A CRISE NA AGRICULTURA DA EUROPA 

Há cerca de dois meses publicamos uma postagem aqui no blog falando da grave crise econômica e política no Sri Lanka, um pequeno país insular localizado no Oceano Índico ao Sul da Índia. Essa crise se agravou, e muito, dias atrás, o que resultou na fuga do Presidente ante gigantescos protestos populares. 

As raízes dessa crise estão ligadas diretamente à pandemia da Covid-19 – o turismo, uma das principais fontes de receitas externas do país, foi muito afetado pelas restrições de circulação de pessoas, o que precipitou numa grande crise econômica. 

Antevendo as dificuldades para a importação de insumos agrícolas, o Presidente do Sri Lanka anunciou que seu país estava proibindo o uso de fertilizantes e pesticidas na agricultura com o objetivo de tornar toda a produção orgânica. Muitos ambientalistas internacionais aplaudiram essa iniciativa demagógica.  

Entretanto, a realidade acabou falando mais alto – logo após o anúncio dessas medidas, cerca de 1/3 das culturas não foram plantadas pelos produtores rurais. A razão é muito simples – culturas orgânicas não costumam ser viáveis economicamente. A produção cai, os custos aumentam e o mercado não paga o valor real dos produtos. A produção de arroz, um dos alimentos básicos da população e onde já não havia autossuficiência, diminuiu 20%, o que obrigou o Governo a gastar cerca de US$ 450 milhões com a importação do cereal. 

A lembrança do Sri Lanka é essencial para entendermos o que está acontecendo em vários países europeus por causa da busca de uma agricultura mais sustentável. Falo aqui do European Green Deal, ou Pacto Ecológico Europeu, um plano para reduzir as emissões de GEE – Gases de Efeito Estufa, em 55% até 2030. 

Os Países Baixos, que entre nós brasileiros é mais conhecida como Holanda, está implementando várias medidas nessa direção, o que está enfurecendo os fazendeiros. Conforme apresentamos na última postagem, os fazendeiros estão fazendo muita pressão, inclusive com protestos violentos. 

Segundo associações de produtores rurais, essas medidas levarão cerca de 30% das fazendas ao fechamento em apenas 3 anos. Nas regiões próximas a áreas de preservação ambiental, os chamados “habitats vulneráveis, os produtores calculam que 95% das fazendas ficarão inviáveis. Muitos fazendeiros estão simplesmente mudando de profissão. 

A revolta dos fazendeiros holandeses tende a se espalhar por outros países da Europa. As mesmas medidas e metas de redução de emissões estão sendo implementadas em outros países do bloco europeu. Inclusive, segundo agências de notícias independentes, já foram registrados protestos semelhantes na Itália e na Polônia. 

A esse problema juntam-se muitos outros: falta de fertilizantes, aumento e escassez de combustíveis – especialmente o óleo diesel usado em tratores e outras máquinas agrícolas, necessidade de subsídios, falta de mão de obra, conflito na Ucrânia, entre outros. 

Com tantos problemas somados, não é de se estranhar que muitos produtores estejam abandonando os trabalhos no campo e buscando outras formas de ganhar a vida. A migração de grandes contingentes populacionais de áreas rurais para os centros urbanos é uma realidade na vida de países desenvolvidos e em desenvolvimento há muitas décadas. 

Na Inglaterra, citando um exemplo, mais de 90% da população vive nos centros urbanos. Na França, a situação não é muito diferente – cerca de 85% dos franceses vivem nas cidades, números muito semelhantes aos da Holanda. Como resultado dessa distorção populacional, os produtores rurais costumam ser altamente subsidiados pelos Governos – sem esses subsídios, muitas atividades rurais são inviáveis economicamente. 

A todas essas dificuldades agora se somam restrições ambientais impostas pelos Governos. Por melhores que sejam as intenções em “prol de um mundo melhor”, a dose do remédio que está aplicada poderá matar o doente. 

Prateleiras vazias nas gondolas das seções de frutas, legumes e hortaliças – como já está acontecendo nos supermercados da Holanda (vide foto), poderão em breve fazer parte do dia a dia de milhões de cidadãos da Europa. 

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