A QUEDA DE BRAÇOS ENTRE A AGRICULTURA E A INDÚSTRIA NA CHINA

Agricultura na China

Vamos falar hoje de problemas ligados à agricultura irrigada no país mais populoso do mundo: a China, onde quase 1,4 bilhão de pessoas disputam, “palmo a palmo”, cada litro de água e cada metro quadrado de solo. Para efeito de comparação, a China tem um território com uma área de 9,6 milhões de km², pouco mais de 1,1 milhão de km² a mais que o Brasil, porém com uma população 7 vezes maior. 

Apesar do território chinês ser ligeiramente maior do que o brasileiro, existem diferenças físicas marcantes entre os territórios, características que diferenciam fortemente a agricultura nos dois países: enquanto as áreas montanhosas ocupam aproximadamente 3% do território do Brasil, na China essa proporção supera a casa dos 30%, especialmente na faixa Oeste do país onde se encontra a grandiosa Cordilheira das Himalaias, a mais alta cadeia montanhosa do mundo. Outra diferença são as grandes áreas cobertas por desertos no Norte e no Noroeste do país, com destaque para o Deserto de Gobi, um gigante com mais de 1,2 milhão de km² entre o Norte da China e o Sul da Mongólia, além dos Desertos de Baidan Jaran, Hami, Taklamakon e Tengger

Essas diferenças no relevo e, consequentemente, no clima, dividem o território chinês em duas áreas agrícolas distintas sob o aspecto hidrológico: uma área úmida no Sul, onde vive uma população da ordem de 700 milhões de habitantes, e uma área seca ao Norte, onde vivem cerca de 550 milhões de habitantes – nessa conta não está incluída a região montanhosa. A região Sul é responsável por um terço da agricultura da China e possui cerca de 80% das reservas de água; já região Norte do país, responde por dois terços da produção agrícola e detém apenas 20% das reservas de água. Não é preciso ser um especialista em recursos hídricos para perceber que a agricultura no Norte chinês é fortemente dependente da irrigação. 

A região Norte da China produz mais de 40% dos grãos do país através de sistemas de agricultura irrigada, com um consumo de água muito acima da disponibilidade natural, onde a água é retirada de aquíferos e lençóis freáticos. O custo ambiental é altíssimo: sem recarga, os aquíferos estão secando a uma razão de 1,5 metro a cada ano – rios e lagos estão desaparecendo e poços precisam ser escavados a profundidades cada vez maiores. Em Pequim, o nível do lençol freático já está em 59 metros de profundidade e continua baixando. 

Os usos da água na agricultura chinesa enfrentam uma forte competição com o abastecimento de cidades e de indústrias: dados de 2010 indicavam que a demanda para o abastecimento de populações era da ordem de 30 bilhões de metros cúbicos/ano; já os usos industriais demandavam um consumo de 127 bilhões de metros cúbicos de água/ano. Do ponto de vista econômico, o uso da água para fins industriais tem sido priorizado – para produzir uma tonelada de trigo, que vale o equivalente a US$ 200.00, as plantações irrigadas da China chegam a consumir 1 milhão de litros de água; usando a mesma quantidade de água, as indústrias geram produtos com valores na casa de US$ 14 mil, ou seja, um ganho 70 vezes maior. Em um país que prioriza cada vez mais o crescimento econômico, a tendência será de restrições cada vez maiores ao uso de grandes volumes de água pela agricultura. 

Com uma população tão grande, o Governo chinês utilizava, há muito tempo, de pesados subsídios para a agricultura, como forma de manter a autossuficiência do país na produção de alimentos. Porém, com a clara sinalização governamental pela prioridade do abastecimento de água para cidades e para indústrias, essa política está sendo revista e abre-se a perspectiva para uma importação cada vez maior de grãos, o que já vem causando uma forte inquietação entre muitos líderes políticos regionais. O forte crescimento econômico vivido pela China nas últimas décadas, retirou centenas de milhões de pessoas da pobreza. Com uma situação econômica melhor, essa população se habituou a um consumo maior e mais diversificado de alimentos, incluindo-se no menu carnes, ovos e aves, o que, por sua vez, forçou a um crescimento do consumo de grãos para a produção de ração animal. As mudanças no sistema de produção deverão transformar a China no maior importador mundial de grãos. 

Diferente de outros grandes importadores de grãos, como o Japão, Índia, Egito e Paquistão, grupos empresariais chineses estão comprando grandes extensões de terra em outros países, especialmente na África, de forma a produzirem eles mesmos os grãos que serão importados pelo país. Esta “política” poderá colocar em risco importantes áreas naturais do mundo – o Delta do Rio Okavango, na África Austral, é uma delas. 

Vamos falar disso na próxima postagem. 

 

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