“SAPO-CURURU DA BEIRA DO RIO”

O título dessa postagem apresenta a última frase da antológica poesia “Os Sapos”, de Manuel Bandeira, publicada em 1919 e que ganhou uma enorme repercussão durante a Semana de Arte Moderna de 1922. Nascido na cidade do Recife, Bandeira conviveu em sua infância com toda a fauna dos manguezais e alagados dos rios Capibaribe e Beberibe. Entre os animais mais emblemático dessa fauna se encontravam os sapos-cururu, personagem frequente em histórias e lendas do folclore brasileiro.  

O sapo-cururu (Rhinella marina), conhecido em muitas regiões como sapo-boi, sapo-jururu ou simplesmente cururu, é uma espécie de sapo encontrada em extensas áreas das Américas Central e do Sul, sendo muito comum em muitos lugares do Brasil. É uma espécie robusta, que se adapta aos mais diferentes climas, ecossistemas e recursos alimentares. Em média, os sapos-cururu têm um tamanho entre 10 e 15 cm, mas já foram encontrados exemplares com 38 cm de comprimento. 

Entre os segredos do sucesso da distribuição ambiental dos sapos-cururu estão a alta fertilidade das fêmeas, que produzem grandes quantidades de ovos, e as grandes glândulas de veneno que o animal possui sob a mandíbula, o que o torna uma presa altamente tóxica para a maioria dos predadores. Jacarés-do-papo-amarelo e algumas espécies de cobras e aves estão entre os poucos predadores que conseguem tolerar o veneno dos sapos dessa espécie.  

A fama de robustez e de alta capacidade de adaptação a novos ecossistemas levaram à introdução dos sapos-cururus em algumas ilhas oceânicas pelo mundo afora, especialmente para o combate de pragas em plantações de cana-de-açúcar. A espécie é chamada em espanhol de sapo de caña e em inglês de cane toad, nomes que podem ser traduzidos nos dois casos como “sapo-da-cana” e que demonstram a aplicação da espécie nessa função.  

Porém, como não é muito difícil de se imaginar, os impactos ambientais criados pela introdução dessa espécie invasora em novos ambientes, onde não existem predadores naturais, resultaram em grandes desastres ecológicos. Um desses casos foi a introdução dos sapos-cururu nas Ilhas do Havaí, onde os animais teriam a missão de combater a infestação dos canaviais por grandes hordas de insetos.  

Domesticada há cerca de 10 mil anos no Sudeste Asiático, a cana-de-açúcar foi espalhada por todo o mundo ao longo da história das civilizações. Os primeiros relatos da produção de cana-de-açúcar nas ilhas havaianas datam de 1802, quando imigrantes chineses introduziram a espécie com vistas a produção do açúcar

A colonização das ilhas havaianas por navegadores polinésios se estendeu entre o ano 300 a.C e 600 da Era Crista. De acordo com as lendas da tradição oral, o nome dado ao arquipélago vem de Havaí Loa, nome do descobridor das ilhas. Outra hipótese é ser uma derivação da palavra polinésia para casa – Hawaiki. A descoberta das ilhas por europeus se deu em 1778, quando o Capitão James Cook desembarcou no arquipélago. 

De origem vulcânica e bastante isoladas de outras porções de terra, as ilhas do arquipélago foram colonizadas lentamente por plantas cujas sementes foram carregadas a longas distancias pelos fortes ventos alísios do Oceano Pacífico. Esses ventos também foram responsáveis pela chegada de várias espécies de insetos voadores. Aves de diversas espécies foram “descobrindo” as ilhas durante as suas rotas de migração e muitas acabaram se estabelecendo nesses territórios. 

Outro meio de transporte usado por insetos, crustáceos, pequenos répteis e anfíbios para chegar até as Ilhas do Havaí foram troncos e restos de vegetação flutuante arrastadas na direção do oceano por tempestades e levadas até o arquipélago pelas fortes correntes marítimas. Isoladas no novo ambiente, essas diversas espécies evoluíram de forma independente e formaram um bioma muito exclusivo e com espécies únicas. 

A introdução de espécies exóticas teve início com a chegada dos primeiros polinésios as ilhas. Em suas grandes canoas, os navegadores polinésios carregavam animais domésticos como porcos, galinhas, cães e gatos, além de espécies vegetais como os cocos e a batata-doce, uma planta originária da América do Sul que, “curiosamente”, foi espalhada pela maioria das ilhas do Oceano Pacífico. 

Com a colonização por europeus e asiáticos a partir do século XIX, dezenas de outras espécies exóticas passaram a ser introduzidas nas ilhas. Além da cana-de-açúcar, podemos destacar o abacaxi e as batatas, além de animais domésticos como ovelhas, cabras, vacas e cavalos, entre muitos outros. 

Até o início do século XIX, cada uma das ilhas havaianas formava um reino independente. Em 1810, o rei Kamehameha I unificou as ilhas do Havaí sob um único reino. Com a forte expansão da indústria açucareira, a influência dos Estados Unidos sobre as ilhas aumentou muito. Em 1893, a rainha havaiana Liliuokalani foi deposta e os norte-americanos criaram a República do Havaí, território anexado pelos Estados Unidos em 1898 e que foi transformado em território norte-americano em 1900. 

A introdução dos sapos-cururu nas ilhas havaianas data do início do século XX, época em que a produção da cana-de-açúcar estava sendo ameaçada por ataques de diversas espécies de insetos, especialmente besouros. Há essa época, os sapos-cururu já gozavam de uma ótima reputação como espécie controladora de insetos nos canaviais das Américas Central e do Sul. Animais passaram a ser capturados em florestas da Região da Costa do Oceano Pacífico, principalmente no Peru, Equador e Colômbia, sendo transportados e soltos nos canaviais das ilhas havaianas. 

Os robustos e adaptáveis sapos-cururu rapidamente mostraram “serviço” e conseguiram controlar as grandes infestações nos canaviais havaianos. Entretanto, como sempre acontece quando se introduz uma espécie exótica em um novo ambiente, os animais começaram a abandonar gradativamente as áreas de produção de cana-de-açúcar e a se espalhar por áreas de matas nativas. Sem se preocupar com ameaças de predadores naturais, a população desses sapos cresceu muito.

Muito maiores e mais fortes que as espécies de anfíbios nativos do Havaí, os sapos-cururu começaram a conquistar cada vez maiores territórios mediante uma competição “desleal”. Além de anfíbios locais, os sapos sul-americanos passaram a ameaçar também diversas espécies de répteis, insetos, vermes e crustáceos nativos, que tiveram suas populações fortemente reduzidas e passaram a ser ameaçadas de extinção. 

Os fortes impactos ambientais criados pela introdução dos sapos-cururu nas Ilhas do Havaí passaram relativamente despercebidos ao longo de várias décadas. Essa relativa” invisibilidade” desses impactos se deve ao fato das espécies impactadas serem pequenas e de habitarem locais isolados no meio das matas.  

No início da década de 1930, os sapos-cururu receberam a missão de repetir a mesma façanha na Austrália, onde uma grande praga de besouros-da-cana (Dermolepida albohirtum)  infestava os canaviais em grandes regiões do país. Lá, os impactos ambientais foram bem maiores que aqueles observados nas Ilhas do Havaí. 

Falaremos disso na próxima postagem. 

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