OS RISCOS DA AGRICULTURA IRRIGADA NA ÁFRICA AUSTRAL

Angola

Nas últimas décadas, nenhum país do mundo obteve melhores resultados econômicos do que a China. Durante anos a fio, o país manteve taxas de crescimento econômico acima de 10% ao ano – recentemente, este fôlego chinês foi um pouco reduzido e tem se mantido em “parcos” 7% ao ano. 

Como aconteceu na Europa nos tempos da Revolução Industrial em fins do século XVIII e depois em outras nações pelo mundo a fora, o desenvolvimento econômico da China tem sido construído a partir de inúmeras agressões ao meio ambiente, com muita poluição nas águas, solos e ares do país. Já citamos aqui no blog alguns desses abusos, como a poluição do rio Yangtzé e o desaparecimento do baiji, uma espécie de boto de água doce. Felizmente, o respeito ao meio ambiente lentamente começa a ganhar adeptos na grande potência emergente. 

O desenvolvimento econômico da China, silenciosa e sistematicamente, avança além das fronteiras do país e se espalha mundo afora. E o continente africano é onde os chineses mais investem. De acordo com informações da publicação Hoje Macau, jornal chinês de Macau publicado em língua portuguesa, somente no primeiro semestre de 2016, os chineses investiram mais de US$ 50 bilhões em países africanos, superando os investimentos de americanos e europeus. Entre os anos 2000 e 2015, a China concedeu US$ 95 bilhões em empréstimos e linhas de crédito para Governos e empresas estatais africanas. Mais de 63% desses empréstimos foram destinados a obras de infraestrutura como ferrovias e rodovias, além de projetos nas áreas de energia e telecomunicações. Países como Angola, Etiópia, Quênia e Sudão lideram a lista dos investimentos

Uma área extremamente sensível, onde investidores chineses têm atuado no continente africano, está ligada a projetos agropecuários. Com terras baratas e farta disponibilidade de mão de obra, as terras africanas se prestam muito bem aos projetos de produção de grãos para o abastecimento do mercado chinês. Conforme comentamos em postagem anterior, a China enfrenta sérias dificuldades com os seus estoques de água doce, que têm sido, prioritariamente, destinados para o abastecimento de cidades e de indústrias. Não sendo possível produzir grãos em seu próprio país, os chineses têm buscado alternativas pelo mundo – o Brasil, inclusive, está no radar dos chineses. Uma região da África onde os chineses têm demonstrado forte interesse para o desenvolvimento de projetos agropecuários é Angola. 

Depois de mais de 37 anos de uma guerra civil devastadora, Angola se esforça para se reerguer e recuperar o tempo perdido. A região das nascentes do Rio Okavango, que foi um foco importante dos conflitos, iniciou em 2002 um intenso trabalho de localização e remoção de minas terrestres, criando condições para o retorno de centenas de milhares de famílias expulsas pelos conflitos armados – órgãos oficiais estimam que a população na região chegará aos 2 milhões de habitantes nos próximos quarenta anos.  

Os frágeis e pouco férteis terrenos de savanas dessa região, não conseguindo responder às expectativas de produção dos agricultores, passaram a ser trocados pelas áreas de florestas, que após a derrubada e as queimadas (a coivara, técnica agrícola usada por populações indígenas, quilombolas e ribeirinhas do Brasil), apresentam resultados um pouco melhores: até 100 kg de painço por hectare – para efeito de comparação, a produtividade média da soja no Brasil é de 2.882 kg por hectare e em algumas regiões da Europa se produz 7.000 kg de trigo na mesma área.

Esse avanço sobre a floresta costuma ser fatal para as nascentes de água, que diminuem a produção e sofrem com o entulhamento das erosões do solo. É justamente nessa região que empresários chineses pretendem implantar grandes projetos de agricultura irrigada, valendo-se das águas do rio Okavango. Os chineses têm muita experiência em agricultura irrigada em terrenos secos e pouco férteis na região Norte da China, onde, à custa de grandes volumes de água, produzem mais de 40% da safra de grãos do país. Esses projetos agrícolas, porém, poderão destruir uma das maravilhas do continente africano: o Delta do rio Okavango.  

A região do Delta do Rio Okavango em Botsuana é considerada um dos últimos refúgios selvagens de toda a África e uma das maiores atrações turísticas da região Austral do continente. A luxuriante vegetação alimentada pelas águas do rio é um verdadeiro paraíso para a vida selvagem, sustentando grandes mamíferos como elefantes, girafas, hipopótamos, búfalos e zebras, que por sua vez atraem os grandes predadores: leões, leopardos, guepardos e mabecos, sendo acompanhadas por toda uma sequência de carniceiros como as hienas e abutres. A ciência ainda não dispõe de estudos completos acerca do Delta do Okavango, mas, até o momento, já identificou 50 espécies de pássaros, 128 de mamíferos e 150 de répteis e anfíbios – o número de espécies de peixes e de insetos ainda é desconhecido. A bacia hidrográfica do Rio Okavango na África Austral, que ocupa áreas de Angola, Namíbia e de Botsuana, é o lar de, pelo menos, um milhão de pessoas.  

A retirada de grandes volumes de água do rio Okavango para uso em sistemas de irrigação poderá comprometer, irremediavelmente, a vida neste paraíso selvagem. 

Nós falaremos disso na próxima postagem. 

A QUEDA DE BRAÇOS ENTRE A AGRICULTURA E A INDÚSTRIA NA CHINA

Agricultura na China

Vamos falar hoje de problemas ligados à agricultura irrigada no país mais populoso do mundo: a China, onde quase 1,4 bilhão de pessoas disputam, “palmo a palmo”, cada litro de água e cada metro quadrado de solo. Para efeito de comparação, a China tem um território com uma área de 9,6 milhões de km², pouco mais de 1,1 milhão de km² a mais que o Brasil, porém com uma população 7 vezes maior. 

Apesar do território chinês ser ligeiramente maior do que o brasileiro, existem diferenças físicas marcantes entre os territórios, características que diferenciam fortemente a agricultura nos dois países: enquanto as áreas montanhosas ocupam aproximadamente 3% do território do Brasil, na China essa proporção supera a casa dos 30%, especialmente na faixa Oeste do país onde se encontra a grandiosa Cordilheira das Himalaias, a mais alta cadeia montanhosa do mundo. Outra diferença são as grandes áreas cobertas por desertos no Norte e no Noroeste do país, com destaque para o Deserto de Gobi, um gigante com mais de 1,2 milhão de km² entre o Norte da China e o Sul da Mongólia, além dos Desertos de Baidan Jaran, Hami, Taklamakon e Tengger

Essas diferenças no relevo e, consequentemente, no clima, dividem o território chinês em duas áreas agrícolas distintas sob o aspecto hidrológico: uma área úmida no Sul, onde vive uma população da ordem de 700 milhões de habitantes, e uma área seca ao Norte, onde vivem cerca de 550 milhões de habitantes – nessa conta não está incluída a região montanhosa. A região Sul é responsável por um terço da agricultura da China e possui cerca de 80% das reservas de água; já região Norte do país, responde por dois terços da produção agrícola e detém apenas 20% das reservas de água. Não é preciso ser um especialista em recursos hídricos para perceber que a agricultura no Norte chinês é fortemente dependente da irrigação. 

A região Norte da China produz mais de 40% dos grãos do país através de sistemas de agricultura irrigada, com um consumo de água muito acima da disponibilidade natural, onde a água é retirada de aquíferos e lençóis freáticos. O custo ambiental é altíssimo: sem recarga, os aquíferos estão secando a uma razão de 1,5 metro a cada ano – rios e lagos estão desaparecendo e poços precisam ser escavados a profundidades cada vez maiores. Em Pequim, o nível do lençol freático já está em 59 metros de profundidade e continua baixando. 

Os usos da água na agricultura chinesa enfrentam uma forte competição com o abastecimento de cidades e de indústrias: dados de 2010 indicavam que a demanda para o abastecimento de populações era da ordem de 30 bilhões de metros cúbicos/ano; já os usos industriais demandavam um consumo de 127 bilhões de metros cúbicos de água/ano. Do ponto de vista econômico, o uso da água para fins industriais tem sido priorizado – para produzir uma tonelada de trigo, que vale o equivalente a US$ 200.00, as plantações irrigadas da China chegam a consumir 1 milhão de litros de água; usando a mesma quantidade de água, as indústrias geram produtos com valores na casa de US$ 14 mil, ou seja, um ganho 70 vezes maior. Em um país que prioriza cada vez mais o crescimento econômico, a tendência será de restrições cada vez maiores ao uso de grandes volumes de água pela agricultura. 

Com uma população tão grande, o Governo chinês utilizava, há muito tempo, de pesados subsídios para a agricultura, como forma de manter a autossuficiência do país na produção de alimentos. Porém, com a clara sinalização governamental pela prioridade do abastecimento de água para cidades e para indústrias, essa política está sendo revista e abre-se a perspectiva para uma importação cada vez maior de grãos, o que já vem causando uma forte inquietação entre muitos líderes políticos regionais. O forte crescimento econômico vivido pela China nas últimas décadas, retirou centenas de milhões de pessoas da pobreza. Com uma situação econômica melhor, essa população se habituou a um consumo maior e mais diversificado de alimentos, incluindo-se no menu carnes, ovos e aves, o que, por sua vez, forçou a um crescimento do consumo de grãos para a produção de ração animal. As mudanças no sistema de produção deverão transformar a China no maior importador mundial de grãos. 

Diferente de outros grandes importadores de grãos, como o Japão, Índia, Egito e Paquistão, grupos empresariais chineses estão comprando grandes extensões de terra em outros países, especialmente na África, de forma a produzirem eles mesmos os grãos que serão importados pelo país. Esta “política” poderá colocar em risco importantes áreas naturais do mundo – o Delta do Rio Okavango, na África Austral, é uma delas. 

Vamos falar disso na próxima postagem. 

 

ÍNDIA: UMA AGRICULTURA ENTRE AS CHUVAS DA MONÇÃO E OS SISTEMAS DE IRRIGAÇÃO

Agricultura na Índia

Com uma área de pouco mais de 3,2 milhões de km², a Índia abriga a segunda maior população do planeta – 1,3 bilhão de habitantes; para efeito de comparação, o Brasil tem um território duas vezes e meia maior, com uma população seis vezes menor – somos pouco mais de 200 milhões de habitantes, ocupando um extenso território com mais de 8,5 milhões de km². 

Esse “mar de gentes” indiano, é claro, cria uma incomparável demanda por água, alimentos, sistemas de saúde, educação, segurança e saneamento, além da criação de empregos em massa – de acordo com dados oficiais, a Índia precisaria criar 1 milhão de empregos por mês, somente para atender o crescimento vegetativo da sua população. Infelizmente, as dificuldades para atender todas essas demandas são gigantescas e, literalmente, falta de tudo na Índia. Vamos nos ater à nossa especialidade: água. 

A escassez de água, que é um dos grandes desafios da humanidade nesses nossos tempos, na Índia é um drama diário vivido por grande parte da população. Em 1950, a disponibilidade de água por habitante no país era da ordem de 5.177 litros por ano – no ano de 2011, essa oferta caiu para 1.820 litros por ano; para o ano de 2.050, essa disponibilidade deverá cair ainda mais, chegando ao valor de 1.140 litros por ano. As razões para essa forte queda na disponibilidade de água são o grande crescimento populacional, a poluição das fontes de água por esgotos domésticos e industriais, desmatamentos e mudanças climáticas – as famosas “chuvas da monção“, uma fortíssima temporada de precipitações que ocorrem em todo o sudeste asiático, está ficando cada vez mais irregular na Índia. 

Sem a regularidade dessas chuvas anuais, muitos dos rios que dependem das reservas de águas subterrâneas dos aquíferos estão ficando cada vez mais rasos e com volumes de água insuficientes para atender as demandas da população, da agricultura e das industrias. Muitos dos grandes rios do subcontinente indiano nascem a partir das águas do derretimento das geleiras nas Himalaias – e até aqui há problemas: a China vem construindo barragens no Tibete (território que foi ocupado pelos chineses na década de 1950 e transformado em território autônomo da China em 1965) e desviando grandes volumes dessas águas das geleiras para o seu próprio território, o que agrava ainda mais a situação da Índia. 

Cerca de 70% da população indiana vive em áreas rurais, onde as atividades ligadas à terra – especialmente agricultura e criação de animais, são as grandes geradoras de emprego e renda (vide foto). Calcula-se que 30% das áreas agrícolas do país sejam atendidas por sistemas de irrigação, que vão desde os tradicionais canais de inundação até os sistemas aspersores centrais com pivô, e há uma forte pressão pelo aumento desse percentual com vistas a ampliação da produção de alimentos. Em um país com uma população tão grande, a segurança alimentar, que já não é das mais satisfatórias, é uma prioridade. O grande problema da Índia é que não existe qualquer disponibilidade de água para atender essa demanda por novos sistemas de irrigação na agricultura

A grande maioria dos sistemas de irrigação do país é alimentada por água captada em aquíferos subterrâneos, acessada a partir de poços. De acordo com reportagem recente do jornal local Economic Times, até cerca de 50 anos atrás, os agricultores da região de Gujurat, no Norte da Índia, alcançavam as reservas subterrâneas de água em poços com profundidades entre 10 e 12 metros – atualmente, muitos dos poços precisam atingir uma profundidade de até 400 metros para que se encontre água em pequenas quantidades. Isso demonstra que a recarga dos lençóis e aquíferos subterrâneos de água está aquém do consumo e grande parte das áreas rurais do país já vive numa situação de estresse hídrico

Sem outras alternativas, as autoridades indianas terão de se esforçar muito e atacar dois problemas básicos: estimular da melhor maneira possível, o uso racional de água nos sistemas de irrigação (que em muitos casos têm perdas de mais de 50%) e ampliar ao máximo os sistemas de coleta e tratamento de esgotos, domésticos e industriais, problema que está destruindo boa parte das fontes de água superficiais do país. 

Os desafios da Índia nessa área são, simplesmente, gigantescos. 

UM MORIBUNDO CONHECIDO COMO “MAR MORTO”

Mar Morto

O Mar Morto, na fronteira entre Israel e Jordânia, guarda uma semelhança preocupante com o Mar de Aral e com o Lago Chade: a retirada de grandes quantidades de água do Rio Jordão, seu único tributário, para uso em sistemas de irrigação já provocou uma redução da sua superfície em 35% desde 1954 e, a cada ano, o seu nível está se reduzindo em 1 metro. Além da visível redução no nível do lago, um outro problema começa a criar muitas preocupações: crateras cobertas de sal surgem ao longo das margens da água – conforme o sal vai se dissolvendo, as crateras se mostram cada vez mais profundas: algumas tem até 100 metros de diâmetro e 50 metros de profundidade (vide foto). Calcula-se que existam cerca de 6.500 dessas crateras nas áreas de entorno do Mar Morto. 

Como o Mar de Aral e o Lago Chade, o Mar Morto é um lago terminal, conhecido em hidrologia com bacia hidrográfica endorreica. Esse tipo de corpo d’água recebe contribuições contínuas de um ou mais tributários, que compensam sistematicamente as perdas de água para a evaporação. O Mar Morto é alimentado unicamente pelos despejos do Rio Jordão, o maior e mais importante rio da região. Em 1930, quando foi feita a primeira medição criteriosa do Mar Morto, a superfície do espelho d’água era de 1.050 km² – em 2014, a superfície total estava reduzida a 650 km². As águas do Mar Morto têm uma característica única, com dez vezes a quantidade de sal encontrada nos oceanos – logo, é uma água que não é utilizada para consumo humano ou irrigação agrícola: a redução no seu nível se deve ao altíssimo consumo de água para fins de irrigação, que reduziram as contribuições do Rio Jordão em 98%. 

Desde a Independência do Estado de Israel em 1948, a área total cultivada no país aumentou de 165 mil hectares para 435 mil hectares. No mesmo período, a produtividade agrícola aumentou 16 vezes, enquanto o crescimento da população foi de apenas 3 vezes. A chave deste crescimento foi o uso cada vez mais intensivo das águas do Rio Jordão em projetos de irrigação – 60% do território israelense é formado por solos de semiárido, terrenos inadequados para a prática de agricultura convencional. A água que é retirada do rio para fins agrícolas é a água que deixa de chegar ao Mar Morto; sem a reposição da água perdida pela evaporação, o Mar Morto seca um pouco a cada ano. 

O rio Jordão tem 190 km de extensão, com nascentes no Monte Hermon no Norte de Israel. Os principais afluentes são os rios Hasbani ou Snir, com nascentes no Líbano, e Dan e Banias, rios com nascentes em território israelense, e foz no Mar Morto ao Sul, que se localiza numa depressão a 430 metros abaixo do nível do mar. O compartilhamento das águas do rio Jordão é conflituoso, envolvendo israelenses, jordanianos e palestinos. Apesar de toda a sua importância regional, o Jordão é um rio pequeno para os padrões que nós brasileiros estamos acostumados: tem profundidade máxima de 5,5 metros e uma largura média de 18 metros – é um rio com pouca água para atender as necessidades de muita gente. 

A carência de recursos hídricos é marcante na região – as chuvas são escassas e mal distribuídas; no Norte de Israel a precipitação média anual é de 70 mm e nas áreas desérticas do Sul cai para meros 5 mm anuais. O Governo de Israel é extremamente rígido na concessão de outorgas para uso de água para fins agrícolas, atividade que consome 75% do recurso estimado em 1,6 bilhão de metros cúbicos ao ano, além de cobrar taxas entre US$ 0,2 e US$ 0,4 por metro cúbico. Apesar de todos esses cuidados, a baixa oferta de água e alta necessidade de consumo torna necessário o “sacrifício” do Mar Morto, uma das maiores atrações turísticas de Israel, o que vem gerando uma intensa pressão dos setores de turismo e hospedagem sobre o Governo israelense. A Suprema Corte de Israel, inclusive, já tomou decisão contra o Governo, recomendando que se encontre uma solução para o problema. 

Uma alternativa que vem sendo estudada há vários anos, em conjunto com o Governo da Jordânia, que compartilha a bacia e os problemas do Mar Morto com Israel, e com acompanhamento da Autoridade Nacional Palestina, é a construção de um canal entre o Mar Vermelho e o Mar Morto, permitindo o fluxo de água do mar por força da gravidade (lembrando que o Mar Morto está abaixo do nível do mar) para compensar o volume de águas do Rio Jordão que deixa de desaguar no lago. O projeto inclui a construção de uma usina hidroelétrica para o aproveitamento da força da água. A ideia, que parece muito boa, encontra forte resistência entre grupos de ecologistas e empresas que exploram minerais na região do Mar Morto. 

Enquanto não se encontra uma solução para o problema, pitoresco e único Mar Morto continuará sendo mais uma vítima da agricultura irrigada. 

CHADE: O DESAPARECIMENTO DE UM LAGO QUE JÁ ESTEVE ENTRE OS MAIORES DO MUNDO

Lago Chade

A tragédia ambiental que se abateu sobre o Mar de Aral, descrita na postagem anterior, não é um caso isolado – existem inúmeros outros exemplos, com diferentes proporções, em todo o mundo. Um caso, em particular, pode ser comparado, proporcionalmente, com o Mar de Aral: falamos do Lago Chade (ou Tchad), na África Subsaariana. 

O Lago Chade já foi um dos maiores do mundo – até o início da década de 1960 seu espelho d’água ocupava uma superfície de 25 mil km², o que corresponde a pouco menos da metade da superfície do já foi o Mar de Aral. Uma população de 30 milhões de pessoas vive ao redor de suas margens, distribuídas nos quatro países que o cercam: Chade, Camarões, Níger e Nigéria. Durante milênios, o lago Chade vem sendo o grande manancial de águas permanente numa região de transição entre as savanas e o grande deserto do Saara, condição que vem mudando dramaticamente nas últimas décadas. 

De acordo com estudos realizados pelo PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o Lago Chade perdeu 95% do seu espelho d’água entre 1963 e 1998, com sérios riscos de desaparecer por completo dentro de uns poucos anos. A superfície atual do Lago apresenta um espelho d’água com pouco mais de 1.000 km², pouco mais que duas vezes a superfície da Baía da Guanabara

Até 10 mil anos atrás, o clima do Norte da África era muito diferente do que é hoje – era mais úmido e com temperaturas mais baixas que as atuais, contanto com diversos rios permanentes – o famoso Rio Nilo, que hoje atravessa o Egito de Sul a Norte e deságua no Mar Mediterrâneo, naqueles tempos atravessava todo o Norte da África e tinha a sua foz no Oceano Atlântico. Grande parte do território, que hoje se encontra soterrado por dezenas de metros de dunas de areia seca, foi coberto por densas florestas – o Lago Chade de então era um gigante. Mudanças climáticas naturais alteraram o clima da região que, paulatinamente, começou a ficar mais quente e seco. O Chade começou a ter seu tamanho reduzido – há 2 mil anos atrás, o Lago estava “reduzido” ao tamanho da Alemanha (cerca de 357 mil km²). Esse lento e gradual encolhimento, porém, passou a se acelerar, e muito, a partir da década de 1950. 

Em meados do século XX houve um aumento da retirada de água para uso em irrigação agrícola. A captação de água para os sistemas de irrigação se manteve estável até o final da década de 1980. Entre 1984 e 1994, com a implantação de grandes projetos de irrigação nas áreas de entorno, a retirada de água quadruplicou e o volume passou a equivaler a todo o volume despejado no Lago pelos rios Chari e Lagone, seus grandes tributários. Essa equação é bem conhecida: a retirada de grandes volumes de água, para uso em agricultura e em pastagens, somada as perdas por evaporação e sendo menores do que o volume de água que entra no sistema, é igual a um lago em encolhimento contínuo – exatamente o que está acontecendo no Lago Chade (vide foto). 

Alarmados com a situação caótica do corpo d’água, os Governos do Chade, de Camarões, do Níger e da Nigéria esboçaram vários planos para a construção de um canal para a transposição de águas da bacia hidrográfica do Rio Congo, a maior da África, em socorro ao Lago Chade. A falta de recursos financeiros próprios, de fontes internacionais de crédito e a total falta de capacidade de articulação política entre as nações impediram qualquer avanço. Como se não bastasse todos os problemas derivados desta situação caótica, as áreas de entorno do Lago Chade foram transformadas em território do grupo radical islâmico Boko Haram, que luta para impor, na base do terror, um califado religioso nos moldes de sua leitura radical dos ensinamentos do AlcorãoEntre a falta de água e a brutalidade da guerra religiosaas populações padecem

Com dificuldades cada vez maiores para a prática da agricultura, sem água e pastagens para a criação de animais e com recursos pesqueiros cada vez mais escassos, as perspectivas futuras das populações que vivem nas áreas de entorno do Lago Chade são incertas e a sobrevivência do corpo d’água cada vez mais improvável. 

Sem a água do Lago Chade, os projetos de agricultura irrigada, simplesmente, vão desaparecer. A razão é simples – mataram a “galinha dos ovos de ouro”… 

IRRIGAÇÃO E TRAGÉDIAS AMBIENTAIS, OU ERA UMA VEZ O MAR DE ARAL

Mar de Aral

Os danos ambientais que os sistemas de irrigação em grandes áreas agrícolas podem provocar em uma determinada região não são meras hipóteses teóricas – existem inúmeros casos fartamente documentados, onde a retirada excessiva de grandes volumes de água de rios e lagos acabou em verdadeiros desastres ambientais regionais. Vamos relembrar o caso do Mar de Aral

Localizado entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, o Mar de Aral era até o início do século XX o quarto maior lago do mundo, com uma área total de 68 mil km² – isto correspondia a soma de três vezes o tamanho do Estado de Sergipe com uma área equivalente a duas vezes o tamanho do Distrito Federal; também era equivalente a 165 vezes a área da Baía da Guanabara. Nada mal para um lago que ficava no meio de um grande deserto. 

O Mar de Aral surgiu graças a existência uma grande depressão no terreno, onde se formou uma bacia hidrográfica endorreica, ou seja, uma bacia fechada, sem drenagem para outras bacias hidrográficas ou para o oceano, sendo alimentada pelas águas das chuvas, do degelo e, especialmente pela drenagem das águas dos rios Amu Daria e Syr Daria. Estes caudalosos rios nascem na Cordilheira do Himalaia, distante 2.000 quilômetros do lago. O grande volume de água despejado no lago compensava a evaporação de aproximadamente 10% ao ano, mantendo o nível do Aral estável por um longo período geológico e com uma profundidade máxima de 31 metros. Aral, nas línguas uzbeque e cazaque, significa “ilha” – haviam mais de 1.100 naquele mar. 

Observe que muitos dos verbos usados até aqui estão no passado – esse Mar de Aral descrito nesses dois parágrafos não existe mais. Para ser mais exato, um pequeno trecho do lago ao Norte, batizado de Pequeno Aral, conseguiu manter parte de suas águas graças a uma pequena contribuição mantida pelo rio Syr Daria e é tudo o que restou do majestoso Mar de Aral. Com financiamento do Banco Mundial, o Governo do Cazaquistão construiu uma barragem com extensão de 13 km, permitindo a estabilização da profundidade deste trecho remanescente do lago em 4 metros. 

O aniquilamento do Mar de Aral foi o resultado de décadas de descaso das autoridades da antiga máquina burocrática da extinta URSS – União da Repúblicas Socialista Soviéticas. Dentro do planejamento da economia estatal, a Ásia Central foi incumbida de fornecer algodão, a qualquer custo, para todas as Repúblicas do antigo bloco comunista. Há relatos do discurso de uma alta autoridade do regime comunista, lá pelos idos da década de 1930, falando que “o Mar de Aral deveria morrer como um bom soldado em prol da nação“. 

Se você for do tipo curioso e quer entender o que significa esse “qualquer custo”, recomendo que você faça uma pesquisa para verificar o tipo de solo e de clima da região de entorno do Mar de Aral – um “mar sem fim” de desertos. Confira; 

Entre o Mar de Aral e o Mar Cáspio encontramos o deserto de Karakum, que em uzbeque significa “Deserto das Areias Negras”, com cerca de 350 mil km² (o Estado de São Paulo tem 248 mil km²); entre os rios Amu Daria e Syr Daria fica o Kyzyl Kum, “Deserto das Areias Vermelhas”, cobrindo uma área de 298 mil km²; além do rio Syr Daria fica o Betpak-Dala ou “Planalto da Fome” com área de 75 mil km², que segue até atingir o deserto das areias de Muyunkum, “Deserto Pescoço de Camelo” (em razão do formato), com uma área de 78 mil km².

Dez anos depois do início do uso da água para a irrigação dos campos de algodão, o nível das águas do Mar de Aral baixou 2 metros e a área do espelho d’água foi reduzida em 6.000 km²; cinco anos depois, o nível baixou mais 3 metros e o espelho d’água diminuiu outros 5.000 km²; passados outros dez anos, o nível das águas baixou mais 14 metros e o Mar de Aral ficou reduzido a um terço da sua área original, com um grande aumento da salinidade das suas águas e intensa mortandade de peixes. O porto de Aralsk, onde o lago tinha uma profundidade média de 13 metros, agora está distante 70 km da margem das águas remanescentes – o colapso do Mar de Aral estava consolidado e a vida de 50 milhões de pessoas teria um futuro incerto. 

A tragédia ambiental do Mar de Aral só passou a ser conhecida do grande público a partir do desmantelamento da União Soviética no final da década de 1980. Até então, os burocratas de Moscou escondiam a real escala do que estava acontecendo. Consulte os arquivos do blog, a partir de 28 de março de 2017, e você encontrará uma série de postagens sobre a tragédia do Mar de Aral. 

Resumo: foi-se o Mar de Aral, mas os países da Ásia Central ainda estão entre os maiores produtores de algodão do mundo. E tudo graças à agricultura irrigada… 

ÁGUA, ALIMENTOS E EMPREGOS NO CAMPO

Women of the Batwa community working in a taro garden patch.

Nas últimas postagens começamos a falar de um seríssimo problema ligado aos recursos hídricos: o uso de volumes cada vez maiores de água na agricultura. A disponibilidade de água para o abastecimento das cidades e das populações encontra-se, cada vez mais, sob intensa pressão. Prestem atenção em alguns números: 

Algumas estimativas científicas indicam que um volume equivalente a 383 mil km³ de água evapore dos oceanos a cada ano (dependendo da fonte consultada, você poderá encontrar valores diferentes deste). Para que você tenha uma ideia mais precisa do que é esse volume, ele equivale a uma camada de 1,06 metro da superfície de todos os oceanos do mundo: Pacífico, Atlântico, Índico, mares polares, Mar Mediterrâneo, entre outros.   

Essa inacreditável quantidade de água na forma de vapor é colocada em circulação ao redor do nosso Planeta pela força dos ventos, elemento esse que também é influenciado pelas diferentes temperaturas ao redor do globo terrestre. Em algum momento, quando o vapor esfria, a água volta ao estado líquido e é precipitada de volta a superfície do Planeta – cerca de 75% das chuvas caem de volta sobre os oceanos e os 25% restantes vão cair sobre os continentes, na forma de chuva, neve e granizo entre outras formas de precipitação.  

Feitas as devidas contas, o volume de água doce disponível para o consumo de todas as pessoas, animais e plantas do mundo é de aproximadamente 95 mil km³, um volume que equivale a menos de 0,5% de toda a água disponível do Planeta. Cerca de 97,5% da água existente na Terra é salgada, ou seja – água do mar, imprópria para o consumo. A água doce ou potável, corresponde a apenas 2,5% do volume de água existente no Planeta, sendo que a maior parte está congelada nos polos e nas geleiras, e grande parte se encontra em aquíferos e lençóis subterrâneos de difícil acesso.  

Agora que já falamos da água, passemos para a agricultura:

De acordo com dados de 2005 do Banco Mundial, existem cerca de 570 milhões de terrenos de uso agrícola no mundo, sendo que 90% desse total são terrenos classificados como de agricultura familiar. São em sua maioria áreas entre 2 e 5 hectares. Os rendimentos agrícolas e os salários gerados por essas pequenas propriedades representam entre 42% e 75% da renda rural em países com perfil agrícola e entre 27% e 48% nos países em vias de desenvolvimento

Os sistemas de agricultura tradicionais (não irrigados) produzem mais de 60% dos cultivos em 80% das áreas cultiváveis do mundo. Já os sistemas de cultivo irrigado representam cerca de 40% da produção em 20% das áreas cultiváveis do mundo, especialmente em grandes plantações. Apesar de, proporcionalmente, ocupar pouco espaço, a agricultura irrigada representa hoje, aproximadamente, 70% das captações totais de água do mundo, com percentuais mais altos em alguns países, como o Brasil, onde representa 72% do consumo de água. Estima-se que 38% das áreas irrigadas utilizem águas subterrâneas

De acordo com projeções do Instituto Internacional de Investigação Sobre Políticas Alimentares (IFRPI), no ano de 2050, o stress hídrico poderá afetar 45% do PIB mundial, 52% da população e comprometer 40% da produção de cereais

Agora, adivinhem quem é que mais vai sofrer com a falta de água na agricultura? 

A população mais pobre do mundo, é claro. Calcula-se que 43% da população economicamente ativa do mundo trabalhe direta ou indiretamente na agricultura. Esse percentual varia muito de país para país: em países pobres é da ordem de 53% – nos países desenvolvidos cai para 6%. Feitos alguns cálculos, chegaremos ao número impressionante de 2 bilhões de pessoas que dependem diretamente da agricultura para viver – se incluídos na conta os dependentes de cada trabalhador, o número será bem maior. Sem disponibilidade de água para produzir em suas pequenas propriedades, essas pessoas perderão os seus parcos rendimentos e, muito pior, o alimento de cada dia. Aliás, cerca de 40% da população mundial já enfrenta hoje escassez de água. 

Perceberam o tamanho da tragédia anunciada? 

A “INVENÇÃO” DA AGRICULTURA OU A PRIMEIRA ONDA

Trigo

O escritor e futurista norte-americano Alvin Toffler (1928-2016), definiu com absoluta precisão, na minha opinião, o início da agricultura como a “Primeira Onda“. A pequena população humana naqueles duros tempos entre 10 e 12 mil anos atrás, que em todo o planeta mal passava de 100 mil habitantes, foi descobrindo pouco a pouco que era possível cultivar a terra e assim produzir o seu alimento. Durante dezenas de milhares de anos, os pequenos grupos humanos vagaram sem um rumo certo pelas extensas estepes e savanas, em busca de caça e pesca, comendo frutas e raízes que encontravam pela frente e, não raras as vezes, enfrentavam longos períodos de fome. Algumas vezes, inimigos de clãs rivais acabavam sendo mortos e devorados por esses seres humanos famintos.

Na concepção de Toffler, o início da agricultura “varreu” a face da terra como uma grande onda de um tsunami, destruindo tudo o que havia no seu caminho e fazendo surgir todo um novo estilo de vida. Os grupos nômades se fixaram em áreas propícias à agricultura (perto de grandes rios e com clima favorável), cidades passaram a ser construídas, as classes sociais foram sendo definidas, novos deuses surgiram, entre outras grandes mudanças – nascia a “civilização”.

É claro que que essa “onda” não foi tão rápida quanto pode parecer – o trigo, por exemplo, uma das primeiras e mais importantes culturas agrícolas que a humanidade dispõe desde aqueles tempos, não surgiu de uma hora para outra. Essa gramínea teve de passar por um longo processo de melhoramento e “domesticação”, até ter seus grãos num bom tamanho e em quantidade adequada para a produção da farinha; ferramentas para trabalhar a terra tiveram de ser criadas e aprimoradas – desde pás e enxadas até arados rudimentares; animais de tração foram domesticados e os conhecimentos das melhores épocas para o plantio e a colheita tiveram de ser desenvolvidos.

Se você consultar os livros de história, verá que as primeiras grandes civilizações surgiram e se desenvolveram bem ao lado de grandes rios: Tigre e Eufrates na Mesopotâmia, Nilo no Egito, Indus e Ganges no sub-continente indiano, Yangtzé na China. Em todas essa civilizações ancestrais, o cultivo da terra era sincronizado com as cheias anuais dos rios, cujas águas carregadas de sedimentos e nutrientes cobria o solo com uma camada fértil de húmus – tudo o que se plantasse ali crescia e se desenvolvia muito bem. Surgia assim, uma relação entre agricultura e o uso de grandes volumes de água, que, de certa forma, persiste até hoje em grande parte do mundo.

Essa relação entre populações humanas, agricultura, águas e terras foi se tornando tão simbiótica, que a mitologia e a religião passaram a sofrer influências – um mito, comum em diversas culturas antigas, ensina que o homem foi criado a partir do barro, o mesmo sedimento que é trazido pelas águas e permite o surgimento da vida (das plantas). Em nossas raízes cristãs, é essa a imagem da criação de Adão a partir do barro, que depois tomou vida após Deus ter soprado em suas narinas. Coincidência ou não, encontramos exatamente essa mesma narrativa na mitologia de povos que viveram na Mesopotâmia, no Egito, na Índia e até na China.

Essa revolução agrícola teve seu preço – a pequena população humana dos tempos do início da agricultura, contando com fartura de alimentos e com a segurança alimentar, não parou mais de crescer – hoje já somos mais de 7 bilhões de pessoas, que continuam a depender da mesma agricultura criada naqueles tempos antigos. Muita coisa melhorou ao longo de todo esse tempo e os campos de hoje produzem como nunca conseguiram produzir antes. E com tantas bocas para alimentar, será necessário aumentar ainda mais a produtividade da agricultura, porém sem poder mais se contar com a abundância das águas e das cheias do Tigre, Eufrates, Nilo, Indus, Ganges e de outros grandes rios de outrora. Aliás, são bem poucos os lugares com água em abundância para se usar nas plantações – esse é o novo paradigma que deverá nortear a agricultura daqui para a frente: produzir cada vez mais, com quantidades cada vez menores de água.

A agricultura do futuro será, literalmente, feita na base do “conta-gotas”.

 

ÁGUA E AGRICULTURA

Irrigação

Se você fizer uma pesquisa nos arquivos deste blog, vai verificar que, ao longo de quase dois anos e de mais de 500 postagens, já falamos dos usos da água para o abastecimento de populações, problemas de poluição das águas, dos usos abusivos e da escassez em várias regiões do mundo, dos usos para a navegação e, em algumas postagens, sobre os problemas que a construção de usinas hidrelétricas causam aos rios e às populações. 

Vamos começar a falar hoje de um novo tema, absolutamente importante: as relações entre a água e a agricultura

Pode até não parecer muito importante à primeira vista, mas a agricultura é a atividade humana que mais usa água e é, de longe, a que mais desperdiça esse elemento tão fundamental à vida. De acordo com dados da FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, 70% da água disponível no mundo é utilizada para irrigação de plantações; no Brasil, esse índice é ligeiramente maior – são 72%. Porém, isso não é tudo – a tendência é que haja um aumento de 50% no uso da água em sistemas de irrigação nos países mais desenvolvidos até o ano de 2025; nos países em desenvolvimento, projeta-se um aumento de até 18% no consumo no mesmo período

A maioria dos sistemas de irrigação em uso nas plantações trabalha usando bicos que fazem a dispersão de grandes volumes de água através da força hidráulica – na maioria dos casos, o volume de água lançado sobre as plantas é muito maior do que o necessário e grandes percentuais dessa água acabam se perdendo, especialmente pela evaporação. Ou seja, há desperdício tanto de energia quanto de água. Em regiões pobres é muito comum o uso de canais de irrigação, onde é a força da gravidade que leva a água a grandes distâncias dentro das plantações. Neste tipo de irrigação, as terras que estão mais próximas dos canais costumam ficar encharcadas, enquanto os trechos mais distantes recebem quantidades mínimas de água. Gasta-se muita água e os resultados finais para os produtores não são os melhores. 

Estes volumes de água consumidos pela agricultura, que já são absolutamente críticos atualmente, simplesmente se tornarão insustentáveis caso as projeções de crescimento se confirmem nos próximos anos. Vou citar um único exemplo do volume de água usado por uma cultura agrícola – as uvas viníferas. A produção de uma única garrafa de vinho tem um “custo ambiental” de quase 900 litros de água, que é utilizada para a irrigação dos parreirais. Uma grande região produtora de vinhos poderá consumir toda a água disponível para sustentar suas plantações, deixando populações com quase nenhuma água para as suas necessidades. Esse problema está sendo vivido hoje pela África do Sul, um país que é um grande produtor mundial de vinhos e tem sofrido com uma fortíssima seca nos últimos anos. Surge então um dilema – usa-se a pouca água disponível para irrigar os parreirais ou se utiliza para o abastecimento da população?  

Ao que tudo indica, os parreirais sul-africanos tem conseguido uma ligeira vantagem sobre as pessoas. Na Cidade do Cabo, um dos mais importantes destinos turísticos do país, a disponibilidade de água para cada habitante está na casa dos 50 litros diários. A OMS – Organização Mundial da Saúde, recomenda, no mínimo, 100 litros de água para cada pessoa por dia, que é suficiente para saciar a sede, para os banhos e sanitários, lavagem de roupas, cozinhar e fazer a higienização da habitação. Por outro lado, a produção de vinhos é fundamental para a geração de trabalho e renda para a população, além de receitas para o país. Vejam como a situação é complicada para todos.

E esse é um problema que tem se espalhado em diferentes culturas agrícolas, em diferentes regiões do mundo. Pessoas e plantações estarão disputando cada litro de água disponível com uma frequência cada vez maior. 

Vamos explorar a fundo essas questões ao longo das próximas postagens. 

RIOS JARI E TROMBETAS: “PEQUENOS” NOTÁVEIS

Rio Trmbetas

Ao longo de mais de 60 postagens, falamos um pouco sobre o transporte de cargas e passageiros através de sistemas de hidrovias. Apresentamos uma série de exemplos de sucesso nessa modalidade de transportes em países da Europa, na China, nos Estados Unidos e no Canadá. São países que, ao longo de seu desenvolvimento econômico, se valeram e se valem deste modal de transportes extremamente competitivo, eficiente e perfeitamente compatível com ferrovias, rodovias e transportes aéreos. 

No Brasil, conforme tentamos demonstrar, os transportes por sistemas hidroviários estão muito aquém do imenso potencial que dispomos, graças a uma esplendida rede de rios por todo o país. A recente greve dos caminhoneiros, que paralisou completamente todo o transporte nacional, demonstrou o grande erro estrutural da nação em depender quase que única e exclusivamente dos transportes por rodovias. Esse é um erro histórico, com raízes no período da Segunda Guerra Mundial e que culminou com o sistemático abandono do transporte por ferrovias a partir de fins da década de 1950. É essencial que se alterem os rumos dos sistemas de transporte no país, dando ênfase ao renascimento dos transportes ferroviários e a valorização e consolidação dos transportes hidroviários. 

Encerrando o ciclo de postagens sobre a navegação na bacia Amazônica, gostaria de falar um pouco sobre os rios Jari e Trombetas, dois rios relativamente pequenos, se comparados aos grandes rios da Amazônia, mas que desempenham um importante papel na navegação regional e na vida de inúmeras pequenas cidades e comunidades ribeirinhas. Começo falando pelo rio Jari: 

Depois do rio Amazonas, o Jari é o mais antigo dos rios da bacia Amazônica que eu conheci. A razão é bem simples – certa feita durante os tempos do antigo ginásio, por conta de um trabalho de OSPB – Organização Social e Política Brasileira (quem é um pouco mais velho deve ter tido essa matéria), tive de fazer um resumo de uma publicação que falava sobre o Projeto Jari e seu dono, o bilionário americano Daniel Keith Ludwig.  

O Projeto Jari teve início no final de década de 1960, quando Ludwig adquiriu uma área no Estado do Amapá do tamanho de Sergipe, onde pretendia produzir celulose e alimentos para o mundo. Um dos símbolos da megalomania do empresário data de 1978 – uma imensa fábrica flutuante, construída no Japão sobre balsas, foi transportada pelos oceanos até o Amapá, num percurso total de mais de 21 mil quilômetros. Esse verdadeiro colosso flutuante reunia uma fábrica para o processamento de celulose e uma usina termelétrica.

Apesar de todo o esforço do megaempresário, o Projeto Jari não deu certo – as árvores escolhidas para a produção de celulose, a gmelina asiática, não se adaptou ao clima amazônico e nem resistiu a uma série de pragas locais. Foram feitas tentativas posteriores com pinus e eucaliptos sem melhores resultados. Tentou-se também produzir arroz, mas sem muito sucesso. A remoção da cobertura florestal original numa área tão grande, comprometeu a fertilidade dos solos – o húmus fértil que cobria os solos foi arrastado pelas águas das chuvas. 

Apesar do fracasso empresarial do Projeto Jari, o fato de um americano ser dono de uma imensa parte da região Amazônia causava muita preocupação em parte da sociedade brasileira na época. Havia um medo generalizado das potencias estrangeiras “nacionalizarem a Amazônia“. Em 1982, sob a articulação do Ministério do Planejamento, um grupo de 23 empresários brasileiros comprou o Projeto Jari. Ou seja, o “mico” americano parou na mão de brasileiros. 

O palco desse “miraculoso” projeto empresarial foi o rio Jari, um curso d’água com aproximadamente 785 km de extensão, com nascentes na Serra do Tumucumaque, no Norte do Amapá, e foz no rio Amazonas, em frente da Ilha Grande de Gurupá. O rio Jari faz a divisa entre os Estados do Amapá e do Pará. O rio Jari possui um pequeno trecho navegável de aproximadamente 100 km, entre o rio Amazonas e a cachoeira de Santo Antônio, um importante destino turístico local nas proximidades da cidade de Laranjal do Jari. Vejam que, apesar de ter um trecho navegável extremamente pequeno, o rio Jari chamou a atenção de um megaempresário americano e, apesar do empreendimento não ter atingido o sucesso esperado, o rio serviu perfeitamente para o transporte de pessoas, equipamentos, produtos diversos e até de uma gigantesca fábrica flutuante, o que demonstra que utilidade de um rio para a navegação não está ligada diretamente ao tamanho do trecho navegável mas sim à qualidade das águas para a navegação. 

Um outro rio que está bem distante da lista dos grandes da bacia Amazônica é o Trombetas, que tem aproximadamente 750 km de extensão. Com nascentes na região entre a Guiana e o Suriname, no Norte do Estado do Pará, o rio Trombetas atravessa todo o município de Oriximiná, o segundo maior município do Estado do Pará, com uma área total de 107 mil km², maior que países como Portugal, Áustria e Coreia do Sul. É muito provável que você nunca tenha ouvido falar nem no rio Trombetas nem em Oriximiná – coisas da Floresta Amazônica, que é tão grande que consegue esconder um município do tamanho de muitos países. 

A foto que ilustra esta postagem mostra o Porto de Trombetas, um distrito de Oriximiná, onde um navio cargueiro marítimo de grandes proporções está ao lado de um barco de transporte de passageiros, típico dos rios da Amazônia. A imagem, por si só, mostra o potencial de navegação no rio Trombetas. O município de Oriximiná possui uma grande área produtora de bauxita, a matéria prima do alumínio. Uma ferrovia com 35 km de extensão liga a área das minas ao Porto de Trombetas, a partir do qual os minérios são embarcados nos navios cargueiros e transportados para as unidades produtoras de alumínio. 

Historicamente, o rio Trombetas teve um papel importante como refúgio de escravos que fugiam das grandes fazendas de criação de gado e produção de cacau em Santarém e Óbidos num passado, felizmente, bem distante. O trecho alto do rio, repleto de cachoeiras, representava um grande obstáculo para os perseguidores que vinham em embarcações pelo rio e desistiam da caçada. Esses escravos fugitivos fundaram diversos assentamentos quilombolas na região, que eram chamados pelos locais de “comunidades de pretos”. Muitas dessas comunidades lutam até hoje pelo reconhecimento de seus territórios, que sofrem diante da pressão e do avanço das grandes empresas de mineração. 

Além das comunidades quilombolas, as margens do rio Trombetas são habitadas por inúmeras comunidades indígenas como os Kahyana, Kaxuyana, Hirkaryana, Tityó, Tunayana, Xerew, Waiwai, Zo’é e outros grupos isolados. Esses povos vivem em quatro Terra Indígenas ao longo do rio Trombetas, sendo que três dessas áreas já estão homologadas e uma está em estágio de homologação pelo Governo Federal. Isso demonstra que o rio Trombetas tem importância regional tanto para a navegação de passageiros e de cargas quanto para a preservação de áreas naturais e indígenas. 

Esta preocupação com a preservação ambiental também está presente no rio Jari, onde está inserida, entre outras unidades de conservação, a Estação Ecológica do Jari, que conta com uma área total de 2.200 km², entre os municípios de Laranjal do Jari, Almeirim e Mazagão, entre os Estados do Amapá e Pará. Trata-se de uma Unidade de Conservação Integral do bioma Amazônia, sob administração Federal. 

Os rios Jari e Trombetas são exemplos do que deve ser o aproveitamento dos rios Amazônicos – navegáveis na medida correta, preservando ao máximo os recursos naturais e respeitando as populações locais. 

Os rios são patrimônios de todos e todos devem saber como respeitá-los e usá-los da melhor maneira possível.