OS PROBLEMAS DE SANEAMENTO BÁSICO QUE CHEGAM ATÉ VOCÊ, MESMO VOCÊ ESTANDO BEM LONGE

Hortas do cinturão verde

Na postagem anterior falamos da aprovação pela Câmara dos Deputados do texto-base do Projeto que trata do novo marco legal do saneamento básico. Sendo aprovado, esse projeto permitirá, entre outras coisas, a exploração dos serviços de abastecimento de água e de coleta e tratamento de esgotos por um número maior de empresas do setor privado, uma iniciativa que permitirá ampliar, e muito, a prestação desses serviços aqui no Brasil. Cerca de 48% da população brasileira não tem acesso à redes coletoras de esgotos, o que nos dá uma ideia da precariedade do saneamento básico no Brasil.

Quem mora em bairros bem estruturados nas cidades, especialmento em apartamentos, talvez não sinta as dificuldades vividas pela maior parte da população em relação ao saneamento básico. Entretanto, os problemas criados pela falta de uma boa infraestrutura de saneamento básico podem chegar até a sua casa. Um bom exemplo são os mosquitos Aedes Aegypti, transmissores de doenças como a Dengue, a Zica e a Chikungunya, que sempre dão um jeitinho e conseguem chegar às melhores casas das cidades. Um outro caminho são alimentos como verduras e legumes que podem ter sido irrigados com água contaminada por esgotos.

Um estudo publicado em julho de 2017 pela respeitada revista Environmental Research Letters confirmou que, em todo o mundo, uma área equivalente à da Alemanha (aproximadamente 30 milhões de hectares) é irrigada com água contaminada pelos esgotos das cidades. De acordo com modelos matemáticos elaborados pelos autores desse estudo, cerca de 885 milhões de pessoas consomem verduras e vegetais produzidos sob essas condições, ficando expostas a uma infinidade de patógenos, como parasitas e bactérias, com significativos riscos à saúde.

A Environmental Research Letters é uma revista científica trimestral em língua inglesa, publicada exclusivamente no formato eletrônico e com acesso aberto, especializada na divulgação de pesquisas em todos os aspectos da ciência ambiental. A revista é publicada desde 2006, tendo como editor-chefe Daniel Kammen, da conceituada Universidade da Califórnia, em Berkeley. Os dados dessa pesquisa vão de encontro a estudos da OMS – Organização Mundial da Saúde, que demonstram que mais de 10% da população mundial, ou 700 milhões de pessoas, consome regularmente alimentos produzidos a partir da irrigação com águas residuais. Com o crescimento da urbanização em todo o mundo, a tendência é de um aumento cada vez maior do uso dessas águas nas lavouras.

Cinturões verdes são uma espécie de subproduto da urbanização – desde a antiguidade, se observa que sempre que uma aglomeração humana era organizada, surgia um pequeno cinturão verde ou área agrícola nas vizinhanças, com o papel de fornecer frutas e vegetais frescos para a população, além de aves, ovos, leite e outros produtos de origem animal. Outro produto dessas aglomerações é o esgoto, tradicionalmente lançado nas águas para o transporte e dispersão. Logo, a combinação de águas poluídas e irrigação é uma prática muito antiga, que só fez aumentar ao longo do tempo.

Não custa lembrar que, diariamente, 5,5 mil toneladas de esgotos não tratados são lançadas em rios e córregos de todo o Brasil – quase metade dos esgotos gerados em nossas cidades não recebe qualquer tipo de tratamento. A situação não é muito melhor em países como China, Índia, Paquistão, México, Irã, Argentina, África do Sul, entre outros países mundo afora, que despejam bilhões de litros de esgotos em suas águas todos os dias. E são, justamente, as águas usadas pelos pequenos agricultores na irrigação de suas hortas e culturas.

O problema é mais complexo do que parece ser: essas mesmas águas poluídas são usadas para o abastecimento de populações e se os sistemas de tratamento não forem eficientes, a água servida à população poderá chegar já contaminada com todo o tipo de patógenos. Ou seja, a população poderá sofrer contaminações tanto através da água que consome, quanto pelas verduras e legumes que come.

Um exemplo que posso citar foi um surto de toxoplasmose que se abate na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul em meados de 2018. foram confirmados mais de 900 casos, sendo que vários dos doentes eram mulheres gestantes – diversos bebês contraíram a doenças ainda no útero da mãe. Meses depois foi confirmado que a origem da doença foi a água servida à população pela rede pública de abastecimento, que estava contaminada com o protozoário Toxoplasma gondii e que foi disseminado pelos esgotos da cidade, que por falta de tratamento contamiram as fontes de água.

Um outro exemplo que demonstra os riscos da contaminação das águas foi demonstrado em um pesquisa feita pela Vigilância Sanitária da cidade de Ribeirão Preto, na Região Noroeste do Estado de São Paulo. Entre fevereiro de 2000 e setembro de 2001, foi realizado um estudo sobre a qualidade das hortaliças vendidas na cidade, onde também foi avaliado o uso de águas contaminadas na irrigação de plantações produtoras dessas hortaliças. O estudo avaliou a qualidade de 103 hortaliças e suas respectivas águas de irrigação, provenientes de 88 hortas diferentes. As amostras de água foram recolhidas em frascos de 250 ml, esterilizados e específicos para análise microbiológica.

Das hortas selecionadas para o estudo, 47 já haviam sido avaliadas em um estudo anterior e 41 nunca haviam sido avaliadas. 67 hortas passaram por testes para avaliação da presença de coliformes fecais a 45° C na água e nas hortaliças – 30 hortas ou 44,8% apresentaram níveis acima do limite tolerado;

21 hortas foram analisadas de acordo com a legislação em vigor da Autarquia – 6 hortas ou 28,5% apresentaram água de irrigação com níveis de coliformes fecais acima do limite tolerado a uma temperatura de 45° C. Relembrando: coliformes fecais são encontrados nos intestinos de animais de sangue quente como bovinos, suínos, aves e seres humanos, o que indica a contaminação das águas por fezes

A presença simultânea de parasitas foi detectada em 15 hortas ou 17% das 88 hortas avaliadas, sendo que em uma das amostras foi encontrada a Giardia spp, um parasita altamente resistente, que pode contaminar água e alimentos; 

Um detalhe preocupante dessa pesquisa é que Ribeirão Preto é uma das cidades mais ricas do interiro de São Paulo e fica numa região que é chamada, informalmente, de Califórnia Brasileira. A cidade possui índices de atendimento da população por redes de abastecimento de água e de coleta de esgotos bem acima da média brasileira. Se esses índices de contaminação de alimentos foi encontrado por lá, imagine a situação nas regiões mais pobres do país.

Além dos problemas com os alimentos contaminados, ainda é preciso lembrar dos milhões de trabalhadores rurais, que ficam em contato diário com essas águas contaminadas e expostos a todos os tipos de patógenos e outros poluentes presentes nos esgotos de uma cidade, com destaque para os metais pesados como mercúrio, zinco, cádmio e níquel. 

Um importante recado final: na dúvida sobre a origem das verduras e legumes que você consome, use sempre uma solução com hipoclorito de sódio para a higienização antes do consumo desses alimentos.

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