AS EXPEDIÇÕES MONÇOEIRAS NO RIO TIETÊ

Salto de Itu

Na última postagem começamos a falar dos potenciais e das atuais limitações do sistema de transportes hidroviários aqui no Brasil. Falamos inicialmente da Hidrovia Tietê-Paraná, um sistema que começou a operar comercialmente em 1981, quando barcaças carregadas com cana de açúcar passaram a abastecer uma usina produtora de açúcar e álcool na cidade de Jaú, interior de São Paulo. Totalizando cerca de 2.400 km de águas navegáveis, a Hidrovia Tietê-Paraná tem potencial para quintuplicar o volume de cargas transportadas, o que nos dá uma ideia das possibilidades econômicas que este modal de transportes pode oferecer ao país. 

Apesar de, nos nossos dias, parecer simples sair navegando com um comboio de barcaças de carga pelo bom e velho rio Tietê, em séculos passados essa era uma verdadeira odisseia para os primeiros exploradores e suas grandes e pesadas canoas monçoeiras. O curso original do rio Tietê, que foi muito modificado ao longo do tempo com a construção de sucessivas barragens de usinas hidrelétricas, possuía inúmeras cachoeiras e trechos com fortes corredeiras – bastava um erro dos mestres navegadores para que as canoas terminassem despedaçadas nas perigosas rochas das margens do rio. Para que todos consigam entender o que levou esses antigos exploradores a abandonar a relativa segurança do litoral e se aventurar pelas traiçoeiras águas do rio Tietê, é preciso voltar para os tempos do início da colonização do Brasil. 

A história e a geografia do Estado de São Paulo remontam à fundação das Capitânias de São Vicente em 1532 e de Santo Amaro em 1534, pelos donatário Martin Afonso de Sousa e seu irmão, Pero Lopes de Sousa, respectivamente. As áreas destas Capitânias deram origem ao Estado de São Paulo e de parte do Paraná. Dentro do projeto colonial de Portugal para o Brasil, a produção e a exportação do valioso açúcar eram as prioridades máximas. Durante as primeiras décadas da colonização, a Capitânia de São Vicente, ao lado de Pernambuco, foi uma das mais bem-sucedidas nessa empreitada. Com o passar do tempo, esse sucesso entrou em declínio – o litoral do Estado de São Paulo é formado por uma faixa estreita de terras entre as águas do Oceano Atlântico e os paredões da imponente Serra do Mar, uma geografia que impedia o avanço das plantações de cana de açúcar.  

Um outro problema, esse bem mais grave, eram os constantes ataques de navios piratas, que saqueavam as cargas de açúcar e bombardeavam e/ou queimavam os engenhos. Em meio a tantos percalços, os paulistas descobriram que se aventurar pelos sertões na caça dos chamados “negros da terra”, os indígenas, era muito mais vantajoso: os inúmeros engenhos das demais capitanias precisavam de muita mão de obra e pagavam muito bem pelos índios aprisionados. Foi dentro deste contexto que o rio Tietê se transformou na “estrada líquida” dos paulistas rumo aos sertões. 

Se você tentar acompanhar o curso do rio Tietê a partir das avenidas Marginais na cidade de São Paulo, rapidamente vai perceber que a aparente tranquilidade das águas termina na cidade de Santana do Parnaíba, a pouco mais de 40 km do centro da capital, onde o rio tem uma cachoeira e começa um longo trecho de corredeiras. As antigas expedições dos monçoeiros, que partiam da Vila de São Paulo de Piratininga e arredores, seguiam por terra até o porto de Araritaguaba, em Porto Feliz, cidade a aproximadamente 110 km de São Paulo, evitando a navegação por este trecho problemático. Relatos antigos falam de grandes canoas monçoeiras escavadas em um único tronco de carvalho, com perto de 15 metros de comprimento, 1,6 metros de largura e pesando várias toneladas. Vencer as águas rápidas e perigosas do Tietê com essas canoas já era um imenso desafio; arrastá-las por terra para vencer as inúmeras cachoeiras e corredeiras era um desafio quase sobre humano. 

Um dos mais temidos obstáculos naturais do rio Tietê era o Salto do Avanhandava na região de Penápolis, a aproximadamente 490 km da cidade de São Paulo. Quando se atingia este ponto do rio, os monçoeiros eram obrigados a desembarcar de suas canoas e a descarregar toda a sua carga. Cargas e canoas tinham de ser transportados por terra por um percurso de aproximadamente 700 metros, isso para se vencer um desnível do rio com apenas 12 metros. Um dos muitos relatos históricos que falam desse Salto nos foi legado pelo ilustrador e pioneiro da fotografia no Brasil, Hércules Florence (1804-1879), que foi um dos participantes da lendária Expedição Langsdorff, que entre 1825 e 1829, refez o trajeto das antigas expedições entre o rio Tietê e os rios da bacia amazônica.  A imagem que ilustra este post é de sua autoria e mostra o Salto de Itu, no rio Tietê. Leiam:

“O salto de Avanhandava é uma bela e majestosa catarata. Corta o rio segundo uma linha oblíqua, de modo que a víamos bem de frente. Sua largura pode ser de 300 braças, a altura de 40 pés, o que, com a inclinação do álveo, antes e depois da queda, dá os 60 pés entre o porto superior e o inferior. À direita veem-se as águas se precipitarem entre a margem umbrosa, uma ilhazinha coberta também de árvores e uns grandes penedos. Forma-se, pois, duas gargantas por onde atiram-se as massas líquidas em tal agitação e revolvimento de espumas, que densas nuvens de vapores se erguem com neblina cerrada. As águas que caem pelo lado do grande maciço de rocha não são tão revoltas: milhares de cascatinhas divididas por pontas de rochedos constituem um anfiteatro de pedra riscado por fios d’água, alva como neve. 

O grande maciço não se prende à margem esquerda. De permeio a eles fica uma ilha, e no intervalo lançam-se, espumantes e furiosas, espadanas de água, que se desfazem em vapores.” 

Depois de vencer os muitos obstáculos do rio Tietê, as expedições monçoeiras seguiam pelos rios Paraná, Anhanduí, e Pardo, atingindo terras do atual Estado de Mato Grosso do Sul. Algumas expedições seguiam por terra, atravessando os chamados Campos das Vacarias, e depois seguiam pelos rios Emboteteu (Miranda), Paraguai e Cuiabá, chegando ao atual território do Estado de Mato Grosso. Outras expedições subiam os rios Paraná, Grande e Paranaíba, chegando às terras do Estado de Goiás e do Triângulo Mineira, em Minas Gerais. Grande parte dos territórios conquistados pelas expedições monçoeiras, que antes pertenciam à Coroa da Espanha por causa do Tratado de Tordesillas (assinado entre Portugal e Espanha em 1494), são hoje atendidas pela Hidrovia Tietê-Paraná. Curiosamente, o traçado do meridiano que dividia o território entre os dois Reinos corta o rio Tietê na altura do Salto do Avanhandava – se a temida cachoeira nunca foi um obstáculo aos monçoeiros, quem diria que uma linha imaginária o fosse…

Com nascentes no alto da Serra do Mar, na cidade de Salesópolis, o Rio Tietê poderia ser apenas mais um riachão sem maior importância, caso corresse na direção do Oceano Atlântico, localizado a pouco mais de 20 km Serra abaixo. O relevo acidentado e a altitude de 1.120 metros da Serra do Mar, porém, forçaram as águas do rio na direção contrária, atravessando todo o Estado de São Paulo rumo aos sertões, percorrendo uma extensão total de 1.136 km até encontrar sua foz no rio Paraná. E foi justamente esta vocação do rio Tietê de correr na direção dos sertões a principal inspiração dos homens rudes de Piratininga: fazer exatamente o mesmo roteiro do rio Tietê. 

A jovem Hidrovia Tietê-Paraná tem pouco mais de 25 anos de operação comercial, mas a ligação das populações locais com suas águas, essa tem mais de 450 anos de história. 

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