição, apresentando micro biomas com características de Cerrado, Mata dos Cocais, Caatinga e também Floresta Amazônica. A fauna desta face da Serra é extremamente rica, apresentando uma variada diversidade de aves e mamíferos, incluindo onças-pardas, veados-campeiros e pacas. O ambiente físico é diferenciado também pelos altos índices pluviométricos, superiores a 2 mil mm/ano, os mais intensos do território cearense.

A face Oeste da Serra da Ibiapaba, que fica voltada para o Piauí, possui um declive suave e gradual, apresentando terras férteis e grande fartura de fontes e quedas de água. Uma cultura que se adaptou bem ao lado piauiense da Serra foi a cana-de-açúcar, o que levou ao desenvolvimento de polos de produção de açúcar, rapadura, mel de engenho e, principalmente, de cachaças artesanais de muito sucesso em toda a região. Uma das cidades com maior reputação na produção destas famosas cachaças é Castelo do Piauí.

Localizada a pouco mais de 180 km de Teresina, a cidade de Castelo possui uma população de pouco mais de 18 mil habitantes e muito poucos atrativos na zona urbana – porém quando se fala em cachaça, a cidade é uma referência regional de qualidade. A cidade possui diversas fábricas dedicadas à destilação da cachaça, sendo uma delas considerada uma das maiores do mundo neste ramo, com 80 alambiques de cobre para uso exclusivo na produção da bebida. A produção da cachaça é uma das atividades econômicas mais importantes para a economia local.

Pois bem – assim como aconteceu com a cultura do caju, com a criação de animais e a com produção de mel, atividades que apresentaram fortes quebras na produção devido à fortíssima estiagem que vem assolando toda a região do Semiárido desde 2011, as destilarias de Castelo do Piauí também estão apresentando fortes quebras na sua produção. Com a falta de chuvas, as fontes de água da Serra do Ibiapaba começaram a secar, afetando como nunca a produção dos canaviais – calcula-se que a quebra da safra de cana chegou aos 60%. Sem grandes volumes de cana para moer, a produção de cachaça despencou. Uma das fábricas da cidade, que já chegou a produzir 1 milhão de litros de cachaça em anos anteriores, este ano deve chegar a uma produção máxima de 600 mil litros. Se você, caro leitor, não gosta de cachaça assim como eu, provavelmente não sentirá os efeitos dessa redução na produção – entretanto, para alguns milhares de fãs das cachaças artesanais em todo o Nordeste, em especial no Piauí e no Ceará, isso é uma verdadeira tragédia!

Em 2016, por conta dos problemas criados pela seca em toda a região, a Prefeitura de Castelo do Piauí foi obrigada a cancelar a festa do Carnaval na cidade. Em outras regiões do Nordeste, especialmente em cidades das regiões do litoral, uma notícia destas provocaria uma verdadeira revolta popular. Em Castelo, a população aceitou o cancelamento com relativa naturalidade – a festa mais importante da cidade é a Cachaça Fest, que em 2017 será realizada nos últimos dias do mês de julho. Esta FESTA (em letras maiúsculas mesmo) costuma atrair um público diário de 40 mil pessoas, o que representa mais que o dobro da população da cidade, público que vem apreciar as famosas “cachaças artesanais descansadas em toneis de garapeira”, experimentar as comidas e os quitutes típicos da Serra da Ibiapaba e se divertir muito ao som de inúmeros grupos musicais de toda a região. A Cachaça Fest é o verdadeiro carnaval da cidade. Com as notícias da quebra da produção das industrias locais, há um temor generalizado pela não realização desta FESTA, não por falta de público, mas por falta de cachaça.

A Serra da Ibiapaba é uma região disputada – e olhem que não estou me referindo apenas aos turistas e “cachaceiros” de plantão. Os Estados do Piauí e do Ceará disputam o controle da região, literalmente, há séculos.

Com aproximadamente 3 mil km², o que corresponde a quase três vezes o tamanho do município de São Paulo, a Serra do Ibiapaba está envolvida em uma disputa fronteiriça desde os tempos do Império. Um decreto assinado pelo Imperador Dom Pedro I, que tentava arbitrar uma solução para a antiga disputa, transferiu uma área na região do litoral do Ceará para o Piauí – em contrapartida, o Ceará recebeu do Piauí uma área equivalente na região do Semiárido. Porém, a questão não foi completamente resolvida – os dois Estados tem interesse mesmo é nas terras férteis e de clima ameno da Serra da Ibiapaba. Quase que totalmente cercada por regiões secas e de clima Semiárido, a Serra da Ibiapaba é uma verdadeira ilha verdejante: a questão agora está nas mãos do STF – Supremo Tribunal Federal e serão necessários muitos anos e muitas negociações para que os dois Estados consigam chegar a um acordo.

O relevo da Serra do Ibiapaba é do tipo Cuesta, uma formação que normalmente ocorre nos limites de bacias sedimentares. Cuesta é a definição geomorfológica usada para se nomear uma elevação ou serra com um cume assimétrico e com inclinação longa e suave. Com altitudes médias de 700 metros, esta Serra intercepta as massas de ar carregadas de umidade que vem do litoral. A umidade é direcionada para o alto dos morros, onde ocorre a condensação do vapor e a formação das chamadas chuvas orográficas ou chuvas de relevo. Conforme já comentamos, os índices de pluviosidade da Serra da Ibiapaba são bastante altos para uma região no meio do Semiárido e são as águas destas chuvas que alimentam os aquíferos, garantindo, em épocas normais, uma grande disponibilidade de fontes de água, elemento essencial para a produção agrícola em todas as terras de entorno da Serra. Com o agravamento da estiagem iniciada ainda em 2011, as massas de ar úmido vindas do litoral foram se tornando cada vez mais raras – sem as chuvas no alto da Serra, os aquíferos foram secando gradativamente e, sem as preciosas fontes de água do Ibiapaba, todas as culturas ficaram comprometidas – flores, frutas e, em especial, as lavouras de cana-de-açúcar de Castelo do Piauí. Por fim, é a produção de cachaça que fica abalada pela falta de matéria-prima.

Como eu venho comentando em minhas últimas publicações, a seca, além do drama que produz na vida de pessoas, animais e plantas pela falta de água – o elemento mais fundamental para a vida, compromete e desorganiza toda a economia da região do Semiárido, criando problemas que durarão muito mais tempo do que a falta de água.

ATÉ AS ABELHAS, QUEM DIRIA, ESTÃO SOFRENDO COM A SECA

Abelhas

Em minha última postagem, tratei do sério problema da redução dos rebanhos animais em todo o Nordeste em consequência da forte estiagem que assola a região desde 2011. Essa redução é mais visível nos rebanhos bovinos, mas ela está afetando outras criações como cabras, ovelhas, porcos, cavalos e aves. Sem pastagens ou culturas que possam ser transformadas em ração para os animais e, especialmente, a presença de água fresca para a dessedentação, milhares de animais morreram nas áreas rurais; produtores que conseguiram salvar seus rebanhos, venderam os animais pelos melhores preços possíveis e não renovaram os rebanhos por falta de condições para a sobrevivência e a engorda dos animais.

Além destes grupos de animais domésticos mais vistosos, existem algumas espécies mais difíceis de se visualizar, que também têm enfrentado imensas dificuldades para sobreviver em meio ao ambiente extremamente seco do Semiárido – estou falando das abelhas melíferas, incansáveis trabalhadoras e produtoras do valioso mel. A intensa seca transformou grandes áreas da Caatinga em um emaranhado de galhos secos e sem flores, privando as abelhas da coleta do precioso pólen, matéria-prima da produção do mel. Outro problema causado pela estiagem é a falta de sombreamento das colmeias, que expostas ao calor intenso acabaram transformadas em pequenos fornos, o que matou ou expulsou grande parte dos enxames.

A produção de mel em regiões do Semiárido nordestino é uma atividade relativamente recente, que ganhou um grande impulso a partir do ano 2000, tendo se consolidado como uma importante fonte de renda adicional para pequenos produtores rurais. As características únicas da flora selvagem nordestina garantem a produção de um mel de excelente qualidade, com mercado garantido em todo o mundo. Diferente de outras regiões produtoras, as áreas do Semiárido estão livres dos poluentes gerados pelos pesticidas largamente utilizados na agricultura moderna, o que possibilita a produção de um mel livre de resíduos de agrotóxicos; a região também apresenta baixíssimos níveis de resíduos de antibióticos, normalmente presentes nos efluentes domésticos das grandes cidades. O clima seco da região também é um diferencial importante – a baixa umidade do ar dificulta o aparecimento de doenças nas abelhas, dispensando a necessidade do uso de medicamentos.

Do ponto de vista ambiental, a produção de mel é uma atividade altamente sustentável – as abelhas retiram o pólen das flores da vegetação nativa, sem causar qualquer tipo de dano, mas ao contrário, contribuem no processo de polinização, que é fundamental para a reprodução das plantas. Apesar da Caatinga nordestina ser um dos biomas brasileiros menos estudado, especialistas calculam que mais de 50% da vegetação original já foi destruída desde os tempos da colonização do país – logo, o desenvolvimento de atividades econômicas que permitam a preservação das matas nativas remanescentes, como ocorre com a apicultura, é algo sempre muito bem-vindo.

Entre os anos de 2006 e 2010, a região Nordeste passou a ocupar o posto de maior produtora nacional de mel, respondendo por um terço da produção brasileira – em 2011, a região teve um pico de produção, atingindo 40,4% de todo o mel produzido no Brasil. Em 2012, por conta da estiagem que começou a assolar toda a região do Semiárido, a produção do Nordeste sofreu uma quebra de 50%, caindo de 16,9 mil toneladas para 7,7 mil toneladas. A região Sul retomou a liderança na produção, chegando a responder por mais de 50% da produção nacional de mel, enquanto que a participação do Nordeste foi reduzida para 21,3%. Em Estados como Pernambuco e Piauí, a quebra na produção chegou a 70%. O Ceará, o maior produtor de mel do Nordeste, sofreu intensamente com a redução da produção: de acordo com a FECAP – Federação Cearense de Apicultores, houve uma redução progressiva na produção de mel no Estado entre 2012 e 2017 correspondente a 45%.

O maior produtor mundial de mel é a China, com uma participação total de 31,4%. Apesar do preço altamente competitivo, a qualidade do mel chinês é bastante contestada pelos países mais desenvolvidos, especialmente da Europa, onde os testes de segurança alimentar encontraram altos índices de contaminação por resíduos de inseticidas e antibióticos. Outro problema, que inclui o mel de outros países do extremo oriente, é a adição de “mel falsificado”, produzido a partir do açúcar. A Argentina, ao contrário, é reconhecida como produtora de um mel de excelente qualidade. O país é o segundo maior exportador mundial do produto, vendendo 90% de toda a sua produção no mercado internacional. Apesar da alta qualidade do produto, a produção argentina sofreu fortes perdas nos últimos anos devido a diversos fatores climáticos. A produtividade média em muitas regiões caiu de valores entre 40 e 50 kg por colmeia para 15 a 20 kg por colmeia.

Além destas dificuldades com grandes produtores como a China e a Argentina, o mercado mundial de mel vem enfrentando um gravíssimo problema: tem se observado uma redução global da produtividade em decorrência da morte de grandes quantidades de abelhas. Ainda não existe um consenso científico sofre as causas desta mortandade de abelhas, mas as maiores suspeitas recaem no uso indiscriminado de agrotóxicos por produtores rurais de todo o mundo, além de problemas ambientais criados por mudanças climáticas regionais.

Existem mais de 20 mil espécies de abelhas conhecidas e calcula-se que o número de espécies não descritas pela ciência chegue a 40 mil espécies. Deste total, apenas 2% são espécies de abelhas sociais e produtoras de mel. As abelhas melíferas do gênero Apis mellifera (abelhas europeias) são as mais conhecidas e difundidas entre os apicultores de todo o mundo. O mel é utilizado como alimento pela humanidade desde tempos imemoriais. Os povos primitivos utilizavam técnicas altamente predatórias para a coleta do mel, o que normalmente culminava com a morte das abelhas das colmeias. Ao longo de vários milênios, as técnicas de produção e de coleta do mel foram se desenvolvendo até chegar às técnicas de produção atuais, altamente sustentáveis e produtivas.

Até o desenvolvimento das técnicas de refino do açúcar, o mel era utilizado como adoçante de bebidas e de alimentos, entre outros usos, por povos de todo o mundo. Também eram inúmeros os usos do mel na medicina, que incluiam também seus subprodutos – o própolis, a geleia real e a cera. Os antigos povos da Grécia, do Leste europeu, do Norte da Europa e, especialmente, da Escandinávia tinham um uso mais “nobre” para o mel – fermentando uma mistura de mel com água e levedura se obtinha o hidromel, uma bebida alcoólica forte (alguns tipos podem chegar a uma graduação alcoólica de 20%), que ajudava a suportar as noites frias do inverno.

A redução da produção mundial cria enormes possibilidades para os produtores de mel de alta qualidade como os da região Nordeste do Brasil. Infelizmente, a prolongada estiagem em todo o Semiárido vem provocando grandes perdas na produção local, o que é uma grande pena: com o produto altamente valorizado no mercado internacional, era a hora certa destes produtores fazerem um bom pé-de-meia e reinvestirem os lucros no aumento e melhoria da produção…

Mesmo com o fim do longo período de estiagem no Nordeste, que todos nós esperamos ansiosamente, a recuperação da apicultura na região não será nada fácil, uma vez que muitos produtores terão de recomeçar do zero. O lado positivo (temos de ser otimistas) é que o produto nordestino tem alta aceitação e valorização no mercado mundial, com muito espaço para crescer e se diversificar – além do mel tradicional, há grande demanda por mel orgânico e pelos subprodutos como própolis e a geleia real, que agregam grande valor à cadeia produtiva.

Que venham as abelhas do sertão!

A REDUÇÃO DOS REBANHOS NO NORDESTE POR CAUSA DA SECA

Morte de gabo por causa da seca

Na semana passada foi divulgado um relatório do Banco Central do Brasil confirmando que houve um pequeno crescimento da economia do país no 3º trimestre de 2017 – 0,1% de crescimento. Apesar de muito pequeno, esse crescimento se junta ao crescimento do 1º e do 2º trimestre do ano, confirmando que saímos de uma profunda recessão vivida nos anos de 2015 e de 2016. Olhando com maior cuidado os números, perceberemos facilmente que a situação econômica do país só não foi pior nos últimos anos devido ao crescimento dos setores ligados ao agronegócio, que apresentou um crescimento próximo de 3% em 2016 e em 2017 deve fechar com 2% de expansão. Segundo dados da CNA – Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, o setor agropecuário é responsável por aproximadamente 4% das exportações totais do Brasil.

O sucesso do agronegócio no Brasil se deve, em particular, às atividades agrícolas e pecuárias desenvolvidas na região Centro -Oeste, assim como no Sul e no Sudeste do país. Todo este sucesso e estes números acabam escondendo um grave problema que vem crescendo desde o ano de 2011 – a forte estiagem que assola a região Nordeste vem provocando uma redução sistemática dos rebanhos de animais, especialmente de bovinos. Enquanto em 2016, o efetivo nacional de bovinos atingia a marca de 218 milhões de cabeças, indicando forte crescimento nas regiões Centro-Oeste e Norte, além de pequenas altas nas regiões Sul e Sudestena região Nordeste, ao contrário, foi registrada uma queda de 2,1% e as razões são bem conhecidas: falta de pastagens e de água para os animais. A redução dos rebanhos de pequenos animais – especialmente de ovinos e caprinos, foi menor porque estes animais conseguem se adaptar melhor ao clima do Semiárido. Somente no ano de 2012, no início do período da estiagem, o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, apontou uma perda de 4 milhões de animais em toda a região Nordeste. Além da morte de imensa quantidade de cabeças por fome e sede, os números demonstram que não houve a reposição de animais aos rebanhos e que os produtores da região sofreram enormes prejuízos financeiros: o preço de venda dos animais se dá em função do peso, onde a cotação é feita em arrobas (equivalente a 15 kg) – boi magro (como se diz na pecuária) vale muito pouco. Um exemplo desta perda é o município de Itapetinga, na Bahia, onde a redução do rebanho bovino foi de aproximadamente 24,5%.

A pecuária, desde os primeiros tempos da povoação do interior da região Nordeste, é uma das atividades econômicas mais importantes, praticada especialmente em pequenas propriedades rurais. Diferente da pecuária comercial em larga escala, particularmente aquela praticada intensivamente na região Centro-Oeste em grande fazendas, nos sertões do Nordeste a pecuária é uma atividade essencialmente familiar e extensiva, onde pequenos rebanhos garantem o sustento das famílias. Os impactos negativos da forte estiagem sobre os rebanhos e, de quebra, sobre a produção agrícola de subsistência destas famílias, é fatal para a sobrevivência destas populações.

Os problemas socioambientais da região Nordeste, tema ao qual dediquei alguns anos de estudo, têm origens que estão diretamente ligadas a problemas climáticos sazonais e naturais, mas também apresentam muitos problemas derivados da ações humanas durante a ocupação de extensas áreas do Semiárido – o avanço das boiadas pelos sertões, tema sobre o qual já escrevi em postagens anterior, está na raiz dos problemas vividos pelas populações nos tempos atuais.

Os bois chegaram junto com as primeiras mudas de cana-de-açúcar ao Brasil, nas mesmas naus que trouxeram os primeiros colonizadores da terra. Em um dos meus textos sobre o tema, descrevi assim o momento dessa chegada:

“Os ventos alísios sopram com força o velame da nau; o madeiramento range de popa a proa e vibra à medida que avança rumo à costa. As folhas verdes dos chuços de cana-de-açúcar plantados nas caixas de madeira vibram intensamente, como se soubessem que estão próximos de sua nova morada. Em breve, os diferentes tons de verde da Mata Atlântica sucumbirão ao monótono verde folha da cana-de-açúcar. Grandes clareiras no meio da mata, onde outrora imperava o pau-brasil, estão com os sulcos já arados à espera da saccharum officinarum.

Em outras naus da frota é o gado vacum que se agita, talvez sentindo o cheiro da relva fresca que se aproxima. Trazido das ilhas d’além mar, será sua força bruta que dará vida às moendas fazedoras do valioso açúcar, suas pernas fortes puxarão os carros carregados de cana e, por fim, sua carne saborosa é que vai saciar a fome dos implacáveis colonizadores…

O boi e a cana-de-açúcar são dois lados de uma mesma moeda, que foi lançada pela mão do colonizador a fim de determinar os destinos de nossa terra. São elementos complementares de uma mesma paisagem, onde a existência de um está intimamente ligada ao outro.”

A relação de boa vizinhança entre os rebanhos e as plantações de cana não durou muito tempo: os famintos bois não resistiam à tentação de extensos campos cobertos com suculentos brotos de cana-de-açúcar: não tardou até surgirem leis proibindo a criação de boias a menos de 60 km dos canaviais. O açúcar expulsou as boiadas do litoral e os sertões do Semiárido passaram a ser o hábitat de sertanejos e de suas boiadas – o resto virou história.

A maioria das cidades de todo o interior do Nordeste têm sua origem ligada, direta ou indiretamente, às estradas boiadeiras, através das quais os criadores conduziam seus rebanhos na direção dos mercados consumidores, primeiro na zona canavieira do litoral nordestino, depois em direção aos polos de mineração de ouro na direção das Minas Gerais, isso a partir do século XVIII. A economia de toda a região do Semiárido, desde os primeiros tempos da colonização, sempre teve a pecuária como uma das suas atividades mais antigas e importantes. Muitos dos problemas ambientais que a região apresenta nos dias de hoje, estão ligados diretamente ao aumento das áreas de pastagens para o suporte de todas estas boiadas – grandes áreas de vegetação de Caatinga foram queimadas ao longo dos últimos séculos para a expansão dos campos de gramíneas para a formação de pastagens para as boiadas.

Teorias preservacionistas a parte, o momento vivido pelo produtores rurais de todo o Semiárido por causa da rigorosa estiagem são preocupantes. Sem condições de produzir e gerar o sustento de suas famílias, os pequenos produtores passam a ficar dependentes dos diversos programas assistenciais dos Governos, além de depender em muitos casos da distribuição de água através dos caminhões pipa, um tema que tratamos em publicações recentes. Essa dependência pode levar a toda uma série de consequências, que vão desde a formação dos conhecidos “currais eleitorais”, onde as populações acabam reféns de grupos políticos que tudo fazem para manter o poder político regional (as famosas oligarquias políticas) até ao abandono do campo por muitas famílias, que migram rumo a um futuro incerto nas grandes cidades ou em campos de outras regiões – a região Centro-Oeste, inclusive, tem se tornado o rumo de muito migrantes nordestinos nos últimos anos.

Os impactos socioambientais negativos criados com o intenso povoamento de todo o Semiárido nordestino, que é a região semiárida mais densamente povoada de todo o mundo, são irreversíveis – e a expansão dos rebanhos bovinos pelos sertões contribuiu fortemente para estes impactos. O “estrago” já está feito e temos uma população de mais de 24 milhões de habitantes vivendo na região do Semiárido, o que corresponde a 12% de toda a população brasileira – não é mais possível que toda essa população continue a depender dos caprichos do clima para tocar as suas vidas e suas atividades econômicas.

É preciso que se façam investimentos sérios e consistentes em culturas agrícolas adaptadas adequadamente ao clima dos sertões – a exemplo dos cajueiros anões-precoces que tratei recentemente em uma postagem. Outro exemplo que pode ser citado é a criação de ovinos e caprinos, animais que se adaptam muito bem aos climas semiáridos, e que bem gerenciados (a sobrecarga destes animais em áreas pequenas pode levar a processos de desertificação) podem ser uma alternativa econômica à criação de bovinos.

STF PROIBE O USO DO AMIANTO NO BRASIL, OU VIVA!

Telha de Amianto.png

Na última quarta-feira, dia 29 de novembro, o STF – Supremo Tribunal Federal, proibiu, através da expressiva votação de 7 votos a favor e 2 contra, a extração, a industrialização, a comercialização e a distribuição do amianto do tipo crisotila, matéria-prima muito utilizada na fabricação de telhas leves e caixas d’água. Em 1995 havia sido aprovada a Lei Federal N° 9.055, diga-se de passagem com forte lobby da indústria do amianto, que permitia o uso “controlado” da matéria-prima – a decisão do STF declarou que um dos artigos desta lei é inconstitucional e proíbe em definitivo o uso do amianto no Brasil. A partir de agora, o Brasil se junta ao seleto grupo de mais de 60 países que tem legislação que proíbe o processamento, a venda e o uso desta matéria-prima e de qualquer um dos seus produtos.

Quem lida com saneamento básico e recursos hídricos comemora esta decisão. Deixem-me explicar o que ela vai significar na sua vida:

O amianto é uma fibra mineral que sempre teve largo uso em aplicações industriais devido às suas características físicas: resistência a altas temperaturas, flexibilidade, resistência ao ataque de ácidos, isolamento elétrico e acústico e, principalmente, baixo custo. Ao longo do século XX, o amianto chegou a ser considerado um “mineral mágico”. Durante décadas, produtos fabricados em cimento amianto (massa com cimento e fibras de amianto) foi destaque na construção civil, especialmente nas construções populares, encontrado em materiais como placas, telhas, forros, pisos e caixas d’água.

Com o passar dos anos, estudos começaram a associar a intoxicação por fibras do amianto a uma série de doenças observadas entre trabalhadores da construção civil, mineiros e mecânicos, que tinham contato direto com o mineral. Se inaladas ou ingeridas, estas fibras estimulam mutações celulares no organismo, que podem originar tumores cancerígenos nos pulmões e em outros órgãos. A OMS – Organização Mundial da Saúde, afirma que cerca de 100 mil pessoas morrem por ano devido à doenças causadas pelo amianto e materiais que utilizam o mineral foram proibidos em mais de 60 países. O Brasil, ao contrário, permanecia como um dos cinco maiores utilizadores e exportadores de produtos com amianto do mundo.

De acordo com informações do INCA – Instituto Nacional do Câncer, as principais doenças relacionadas ao amianto são:

Asbestose: causada pela deposição de fibras de amianto nos alvéolos pulmonares, provocando uma reação inflamatória, fibrose e rigidez, reduzindo a capacidade de realizar a troca gasosa e da capacidade respiratória, levando à incapacidade para o trabalho;

Câncer de pulmão: O câncer de pulmão pode estar associado com outras manifestações mórbidas como asbestose;

Câncer de laringe, do trato digestivo e de ovário: Também estão relacionados à exposição ao amianto;

Mesotelioma: é uma forma rara de tumor maligno, mais comumente atingindo a pleura, membrana serosa que reveste o pulmão, mas também incidindo sobre o peritônio, pericárdio, a túnica vaginal e bolsa escrotal.

Devido a toxicidade deste material, a venda de produtos com amianto na sua composição foi proibida na cidade de São Paulo em 2001 e no Estado de São Paulo em 2007. Em outros 5 estados o amianto também foi proibido: Espírito Santo, Mato Grosso, Pernambuco, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. No Mato Grosso do Sul a lei existente foi revogada pelo STF – Supremo Tribunal Federal, que considerou que houve invasão da competência da União. No Pará, as leis aprovadas na Assembleia Legislativa não foram sancionadas pelos sucessivos governadores e a população continuou exposta aos riscos.

Apesar da proibição da venda de produtos a base de cimento amianto e amianto nestes 6 estados, existem milhões de residências que ainda continuaram utilizando telhas, forros, pisos, caixas d’água entre outros produtos fabricados com este material. Uma outra família de produtos muito comum que utiliza o amianto são as pastilhas e sapatas de freios utilizadas em carros, ônibus e caminhões. Este uso coloca diretamente em risco a saúde dos mecânicos que trocam as peças nos veículos e, indiretamente toda a população – conforme ocorre o desgaste das pastilhas e sapatas durante as frenagens dos veículos, partículas de amianto são liberadas na atmosfera, formando o que se chama de poluição do ar por material particulado; combinada com outras partículas e gases, essa poluição atinge toda a população, sendo inalada junto com o ar a cada respiração – imagine você a quantidade de partículas de amianto que pode ser encontrada na atmosfera de uma grande cidade: vou citar a minha cidade, São Paulo, onde o uso de produtos com este material é proibido desde 2001 (no Estado de São Paulo desde 2007), mas que recebe centenas de milhares de veículos de outros Estados dia após dia e que têm esses dispositivos fabricados com amianto instalados em seus sistemas de frenagem.

Nas caixas d’água fabricadas com cimento amianto, o grande risco são as fibras do material que se soltam quando esses reservatórios ficam velhos; também há grande liberação dessas fibras durante a lavagem das caixas d’água – como a superfície das paredes são muito rugosas, é necessário o uso de buchas mais abrasivas nestas operações, o que provoca o desprendimento de fibras de amianto que podem ser ingeridas junto com a água. Caso a sua residência ainda utilize algum modelo da caixa d’água de cimento amianto, chegou definitivamente a hora de trocá-la por um modelo em termoplástico ou fibra de vidro. Se você mora em um edifício ou prédio mais antigo, procure descobrir se são usadas caixas d’água feitas com esse material – a sua saúde e de toda a sua família agradecem.

A batalha pela proibição do uso da substância no Brasil é antiga, onde muitas entidades representantes de indústrias e de trabalhadores, com claros interesses na manutenção do uso, processamento e venda de produtos a base de amianto, sustentavam que a cidade de São Paulo e os Estados que criaram legislações contra a venda destes produtos não tinham competência jurídica para tal – somente uma legislação Federal poderia fazer tal proibição. A decisão do STF pôs fim ao vácuo jurídico criado pela Lei N° 9.055/95. É importante lembrar que no último mês de agosto, uma decisão da Justiça Federal já havia condenado a empresa Sama Minerações Associadas S.A., a pagar uma multa indenizatória de R$ 500 milhões, relativa a danos morais coletivos. A empresa explorou uma mina de amianto em Bom Jesus da Serra, no Sudoeste da Bahia, entre os anos de 1940 e 1967 e respondia processo por possíveis danos à saúde relacionados à extração do mineral.

Superada esta fase do processo, há uma outra muito maior pela frente – em dezenas de milhões de residências em todo o Brasil continuam existindo componentes fabricados a base de amianto: é preciso criar mecanismos que permitam a substituição destes componentes no menor tempo possível. Em outras aplicações, como nas pastilhas e lonas de freio, o próprio desgaste rápido das peças vai permitir a rápida eliminação do mineral.

“APÓS SEIS ANOS DE SECA, PRODUTORES DE CAJU DO RN TÊM EXPECTATIVA DE BOA SAFRA PARA 2017”

Cajueiros no RN

Nas duas postagens anteriores, eu falei dos problemas enfrentados pelas populações da região do Semiárido do Piauí que, como grande parte da população de todo o Semiárido nordestino e de partes do Norte de Minas Gerais, vem sofrendo, e muito, com a longa estiagem que já dura seis anos em muitas localidades. Usei como exemplo as perdas dos produtores de caju daquele Estado, que desde 2011 não conseguem colher uma safra satisfatória, inclusive com a morte de muitos cajueiros.

Pesquisando um pouco mais sobre este assunto, me deparei com uma reportagem extremamente otimista de Hugo Andrade da Inter TV Costa Branca do Rio Grande do Norte, que vem funcionar exatamente como um contraponto aos problemas dos cajucultores do Piauí – o plantio de mudas de cajueiro anão-precoce, que não deu certo no Piauí, no Rio Grande do Norte está dando ótimos resultados. Pode até ser que você leitor nem goste de caju ou prefira a castanha do Pará – a produção do caju, uma fruta típica de regiões do Semiárido e do Cerrado brasileiro, sustenta dezenas de milhares de famílias e está na base de toda uma cadeia de produção de sucos, polpas, sorvetes, doces, bebidas como a cajuína, castanhas e farinhas de castanhas, consumidas no Brasil e no exterior. E quando a produção da fruta é boa, a vida de muita gente nos confins do sertão melhora. Para que você tenha uma ideia da importância desta cultura a nível local, somente no Estado do Ceará, o maior produtor brasileiro, a cadeia produtiva do caju emprega mais de 150 mil pessoas.

Reproduzo a matéria na íntegra:

“Quem investiu na substituição do cajueiro gigante pelo anão-precoce está conseguindo produzir. A última grande safra de caju de Serra do Mel aconteceu em 2011.

Depois de seis anos seguidos enfrentando seca e perdas, os cajucultores de Serra do Mel, no interior do Rio Grande do Norte, têm muito o que comemorar. Quem investiu na substituição dos cajueiros gigantes pelo anão-precoce está conseguindo produzir. A colheita já começou e a expectativa para este ano é de uma boa safra.

Aos poucos, a paisagem dos cajueiros dizimados pela seca prolongada vai ficando para trás. Na propriedade de Ademar Nunes, na Vila Goiás, em Serra do Mel, a colheita do caju começou de forma intensa: em 15 dias, foram mais de 12 toneladas da fruta. “Esse ano a expectativa da gente é boa, porque choveu bastante. Desde 2011 que, durante esse mês, não tinha chovido”, comemora o produtor.

Nesse início de safra, a caixa com 20 quilos de caju, sem a castanha, é vendida, em média, a R$17. A produção vai para indústrias de polpa e suco, além de abastecer os mercados da região. Na cajucultura, a castanha ganha atenção especial atualmente, o quilo chega a custar até R$ 8. Muitos produtores estocam as amêndoas pra garantir maior lucro ao longo do ano.

“No começo, agora, ela tá num preço bom e a gente vai vendendo. Mas daqui pro mês de setembro ela baixa. A gente armazena aqui, no próximo ano a gente vende talvez até de seis reais. Aí já tem um lucro grande”, explica Anderson Gurgel, que também é produtor na região.

Dos 135 hectares da propriedade, 75 são utilizados na produção de caju. A maioria dos cajueiros é da espécie anão-precoce. A variedade se adaptou bem ao clima da região e trouxe vantagens para os produtores, como o crescimento rápido da planta e a colheita prolongada.

“O cajueiro precoce, ele chega cedo e termina tarde. Então esse ano eu já colhi 3 mil quilos de castanha. No gigante ainda não colhi nada. Quando o gigante for chegar à produção dele, nesse precoce eu já tenho colhido uns 10 mil quilos de castanha”, acrescenta Ademar Nunes.

Os benefícios do cajueiro anão-precoce frente ao cajueiro gigante também geram empregos temporários. Neste primeiro mês de safra, o produtor contratou 12 pessoas pra trabalhar na colheita do caju. Até setembro, a quantidade de trabalhadores nos pomares deve dobrar. “Começando mês de junho, nós trabalha seis meses do ano, e entra o mês de janeiro e fevereiro tirando caju também”, conta Manoel Silva, trabalhador das produções de caju.

A última grande safra de caju de Serra do Mel aconteceu em 2011. Naquele ano, de acordo com o IBGE, foram colhidas 15 mil toneladas. Nos últimos seis anos, a seca prejudicou a cajucultura na região, mas a chuva voltou a animar os produtores. Os pés estão carregados e a produção de 2017 pode surpreender. “Promete. Promete bom, mesmo, mas em muitos cantos aqui não vai haver. Porque não tem o cajueiro mais vivo, mas, onde tem o cajueiro vivo, dá muita castanha esse ano”, disse Ademar Nunes.

Mesmo com as dificuldades causadas pela seca, o produtor Emanoel Martins conseguiu manter 15 hectares de cajueiro gigante na propriedade dele. “A produção esse ano é pras pessoas que zelaram. A gente não vai ter uma produção, assim, normal, mas a gente vai ter uma produção razoável, que pelo menos vai dar pra gente sair das contas. A gente tando dentro, trabalhando todo dia, tendo fé, consegue”, garante Martins.”

Por Hugo Andrade da Inter TV Costa Branca

AS CHUVAS CAEM NO PIAUÍ, MAS HÁ RISCO DE FICAREM ABAIXO DA MÉDIA

Seca no Piauí

Lentamente, as chuvas estão chegando ao Piauí, Estado onde metade dos municípios está em estado de emergência por causa da forte estiagem – são 134 municípios nesta situação, o que corresponde a 52% do total de cidades do Estado. É importante lembrar que nem todas as cidades estão na mesma situação – algumas localidades estão com todas as suas fontes de água esgotadas e dependem desesperadamente da ajuda dos Governos. De acordo com informações do Governo do Estado, os açudes e reservatórios de água estão, em média, com 10% da sua capacidade de armazenamento, o que está comprometendo o abastecimento de inúmeras cidades. Em Pedro II, por exemplo, o açude já secou faz muito tempo (vide foto).

Em algumas cidades, as chuvas estão chegando com muita força – em Floriano, o último dia do mês de Outubro acabou em um verdadeiro dilúvio: o INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, registou um volume de chuva acumulado no município de 152,8 mm em um único dia – isso representa quase o dobro do índice histórico de chuvas para todo o mês de outubro, que é de 98 mm. Em cidades como Picos, Bom Jesus e São João do Piauí tem sido registradas chuvas caindo com maior frequência, inclusive com registros de queda de granizo, fenômeno raríssimo no sertão do Estado e festejado pelas populações. Na cidade de São Raimundo Nonato, as chuvas foram tão fortes que chegaram a derrubar o cruzeiro instalado no ponto mais alto da cidade. Oficialmente, a estação das chuvas ainda não começou, mas as notícias de sua chegada sempre animam a população das áreas que sofrem com a estiagem. Tradicionalmente, as chuvas no Piauí começam nas áreas de Cerrado do Sul do Estado e lentamente seguem em direção ao Norte.

Apesar de serem boas notícias, especialistas em meteorologia estão preocupados com os níveis desta estação chuvosa – de acordo com as previsões, a maior parte do Piauí tem 35% de chances de receber chuvas dentro dos níveis de pluviosidade históricas na estação chuvosa de 2018; porém, há 40% de chances de chuvas abaixo dos níveis normais. Considerando que mais da metade do Estado apresenta situação de déficit hídrico, essa possibilidade de chuvas abaixo da média histórica é extremamente preocupante – nestas regiões sob forte estiagem, o ideal seria a chegada de chuvas acima da média histórica, de forma a proporcionar a recuperação dos “estoques de água”, ou seja, encher os açudes e reservatórios, recarregar os aquíferos e recuperar a umidade dos solos e da vegetação.

Aproximadamente metade do território do Piauí é ocupado pelo chamado Semiárido nordestino, que está localizado na faixa Leste onde o Estado faz divisa com o Ceará, Pernambuco e Norte da Bahia. Como todos devem saber, o Semiárido é uma região que sofre frequentemente com fortes períodos de estiagem e, em intervalos mais longos, esta estiagem atinge escalas catastróficas. Secas de excepcional gravidade ocorreram na região em 1744, 1790, 1877, 1846, 1915 e em 1932. Desde 2012, toda a região do Semiárido vem enfrentando um forte período de estiagem, considerado um dos mais longos e intensos já vividos na região Nordeste, comparado por muitos à grande seca de 1915, uma das mais devastadoras já registradas. Os efeitos desta estiagem só não são maiores do que no passado devido aos serviços emergenciais de distribuição de água através de caminhões pipa e aos diversos programas governamentais de ajuda à população.

A vegetação do Semiárido, em função do clima e dos tipos de solo, pode ser dividida, de forma muito rudimentar, em três áreas: o agreste, a caatinga e o alto sertão. Cada uma destas áreas possui uma quantidade imensa de subdivisões dos tipos de vegetação, formando biomas independentes e completos. A região forma um grande mosaico de diferentes biomas, que formaria algo parecido com uma colcha de retalhos. O solo destas regiões são, no geral, pouco espessos, apresentando manchas de solos argilosos muito férteis, principalmente nas depressões e nos baixios. Em anos de chuvas regulares e dentro das médias históricas, as populações conseguem boas colheitas e uma boa produtividade com seus rebanhos – são as grandes estiagens que desestruturam completamente a vida e a economia do Semiárido. A destruição dos cajueiros pela seca, que citei na última postagem, é um exemplo clássico desta desestruturação econômica e social. Sem a água das chuvas não há como produzir. Considerando que esta estiagem está entrando no sexto ano, todos vocês podem imaginar os problemas e prejuízos econômicos, para falar o mínimo, que estes sertanejos estão enfrentando.

Os municípios do Piauí que mais tem sofrido por causa da longa estiagem estão localizados nas regiões da Serra da Capivara, Vale do Canindé, Vale do Guaribas e nos Vales dos Rios Piauí, Itaueira e Corrente. Além de apresentarem baixos estoques de água acumulada nos reservatórios e açudes, estas regiões tiveram perdas de mais de 50% na safra agrícola. A notícia das chegada das chuvas, como sempre, é festejada pelas populações. Quem está sofrendo na pele as consequências da seca, não tem tempo nem cabeça para se preocupar com o volume total das chuvas – se estará igual ou abaixo de anos anteriores, deixemos para pensar na hora certa. Que venham as chuvas.

Um dos efeitos da estiagem, que nem sempre é percebido com muita clareza, é a desvalorização das propriedades rurais. Diferente da maioria dos Estados nordestinos, onde existe a Zona da Mata ou uma região de domínio de palmeiras de babaçu na faixa litorânea e uma área de Semiárido no interior, o Piauí apresenta uma maior diversidade de biomas, com destaque para uma extensa área de Cerrado nas regiões Sul e Leste do Estado. Um hectare de terras nas áreas do Cerrado piauiense, bioma que ocupa cerca de 11,5 milhões de hectares no Estado, chega a valer, em condições normais, vinte vezes mais que um hectare numa área da Caatinga – numa situação de seca extrema como esta que a região está sofrendo, a desvalorização é ainda maior: sem água, é difícil conseguir fazer a terra produzir e, automaticamente, ela perde muito valor.

O Cerrado piauiense, que nos últimos anos vem sendo chamado de “Nova Fronteira Agrícola do Brasil”, conta atualmente com uma área agricultável com cerca de 5 milhões de hectares em 28 municípios, onde são colhidas safras crescentes de soja, milho, arroz e algodão. Nessa região vive uma população de pouco mais de 220 mil habitantes, grande parte formada por imigrantes da região Sul do Brasil, que pratica uma agricultura altamente mecanizada e de alta produtividade O contraste entre as áreas do Cerrado e do Semiárido no Piauí neste momento de forte estiagem é absolutamente dramático, especialmente em regiões onde os dois biomas se encontram.

Resta-nos, como sempre, torcer para que as previsões de chuvas dentro da média histórica se confirmem em todo o Piauí e que as populações dos sertões consigam reacender a esperança e retomar a produção com fé e vontade. Como eu já comentei em postagens anteriores, vivemos em tempos de grandes avanços tecnológicos, onde muitas nações tem demonstrado que é possível tornar áreas semiáridas e desérticas em grandes polos de produção agrícola – a agricultura irrigada em Israel é um grande exemplo. Vivendo em uma região muito mais inóspita do que os sertões do Piauí, os israelenses utilizam as mais modernas técnicas de irrigação por micro gotejamento e conseguem obter safras excepcionais, com baixíssimo consumo de água e em áreas extremamente reduzidas. Eu acredito que já passou da hora de começarmos a utilizar estas novas tecnologias em larga escala aqui em nosso país. O que está acontecendo no Piauí atualmente é extremamente grave – enquanto um lado do Estado, localizado dentro do Semiárido, se afunda cada vez mais em problemas econômicos, sociais e ambientais, o outro lado, localizado dentro do Cerrado, bate recordes de produção agrícola e pecuária.

CAJUEIROS DO PIAUÍ NÃO RESISTEM À SECA

Cajueiro

Apesar de todo o otimismo dos produtores, que esperavam colher uma das maiores safras dos últimos cinco anos, a produção de caju no Piauí, de acordo com notícia do programa Globo Rural, terá uma quebra de safra em 2017, que em muitos casos poderá chegar a 50%. A safra de cajus prevista para este ano é de 17 mil toneladas, um valor 50% superior ao obtido em 2016 – porém, vale informar que a safra de 2016 foi uma das piores dos últimos anos. A forte estiagem que assola grande parte do Estado atingiu em cheio os cajueiros, uma planta nativa do Semiárido e bastante adaptada às condições climáticas locais. De acordo com relatos de produtores, a seca intensa não permite a formação completa das frutas, que secam na própria árvore – as castanhas secas caem no solo com um aspecto que lembra uma castanha torrada. Os baixos preços de venda dos produtos, R$ 3,00 por kg da castanha e R$ 0,40 por kg de caju, desestimulam ainda mais os produtores, que preferem abandonar as poucas frutas que vingaram nos pés e assim evitam ter de pagar pela colheita. Quem mora nas grandes cidades do Sul e do Sudeste, onde estes produtos são vendidos após passarem por toda uma cadeia de atravessadores, costuma desembolsar dezenas de vezes esse valor pago aos produtores – muitos destes consumidores não se conformarão em saber que as deliciosas “frutas” e castanhas estão apodrecendo nos campos. Em muitas fazendas, os cajueiros secos foram cortados e vendidos como lenha, numa tentativa desesperada de se ganhar algum dinheiro. De acordo com informações da Secretaria de Desenvolvimento Rural do Piauí, a perda representa 100 mil hectares de cajueiros, correspondendo a exatos 48% da área ocupada por essa cultura no Estado.

A cultura vem apresentando declínio desde 2012 e teve em 2016 seu pior ano. Com a persistência da forte estiagem, grande parte das árvores morreram e as tentativas de replantio foram frustradas. Para efeito de comparação, a safra de cajus no ano de 2016 equivaleu a apenas 15% da produção de 2011, o que demonstra o tamanho do problema. Grande parte dos municípios do Estado do Piauí estão em situação de emergência por conta dos efeitos da forte estiagem, muitos deles localizados nas regiões da Serra da Capivara e nos vales dos Rios Canindé e Guaíbas – pelo menos 47 municípios estão em condição crítica por causa da seca e as populações estão a depender da distribuição da água através dos caminhões pipa.

O cajueiro (Anacardium occidentale) é uma árvore nativa na região, primitivamente utilizada pelos indígenas em sua alimentação. Habitualmente, nos referimos ao caju como uma fruta mas, na realidade ele é um pseudofruto – o verdadeiro fruto é a castanha, que é muito saborosa para consumo in natura após ser torrada e salgada, ou entrando como tempero no preparo do vatapá e de quitutes do Nordeste e de outras regiões do Brasil. Em tupi guarani, a palavra usada para descrever a fruta é acaiu, que significa noz. A mesma palavra era usada para descrever ano, uma vez que os índios contavam a passagem do tempo a partir dos ciclos de floração do cajueiro. A castanha do caju tem um teor de proteínas da ordem de 20% e com um alto valor nutritivo. Por serem muito mais fáceis de se processar e armazenar, as castanhas são exportadas desde longa data para outras regiões do país e também para o exterior (em inglês é conhecida como “cashew nut”). O caju, de constituição bastante frágil, exige maiores cuidados com a embalagem a fim de ser transportado para os grandes centros consumidores. Lembro que numa das minhas primeiras viagens ao Nordeste, fiquei surpreso com a declaração de um sitiante do interior do Estado de Alagoas, que separava as castanhas para a torrefação e jogava as frutas para os animais. Eu cheguei a perguntar se ele e a família comiam a fruta: a resposta torta que recebi: “ – Eu não sou porco para comer fruta!”

O alto valor nutritivo do caju está em sua extraordinária riqueza em ácido ascórbico. É tão alto o teor vitamínico da fruta que, segundo comentam alguns especialistas, dão a ele um verdadeiro poder curativo. Muito antes de serem descobertas as vitaminas e conhecidas as suas propriedades, o caju era apregoado pelos curandeiros do sertão como uma fruta milagrosa, curadora de inúmeros males. Falava-se muito nos tempos antigos do Nordeste nas curas de caju, nos doentes que vão para as praias limpar o sangue com os banhos de mar e o regime de cajus e cajuadas. Em seu livro Higiene Alimentar, publicado em 1908, Eduardo de Magalhães fez esta apologia ao caju:

“Fala-se em cura de uvas, cura de mangas, de laranja, de limão, de cerejas e também de figos, maçãs e tâmaras. Bem, serão todas eficazes, não contesto, mormente a primeira, a cura de uvas; nenhuma, porém, competirá com a cura de caju. Indivíduos fracos, magros, eczematosos, reumáticos, enfastiados, diarréicos, sifilíticos, recolhendo-se no verão a uma das belas praias de Sergipe, onde os cajueiros amarelos e vermelhos são uma bela floresta, e atirando-se aos cajus cujo caldo ingerem chupando-os ou em cajuadas, de lá voltam nutridos, nédios, nem parecem os mesmos que para lá foram. Do caju se pode dizer que o próprio abuso é proveitoso.”

As árvores mais frondosas do cajueiro nascem nas terras chuvosas próximas ao litoral, conhecida como Zona da Mata. Conforme se segue para o interior do Semiárido, a árvore apresenta modificações na sua estrutura como uma adaptação à falta de água no solo e na atmosfera. Nas regiões da Caatinga, o cajueiro se apresenta como um arbusto, com folhas pequenas para evitar ao máximo a perda de água por evaporação, caules com uma casca muito grossa e raízes bem desenvolvidas para sugar qualquer quantidade de água existente no solo. Está espécie é conhecida pelos sertanejos como cajuí (Anacardium humilis), que nada mais é do que um cajueiro anão. A espécie plantada pelos agricultores, inclusive os do Piauí, é uma planta híbrida, conhecida pelo nome de cajueiro anão precoce, que associa o sistema radicular destas espécies adaptadas aos rigores do clima do sertão com a produtividade das árvores do litoral. Notem que nem mesmo com toda esta robustez, os cajueiros conseguiram resistir à forte seca dos últimos anos.

Quando os primeiros colonizadores portugueses chegaram ao Brasil ainda no século XVI, rapidamente se renderam ao sabor e à versatilidade do caju e de sua castanha. Durante as longas viagens marítimas daqueles tempos, era comum a incidência do escorbuto nas tripulações. Sabemos hoje que a principal causa da doença é a carência da vitamina C, nutriente encontrado em frutas cítricas como a laranja e o limão. Extremamente rico nesta vitamina, o caju mostrava já naquele período as suas propriedades curativas. Os navegadores portugueses se encarregaram de espalhar a planta pelo mundo durante as suas intermináveis expedições. Se você pesquisar quais são os principais produtores de caju, vai encontrar países como o Vietnã, o maior produtor mundial, seguido por Nigéria, Índia, Costa do Marfim, Benin, Filipinas, Guiné Bissau e Indonésia. O Brasil, terra de origem da árvore, só vai aparecer após a décima posição – sem utilizar sistemas de irrigação por micro gotejamento e perdendo grandes porcentagens das árvores plantadas por causa da forte seca, não é de se estranhar nossa posição na lanterna dos maiores produtores mundiais.

O grande problema de toda essa crise, na minha modesta opinião, é que corremos um sério risco de ver frutas e castanhas produzidas nestes países passarem a ser vendidas nos mercados e feiras das grandes cidades brasileiras, enquanto os nossos produtores decidem abandonar as frutas no pé por causa dos baixos preços de venda.

Imagino até a cena: uma caixa de autênticos cajus Made in China a venda no Mercadão da Cantareira…

AS CHUVAS CHEGARAM AO DISTRITO FEDERAL, MAS A SITUAÇÃO DE EMERGÊNCIA CONTINUA

Barragem do Descoberto - foto Gilver Ferreira

Há quase um mês atrás iniciamos esta série de publicações, que trata dos problemas provocados pela forte estiagem que está assolando diversas regiões do Brasil, falando da crise no abastecimento de água no Distrito Federal. Naquele momento, o Governo Distrital havia acabado de tomar a decisão de tornar mais rígidas as medidas para a economia de água já em andamento desde do início de janeiro, quando foi iniciado um inédito esquema de racionamento de água na região. Os dois reservatórios responsáveis pelo armazenamento da água que abastece o Distrito Federal, a Barragem do Descoberto e a Barragem de Santa Maria, já estavam em um nível crítico, com volumes acumulados abaixo de 15% e 28%, respectivamente. Em texto no Diário Oficial publicado hoje, 27 de novembro, o Governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, voltou a decretar situação de emergência por causa da crise hídrica, com validade de 180 dias. O decreto delega à ADASA – Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico, a responsabilidade de definir novas medidas de restrição e de fiscalização.

O decreto chega no momento em que as esperadas chuvas chegaram ao Planalto Central e quando os reservatórios começam a se recuperar. Neste último final de semana, a Barragem do Descoberto (vide foto) teve seu nível elevado em 0,8%, passando a registrar 6,4% da sua capacidade máxima, bem abaixo dos 12% previstos para o mês. Na Barragem Santa Maria, o volume acumulado chegou a 21,9%, praticamente o valor previsto para o mês – 22%. De acordo com dados do INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, o volume de chuvas no Distrito Federal em novembro ficou acima do esperado – em 27 dias choveu 255 mm, acima da média histórica de 231 mm. Apesar da visível melhora, os técnicos da ADASA temem que as reservas de água acumuladas sejam insuficientes para atender o Distrito Federal no próximo período seco em 2018 – por isso a publicação de um novo decreto com a ampliação da situação de emergência.

Com a publicação deste novo decreto, o Governo do Distrito Federal dá uma espécie de “carta branca” para a ADASA, que poderá implementar novas medidas para aprimorar a economia e a redução do consumo de água, sem a necessidade de passar pelos intermináveis trâmites burocráticos do Legislativo. Com este novo decreto, o Governo Distrital poderá, caso julgue necessário, captar novos recursos federais e realizar contratos emergenciais sem a necessidade de realizar uma licitação pública. Já a ADASA poderá restringir ainda mais o uso da água para agricultura, lazer ou usos industriais – o uso desta água para consumo humano, que é classificado como prioritário, continuaria mantido. Desde o início do ano, esta é a terceira vez que o Governo do Distrito Federal prorroga o decreto de situação de emergência.

Uma das principais características do Cerrado, bioma onde está inserido o Distrito Federal, é a divisão do clima em dois períodos razoavelmente distintos – um período mais seco e outro mais chuvoso. A média de chuvas anuais no bioma fica entre 1.300 e 1.700 mm. A maior parte das chuvas cai entre os meses de outubro e março, correspondendo às estações da primavera e do verão. Entre os meses de maio e setembro tem vez a estação seca, período em que as chuvas são menos frequentes e quando podem ocorrer longos períodos de estiagem. Na seca, os níveis de umidade relativa do ar costumam cair para valores entre 15% e 30%, valores considerados prejudiciais para a saúde humana e extremamente perigosos para a vegetação, que fica sujeita a queimadas e incêndios florestais.

A estiagem vivida pelo Distrito Federal até o mês de outubro foi, de acordo com dados históricos, a mais intensa dos últimos 37 anos. Era esperado um volume de chuvas de 166 mm no mês de outubro – as chuvas mal chegaram aos 14 mm. O mês de novembro, conforme já comentamos, teve um volume de chuvas acima da média, com chuvas de 255 mm, um valor insuficiente para reverter os baixos níveis dos reservatórios. O volume médio de chuvas no Distrito Federal entre os meses de setembro e dezembro de 2016 ficou abaixo da média histórica, chegando aos 520 mm. Para piorar a situação, o volume de chuvas no mês de janeiro de 2017 ficou muito abaixo da média histórica (lembrando que janeiro é, tipicamente, o mês mais chuvoso no Cerrado), o que ajuda a explicar a crise hídrica enfrentada pela região nos últimos meses. O consumo per capita de água, ao contrário, cresceu 16% nos últimos 6 anosAs perdas de água na rede de distribuição também são muito altas – perto de 35% da água distribuída é perdida em vazamentos nas tubulações e em furtos (os famosos “gatos”). São aproximadamente 86 bilhões de litros de água perdidos, que estão fazendo falta neste momento de crise. A situação fica mais grave quando se constata que foram feitos poucos investimentos em infraestrutura, especialmente na ampliação dos sistemas de captação e armazenamento de água. O quadro vivido pelo Distrito Federal atualmente lembra muito a crise hídrica vivida pela Região Metropolitana de São Paulo em 2014 – a diferença é que na Grande São Paulo existiam dois grandes reservatórios, as represas Guarapiranga e Rio Grande, com reservas de água mas sem tubulações de interligação com os demais sistemas (o que foi resolvido com obras emergenciais). No Distrito Federal não existem fontes alternativas para abastecimento da população.

Desde o final de 2016, a ADASA autorizou a CAESB – Companhia de Saneamento Básico do Distrito Federal, a reduzir de pressão na rede, realizar o rodízio do abastecimento, efetuar a paralisação parcial do abastecimento e também veicular campanhas publicitárias com o objetivo de incentivar a população a reduzir o consumo de água. A CAESB iniciou o processo de racionamento no final de 2016 com a redução da pressão nas redes de tubulações, medida que afeta a oferta de água e que obriga a população a economizar. Com o agravamento da queda dos níveis nas barragens, a CAESB decidiu iniciar o rodízio do abastecimento de água nas localidades atendidas pela barragem do Descoberto. O rodízio no fornecimento passou a valer para as 14 regiões administrativas abastecidas pela barragem, atingindo as localidades de Ceilândia, Recanto das Emas, Riacho Fundo II, Vicente Pires, Colônia Agrícola Samambaia, Vila São José, Jóquei, Santa Maria, DVO, Sítio do Gama, Polo JK e Residencial Santa Maria. O sistema fornece água normalmente por 3 dias, 1 dia fica sem fornecimento e 2 dias se destinam à estabilização completa do abastecimento. A partir do final do mês de fevereiro, o rodízio passou a valer também para as regiões abastecidas pela barragem Santa Maria. De acordo com dados da CAESB, a economia obtida com estas medidas equivale a 550 litros de água por segundo – água suficiente para abastecer a região de Ceilândia, que tem uma população de 360 mil habitantes. Nas áreas rurais do Distrito Federal, o racionamento de água tem afetado mais de 4 mil produtores rurais.

Uma nova medida emergencial que chegou a ser anunciada no último dia 21 e que causou enorme confusão dava conta que, caso as reservas de água da Barragem do Descoberto atingissem o “volume morto” ou valores inferiores a 5%, o rodízio de água passaria a ser de 2 dois dias por semana. A ADASA voltou atrás e avisa que não tem um valor de reserva mínima de água já definido.

Como eu sempre costumo lembrar, sobra incompetência entre os responsáveis pela gestão dos recursos hídricos e continua faltando água. A população, como sempre, continua pagando o “pato”, mesmo após a chegada das esperadas chuvas…

A “VOLUNTÁRIA” ECONOMIA DE ÁGUA EM FORTALEZA

Castanhão

De acordo com as informações divulgadas no último dia 24 de novembro pela CAGECE – Companhia de Águas e Esgotos do Ceará, a população da Região Metropolitana de Fortaleza conseguiu reduzir o seu consumo de água em 16,75% durante o mês de outubro. Essa foi a redução de consumo média em cada ligação e foi alcançada após um alerta da CAGECE acerca de um aumento de consumo de água no mês de setembro. O consumo médio por ligação neste mês foi de 11,12 m³ – para efeito de comparação histórica, em outubro de 2014 o valor correspondia a 13,36 m³. A estratégia usada pela companhia é o oferecimento de descontos para as ligações que economizarem água – quem apresentar aumento no consumo de água, ao contrário, é penalizado com a cobrança de uma tarifa contingencial.

Até o momento, a economia de água acumulada pela população da Região Metropolitana de Fortaleza em 2017 corresponde a aproximadamente 13 milhões de m³ – durante todo o ano de 2016, o valor economizado correspondeu a 6 milhões de m³, o que demonstra que houve um aumento no esforço da população na economia de água. Há uma razão bastante objetiva para todo este esforço – os reservatórios de água do Estado do Ceará encontram-se em um nível crítico, apresentando um volume médio de 8,1% da sua capacidade máxima. O Castanhão, principal reservatório da Região Metropolitana de Fortaleza, está com um nível de apenas 3,23% de sua capacidade (vide foto). A Região é a mais populosa da Região Nordeste, com uma população superior a 4 milhões de habitantes.

Localizado oficialmente no município de Alto Santo (o reservatório se distribui por vários municípios), o Açude do Castanhão foi inaugurado em 2002 e possui capacidade para armazenar 6,7 bilhões de m³. É considerado o maior reservatório para usos múltiplos da América Latina – sua capacidade de armazenamento corresponde a 37% da capacidade total de armazenamento de todos os 8 mil reservatórios existentes no Estado do Ceará, incluindo-se na lista o Açude Orós, que durante décadas foi o maior de todos. Em sua capacidade máxima de armazenamento, o Castanhão tem condições de abastecer toda a Região Metropolitana de Fortaleza por 3 anos ininterruptamente – o problema é que desde 2012, com o início da forte estiagem que atinge toda a região do Semiárido nordestino, os volumes das chuvas na bacia hidrográfica do rio Jaguaribe têm estado abaixo da média, sendo insuficientes para recuperar os níveis do Açude.

De acordo com o DNOCS – Departamento Nacional de Obras contra as Secas, autarquia federal responsável pela operação do reservatório, o Castanhão está entrando no chamado “volume morto”, momento em que o nível do reservatório fica abaixo do nível de captação e quando passa a ser necessário o uso de outros dispositivos de captação como, por exemplo, moto bombas flutuantes. Não existe qualquer diferença na qualidade ou separação entre a água do “volume morto” em relação a água do reservatório – trata-se simplesmente da água que fica acumulada nas partes mais baixas do fundo do açude. Atingir o “volume morto” de um reservatório é simplesmente um sinal de alerta da exaustão completa dos recursos – é equivalente ao marcador de combustível de um automóvel mostrar que o tanque de combustível entrou na reserva e que é preciso parar em um posto de combustíveis para reabastecer. No caso do Castanhão, a única possibilidade de recarga dependerá da chegada das fortes chuvas de inverno (que no Nordeste corresponde ao período das chuvas), que ainda tardam em chegar.

De acordo com os cálculos da COGERH – Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos do Ceará, este volume de água restante no Castanhão permite o abastecimento da população da Região Metropolitana até o mês de janeiro próximo. Esta perspectiva é extremamente preocupante pois o período das chuvas, tradicionalmente, começa em fevereiro e se estende até o mês de maio – a se confirmar os cálculos, a água do Açude se esgotará antes da chegada das chuvas.

Para preservar ao máximo o volume de água que restou no Castanhão, a companhia de águas local aumentou a captação de águas em outros reservatórios do interior do Estado, distantes até 250 km, transportadas através do chamado “Eixão das Águas” para reforçar os níveis dos reservatórios da Região Metropolitana. Essa manobra permitiu uma redução substancial da captação de águas no Açude do Castanhão – até 2016, o Açude fornecia 70% da água consumida na Região Metropolitana de Fortaleza – atualmente, a sua contribuição é de apenas 10%. O grande problema é que praticamente todo o Estado do Ceará está em situação de emergência.

Até o último mês de agosto, toda a região Norte do Estado do Ceará, incluindo a região Metropolitana de Fortaleza, era considerada como área Sem Seca Relativa – em setembro, o quadro foi alterado e a região passou a ser considerada como Área de Seca Fraca. Nas regiões Central e Sul do Estado, as áreas de seca foram agravadas, com uma redução das áreas classificadas como em Seca Moderada e com aumento das áreas de Seca Extrema e de Seca Excepcional, consideradas as mais graves da escala. Os índices médios de chuva no Estado durante o mês de setembro ficaram em 2,5 mm, absolutamente insuficientes para qualquer recuperação nos níveis dos reservatórios de água.

Um total de 137 municípios cearenses, de um total de 184 municípios do Estado, se encontram em situação de emergência por causa da estiagem decretada pelo Governo Estadual – pelo menos 17 cidades ainda aguardam o reconhecimento do estado de emergência. Esses números indicam que 74,4% do território do Estado está em situação de emergência em função da seca. O reconhecimento do estado de emergência pelos órgãos federais é de extrema importância para os municípios pois garante um atendimento prioritário na liberação de verbas e de serviços emergenciais, incluindo-se os imprescindíveis serviços de distribuição de água com caminhões pipa, foco de inúmeras tensões com os “pipeiros” do Estado, conforme relatamos em postagem anterior.

O quadro atual no Ceará faz lembrar o drama dos sertanejos na grande seca de 1915, imortalizada no livro O Quinze, de Rachel de Queiroz (1910-2003). Publicado em 1930, o livro relata as lembranças da infância da escritora, que foi uma testemunha ocular da tragédia humana que se seguiu à seca. Ao contrário do que se passava naquela época, em que migrar era a única opção para muitos, nos dias atuais existe a alternativa de se esperar a chegada de um caminhão pipa e assim amenizar um pouco a escassez de água. Não é o ideal mas, de todos os males, fiquemos com o menor.

Que não tardem as chuvas em chegar!