PINTADO É INCLUÍDO NA LISTA DE PEIXES AMEAÇADOS DE EXTINÇÃO 

O pintado (Pseudoplatystoma corruscans), também conhecido como surubim, caparari, brutelo, loango e moleque, é um dos maiores peixes de água doce do Brasil, podendo atingir até 1,8 metro de comprimento e peso de até 90 kg. A espécie é encontrada várias bacias hidrográficas brasileiras como a do Rio Paraná e a do Rio São Francisco. 

De acordo com muitos experts em culinária, o sabor da carne do pintado é algo incomparável. É um peixe bastante apreciado na culinária de muitas regiões do país por ter muita carne e poucas espinhas. Para os praticantes de pesca esportiva, a pesca do pintado é emocionante – é um peixe forte e brigador, o que exige muita força e agilidade dos pescadores (vide foto). 

Um exemplo de prato regional onde o peixe é o ingrediente principal é a mujica de pintado de Cuiabá, um caldo de mandioca servido com o peixe cozido. Em cidades ao longo da calha do rio São Francisco, a moqueca de surubim é uma das boas pedidas. No interior do Estado de São Paulo, é comum se encontrar pintado assado no espeto. 

Pois bem – o Ministério do Meio Ambiente incluiu o pintado na lista oficial de espécies brasileiras ameaçadas de extinção, conforme portaria publicada no último dia 7 de junho. A medida deverá entrar em vigor em 180 dias a partir da data da publicação. E já há muita gente reclamando da medida. 

O Mato Grosso do Sul é um desses. O IMASUL – Instituto do Meio Ambiente do Estado, requisitou junto ao Ministério do Meio Ambiente o estudo que subsidiou a inclusão do peixe na lista de espécies ameaçadas. 

De acordo com o órgão, o pintado não é uma espécie ameaçada de extinção nos rios de Mato Grosso do Sul. O órgão alega que o Estado já possui legislação própria para regular seus estoques pesqueiros e que não vê ameaças locais para a espécie. 

De acordo com declarações de muitos pescadores profissionais de Mato Grosso do Sul, o pintado é o carro chefe das vendas em muitas peixarias. Esses profissionais temem uma forte redução em suas rendas com a proibição da pesca da espécie. A polemica deverá aumentar muito ao longo do tempo. 

Se as águas sul-mato-grossenses, aparentemente, estão boas para os pintados, na bacia hidrográfica do rio São Francisco as coisas vão de mal a pior para a espécie, que é mais conhecida localmente pelo nome de surubim. No passado, inclusive, o surubim era uma espécie de peixe símbolo do rio São Francisco

O rio São Francisco, mais conhecido pelo nome carinhoso de Velho Chico, é um corpo d`água altamente degradado por causa dos grandes desmatamentos em suas margens, pela mineração, pelo carreamento de grandes volumes de resíduos de fertilizantes e defensivos agrícolas, além do lançamento de enormes volumes de esgotos sem tratamento e produtos químicos em suas águas. 

A ictiofauna do rio sofreu muito com a construção sucessiva de grandes barragens de usinas hidrelétricas ao longo do seu curso. Essas barragens e seus lagos destruíram muitos dos locais de reprodução das espécies aquáticas e também criaram enormes obstáculos para a migração dos animais. 

Registros históricos informam que as águas do rio São Francisco e de muitos dos seus afluentes eram altamente piscosas num passado cada vez mais distante. Aliás, ele era considerado um dos rios mais abundantes em relação a pescado no país. Esses registros indicam que a bacia hidrográfica tinha 158 diferentes espécies de peixes, algumas endêmicas. 

Um outro problema grave do rio foi a introdução de espécies exóticas de peixes, lançadas sem maiores estudos sobre os impactos e alterações ambientais que causariam no ecossistema. Na bacia hidrográfica do Rio São Francisco foram introduzidos, entre outros, o bagre-africano, a carpa e o tucunaré, espécies que ocuparam nichos ecológicos de espécies endêmicas e se tornaram verdadeiras pragas. 

Nos últimos anos, a captura de surubins nas águas do Velho Chico foi transformada em uma tarefa das mais difíceis. A situação chegou a tal ponto que muitos dos restaurantes das cidades localizadas ao longo de suas margens passaram a servir pratos à base de cachara, um peixe amazônico muito parecido com o surubim. 

Na bacia hidrográfica do rio da Prata, onde o rio Paraná é o principal corpo d`água, a principal ameaça a espécie são as grandes barragens de usinas hidrelétricas como a de Ilha Solteira e Itaipu. Além do pintado, essas estruturas ameaçam outras espécies importantes como o jaú, jurupoca, dourado e piracanjuba.  

A inclusão do pintado na lista de espécies ameaçadas de extinção é importante, mas nem de longe resolve o problema. Será preciso, entre muitas outras providencias, criar programas de reprodução em cativeiro, além do lançamento sistemático de alevinos em reservatórios de usinas hidrelétricas. 

Outra boa providencia que poderá ajudar muito será um desenvolvimento cada vez maior da criação da espécie em cativeiro para fins comerciais, a exemplo do que é feito com peixes como a tilápia. No Estado de São Paulo, esse peixe vem sendo criado em cativeiro há quase 30 anos e já responde por cerca de 40% de toda a produção de pescado do Estado. 

A recuperação dos ambientes naturais onde o pintado vive, citando como exemplo a bacia hidrográfica do rio São Francisco, também será de grande valia. O reflorestamento de trechos de matas ao redor de nascentes, a criação de “escadas para peixes” em barragens, a coleta e o tratamentos de esgotos nas cidades, entre muitas outras providencias, contribuiriam, e muito, para a recuperação das populações de pintados e de muitos outros peixes. 

Mais importante que tudo é o alerta – precisamos cuidar melhor de nossas águas e dos seus peixes! 

2 Comments

  1. Ferdinando, sou Gisa Veiga, editora de uma página semanal no jornal A União, de João Pessoa, Paraíba, chamada Radar Ecológico. Gostaria de usar essa foto na matéria sobre o pintado que iremos editar para este domingo. Mas preciso de sua permissão e do crédito da foto. Meu e-mail: gisaveiga.jp@gmail.com; meu fone/zap: (83) 99922-1111. Muito obrigada.

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