ATÉ AS ABELHAS, QUEM DIRIA, ESTÃO SOFRENDO COM A SECA

Abelhas

Em minha última postagem, tratei do sério problema da redução dos rebanhos animais em todo o Nordeste em consequência da forte estiagem que assola a região desde 2011. Essa redução é mais visível nos rebanhos bovinos, mas ela está afetando outras criações como cabras, ovelhas, porcos, cavalos e aves. Sem pastagens ou culturas que possam ser transformadas em ração para os animais e, especialmente, a presença de água fresca para a dessedentação, milhares de animais morreram nas áreas rurais; produtores que conseguiram salvar seus rebanhos, venderam os animais pelos melhores preços possíveis e não renovaram os rebanhos por falta de condições para a sobrevivência e a engorda dos animais.

Além destes grupos de animais domésticos mais vistosos, existem algumas espécies mais difíceis de se visualizar, que também têm enfrentado imensas dificuldades para sobreviver em meio ao ambiente extremamente seco do Semiárido – estou falando das abelhas melíferas, incansáveis trabalhadoras e produtoras do valioso mel. A intensa seca transformou grandes áreas da Caatinga em um emaranhado de galhos secos e sem flores, privando as abelhas da coleta do precioso pólen, matéria-prima da produção do mel. Outro problema causado pela estiagem é a falta de sombreamento das colmeias, que expostas ao calor intenso acabaram transformadas em pequenos fornos, o que matou ou expulsou grande parte dos enxames.

A produção de mel em regiões do Semiárido nordestino é uma atividade relativamente recente, que ganhou um grande impulso a partir do ano 2000, tendo se consolidado como uma importante fonte de renda adicional para pequenos produtores rurais. As características únicas da flora selvagem nordestina garantem a produção de um mel de excelente qualidade, com mercado garantido em todo o mundo. Diferente de outras regiões produtoras, as áreas do Semiárido estão livres dos poluentes gerados pelos pesticidas largamente utilizados na agricultura moderna, o que possibilita a produção de um mel livre de resíduos de agrotóxicos; a região também apresenta baixíssimos níveis de resíduos de antibióticos, normalmente presentes nos efluentes domésticos das grandes cidades. O clima seco da região também é um diferencial importante – a baixa umidade do ar dificulta o aparecimento de doenças nas abelhas, dispensando a necessidade do uso de medicamentos.

Do ponto de vista ambiental, a produção de mel é uma atividade altamente sustentável – as abelhas retiram o pólen das flores da vegetação nativa, sem causar qualquer tipo de dano, mas ao contrário, contribuem no processo de polinização, que é fundamental para a reprodução das plantas. Apesar da Caatinga nordestina ser um dos biomas brasileiros menos estudado, especialistas calculam que mais de 50% da vegetação original já foi destruída desde os tempos da colonização do país – logo, o desenvolvimento de atividades econômicas que permitam a preservação das matas nativas remanescentes, como ocorre com a apicultura, é algo sempre muito bem-vindo.

Entre os anos de 2006 e 2010, a região Nordeste passou a ocupar o posto de maior produtora nacional de mel, respondendo por um terço da produção brasileira – em 2011, a região teve um pico de produção, atingindo 40,4% de todo o mel produzido no Brasil. Em 2012, por conta da estiagem que começou a assolar toda a região do Semiárido, a produção do Nordeste sofreu uma quebra de 50%, caindo de 16,9 mil toneladas para 7,7 mil toneladas. A região Sul retomou a liderança na produção, chegando a responder por mais de 50% da produção nacional de mel, enquanto que a participação do Nordeste foi reduzida para 21,3%. Em Estados como Pernambuco e Piauí, a quebra na produção chegou a 70%. O Ceará, o maior produtor de mel do Nordeste, sofreu intensamente com a redução da produção: de acordo com a FECAP – Federação Cearense de Apicultores, houve uma redução progressiva na produção de mel no Estado entre 2012 e 2017 correspondente a 45%.

O maior produtor mundial de mel é a China, com uma participação total de 31,4%. Apesar do preço altamente competitivo, a qualidade do mel chinês é bastante contestada pelos países mais desenvolvidos, especialmente da Europa, onde os testes de segurança alimentar encontraram altos índices de contaminação por resíduos de inseticidas e antibióticos. Outro problema, que inclui o mel de outros países do extremo oriente, é a adição de “mel falsificado”, produzido a partir do açúcar. A Argentina, ao contrário, é reconhecida como produtora de um mel de excelente qualidade. O país é o segundo maior exportador mundial do produto, vendendo 90% de toda a sua produção no mercado internacional. Apesar da alta qualidade do produto, a produção argentina sofreu fortes perdas nos últimos anos devido a diversos fatores climáticos. A produtividade média em muitas regiões caiu de valores entre 40 e 50 kg por colmeia para 15 a 20 kg por colmeia.

Além destas dificuldades com grandes produtores como a China e a Argentina, o mercado mundial de mel vem enfrentando um gravíssimo problema: tem se observado uma redução global da produtividade em decorrência da morte de grandes quantidades de abelhas. Ainda não existe um consenso científico sofre as causas desta mortandade de abelhas, mas as maiores suspeitas recaem no uso indiscriminado de agrotóxicos por produtores rurais de todo o mundo, além de problemas ambientais criados por mudanças climáticas regionais.

Existem mais de 20 mil espécies de abelhas conhecidas e calcula-se que o número de espécies não descritas pela ciência chegue a 40 mil espécies. Deste total, apenas 2% são espécies de abelhas sociais e produtoras de mel. As abelhas melíferas do gênero Apis mellifera (abelhas europeias) são as mais conhecidas e difundidas entre os apicultores de todo o mundo. O mel é utilizado como alimento pela humanidade desde tempos imemoriais. Os povos primitivos utilizavam técnicas altamente predatórias para a coleta do mel, o que normalmente culminava com a morte das abelhas das colmeias. Ao longo de vários milênios, as técnicas de produção e de coleta do mel foram se desenvolvendo até chegar às técnicas de produção atuais, altamente sustentáveis e produtivas.

Até o desenvolvimento das técnicas de refino do açúcar, o mel era utilizado como adoçante de bebidas e de alimentos, entre outros usos, por povos de todo o mundo. Também eram inúmeros os usos do mel na medicina, que incluiam também seus subprodutos – o própolis, a geleia real e a cera. Os antigos povos da Grécia, do Leste europeu, do Norte da Europa e, especialmente, da Escandinávia tinham um uso mais “nobre” para o mel – fermentando uma mistura de mel com água e levedura se obtinha o hidromel, uma bebida alcoólica forte (alguns tipos podem chegar a uma graduação alcoólica de 20%), que ajudava a suportar as noites frias do inverno.

A redução da produção mundial cria enormes possibilidades para os produtores de mel de alta qualidade como os da região Nordeste do Brasil. Infelizmente, a prolongada estiagem em todo o Semiárido vem provocando grandes perdas na produção local, o que é uma grande pena: com o produto altamente valorizado no mercado internacional, era a hora certa destes produtores fazerem um bom pé-de-meia e reinvestirem os lucros no aumento e melhoria da produção…

Mesmo com o fim do longo período de estiagem no Nordeste, que todos nós esperamos ansiosamente, a recuperação da apicultura na região não será nada fácil, uma vez que muitos produtores terão de recomeçar do zero. O lado positivo (temos de ser otimistas) é que o produto nordestino tem alta aceitação e valorização no mercado mundial, com muito espaço para crescer e se diversificar – além do mel tradicional, há grande demanda por mel orgânico e pelos subprodutos como própolis e a geleia real, que agregam grande valor à cadeia produtiva.

Que venham as abelhas do sertão!

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