A IMPORTAÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA PELO BRASIL, OU “O GATO SUBIU NO TELHADO”

É muito comum encontrarmos produtos importados em lojas de eletroeletrônicos, em supermercados, em concessionárias de carros e motos, entre outros estabelecimentos comerciais. Falar de importação de energia elétrica pode parecer um tanto estranho para a maioria dos leitores, mas saibam que isso já virou “rotina” aqui no Brasil. 

Um exemplo fácil e que não necessitou de grandes esforços para encontrarmos os dados foi o ano de 2001, que entrou para a história como o ano do “apagão do sistema elétrico brasileiro” – o Brasil importou 3.917 GW/h da Argentina e do Uruguai, que nos ajudou muito a superar a brusca redução na capacidade de geração de energia elétrica no país por causa dos baixos níveis dos reservatórios das usinas hidrelétricas naquele ano

Outro ano em que houve uma boa importação de energia elétrica foi 2018, também por causa da redução dos estoques de água nos reservatórios – foram importados 1.131 GW/h. Esse volume importado correspondeu a apenas 0,24% da energia elétrica consumida no Brasil naquele ano, mas em momentos de crise, qualquer ajuda é sempre bem-vinda. Essa energia elétrica importada se junta à produção emergencial das usinas termelétricas brasileiras para o abastecimento da população em casos de crise no sistema de geração do país. 

Essa importação segue os procedimentos descritos no Manual de Procedimentos da Operação – Importação e Exportação de Energia do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico. As operações de compra e venda de energia elétrica são viabilizadas pela CCEE – Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, uma associação civil integrada pelos agentes das categorias de Geração e de Distribuição de Energia Elétrica. 

Os principais “vendedores” de energia elétrica para o Brasil são a Argentina e o Uruguai. Na Argentina, o ONS tem um relacionamento operacional com o Centro de Controle de Operação da CANMESA (COC) e no Uruguai com o DCU – Despacho Nacional de Cargas do Sistema Uruguaio. Essas operações seguem regulamentos internacionais. 

A transmissão da energia elétrica a partir das usinas hidrelétricas dos países vizinhos é feita por redes de transmissão até quatro estações conversoras na região de fronteira e depois são lançadas no SIN – Sistema Interligado Nacional. 

Cargas elétricas vindas da Argentina: 

  • Estação Conversora Garabi I, em Garruchos / RS, com potência nominal de 1.100 MW 
  • Estação Conversora Garabi II, em Garruchos / RS, com potência nominal de 1.100 
  • Estação Conversora Uruguaiana, em Uruguaiana / RS, com potência nominal de 50 MW 

Carga elétrica vinda do Uruguai: 

  • Estação Conversora Rivera, em Rivera / Uruguai, com potência nominal de 70 MW 

Aqui é importante citar que até o ano de 2019, parte da energia elétrica consumida no Estado de Roraima era gerada pela Usina Hidrelétrica de Guri, na Venezuela. Esse contrato de fornecimento venceu e, devido a todos os problemas políticos e econômicos vividos pelo país vizinho, não foi renovado. A demanda energética de Roraima é da ordem de 215 MW e, até 2019, era suprida em cerca de 60% por energia importada da Venezuela e os 40% restantes eram gerados localmente por usinas termelétricas a diesel.  

Atualmente, toda a energia elétrica consumida em Roraima está sendo gerada em usinas termelétricas. Conforme comentamos em uma postagem anterior, a solução para a questão da energia elétrica é a construção do Linhão de Tucuruí, uma rede de transmissão de energia elétrica entre as cidades de Manaus, no Amazonas, e Boa Vista, a capital de Roraima. O entrave para a realização da obra é a Terra Indígena Waimari Atroari, que precisa ser atravessada pelo Linhão e os órgãos responsáveis envolvidos no processo – IBAMA, FUNAI, ELETRONORTE e STF, entre outros, não conseguem chegar a um acordo

Também não podemos esquecer da energia elétrica produzida pelo lado paraguaio da Usina Hidrelétrica de Itaipu. O empreendimento é binacional, dividido em partes iguais pelo Brasil e pelo Paraguai. O Brasil compra o excedente da produção de energia elétrica produzido pelo Paraguai e lança essa energia no SIN – Sistema Interligado Nacional. 

Só para lembrar, Itaipu é uma das mais importantes usinas hidrelétricas do país e responde por mais de 10% de toda a energia elétrica consumida no Brasil. Sem querer bancar o chato, preciso jogar um pouco de “água fria nessa fervura” – o sistema de transmissão da energia elétrica de Itaipu, que conduz a eletricidade para os grandes centros consumidores, está no limite da sua vida útil e está passando por um processo de modernização. 

Esse sistema vem operando há mais de 36 anos e Itaipu está investindo cerca de R$ 1 bilhão para trocar equipamentos na sub estação de Foz do Iguaçu, no Paraná, e em Ibiúna, em São Paulo, entre outros serviços. A previsão para a conclusão de todos os trabalhos é de 5 anos – ou seja, não estamos livres de alguma pane nesse complexo sistema de transmissão de energia nesse meio tempo. 

Em 2001, ano do famoso “apagão do sistema elétrico brasileiro”, os reservatórios das usinas hidrelétricas da Região Sul do Brasil estavam bem cheios e havia a possibilidade de uma oferta extra de energia elétrica para outras regiões. Essa possibilidade nem chegou a ser cogitada por que não haviam linhas de transmissão para o transporte dessa energia desde o Sul até outras regiões do Brasil. 

Vejam que além da presença de bons volumes de água nos reservatórios das usinas hidrelétricas é fundamental que existam linhas de transmissão para o transporte dessa energia até os consumidores. O Estado de Roraima está sofrendo pela falta de uma dessas linhas de transmissão e, no caso do linhão de Itaipu, há riscos por causa da obsolescência de muitos equipamentos. Esses riscos podem até ser pequenos, mas precisam ser considerados. 

Apesar de todas as declarações das autoridades do setor elétrico brasileiro estarem afirmando “categoricamente” que não existe risco de um novo apagão agora em 2021, quiçá em 2022, confesso que estou bastante preocupado e não consigo “sentir firmeza”, como dizemos no meu bairro, nessas declarações. 

Sempre que alguém toca no assunto lembro da história do “gato que subiu no telhado”, um artifício que algumas pessoas usaram para contar que o gato de uma vizinha tinha morrido. Começaram falando que o gato subiu no telhado, escorregou, conseguiu se segurar, mas depois acabou caindo de uma grande altura e morreu. A tragédia foi narrada aos poucos “aos poucos” para não assustar a velhinha. 

Sempre que eu vejo alguma dessas “otoridades” jurando que não vai ter racionamento de energia elétrica aqui no Brasil, não sei por que, mas eu lembro dessa história do gato no telhado. 

Torçamos então para que ele tenha mais equilíbrio e sorte que o gato da vizinha… 

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