NAVEGANDO NAS ÁGUAS DO BOM E VELHO RIO SÃO FRANCISCO

Penedo

Em postagens anteriores, falamos bastante da crescente e cada vez mais importante navegação na Hidrovia Tietê-Paraná, afirmando inclusive que a ampliação dos trechos navegáveis a partir da interligação com a Hidrovia Paraguai-Paraná é fundamental para a integração e o desenvolvimento econômico de importantes regiões do Brasil, Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai. Em um caminho totalmente oposto, a navegação pelas águas do rio São Francisco, um dos rios mais importantes do Brasil, é cada vez mais difícil e problemática. Vamos falar sobre isso: 

As antigas populações indígenas que habitavam as margens do baixo São Francisco chamavam o rio de Pará, que é a mesma palavra usada para se referir ao mar – ou seja, para esses povos, o rio São Francisco era tão grandioso quanto o mar. Essa constatação inicial mostra o quão impressionante e respeitável era esse rio. 

A primeira expedição marítima europeia que chegou até a foz do rio e que, oficialmente, “descobriu” o São Francisco, foi comandada pelo famoso navegador Américo Vespúcio. Em 4 de outubro de 1501, dia de São Francisco de Assis no calendário da Igreja Católica, os navegadores chegaram na foz de um poderoso rio, que lançava suas águas doces a 4 km mar adentro. Relatos de antigos navegadores e de capitães de navios mercantes, citam a entrada de grandes embarcações pelo canal do rio São Francisco na direção das cidades de Penedo, no Estado de Alagoas, e da vizinha Neópolis, em Sergipe, distantes cerca de 50 km da foz no Oceano Atlântico.  

Atualmente, o enfraquecido rio São Francisco sofre diariamente com a intrusão de água salina em seu canal – moradores da cidade de Piaçabuçu, próxima da foz do rio, recebem água salobra em suas torneiras; para conseguir água potável, muitos moradores caminham até 5 km terra adentro em busca de fontes puras de água, enquanto outros sobem cerca de 7 km rio acima para retirar água de pequenos afluentes do rio. Diferente de tempos passados, o canal de navegação está entulhado de bancos de areia e há riscos para o tráfego das pequenas embarcações. Se a situação na foz é dramática, nos 2.830 km da calha do rio no interior do continente também não é das melhores. 

O Rio São Francisco nasce, de acordo com algumas fontes, no município de Medeiros na Serra da Canastra, em Minas Gerais. Outras fontes afirmam que a nascente do rio fica em São Roque de Minas – o ponto exato da nascente de um rio é, em grande parte dos casos, uma convenção geográfica e gera todo o tipo de discussões. Em regiões de serra, especialmente nos domínios do Cerrado, existem inúmeros vertedouros de água ou nascentes nas encostas, que vão se juntando e formando diversos rios importantes do Brasil. Aliás, das 12 grandes bacias hidrográficas brasileiras, 8 tem rios com nascentes nos domínios do Bioma Cerrado, chamado acertadamente por muitos como “berço das águas”.

O Rio São Francisco desce discretamente pelas encostas da Serra da Canastra, recebendo contribuições de inúmeros pequenos cursos de água e, conforme vai ganhando corpo e volume, vira para o Norte, na direção do Estado da Bahia. Apesar de ter apenas 37% da sua bacia hidrográfica em terras mineiras, o Velho Chico recebe 75% de toda as suas águas de rios tributários do Estado de Minas Gerais. Da Serra da Canastra até a sua foz no Oceano Atlântico, será um total de 168 afluentes – 90 na margem direita e 78 na margem esquerda, com destaque para alguns rios importantes como o Rio das Velhas, Abaeté, Paracatu, Jequitai, Rio Verde Grande, Carinhanha, Pajeú, Salitre, Corrente, Pará e Urucuia. No total, as águas da bacia hidrográfica do Rio São Francisco servem 521 municípios em 6 Estados da Federação: Goiás, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, além do Distrito Federal. Após a conclusão de todas as obras do Sistema de Transposição, as águas do Rio São Francisco, que já estão chegando ao Estado da Paraíba, chegarão também aos sofridos sertões do Ceará  e do Rio Grande do Norte – apesar de não ser a maior bacia hidrográfica brasileira, posto ocupado com louvor pela bacia Amazônica, o São Francisco tem a mais importante pelo “conjunto da obra”

Os caminhos às margens do baixo rio São Francisco foram a rota de entrada das primeiras populações de colonizadores rumo aos sertões do Nordeste. Os antigos criadores de gado do litoral foram expulsos pelos senhores dos grandes engenhos e forçados a buscar áreas de pastagem no interior. As desavenças entre os grupos surgiram porque os bois invadiam as plantações de cana e devoravam, alucinadamente, os brotos adocicados das canas de açúcar, o principal produto do Brasil Colonial. A diáspora bovina seguiu pelas margens do rio São Francisco e fazendas de criação de gado foram surgindo cada vez mais distantes pelos sertões. 

Com a descoberta das minas de ouro na região das Geraes no final do século XVII (1693), o rio São Francisco consolidou a sua vocação de “caminho rumo aos sertões”. Milhares de moradores das regiões canavieiras do Nordeste abandonaram tudo e seguiram rumo às terras ricas em ouro seguindo as águas do Velho Chico, tanto pelos caminhos abertos em suas margens quanto pelas águas navegáveis em extensos trechos. Esses mesmos caminhos e águas foram transformados depois em importantes rotas de abastecimento desde os mais profundos sertões nordestinos, através dos quais as boiadas, as farinhas e outras especialidades do Semiárido chegavam aos mineradores na Região das Geraes (essa foi a primeira denominação dada a Minas Gerais)

Com o fim da verdadeira frenesi desencadeada pela mineração do ouro, cujas reservas se esgotaram em menos de um século, consolidou-se, pouco a pouco, a imagem do São Francisco como o “rio da integração nacional“, que passou a funcionar como uma importante via de comunicação e de transporte entre as inúmeras cidades que foram surgindo ao longo de todo o seu curso. Um dos símbolos mais contemporâneos dessa fase é o navio vapor Benjamin Guimarães que, ao longo de grande parte do século XX, transportou passageiros e cargas entre as cidades de Pirapora, no Estado de Minas Gerais, e Juazeiro, no Norte da Bahia, e Petrolina, em Pernambuco, um caminho de águas com mais de 1.350 km de extensão. O lendário vapor, tombado pelo Patrimônio Histórico e Cultural do Estado de Minas Gerais, hoje jaz ancorado em um estaleiro aguardando uma reforma e a calha do rio São Francisco está cada vez mais seca e repleta de bancos de areia, o que a torna bastante inadequada para a navegação. 

A situação atual do rio São Francisco é tão crítica que o surubim, peixe que já foi símbolo do rio, está em vias de extinção. A redução dos caudais das águas, o assoreamento dos canais, a poluição, o desmatamento das margens e a destruição das lagoas marginais e a introdução de espécies exóticas de peixes nas águas do rio, dizimaram as antigas populações de surubim. Em muitos restaurantes “típicos” ao longo de todo o vale do Velho Chico, é cada vez mais comum se servir pratos preparados com cachara, uma espécie de peixe genérico do surubim e originário das águas da bacia do rio Amazonas. 

Nas próximas postagens, vamos analisar o que já foi e o que é hoje a navegação no rio São Francisco. 

4 Comments

    1. A expedição marítima citada, sob o comando do capitão André Gonçalves, chegou ao Cabo de São Roque – RN, em 16/08/1501 e seguiu a costa brasileira até Cananeia – SP, retornando para Portugal em fevereiro de 1502. Américo Vespúcio era uma esécie de chefe político e responsável pela cartografia da expedição, preparando o primeiro mapa da costa do Brasil. O calendário dos Santos da Igreja Católica foi muito usado para o batismo de inúmeros pontos geográficos da costa (rio São Francisco, Bahia de Todos os Santos, Espírito Santo, São Sebastião do Rio de Janeiro, São Vicente e por aí vai….

      Curtir

      Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s