INCÊNDIOS EM LIXÕES, DIOXINAS E FURANOS: SUA SAÚDE SOB RISCO

Incêndio em Lixão em Bauru - Pallu Roberto

No último dia 1° de março, moradores de ao menos seis bairro da cidade de Bauru, interior do Estado de São Paulo, se assustaram com uma densa fumaça branca liberada por um grande incêndio em um terreno da Prefeitura da Cidade nas vizinhanças e que era utilizado por uma cooperativa de recicladores de materiais. Uma grande quantidade de resíduos de plástico, papelão, borracha e outros materiais tóxicos entrou em combustão, não se sabe se por acidente ou vandalismo, liberando uma fumaça altamente tóxica que causou mal-estar em muitos moradores, que foram obrigados a manter portas e janelas fechadas para amenizar o problema. A Defesa Civil da cidade, que alegou desconhecer a existência desse depósito, só tomou conhecimento do incêndio através das imagens transmitidas ao vivo por um helicóptero de uma emissora de TV local. De acordo com nota oficial divulgada pela Prefeitura de Bauru, o “depósito de recicláveis” não tinha autorização de funcionamento e foi instalado, é claro, sem Avaliação de Impacto Ambiental ou qualquer outro estudo similar. Materiais que não eram selecionados como recicláveis acabavam descartados em uma parte do terreno, que acabou transformado num verdadeiro lixão.

Esse exemplo mostra uma realidade encontrada por todos os cantos do país: pequenos, médios e grandes lixões clandestinos recebem enormes quantidades de resíduos sólidos urbanos, entulhos da construção civil, resíduos hospitalares, pneus e mais uma infinidade de materiais altamente combustíveis. Materiais orgânicos misturados a estes resíduos liberam grandes quantidades de gases altamente inflamáveis como o metano e sulfeto de hidrogênio – basta uma simples faísca ou uma bituca ou guimba de cigarro acesa para desencadear um incêndio de grandes proporções, com a liberação de muita fumaça tóxica.

Sempre que um incêndio consome qualquer um destes lixões, uma imensa coluna de fumaça se ergue no horizonte das cidades, carregando no seu “corpo” negro uma infinidade de gases tóxicos resultantes da queima de materiais diferentes. Quem mora próximo desses locais sofre com dificuldades respiratórias, irritação nos olhos e na garganta. Os problemas atacam principalmente crianças, idosos e portadores de doenças respiratórias. Dependendo do tamanho e do volume de resíduos acumulados nesses lixões, esses incêndios podem demorar vários dias até serem completamente extintos – em muitos casos, como há materiais queimando embaixo das camadas de resíduos, o incêndio pode recomeçar a qualquer momento.

Além dos problemas mais imediatos criados por estes incêndios, a queima dos diferentes resíduos pode formar espontaneamente algumas moléculas altamente tóxicas: dioxinas e furanos. Essas moléculas são formadas pela combinação de compostos químicos em vários processos envolvendo o cloro ou substâncias e materiais que contenham cloro. Destacam-se: a produção de diversos produtos químicos, em especial os pesticidas; os processos de combustão nos diversos tipos de incineradores – de lixo, de resíduos industriais, de lodos e de resíduos hospitalares; plantas de preparação de carvão e termelétricas a carvão; produção de papel e celulose, queima de resíduos de madeira ao ar livre e em lareiras; na fumaça de cigarro, em queimadas de palha de cana e, no nosso caso, nos incêndios em lixões.

Em vários estudos clínicos, com pessoas que foram expostas a ambientes com a presença de dioxinas e furanos, foi observado que houve um aumento da incidência de diferentes tipos de câncer. Esses estudos demonstraram que o sistema imunológico das vítimas é afetado, facilitando o desenvolvimento destas doenças.

Além da inalação dos gases (responsável por 2,8% dos casos de contaminação), as moléculas de dioxina e de furanos caem sobre o solo e contaminam as plantas e vegetais – 87,1% dos casos de contaminação foram associados ao consumo de carne e leite originários de áreas contaminadas, 5,1% pelo consumo de vegetais produzidos em solos contaminados, 4,6% pela aspiração de poeiras contaminadas e menos de 1% pelo consumo de peixes (as moléculas tóxicas se diluem na água) e outras fontes. O estudo foi realizado em três diferentes regiões dos Estados Unidos – não há dados disponíveis sobre estudos realizados no Brasil.

Muita gente acha que os problemas associados aos resíduos sólidos urbanos acabam no momento em que o caminhão da coleta recolhe as embalagens na sua porta. Como eu venho insistindo, isso não é verdade – o problema simplesmente muda de endereço e pode voltar para dentro das casas na forma de moléculas tóxicas carregadas pelo vento. A sociedade precisa discutir o assunto com mais seriedade.

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