OS TRECHOS NAVEGÁVEIS DO RIO SÃO FRANCISCO

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O Amazonas, que é o segundo rio mais extenso do mundo (o rio Nilo, o mais extenso, é um pouco maior que o Amazonas) e o mais caudaloso de todos, é um ótimo exemplo de rio com águas facilmente navegáveis. Uma embarcação com uma boa motorização e com um tanque de combustível de “bom tamanho”, poderá sair das águas salobras do litoral da Ilha do Marajó e subir gradativamente as águas do rio Amazonas até chegar ao porto de Letícia, na Colômbia, seguir viagem até Iquitos, no Peru, ou ir até mais além. Mas não são todos os rios que oferecem condições de navegação tão boas. 

O São Francisco é um exemplo de rio com vários trechos navegáveis e também com inúmeros obstáculos naturais e artificias para a navegação. Um destes obstáculos naturais é a famosa Cachoeira de Paulo Afonso, um conjunto de degraus rochosos com 80 metros de altura. Outros tipos de obstáculos que surgiram no rio São Francisco foram as barragens de algumas usinas hidrelétricas, construídas sem a previsão de eclusas. 

Com 2.830 km de extensão, o rio São Francisco pode ser dividido em quatro trechos diferentes: o Alto Rio São Francisco, que vai das nascentes até a Serra da Canastra; o Médio, que vai de Pirapora, no estado de Minas Gerais até Remanso, na Bahia; o Submédio, localizado entre Remanso e Paulo Afonso e, finalmente, o Baixo Rio São Francisco, que vai de Paulo Afonso até a foz no Oceano Atlântico. Os trechos navegáveis se encontram, em sua maior parte, nas regiões do Médio e Baixo Rio São Francisco

A história geológica do rio está na origem dessa divisão em trechos diferentes: 

O médio vale do Rio São Francisco é o que se chama em geologia estrutural de Graben ou fossa tectônica – um vale alongado com um fundo plano, resultado do afundamento de um grande bloco do território devido aos movimentos combinados de falhas geológicas paralelas ou quase paralelas. Sem entrar em maiores detalhes, esse afundamento ocorreu devido à movimentação das Placas Tectônicas, durante a separação da América do Sul dos demais blocos do supercontinente Pangeia, iniciada a partir de 200 milhões de anos atrás. 

Essa fossa tectônica, numa primeira fase, formou um grande lago alongado, orientado no sentido Norte-Sul. Com o tempo, a água deste lago encontrou um ponto de escape através das rochas na direção Leste, através da qual começou a fluir em direção ao Oceano Atlântico, formando o Baixo Rio São Francisco – ao longo de um processo erosivo de milhões de anos, a água escavou as rochas nesta falha, formando o que conhecemos hoje como Canyon do Rio São Francisco (vide foto). 

O Alto Rio São Francisco, por sua vez, fica localizado nos domínios da Serra da Canastra, uma  grande formação rochosa resultante da combinação, entre outras, de duas antigas estruturas geológicas: o Cráton do São Francisco, que surgiu no período Arqueano, a mais de 2,5 bilhões de anos atrás, e a Faixa Brasília, formada no final do Proterozóico Superior, a mais de 500 milhões de anos atrás. Essa região se caracteriza pela existência de trechos com leito muito irregular e rochoso. O curso do rio São Francisco que conhecemos hoje, foi moldado lentamente pela força contínua das suas águas nestes diferentes cenários e relevos. 

O Baixo Rio São Francisco é navegado desde os primeiros tempos da Colonização do Brasil. O historiador português Gabriel Soares de Souza, autor do Tratado Descritivo do Brasil, publicado pela primeira vez em 1587, nos legou um breve registro dessa navegação: 

“Navega-se este rio com caravelões até a cachoeira, que estará da barra vinte léguas, pouco mais ou menos, até onde tem muitas ilhas, que o fazem espraiar muito mais que na barra, por onde entram navios de 50 tonéis pelo canal do sudoeste, que é mais fundo que o do nordeste.”  

Considerando que a légua portuguesa na época correspondia a aproximadamente 5 km (dependendo da fonte consultada, esse valor vai variar), essa antiga navegação subia pelas águas do rio São Francisco até 100 km da foz. As cidades de Penedo, em Alagoas, e Neópolis, citadas na postagem anterior, foram importantes portos fluviais neste período colonial. Até algumas décadas atrás, embarcações menores, que tem pouco calado, conseguiam atingir o munícipio de Piranhas, no Estado de Alagoas, nas proximidades da barragem da Usina Hidrelétrica de Xingó e a cerca de 208 km da foz do rio. Com a contínua redução dos caudais do rio, assunto que trataremos em outra postagem, e a consequente redução da profundidade, a navegação por este trecho do rio São Francisco se tornou bastante perigosa

Outro importante trecho, que foi navegável e navegado por muito tempo, ligava a cidade de Pirapora, no Estado de Minas Gerais, até as cidades de Petrolina, em Pernambuco, e Juazeiro, no Estado da Bahia, numa extensão de 1.371 km. Embarcações menores, especialmente turísticas, ainda conseguem navegar além destas duas cidades, seguindo por alguns trechos entre os paredões do canyon e chegando até as proximidades de Paulo Afonso. 

A navegação entre Pirapora e Petrolina/Juazeiro foi muito importante para o transporte regional de cargas e pessoas. Uma das mais icônicas embarcações a realizar esta viagem foi o vapor Benjamim Guimarães. Fabricado nos Estados Unidos em 1913, o vapor chegou a navegar pelas águas do rio Mississipi e da bacia Amazônica. Em meados da década de 1920, chegou ao rio São Francisco, onde fez história. Com capacidade para transportar até 170 passageiros, o Benjamim Guimarães gastava entre 3 e 5 dias para realizar a viagem, consumindo o equivalente a 1 m³ de lenha para cada hora navegada. Em 1955, todas as empresas de navegação foram encampadas pela União e o vapor Benjamim Guimarães, junto com outras trinta e uma embarcações, foi transferido para o Serviço de Navegação do São Francisco, passando depois para a Companhia de Navegação do São Francisco. 

A partir da década de 1960, com a abertura de estradas de rodagem e com a popularização cada vez maior dos transportes em ônibus e caminhões, essa rota fluvial foi perdendo importância e o número de embarcações foi sendo reduzido ano após ano. A degradação ambiental em toda a bacia hidrográfica também cobrou um alto preço, se refletindo em fortes reduções nos caudais, com o afloramento de rochas do fundo e com o surgimento de bancos de areia e de entulhos por grandes extensões – nos períodos de seca, a navegação por vários trechos desta antiga rota fluvial se tornou bastante difícil. 

Nos últimos anos, o transporte de cargas voltou a ganhar importância ao longo de um trecho de 560 km de águas do rio São Francisco e de alguns dos seus afluentes, como o rios Paracatu, Grande e Corrente. A Hidrovia do Rio São Francisco já transporta, anualmente, cerca de 60 mil toneladas de cargas, com um enorme potencial de crescimento

Falaremos disto na próxima postagem. 

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