NAVEGANDO PELO RIO PURUS ATÉ OS SERINGAIS DO ACRE

Pélas de Borracha

Este blog está bem perto de completar dois anos de existência e quem acompanha as postagens, a mais ou menos tempo, já percebeu que falamos o tempo todo de recursos hídricos: poluição e contaminação de corpos hídricos, doenças de veiculação hídrica, educação ambiental com foco na água, entre outros assuntos ligados à importância da água na vida de todos nós. Imagino também que todos já perceberam a importância dada aos fatos históricos e às vidas das pessoas que vivem e trabalham ao largo dos rios, riachos e lagos. 

Nas últimas postagens, tenho focado os textos em regiões lindeiras dos rios Guaporé, Mamoré, Madeira e Purus, uma extensa área que foi colonizada em função do Primeiro Ciclo da Borracha (1870-1913). Falamos dos potenciais econômicos e sociais das Hidrovias que já estão em operação nesses rios e das que têm grande potencial para um futuro próximo, sem nos esquecermos, é claro, dos movimentos históricos que trouxeram populações para essas regiões de fronteira. Dentro desta linha de trabalho, gostaria de falar um pouco sobre a exploração dos seringais do Acre, movimento que levou, inclusive, a anexação desse território boliviano ao Brasil em 1903. 

João Gabriel de Carvalho e Melo, um cearense natural de Uruburetama, é um exemplo do aventureiro que largou tudo para se embrenhar pelas matas da Amazônia em busca das árvores produtoras do látex, a Hevea brasiliensis. Ele mudou-se para Belém do Pará em 1847. Trabalhando em Belém, João Gabriel começou a ouvir histórias sobre as riquezas geradas pela exploração do látex nas florestas. Ele acabou entorpecido com o sonho de fortuna e passou a buscar todas as informações disponíveis sobre as seringueiras, o corte e a extração do látex, a defumação para a formação das pélas de látex (são as “bolas alongadas” que estão no chão na frente das pessoas na foto), muitas vezes chamadas de pélas de borracha, e tudo mais que fosse possível aprender. Em 1852, João Gabriel se embrenhou na Floresta Amazônica, navegando pelos imensos rios, quando acabou atingindo o rio Purus. Este rio, em particular, o deixou impressionado dada a quantidade de seringais nativos que possuía ao longo das suas margens. João Gabriel decidiu que seu futuro estava ali. 

João Gabriel voltou primeiro para Belém e depois foi para o Ceará, onde começou a agregar familiares e conhecidos que estivessem dispostos a abandonar os sertões do Semiárido Nordestino e tentar a sorte na Floresta Amazônica. Depois de vários anos de trabalho até que conseguisse reunir os recursos financeiros para essa grande empreitada, em 6 de fevereiro de 1878, João Gabriel e sua imensa comitiva de parentes e amigos parte de Belém a bordo do vapor Anajás, e seguem até a região conhecida como Boca do Acre, no alto rio Purus, nas proximidades da foz do rio Acre. É ali que é fundado o primeiro seringal do Acre – o Anajás.  

Vinte anos depois da chegada pioneira de João Gabriel de Carvalho e Melo, o Acre contaria com cerca de 400 seringais no vale do rio Juruá e pelo menos 100 no vale do rio Acre – os brasileiros haviam invadido e colonizado o longínquo e isolado território da Bolívia. Conforme comentamos em postagem anterior, essa verdadeira invasão de seringalistas e seringueiros brasileiros no território boliviano gerou inúmeros problemas diplomáticos com o país vizinho – entre outros conflitos, como a Declaração de Independência do Acre, a questão só seria resolvida em 1903 com a assinatura do Tratado de Petrópolis, quando o Brasil pagou 2 milhões de libras esterlinas pelo território acreano, cedeu terras na fronteira do Mato Grosso para a Bolívia e assumiu a construção da Ferrovia Madeira-Mamoré

Graças a uma série de avanços tecnológicos e industriais criados ao longo do século XIX, a borracha se tornou um produto essencial e o látex, sua matéria prima, foi alçado à posição de “ouro branco” da floresta. Com demanda crescente e altos preços, a região Amazônica rapidamente viu surgir e crescer, em curtíssimo tempo, toda uma estrutura “industrial” e empresarial para exploração, processamento e exportação do látex para o grande mercado consumidor mundial.  

Essa estrutura começava nos seringais perdidos no meio da floresta, onde o “Coronel da Borracha”, literalmente, escravizava milhares de seringueiros, que dia e noite extraiam o látex das seringueiras e transformavam o “leite das árvores” em pélas de látex – toda essa produção era trocada por mantimentos e outros víveres essenciais no barracão do seringal. O preço das pélas de borrachas eram subfaturados e os produtos vendidos nos barracões eram superfaturados – os seringueiros se mantinham, dessa forma, eternamente endividados e submetidos a cargas de trabalho cada vez mais insanas, a fim de quitar suas dívidas

Os seringalistas vendiam a sua produção para as Casas de Aviamento de Manaus e Belém, que pagavam parte em dinheiro e parte em alimentos, ferramentas, roupas, produtos de luxo para as casas dos Coronéis – é claro que estes produtos todos tinham seus preços superfaturados. Já as Casas de Aviamento, essas vendiam as pélas de látex para as Casas Exportadoras, que vendiam toda a produção para empresas nos Estados Unidos, Europa e Japão. Essa estrutura fez a fortuna de muita gente e transformou Manaus e Belém em cidades muito prósperas. No final do século XIX, Belém era uma cidade do tamanho de Madrid, com avenidas largas, jardins, iluminação elétrica, rede telegráfica e linhas de Bonde. Manaus não ficava atrás – em 1892, a cidade já contava com redes de água e esgotos, iluminação e bondes elétricos, cafés e restaurantes sofisticados – muitos chamavam a cidade de “a Paris das Selvas”. 

No outro extremo dessa estrutura, homens e mulheres praticamente escravos dos seringais, sem qualquer esperança de um futuro melhor. De acordo com relatos da época, cada família de seringueiro recebia a cada três meses: 3 sacos de farinha, 1 saco de feijão, 1 saco pequeno de sal, 1 saco de arroz, 8 latas de banha e 20 gramas de quinino (usado para tratamento da malária). Carnes só eram consumidas quando se tinha a sorte de caçar ou pescar alguma coisa. Plantar ou produzir qualquer tipo de alimento nos seringais era absolutamente proibido – essa ocupação prejudicaria a produção do látex e concorreria com os produtos vendidos nos barracões.  

Nas últimas décadas do século XIX, as exportações do látex respondiam por 25% do total de exportações do país, só perdendo para o café, produto responsável por 50% de nossas receitas. Na época, o Território do Acre era dono do 3º PIB – Produto Interno Bruto, entre todas as unidades da Federação. Essa riqueza, é claro, estava nas mãos dos grandes seringalistas, donos de Casas de Aviamento e Exportadores. Contam-se algumas histórias de certos Coronéis da Borracha, que usavam altas notas de Réis para acender seus charutos. Dizem até que estes Coronéis mandavam lavar as suas roupas em Paris. 

A opulência e a riqueza gerada pela exploração, processamento e exportação do látex começaram a ruir já em 1913, quando os seringais ingleses de territórios do Sudeste asiático superaram a produção brasileira. Os grandes seringais às margens do rio Purus e de todo o Território do Acre passariam a ser uma “doce e dourada lembrança de um passado distante”. 

Falaremos disso na próxima postagem. 

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