O ANEL HIDROVIÁRIO METROPOLITANO DE SÃO PAULO

Hidrovia em Amsterdam

Nas duas postagens anteriores, falei bastante do Tietê, o rio mais importante do Estado de São Paulo e parte fundamental da Hidrovia Tietê-Paraná. Apesar de toda a sua importância, o trecho do rio Tietê que cruza a Região Metropolitana de São Paulo sofre intensamente com o lançamento de esgotos e resíduos, e também com o desprezo e a indiferença das populações que moram ao largo de suas margens nessa região. Existe, porém, uma ideia em amadurecimento que poderá dar novas funções a este trecho do rio Tietê e que poderá mudar, para melhor, a forma como a população vê o rio e seus afluentes: a retomada do transporte fluvial de cargas e de passageiros nos rios da Região Metropolitana a partir da construção do Anel Hidroviário Metropolitano.. 

Poderá até soar como novidade para a maioria dos leitores, mas a cidade de São Paulo já foi um dos paraísos da navegação fluvial no Brasil. Vou citar um exemplo: a Rua 25 de Março, um dos centros de comércio popular mais movimentados e importantes do país já foi um porto fluvial. Até os últimos anos do século XIX, existia um braço navegável do Rio Tamanduateí naquela região – barcos repletos de mercadorias chegavam e partiam de um porto fluvial localizado na atual Ladeira Porto Geral. Toda a região do Parque Dom Pedro II passou por grandes obras no final do século XIX e início do séculoXX e o rio Tamanduateí foi retificado (o curso antigo era extremamente sinuoso) para liberar áreas para a construção civil, como foi o caso da Rua 25 de Março. 

Durante mais de 350 anos, a maior parte do transporte de cargas na pacata (e paupérrima) cidade de São Paulo foi feito por via fluvial. Além do Rio Tamanduateí, os rios Tietê e Pinheiros, incluindo-se também uma infinidade de ribeirões que cortavam todo o Planalto de Piratininga, eram usados para o transporte de cargas e de pessoas. A Vila de São Paulo de Piratininga, que depois foi elevada a Cidade em 1711, não dispunha de recursos para a construção de estradas – por isso o uso intensivo dos rios e ribeirões. Fontes documentais falam da existência de 300 rios, ribeirões e córregos na antiga cidade – outras falam de 2 mil corpos d’água em toda a área do munícipio. Conforme a cidade foi crescendo, córregos e riachos foram sendo canalizados (e esquecidos) para dar espaço ao crescimento urbano. 

Até meados do século XIX, a população da cidade de São Paulo mal chegava a 30 mil habitantes, espalhados em diversos núcleos: Pinheiros, São Miguel Paulista, Santo Amaro e área central da cidade, entre outros. Também existiam cidades próximas como Santo André, Carapicuíba e Santana de Parnaíba, que tinham as vias fluviais como as principais alternativas para o transporte e comunicação com a cidade de São Paulo e seus núcleos urbanos. Alimentos, materiais de construção, móveis, madeiras, entre outros produtos, circulavam preferencialmente através de embarcações fluviais por toda a imensa região do Planalto de Piratininga.  

Com o avanço da produção do café no interior do Estado e com a chegada das primeiras ferrovias a partir de meados do século XIX, a cidade de São Paulo passou a viver uma fase de crescimento explosivo. Com o dinheiro grosso circulando e grandes contingentes de imigrantes chegando, a cidade passou a criar novos bairros e grandes estradas e avenidas começaram a ser construídas por todos os cantos. As carroças de carga e as elegantes charretes passaram a ser as opções de transporte na cidade. No começo do século XX, foi a vez dos bondes, automóveis e caminhões tomarem de assalto as ruas e avenidas. Os rios e seus barcos, que passaram a ser vistos como “coisa de gente pobre”, foram sendo deixados de lado e a navegação fluvial simplesmente desapareceu da memória paulistana. 

De alguns anos para cá, a ideia de se retomar o uso do transporte fluvial de cargas na Região Metropolitana de São Paulo passou a ganhar espaço como opção de modal de transporte. Entre as razões para uma eventual reintrodução da navegação fluvial podemos destacar a saturação da malha viária, que provoca engarrafamentos cada vez maiores em todas as cidades da Região Metropolitana; a redução dos custos de transporte de produtos e matérias primas e um maior controle da poluição do ar, especialmente com a retirada de circulação de caminhões movidos a óleo diesel. As desvantagens, a meu ver, acho que não existem (exceção talvez à “indústria da multa”, que fatura milhões de Reais a cada ano e que deixaria de arrecadar muito com a retirada de algumas dezenas de milhares de caminhões de circulação). 

Esse seria um projeto complexo, demorado e que envolveria inúmeras autoridades de diversos níveis de Governo, porém com expressivos ganhos econômicos e ambientais para as populações da Região Metropolitana de São Paulo. Vou inclusive me atrever a propor uma ideia inicial para a implantação do sistema: a construção de uma barragem para o controle do nível do rio Tietê na altura do munícipio de Barueri ou de Osasco e de apenas uma única eclusa no rio Pinheiros, onde está instalada a Usina de Traição da Vila Olímpia. Com essas obras concluídas, a cidade passaria a contar com um trecho navegável de 50 km, entre a Usina de Traição da Pedreira, na Zona Sul, e a Barragem da Penha, na Zona Leste da Cidade. Barcaças com cargas ou passageiros poderiam fazer o percurso com toda a tranquilidade, fugindo dos engarrafamentos e com custos muito baixos. 

A Prefeitura de São Paulo, inclusive, passou a incluir entre as metas de planejamento urbano o estudo de opções de sistemas de transporte hidroviário de passageiros, a exemplo de países como Holanda, França e Alemanha. Uma opção que já vem sendo considerada prevê a implantação de um sistema experimental de transporte de passageiros nas represas Guarapiranga e Billings. A proposta, que vem sendo desenvolvida por pesquisadores da FAU – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, prevê a integração de diversas linhas de ônibus já existentes nas regiões das margens das represas com embarcações com capacidade para até 200 passageiros. Essas embarcações são similares as usadas para transporte de passageiros nos canais da cidade de Amsterdan, na Holanda (vide foto).  

Como toda a infraestrutura do sistema já está praticamente pronta – tanto as represas quanto as avenidas já existem, restaria apenas a construção dos terminais de embarque e desembarque dos passageiros. As duas hidrovias contariam inicialmente com nove terminais de passageiros, sendo cinco na represa Billings e quatro na represa Guarapiranga, totalmente integrados às linhas de ônibus da região. A proposta, que é relativamente simples e de fácil implementação, ajudaria a desafogar o sofrível sistema de transportes do extremo Sul da cidade e depende, basicamente, de uma decisão política da Prefeitura da Cidade de São Paulo e de estudos de impacto ambiental, uma vez que a represa Guarapiranga e parte da Billings são mananciais de abastecimento de água da Região Metropolitana. 

Já a construção de um grande Anel Hidroviário Metropolitano, que também está na pauta de discussões, esse é bem mais complicado: sua realização dependeria de acordos entre o Governo do Estado de São Paulo e prefeituras de, pelo menos, 18 municípios da Região Metropolitana, além de envolver custos estimados inicialmente em R$ 3 bilhões. O prazo de execução do projeto também seria bastante problemático e envolveria, pelo menos, três administrações consecutivas – todos sabem que os novos prefeitos, quando assumem seus cargos, dificilmente dão continuidade às obras iniciadas na gestão anterior. 

Problemas a parte, como seria maravilhoso navegar pelos rios da cidade de São Paulo tal qual holandeses, franceses e alemães o fazem em seus rios… 

3 Comments

  1. Um crime, infraestrutura pronta, não agressiva ao meio ambiente, mas degradada ao longo de décadas, fica relegada ao esquecimento, enquanto o transporte público degenera sem expectativa de melhora, na cidade de SP…
    Excelente, sua matéria!

    Curtir

    Responder

    1. Agradeço seu comentário. Sou “nativo” de Santo Amaro e me considero um “camarão de água doce” da Guarapiranga, que foi minha área de lazer na infância. Acredito que a implantação de sistemas de transportes públicos hidroviários poderão reaproximar as pessoas das águas e forçarão as autoridades a cuidar melhor dos nossos corpos d’água. Assim, a Guarapiranga, a Billings, o Pinheiros e o Tietê deixarão de ser esgotos a céu aberto e voltarão a ser fontes de vida.

      Curtido por 1 pessoa

      Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s