AS PRAIAS BALNEÁVEIS DA ILHA DO GOVERNADOR

Praia Ilha do Governador - Agência O Globo - Marcelo de Jesus

Vamos esquecer temporariamente os imensos problemas de poluição das praias brasileiras e as terríveis enchentes em Santa Catarina e começar a nova semana com uma ótima e, por que não dizer, improvável notícia: análises laboratoriais feitas em amostras de água coletadas nas praias da Ilha do Governador, o grande bairro insular da cidade do Rio de Janeiro e que se encontra incrustrado na sofrida Baía da Guanabara, apresentaram bons índices de balneabilidade ao longo de 2017.

Somente para relembrar, a Baía da Guanabara é um símbolo do descaso ambiental com as águas aqui em nosso país e foi manchete em todo o mundo nos meses que antecederam as Olimpíadas do Rio de Janeiro em 2016 – local escolhido para a realização das provas olímpicas de iatismo, a Baía ainda apresentava altos índices de contaminação por despejos de lixo e esgotos, o que causou muita apreensão entre atletas e dirigentes esportivos. O ambicioso PDBG – Programa de Despoluição da Baía da Guanabara, apresentado pelas autoridades do Estado e da Cidade do Rio de Janeiro ao COI – Comitê Olímpico Internacional, junto com a proposta de candidatura da cidade para sediar a Olimpíada, ficou muito longe de ser finalizado, apesar de ter recebido investimentos de R$ 2,5 bilhões.

Na época dos jogos, redes de contenção foram instaladas em uma infinidade de estuários de córregos e rios para, ao menos, reter  os grandes volumes de lixo flutuante que chegam diariamente na Baía de Guanabara. Ao mesmo tempo, uma verdadeira frota de barcos passou a “pescar” lixo flutuante nas águas – tudo para garantir que as provas náuticas saíssem bem nas “fotos” e nas transmissões de TV; em relação aos altos índices de esgotos presentes nas águas, muita pouca coisa poderia ser feita em tempo hábil (e que deixaram de ser feitas nos muitos anos que antecederam os jogos).

Na Praia da Bica (vide foto), uma das mais populares da Ilha do Governador, foram encontrados os melhores índices de balneabilidade dos últimos dez anos. De um total de 13 relatórios de qualidade ambiental das águas divulgados pelo INEA – Instituto Estadual do Meio Ambiente, o resultado em 11 foram positivos. Para efeito de comparação, em 2016 não foi divulgado nenhum relatório com classificação positiva; em 2015, a praia apresentou boas condições de balneabilidade em apenas 2 dos 14 boletins divulgados.

A definição clássica de ilha, que tenho certeza que todos conhecem, informa que é “uma porção de terra cercada de água por todos os lados”. No caso da Ilha do Governador, precisamos fazer uma pequena alteração no enunciado: “extensão de terra cercada pelas águas altamente poluídas da Baía de Guanabara por todos os lados”. A Baía da Guanabara ocupa uma área com aproximadamente 400 km² e acumula um volume de água com cerca de 3 bilhões de m³. A área de influência direta é bem maior e ocupa algo em torno de 4.000 km², onde estão incluídos os maciços e as colinas da Serra do Mar, a Baixada Fluminense, extensas áreas de manguezais e uma rede hidrográfica com aproximadamente 50 rios e córregos que despejam, em média, 200 mil litros de água por segundo na Baía da Guanabara, grande parte contaminada por esgotos e lixo.

Essa grande região incorpora um total de 16 municípios, sendo que 10 estão totalmente inseridos na bacia hidrográfica (Duque de Caxias, Mesquita, São João de Meriti, Belford Roxo, Nilópolis, São Gonçalo, Magé, Guapimirim, Itaboraí e Tanguá) e 6 de forma parcial (Rio de Janeiro, Niterói, Nova Iguaçu, Cachoeiras de Macacu, Rio Bonito e Petrópolis). Nesta região vive 80% da população do Estado do Rio de Janeiro, estimada em 17 milhões de habitantes de acordo com o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. De acordo com algumas estimativas de entidades ambientais, a Baía de Guanabara recebe um volume de 10 mil litros de esgotos a cada segundo.

Com uma área de aproximadamente 40 km² e contando com uma população superior a 210 mil habitantes, a Ilha do Governador cresceu com seus próprios problemas de infraestrutura, despejando seus esgotos em cursos d’água, valas e galerias de águas pluviais, onde o destino final, como não poderia ser diferente, eram as águas e praias da Baía da Guanabara. Caminhando pelas praias da Ilha, era muito comum se encontrar as chamadas “línguas negras”, cursos de águas poluídas que deixam um rastro escuro na areia.

Apesar dos problemas de saneamento básico na Ilha do Governador estarem muito longe de uma solução definitiva, a realização de uma única obra na região da Praia da Bica  fez toda a diferença: a construção de uma galeria de interceptação ou tronco coletor de águas pluviais e esgotos. Esse dispositivo passou a interceptar todas as águas e efluentes que corriam em direção à praia, evitando uma poluição ainda maior das águas da Baía da Guanabara naquele ponto. Pelo menos seis “línguas negras” da Praia da Bica deixaram de existir e os resultados dos testes de qualidade ambiental das águas estão aí para comprovar um renascimento deste trecho da Baía da Guanabara. A natureza também dá a sua contribuição – as correntes oceânicas que entram na Baía da Guanabara promovem uma renovação completa das águas a cada duas semanas – é só parar de uma vez por todas com os lançamentos de esgotos e de lixo, que as águas de todas as praias voltarão a ficar balneáveis em pouco tempo.

Esse tipo de notícia pode não ter qualquer relevância ou significado para muitos moradores da orla oceânica da Zona Sul do Rio de Janeiro, que vivem a poucos passos de praias famosas como Copacabana, Ipanema, Leblon, São Conrado, ou ainda da região da Barra. Para os moradores da Ilha do Governador, particularmente, e de bairros dos subúrbios, essa notícia é muito importante: essas populações não têm um acesso tão fácil assim até estas belas e famosas praias da cidade – para um bom banho de mar, é preciso, em muitos casos, recorrer a uma longa e exaustiva jornada em trens, ônibus e lotações.

Moradores da maior parte da cidade de São Paulo, que fica a 70 km do litoral, conseguem chegar mais rápido e confortavelmente à praia (neste caso, estou falando da cidade de Santos) do que muitos cariocas moradores dos bairros mais distantes nos subúrbios. Grande parte dessa população tem uma área de lazer bem mais acessível nas lajes de suas casas, seja para realização dos churrascos seja para os banhos de mangueira e de sol.  A “galera” da Ilha do Governador e arredores, com razão, tem muito a comemorar.

Que continue assim e que uma das mais belas baías do mundo, a da Guanabara, continue a ver a vida voltando a ocupar todos os espaços que foram perdidos ao longo de muitos séculos de “civilização”.

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