ESTÁ FALTANDO ENERGIA PARA ABASTECER OS CARROS ELÉTRICOS NA CALIFÓRNIA 

A Califórnia é o Estado mais rico e com a maior população dos Estados Unidos. De acordo com o censo demográfico de 2020, o Estado tem 39,35 milhões de habitantes. Com tantos habitantes e com muito dinheiro, a Califórnia é uma espécie de paraíso do consumismo, especialmente para os fabricantes de automóveis. 

Um exemplo da exuberância desse mercado é Los Angeles, a maior cidade do Estado da Califórnia e também considerada a capital mundial do automóvel. A Região Metropolitana de Los Angeles possui uma frota estimada em mais de 13 milhões de veículos. Para efeito de comparação, a cidade de São Paulo, que tem exatamente a mesma população dessa região, tem uma frota de 5,9 milhões de veículos. 

De forte viés progressista, especialmente em questões ambientais, os sucessivos Governadores da Califórnia vêm criando mecanismos cada vez mais fortes para o controle dos poluentes gerados pelos motores dos automóveis. Uma dessas medidas é uma cota obrigatória de veículos elétricos e híbridos comercializados no Estado. 

De acordo com dados da Comissão de Energia da Califórnia, publicados pela agência Bloomberg, a Califórnia contava com 663.614 carros totalmente elétricos e 379.125 veículos híbridos registrados até o dia 31 de dezembro de 2021. Segundo a mesma reportagem, esses veículos representaram cerca de 12% de todos os veículos comercializados na Califórnia em 2021

A mais nova medida aprovada pelo Governo local prevê que somente veículos novos com “emissões zero” poderão ser vendidos no Estado em 2035. Veículos com motores a combustão interna ainda poderão ser utilizados por mais alguns anos, porém, as autoridades locais irão forçar a sua eliminação gradativa. 

As coisas estavam indo muito bem para os ambientalistas do “Estado Dourado” até que, no último dia 31 de agosto, a Associação de Energia Pública dos Estados Unidos fez um apelo aos californianos que possuem veículos elétricos“Insta-se aos consumidores reduzir o uso de energia entre as 16h00 e as 21h00, quando o sistema faz mais esforço pela alta demanda constante e a menor energia solar disponível”

Trocando em miúdos – o sistema elétrico da Califórnia está sobrecarregado e há riscos sérios de blackout no horário de pico. É uma situação bastante parecida com a que vivemos aqui no Brasil em 2001, quando todos enfrentamos o famoso “apagão do sistema elétrico” – com a forte seca e poucas chuvas, os reservatórios das usinas hidrelétricas entraram em colapso há época. 

Vamos entender a situação: 

As políticas ambientalistas do Estado da Califórnia vão muito além da proibição gradativa de veículos a combustão interna. A construção de novas unidades de geração de energia elétrica a partir de fontes hidrelétricas, termelétricas e nucleares também foram proibidas – o Estado só está autorizando a instalação de unidades de geração renováveis como a solar e a eólica. 

Aqui começam os problemas – por mais limpas e renováveis que sejam essas fontes de geração, elas são incipientes. Ventos sofrem variações em sua força e velocidade ao longo do dia e das estações climáticas; a luz solar só está disponível durante o dia. E na falta dos volumes de energia dessas fontes renováveis, são as fontes de geração elétrica tradicionais que vão ter de “dar conta do recado”. 

Conforme já tratamos em postagens anteriores, todo o Hemisfério Norte está sofrendo com fortes ondas de calor e de seca, com temperaturas superando frequentemente a barreira dos 40° C. Essas condições climáticas, fatalmente, levam a um aumento da demanda por energia elétrica devido ao uso de ventiladores e sistemas de ar condicionado, além de sistemas para a refrigeração e conservação de alimentos. 

Um dos principais momentos de alta demanda de energia elétrica é o final da tarde e começo da noite, quando a população sai do trabalho e chega em casa. É nesse momento que centenas de milhares de ventiladores, aparelhos de ar condicionado, televisores, fogões e fornos de micro-ondas são ligados simultaneamente. Também é o momento em que muitas pessoas colocam seus carros elétricos para recarregar. 

Existe ainda um outro complicador para os californianos – os frequentes e violentos incêndios florestais que assolam o Estado ano após ano, convenientemente esquecidos nos discursos dos ambientalistas e artistas locais sobre as queimadas na Amazônia, que danificam as redes de transmissão de energia elétrica. Aqui é importante citar que a Califórnia “importa” grandes volumes de energia elétrica de Estados vizinhos como Nevada e Washington. 

Está formado um quadro dramático: por um lado, o Governo da Califórnia está forçando a população a comprar cada vez mais veículos elétricos e, por outro, faltam políticas oficiais para o aumento da produção e distribuição de energia elétrica no Estado. Aos proprietários dos veículos elétricos restaram duas opções: andar a pé ou enfrentar o calor sem poder se refrescar. 

Aqui é importante citar que muitos países da Europa, marcados por fortes políticas “verdes”, caminham para um cenário muito parecido – há um estímulo ao uso cada vez maior de veículos elétricos enquanto caminham para um colapso do sistema elétrico. Esse quadro ficou escancarado nos últimos meses com a crise do gás natural da Rússia, o que inviabilizou o funcionamento de inúmeras centrais termelétricas. 

Políticas de transição energética para matrizes cada vez mais limpas são fundamentais em tempos de mudanças climáticas e aumento das temperaturas globais. Entretanto, é essencial que essa transição seja feita de maneira planejada e sustentável. No caso da Europa, por exemplo, muito do que se fez nas últimas décadas se perdeu por causa da atual falta de gás natural – inúmeras centrais termelétricas a carvão estão sendo reativadas. 

Parodiando uma antiga propaganda oficial do Governo brasileiro do final da década de 1970, época em que foram lançados os primeiros carros a álcool – “Carro elétrico: você ainda vai ter um, mas reze para não faltar energia para recarga”… 

MAIOR USINA EÓLICA EM ALTO MAR DO MUNDO É INAUGURADA NO REINO UNIDO 

Em meio a uma gigantesca onda de más noticiais na Europa, o Reino Unido inaugurou a maior usina eólica em alto mar do mundo. Localizado a cerca de 90 km da costa britânica, o projeto Hornsea 2 tem a capacidade de gerar energia elétrica suficiente para abastecer cerca de 1,3 milhão de residências. 

O complexo energético ocupa uma área de 465 km2, o equivalente a um terço do tamanho da cidade de São Pulo, e levou cinco anos para ser concluído. Ele conta com 165 turbinas eólicas montadas em torres com cerca de 200 metros de altura em relação ao nível do mar. As pás geradoras tem 81 metros de comprimento. 

O novo projeto superou em tamanho e capacidade o vizinho Hornsea 1, até então o maior projeto eólico em alto mar do mundo. Esse título, entretanto, não deverá durar muito tempo – existem vários projetos do gênero em andamento no Mar do Norte, que em breve estarão sendo inaugurados. 

De acordo com diretores do empreendimento, cada rotação das pás das turbinas eólicas dura cerca de 6 segundos e pode gerar energia elétrica suficiente para alimentar o consumo de uma residência por 24 horas. Essa eficiência na tecnologia de geração vem tornando as fontes eólicas cada vez mais baratas e competitivas. 

De acordo com as projeções econômicas feitas por empresas especializadas em fontes renováveis de energia, os custos de geração do complexo Hornsea 2 são nove vezes menores do que uma planta similar que utiliza gás natural, sem falar que se trata de uma geração que não emite poluentes na atmosfera. Isso tem justificado a construção de complexos geradores cada vez maiores. 

No último mês de julho, inclusive, o Governo do Reino Unido realizou um leilão para a construção de novos complexos de geração de energia eólica, totalizando cerca de 11 Giga watts, o suficiente para abastecer 12 milhões de residências.

A exemplo da maioria dos seus vizinhos da Europa Continental, o Reino Unido vem fazendo pesados investimentos em fontes alternativas para a geração de energia. Em apenas uma década, a participação de fontes renováveis na matriz energética saltou de 11% para 40%, sendo a maior parte formada por energia eólica. 

O Reino Unido é, como os demais países da região, fortemente dependente das importações de gás natural. Na atual conjuntura, onde o maior fornecedor para o bloco europeu – a Rússia, tem reduzido gradativamente a oferta do combustível e os preços subiram drasticamente, o desenvolvimento de fontes alternativas e, especialmente renováveis, é sempre uma ótima notícia. 

Durante décadas, o Reino Unido utilizou centrais termelétricas a carvão mineral para a geração de energia elétrica, uma realidade que vem mudando já há algum tempo. Até 2012, o carvão respondia por cerca de 41% de toda a eletricidade gerada no Reino Unido – em 2019, essa participação já havia caído para apenas 2%. A última central termelétrica britânica a carvão está instalada em Nottinghamshire e tem previsão de fechamento para este mês de setembro. 

O objetivo do Reino Unido é atingir 100% da produção de energia elétrica a partir de fontes renováveis até 2035. Além da energia eólica, onde os britânicos estão entre os maiores produtores mundiais, estão previstos grandes investimentos em energia solar e em hidrogênio verde, entre outras fontes renováveis. 

Conforme já tratamos em postagem anterior, as fazendas eólicas instadas em terra causam uma série de problemas – especialmente conflitos de vizinhança. O ruído constante das pás costuma incomodar os vizinhos a ponto de desencadear problemas psicológicos. Também existem reclamações por causa da poluição visual, pela morte de pássaros por choques contra as pás rotativas, além dos custos de arrendamento dos terrenos. 

A construção de complexos eólicos offshore, ou seja, em alto mar, resolve a maior parte desses problemas – exceto as mortes de pássaros em acidentes. O projeto e a construção nessas condições são bem mais complexos, uma vez que a base das torres precisar ficar encravada no fundo do oceano e os geradores vai ficar sujeitos às condições muitas vezes adversas das correntes marítimas e aos ventos. 

Aqui no Brasil a geração eólica também segue, me perdoem o trocadilho, com “vento em popa”. De acordo com dados da ABEEÓLICA – Associação Brasileira de Energia Eólica, existem 65 projetos de empreendimentos eólicos terrestre planejados para os próximos cinco anos, com previsão de investimentos de cerca de US$ 23 bilhões

Também existem estudos para a implantação de grandes parques geradores offshore ao longo da costa do Nordeste Brasileiro, região marcada por ventos fortes e constantes, além de condições climáticas bem mais favoráveis que o Mar do Norte. De acordo com as projeções iniciais, o potencial de geração eólica nessa região pode ser equivalente a mais de 50 vezes ao da Usina Hidrelétrica de Itaipu. 

De acordo com a ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica, a participação de fontes eólicas na matriz energética brasileira em dezembro de 2021, atingiu a marca de 11,1%. Isso demonstra a importância dessa fonte de energia e o seu potencial de crescimento. 

Que venham cada vez mais notícias da inauguração de centrais de geração eólica no Brasil e no mundo…