QUAL CIDADE TEM O AR MAIS POLUÍDO: SÃO PAULO OU PARIS?

Poluição do ar em Paris

A cidade de São Paulo ganhou a fama de caótica, poluída e congestionada há várias décadas atrás – muitos dos que leram o título da postagem não pensaram duas vezes e apontaram o dedo para a minha cidade. Lamento ser eu a informar a esses apressados, mas Paris ganha disparado de São Paulo quando se fala em poluição do ar (vide foto). Vamos entender essa maluquice: 

A OMS – Organização Mundial da Saúde, criou, há muitos anos atrás, uma classificação padronizada para indicar os níveis de poluição do ar nas grandes cidades do mundo. Nessa análise é avaliada a presença de diferentes poluentes no ar como fumaça, ozônio e monóxido de carbono, além de medir a quantidade de partículas poluentes inaláveis. Dentro dos critérios da OMS, o limite aceitável desses poluentes sem se afetar a saúde das populações é de 25 microgramas por metro cúbico de ar

Em postagens bem recentes, falamos dos níveis absurdos da poluição do ar em cidades como Pequim, na China, onde esse índice chega a 900 microgramas, e Ulan Bator, na Mongólia, onde “bate” no limite da escala – 999 microgramas em algumas épocas do ano. Ao longo do inverno de 2019, época do ano em que não há ventos para dispersar os gases atmosféricos, os níveis de poluição em Paris chegaram à marca de 105 microgramas

De acordo com dados da OMS, compilados entre 2009 e 2010, a poluição média na cidade de São Paulo apresentou níveis de poluentes da ordem de 38 microgramas para cada metro cúbico de ar. Os mesmos dados mostraram a cidade do Rio de Janeiro com índices de 64 microgramas, Belo Horizonte com 20 microgramas e Curitiba com 29 microgramas para cada m³ de ar. Apesar desses dados serem um pouco antigos, a poluição em nossas cidades está praticamente estabilizada há vários anos. 

Eu me lembro muito bem do ano de 1978, quando comecei a trabalhar como office boy (em muitos lugares chamam de mensageiro) em um escritório na região dos Jardins, área nobre da cidade de São Paulo. Acostumado com a atmosfera quase rural do meu bairro, na Zona Sul da cidade, eu lembro que sofria muito com a poluição da “cidade”, nome que nós “caipiras” damos à zona central. Naqueles tempos, existiam muitas fábricas dentro da cidade de São Paulo, carros antigos sem catalizador nos escapamentos, caminhões a diesel circulando livremente dentro da área urbana e, principalmente, poucas áreas verdes. 

As coisas mudaram muito de lá para cá – o crescimento do movimento sindical expulsou a maioria das fábricas da Região Metropolitana. Um exemplo que posso citar é o antigo distrito industrial de Jurubatuba, em Santo Amaro, famoso por abrigar no passado um grande parque de indústrias de auto peças – muitas fábricas fecharam e os galpões acabaram sendo transformados em supermercados, shopping center e até em igrejas. 

Surgiu também o Programa Pró-Álcool no final da década de 1970, que visava substituir parte do uso da gasolina nos veículos – além de ser renovável, o álcool ou etanol polui bem menos. Em anos mais recentes, os veículos passaram a sair de fábrica com catalisadores, dispositivos que ajudam a controlar a poluição e também surgiram os motores flex, que funcionam tanto com gasolina quanto com etanol. São Paulo também utiliza um sistema de rodízio de carros para reduzir os engarrafamentos e criou regras para a restrição do tráfego de caminhões. 

Por fim, e não menos importante, houve um grande aumento nas áreas verdes da cidade, especialmente com a implantação de grandes jardins dentro dos novos condomínios que foram sendo construídos. Aliás, esse item virou um diferencial na hora em que os paulistanos estão escolhendo um apartamento para comprar – quanto maior e mais bonita é a área verde do condomínio, maiores as chances de o negócio ser fechado. Em resumo – ainda não chegamos ao paraíso, mas, quando comparada aos cinzentos dias do final da década de 1970, a qualidade do ar em São Paulo melhorou muito. 

Falemos agora de Paris, conhecida como Cidade Luz e considerada uma das capitais mais bonitas do mundo. A cidade surgiu como um assentamento romano às margens do rio Sena por volta do ano 50 da nossa era. Os romanos chamavam o lugar de Lutetia Parisiorum em latim, ou Lutécia dos Parísios – Paris surgiu como uma abreviação desse nome. Quando o Brasil foi descoberto no ano de 1500, Paris já era uma das maiores e mais importante cidade da Europa, com uma população de quase 400 mil habitantes. 

Em meados do século XIX, Paris era uma cidade grande, poluída e caótica. Foi quando teve início uma grande reforma urbanística comandada pelo prefeito George-Eugéne Haussmann. Os grandes cortiços foram derrubados e as margens do rio Sena foram urbanizadas; grandes avenidas, praças e parques, novas pontes e grandes edifícios públicos foram construídos. A mais notável revolução na vida da cidade, entretanto, se deu nos subsolos – foi iniciada a construção do grande sistema de esgotos, que foi na minha opinião o grande marco divisor na história da cidade de Paris. De lá para cá, a cidade virou uma referência em qualidade de vida urbana, beleza e cultura. 

Com o passar das décadas e com o crescimento intenso da cidade para muito além da área central histórica, conhecida como Ilé-de-France, Paris e sua Região Metropolitana começaram a ficar muito parecidas com outras grandes manchas urbanas do mundo. A conurbada (quando existe a fusão de diferentes áreas urbanas) Região Metropolitana de Paris tem atualmente 12,5 milhões de habitantes, a mesma população da cidade de São Paulo, o que nos dá uma ideia da quantidade de problemas urbanos, principalmente nas regiões periféricas, onde se concentram as populações mais pobres e os imigrantes do Oriente Médio e da África que se refugiaram na França. 

Os parisienses mais tradicionalistas, que os falantes da língua inglesa chamam maldosamente de frogs – os comedores de rãs numa tradução livre, fazem questão de não querer mostrar aos turistas essa espécie de “lado escuro” de Paris (faço referência aqui ao lado escuro da lua e não à cor da pele de grande parte dos imigrantes). Essa “tarefa” está sendo cada vez mais difícil de se realizar – esses problemas estão chegando cada vez mais perto da Ilé-de-France. Cito como exemplos uma antiga linha férrea abandonada, que foi transformada em uma grande favela linear dentro de Paris, onde vivem milhares de imigrantes, e os cortiços em belos edifícios com fachadas neoclássicas – belas paredes por fora, mofo e muitos problemas por dentro. 

Esse grande caldeirão de problemas se completa com uma gigantesca frota de veículos circulando pelas ruas e avenidas da Região Metropolitana, onde eu destaco a presença de um grande número de automóveis com motores a diesel, que são muito poluentes e que não existem nas grandes cidades brasileiras. A maior parte da energia elétrica consumida na França (cerca de 70%) vem de centrais nucleares, mas existem inúmeras centrais termelétricas a carvão, famosas pela grande poluição que geram. Nos meses frios do inverno, existe também o problema adicional do aquecimento das casas, onde se queima muito óleo combustível e madeira. 

A localização geográfica de Paris também não ajuda muito – nos meses de inverno os ventos são muito fracos ou inexistentes na região, o que acaba contribuindo para uma grande concentração de gases poluentes e deixa a atmosfera da cidade com uma penumbra acinzentada. Em São Paulo, ao contrário, a geografia dá uma boa ajuda – ventos constantes vindos do Oceano Atlântico, distante cerca de 70 km do centro da cidade, ajudam a dispersar os poluentes (exceto em momentos em que mudanças bruscas na temperatura produzem a chamada Inversão Térmica). 

A boa fama que Paris ganhou a partir das últimas décadas do século XIX ainda mantem sua força, mas se as coisas não melhorarem nos próximos anos, essas más notícias mancharão irremediavelmente o nome da cidade. E quando se ganha a pecha de cidade muito poluída, é muito difícil reverter essa imagem.  

A cidade de São Paulo que o diga… 

OS GARIMPOS ILEGAIS NA GUIANA FRANCESA, OU OS PECADOS AMBIENTAIS DA FRANÇA NA AMAZÔNIA

Garimpo na Guiana Francesa

A Guiana Francesa é um pequeno enclave europeu na Floresta Amazônica com pouco mais de 80 mil km², o que correspondende a metade do território do Estado brasileiro do Acre. Apesar dos franceses afirmarem se tratar de um “departamento ultramarino”, ou seja, uma extensão do território da França do outro lado do oceano, tecnicamente falando trata-se da última colônia da Europa nas Américas. As condições de vida da população franco-guianense, que se encontra na casa dos 290 mil habitantes e é menor do que a população de bairros das grandes cidades brasileiras, estão muito aquém do padrão médio dos cidadãos franceses.  

A produção econômica local é o que se chama de subsistência, ou seja – tudo o que é produzido é para o consumo próprio, sem geração de excedentes. O território é totalmente dependente da inversão de capitais da Metrópole. A taxa de desemprego está na casa dos 20% na zona litorânea, onde vive perto de 75% da população. Em áreas do interior, o desemprego supera a casa dos 30%. O maior gerador de receitas da Guiana Francesa é o Centro Espacial de Kourou, onde são feitos os lançamentos de foguetes e satélites da ESA – Agência Espacial Europeia na sigla em inglês. Outra atividade importante é a mineração. 

O paraíso equatorial de Emmanuel Macron, que durante a crise das queimadas na região no ano passado usou a expressão “a nossa Amazônia”, apresenta, em menor escala, os mesmos problemas dos demais países amazônicos – falta de infraestrutura, fronteiras sem fiscalização, derrubada de florestas e devastação ambiental, Nos garimpos ilegais, somam-se a esses problemas a prostituição, tráfico e consumo de drogas, contrabando, epidemias de doenças tropicais como a malária, violência e invasão de áreas indígenas, entre outros.

O garimpo ilegal do ouro, tanto em áreas florestais públicas, quanto em reservas florestais e áreas indígenas, é um dos maiores problemas ambientais da Guiana Francesa. De acordo com estimativas bem imprecisas da Agência Nacional de Florestas da França, existem entre 500 e 900 garimpos ilegais de ouro no território, comprometendo cerca de 12 mil hectares de florestas e 1,3 mil km de cursos d’água

Segundo informações do WWF – Fundo Mundial para a Natureza na sigla em inglês, a mineração ilegal emprega pelo menos 10 mil pessoas, onde além de locais se encontram cidadãos do Brasil, Suriname, Guiana, Haiti e, mais recentemente, da Venezuela. A atividade utiliza cerca de 10 toneladas de mercúrio a cada ano, que é usado para separar o ouro dos rejeitos minerais. O mercúrio, conforme já tratamos em postagens anteriores, é um metal pesado altamente tóxico, que contamina águas, solos e pessoas. Cerca de mil hectares de florestas são destruídos silenciosamente a cada ano – os garimpeiros locais usam a tática de manter as árvores maiores em pé, dificultando assim a identificação, por imagens aéreas e de satélite, das áreas devastadas  (vide foto)

O Governo da França proibiu o uso do mercúrio na Guiana Francesa em 2006, o que podemos afirmar que foi uma iniciativa “para cidadão francês ver”. Com fronteiras altamente permeáveis e com uma infinidade de estradas e trilhas clandestinas por todos os cantos, o mercúrio entra com extrema facilidade no “departamento” através das mãos de contrabandistas e continua sendo usado livremente na separação do ouro nos garimpos. Assim como ocorre aqui na Amazônia brasileira, a fiscalização das autoridades francesas é extremamente precária e existem grandes extensões onde a “terra é de ninguém”. 

Esses mesmos caminhos clandestinos servem ao descaminho do ouro, que sai ilegalmente da “França” e vai parar nos mercados clandestinos dos países vizinhos. Um caso interessante que podemos citar é o do Estado do Amapá aqui no Brasil, que vem aumentando os seus volumes de “exportação” de ouro sem apresentar aumentos correspondentes na produção mineral local. O Amapá e a Guiana Francesa, não por acaso, compartilham uma extensa fronteira que, praticamente, não tem fiscalização alguma. 

Os pequenos pecados ambientais da Guiana Francesa vêm crescendo num ritmo acelerado nos últimos anos e, pelo andar da carruagem, deverão aumentar exponencialmente nos próximos dois anos. Um consórcio de empresas de mineração da Rússia e do Canadá apresentou ao Governo da França um pedido para a implantação de um grande projeto de mineração industrial de ouro no Norte do “departamento” franco-guianense, que espera implementar a partir de 2022. Esse projeto tem o sugestivo nome de Montagne d’Or, ou Montanha de Ouro numa tradução livre. 

De acordo com os estudos e prospecções realizados por essas empresas, a região tem um potencial para a produção de 85 toneladas de ouro ao longo de 12 anos. Para nós brasileiros, esse é um número que não surpreende – o lendário garimpo de Serra Pelada no Pará, produziu oficialmente cerca de 50 toneladas de ouro entre os anos de 1980 e 1992. Dados extra oficias falam de uma produção entre 100 e 400 toneladas do metal

O consórcio minerador estima que o projeto poderá gerar 750 empregos diretos e cerca de 3 mil indiretos. Desde 2018 o grupo vem tentando colocar o projeto em consulta pública, o que faz parte do processo de liberação da autorização de lavra junto ao Governo da França. Em 2017, inclusive, o Presidente Emmanuel Macron, afirmou em uma entrevista aos canais de televisão France Télévisions Guyane e ATV que “é um projeto que, em minha opinião, pode ser bom para a Guiana” e que “espero que a Guiana possa ter sucesso com suas riquezas, e não estou em posição de colocá-la (o território) em risco”. 

A simples sinalização de que o Governo da França era simpático à liberação da licença de mineração do projeto Montagne d’Or despertou a fúria de grupos ambientalistas da França e da Europa, que não admitem, em hipótese alguma, a devastação em larga escala de um trecho “europeu” da Floresta Amazônica. De acordo com os ambientalistas, o projeto causaria a destruição de uma área de mais de 800 hectares de floresta, onde seria aberta uma cava com 2,5 km de extensão, 500 metros de largura e 400 metros de profundidade, e onde seria usada cerca de 20% de toda a energia elétrica produzida na Guiana Francesa

Outro gravíssimo problema apontado pelos ambientalistas é a produção de rejeitos minerais, um dos maiores problemas da mineração. Conforme comentamos em postagens recentes, as empresas de mineração da Rússia têm um longo histórico de contaminação de solos e águas com metais pesados presentes em rejeitos minerais, principalmente na Sibéria. As empresas canadenses do setor também não fazem feio “nesse quesito”: em 2014, o rompimento de uma barragem de rejeitos da mineração de cobre e ouro na Colúmbia Britânica, Oeste do Canadá, resultou no vazamento de mais de 24 milhões de m³ de lama tóxica. 

Diante de tamanha pressão popular, não é de se estranhar a mudança de postura do Presidente francês que, em 2019, se transformou no maior defensor da Floresta Amazônica e desferiu ataques viscerais contra o Brasil por causa da onda de queimadas que estavam transformando a “Amazônia em cinzas”. Essa mudança de postura, é claro, emparedou politicamente Emmanuel Macron, que, agora como defensor número um da Amazônia, não pode liberar as operações da Montagne d’Or

O mundo, porém, dá voltas – a epidemia da Covid-19 está devastando a economia mundial e a França, assim como grande parte dos países do mundo, já se encontra tecnicamente em recessão. Com o grama do ouro cotado em € 44 (euros) nesses últimos dias, será muito difícil que o Governo da França resista à ideia de manter 85 toneladas do metal enterradas no solo da Amazônia enquanto milhões de cidadãos do país estão passando por dificuldades financeiras. Algum malabarismo político ou pirotecnia será feita para convencer o público/eleitorado que é possível fazer a exploração de toda essa montanha de ouro sem causar problemas para o meio ambiente e preservando a Floresta Amazônica, mesmo que isso não seja absolutamente verdadeiro. 

Quando se trata de dinheiro, a hipocrisia sempre “fala mais alto”.