O SURREAL INVERNO EUROPEU, OU DEU A LOUCA NA “MÁQUINA” DO TEMPO

Colosseo

Enquanto nos ocupamos dos nossos próprios problemas climáticos criados pelas chuvas de verão, com tempestades e enchentes nas mais diferentes regiões do Brasil, acompanhamos preocupados os altos e baixos do inverno na Europa, que está fugindo, e muito, da normalidade. Apesar da aparente distância que separa a Europa da América do Sul, é importante lembrar sempre que nosso planeta é uma grande esfera e eventos climáticos que se desenrolam em uma região sempre podem causar algum tipo de consequência em um outro lugar distante – esferas não tem limites.

As imagens mais recentes mostram Roma e seus pitorescos pontos turísticos cobertos por uma grossa camada de neve, algo raríssimo na Cidade Eterna (vide foto). A situação é tão inusitada que a Prefeitura da cidade foi obrigada a solicitar apoio de soldados do exército para trabalhar na remoção da neve acumulada em ruas e calçadas – a municipalidade romana não tem equipamentos para a remoção de neve, algo trivial nas cidades onde o fenômeno é frequente. Outra novidade deste inverno foi ver Portugal, considerado o país mais quente da Europa e habituado a precipitações de neve localizadas em algumas regiões, totalmente coberta de branco “gelo”.

Provavelmente, o que estamos assistindo é mais um capítulo das mudanças climáticas globais se desenrolando lentamente. A algum tempo atrás publiquei algumas postagens falando da fortíssima seca que está assolando a África do Sul e que levou o abastecimento da Cidade do Cabo ao colapso, onde mostrei que toda a região do Oceano Índico já mostra sinais bastante convincentes destas mudanças em andamento. O assunto é complexo e muito polêmico – tem muito cientista de “grosso calibre” negando que qualquer evento climático diferente do normal esteja em andamento no planeta.

Se você tem uma boa memória, é provável que se lembre de uma imagem surpreendente no Deserto do Saara poucas semanas atrás: dunas cobertas por uma camada de neve, um evento dos mais raros e que não era visto há 37 anos. O evento climático foi registrado no Norte da Argélia em 8 de janeiro e a camada de neve chegou a 40 cm de espessura.

No final do mês de janeiro, foram as imagens das fortes enchentes na cidade de Paris que chamaram a atenção do mundo – o nível do famoso rio Sena chegou a subir mais de 5 metros, ameaçando alguns dos mais famosos pontos turísticos da cidade como o Museu do Louvre. Janeiro, como todos sabem, é época de inverno na França e chuvas não são comuns, ainda mais com intensidade tão forte. A última vez que tal evento havia sido registrado foi em 1910, o que demonstra quão raro ele é.

Completando o quadro das esquisitices deste inverno europeu, vamos falar da neve em Moscou, aliás, da falta de neve. O inverno russo sempre causou “calafrios” nos exércitos invasores que algum dia ousaram invadir o país. Exemplos não faltam: no século XIX, foram os exércitos franceses sob o comando de Napoleão Bonaparte que sucumbiram diante do implacável “general inverno da Rússia”; no século XX foram os exércitos alemães de Hitler que padeceram sob as implacáveis ondas de frio das estepes. Pois bem – em janeiro deste ano, as temperaturas de Moscou estavam entre 8 e 10° C acima da média e o que menos se via nas ruas da cidade era neve.

O nosso planeta tem uma história muito longa – o início de sua formação data de 4,6 bilhões de anos, quando nuvens de gases e de poeira começaram a se agregar, formando o embrião que originou a Terra. Foram necessárias incontáveis eras até que o clima, a temperatura e a geologia do planeta rochoso atingissem um grau mínimo de estabilidade e permitisse o início da vida, que pouco a pouco passou a ocupar cada recanto de água, rocha, gelo, floresta e demais ecossistemas que surgiram pouco a pouco. O planeta inteiro passou a se comportar como um gigantesco motor movido a energia solar e em perfeito equilíbrio – quando a incidência dessa energia é maior em um hemisfério, temos a primavera e o verão; no outro hemisfério o outono e o inverno.

As mudanças climáticas criadas pelas atividades humanas, que se aceleraram muito nas últimas décadas, começam a provocar alterações nesta mecânica fina do clima, aprimorada ao longo de milhões de anos. O gelo das áreas polares não é mais tão abundante como antes e grandes volumes de água doce são jogadas nos oceanos todos os anos, produzindo alterações nas massas e nas direções das correntes marinhas. Formações de nuvens surgidas a partir da evaporação das águas dos mares tem alterado suas trajetórias, provocando chuvas demais em alguns lugares e de menos em outros. Massas de ar polar, a seu próprio modo, tem seguido por caminhos diferentes e provocado ondas de frio em lugares não previstos – este é o caso da Europa hoje, que sofre com uma massa polar vinda desde a Sibéria. Ondas de calor, cada vez mais fortes, surgem por todos os cantos do planeta.

A imprevisibilidade do clima, por sua vez, tem criado problemas em cadeia, prejudicando a agricultura, a pecuária, a geração de energia e mexendo com o ritmo de vida de muita gente. A certeza que todos tinham de o verão chegar logo após a primavera e do inverno suceder o outono já não existe mais – em muitos lugares do planeta passou a se ver uma alternância aleatória de estações, o que tem desorganizado a vida de pessoas, plantas e de animais.

E, querendo ou não, as mudanças parecem ter vindo para ficar. Teremos muito pouco tempo para adaptarmos nossas vidas e nossas infraestruturas a este novo mundo que está surgindo, algo que é muito preocupante. Sempre comento em minhas postagens que, em mais de 500 anos de história, nós brasileiros ainda não conseguimos adaptar nossas cidades para conviver com as chuvas de verão – entra ano e sai ano e as enchentes, alagamentos e desabamentos de encostas se repetem. Imagine agora, se de uma hora para outra, essas mudanças climáticas globais começarem a empurrar poderosas massas de ar polar na direção de nosso território e tenhamos de passar a conviver com frio intenso e neve?

Essa possibilidade, que parecia improvável até bem pouco atrás, poderá até se tornar realidade num futuro não muito distante, caso as mudanças climáticas continuem a bagunçar o clima do planeta. É sempre bom lembrar que o clima aqui em nosso território nem sempre foi quente e úmido: na cidade de Itu, aqui no interior de São Paulo, existem evidências geológicas da existência de grandes geleiras num passado remoto: formações de varvito, um tipo de rocha que se forma sob o peso de grandes massas de gelo.

Na dúvida, melhor pedir para a sua avó tricotar algumas luvas e cachecóis para você – nunca se sabe quando poderá precisar dessas peças…

 

PS: recebi uma mensagem de uma leitora de Toronto informando que o clima no Canadá também esta louco – a temperatura na cidade é 15° C, quando deveria estar em valores próximos de 0° C.

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