OS DISPOSITIVOS PARA TRAVESSIA DE FAUNA 

Depois de uma sequência de postagens onde só falamos de problemas ambientais, vamos começar esta semana falando de um assunto mais ameno – dos dispositivos para a travessia de fauna que começam a ser instalados em rodovias e ferrovias aqui no Brasil. 

Antes de mais nada, deixem-me explicar o termo que foi usado – dispositivos, que nada mais são do que viadutos, tuneis, passarelas ou até mesmo sistemas de cabos que são instalados ao longo de rodovias e ferrovias com o objetivo de permitir que animais silvestres consigam atravessar de um lado para outro em segurança. 

Muito comuns na Europa, nos Estados Unidos e Canadá, entre muitos outros países, o uso desses dispositivos é uma ideia que começa a ser considerada aqui em nosso país. Um exemplo é o projeto de pavimentação do chamado Lote Charlie da BR-319, rodovia que liga Porto Velho, em Rondônia, a Manaus, no Amazonas, e que é mais conhecida como “o caminho das onças“. O projeto, que se encontra na fase final do licenciamento ambiental prevê, entre outras preocupações com os impactos ambientais, a construção de 20 passagens aéreas e 12 passagens subterrâneas para a travessia de fauna em um trecho de 52 km

Talvez você esteja se perguntando qual seria a importância dessa notícia. Segundo estudos do CBEE/UFLA – Centro Brasileiro de Ecologia de Estradas da Universidade Federal de Lavras, cerca de 475 milhões de animais silvestres são atropelados em rodovias brasileiras todos os anos. São cerca de 15 vítimas a cada segundo. Cerca de 90% dos animais atropelados são de pequeno porte como sapos, cobras e aves

Esses acidentes também costumam envolver animais de grande porte como antas, veados e onças, eventos que inclusive podem representar riscos para os motoristas. Um exemplo é o que ocorre na rodovia BR-262, na região do Pantanal Mato-grossense em Corumbá. De acordo com o IHP – Instituto do Homem Pantaneiro, ao menos duas onças são atropeladas na região por ano. Um animal adulto da espécie pode passar dos 100 kg de peso, o que nos dá uma ideia do impacto com um carro em alta velocidade. 

A imagem que ilustra esta postagem mostra um viaduto vegetado que foi construído na Rodovia dos Tamoios, no Estado de São Paulo, com o objetivo de minimizar esse tipo de acidentes. Essa rodovia liga o Vale do rio Paraíba do Sul ao Litoral Norte de São Paulo, atravessando a Serra do Mar, região que concentra um dos trechos contínuos mais bem preservadas da Mata Atlântica. 

A estrutura de concreto, que está coberta por vegetação, interliga as duas bordas da mata e tem como objetivo oferecer um caminho seguro para a passagem dos animais silvestres. Para evitar que os animais tentem atravessar diretamente pela pista, cercas foram instaladas ao longo da rodovia. Já existem dispositivos semelhantes em rodovias dos Estados do Rio de Janeiro, Pará e Paraná, além de vários projetos em estudos em outros estados. 

Um outro exemplo de preocupação com a passagem de fauna é o que vem sendo feito na Ferrovia Norte Sul, projeto que vai interligar por trilhos o Porto de Itaqui, no Maranhão, ao Porto de Santos, em São Paulo. Sob os trilhos foram montadas pequenas passagens para animais rasteiros como jabutis e cobras. Também foram instaladas passarelas de cabos entre áreas de mata para permitir a passagem aérea de animais arbóreos. 

Sempre que um trecho contínuo de uma mata é cortado por uma rodovia ou ferrovia, cria-se automaticamente uma barreira para a livre circulação de animais. Animais pequenos como roedores, aves e anfíbios evitam áreas descampadas por causa dos riscos de ataques por predadores. Aves de rapina como gaviões e carcarás, citando exemplos, tem uma visão excelente e costumam atacar com grande velocidade presas mais descuidadas. Muitas espécies simplesmente não conseguem sair do meio da mata.

Para animais arbóreos como macacos e bichos-preguiça, esse trecho descampado passa a funcionar como uma barreira bastante difícil de atravessar. Eu já encontrei vários vídeos nas redes sociais mostrando o enorme esforço de bichos-preguiça para atravessar de um lado para outro de uma rodovia – muitas vezes, essa travessia dependeu da boa ajuda de um ser humano. 

A fragmentação de habitats por rodovias e ferrovias é um dos grandes problemas ambientais de nossos dias. Quando se interrompe a livre circulação de animais e se formam “ilhas de vegetação” isoladas, tem início um processo de enfraquecimento genéticos dessas populações – a exceção aqui são as aves que voam e os morcegos. Sem poder circular por grandes territórios, passa a existir a tendência de cruzamento de animais com relações de parentesco muito próximas (irmão com irmã, pai com filha, mãe com filho, etc.). 

Filhotes de animais nascidos desses relacionamentos estão sujeitos a deformidades físicas e também estão mais propensos ao desenvolvimento de inúmeras doenças. A falta de diversidade genética em uma população pode significar o começo do fim de uma espécie animal.

De alguns anos para cá tem crescido os debates sobre a necessidade de criação dos chamados corredores de biodiversidade. Falamos aqui do plantio de faixas de vegetação para a interligação de fragmentos florestais isolados. Um grande exemplo são as áreas de topo de morros que foram poupadas dos desmatamentos (pela dificuldade de acesso, é claro). Entre essas áreas, que formam verdadeiras ilhas de vegetação, normalmente existem plantações e pastagens, tipos de vegetação que não proporcionam uma travessia segura para muitos animais. 

Outra forma bastante importante de se criar esses corredores é a recuperação da mata ciliar de rios e riachos. Além de proteger as margens dos efeitos da erosão dos solos e dos desmoronamentos, a mata ciliar evita que resíduos sejam arrastados para a calha dos rios pelas enxurradas. E de quebra, essa faixa de vegetação permite a circulação dos animais silvestres. 

Em grande parte dos casos, esse corredor de biodiversidade pode ser criado com o plantio de uma faixa de mata com uma largura entre 10 e 20 metros. A combinação desses corredores com as matas ciliares e com os dispositivos de passagem de fauna em rodovias e ferrovias pode facilitar bastante a circulação de animais silvestres por uma grande área. 

Um dos grandes limitadores para a construção desses dispositivos em grande quantidade em rodovias e ferrovias brasileiras são os altos custos. Depois de construídas e colocadas em operação, qualquer alteração nessas infraestruturas passa a ser algo complicado. O ideal, como vem sendo feito, é prever a inclusão desses tipos de estruturas ainda na fase do projeto desses empreendimentos. 

Ainda existe muito o que se fazer nessa área, mas essas iniciativas já são um bom começo. E a natureza, como sempre, agradece! 

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