“O RIO DE PIRACICABA… VAI JOGAR ÁGUA PRÁ FORA…”

Rio Piracicaba

Para quem não conhece, o título deste post lembra uma estrofe da canção caipira “Rio de Lágrimas”, composta em 1970, com letra de Lourival dos Santos e melodia de Tião Carreiro e Piraci. Esta “moda de viola” se tornou uma referência da cultura caipira – faço referência aqui ao território que falava o tradicional Dialeto Caipira, que abrangia todo o Estado de São Paulo, Norte do Paraná, e Sul dos Estados de Minas Gerais, Goiás e de Mato Grosso. De algumas décadas para cada, essa referência cultural se misturou com outras e surgiu o chamado Sertanejo. Um trecho da moda de viola:

“O rio de Piracicaba vai jogar água pra fora
Quando chegar a água, dos olhos de alguém que chora.

La no bairro onde eu moro só existe uma nascente.
A nascente dos meus olhos já formou agua corrente.
Pertinho da minha casa já formou uma lagoa
com a lágrima dos meus olhos por causa de uma pessoa.”

O Piracicaba é um importante rio do interior do Estado de São Paulo, formado a partir da junção dos rios Atibaia e Jaguari no município de Americana e considerado o mais volumoso afluente do rio Tietê, onde desagua nas proximidades de Barra Bonita, após um curso total de 115 quilômetros. De origem tupi, Piracicaba significa “lugar onde os peixes param” ou ainda “degraus para os peixes”, numa referência aos degraus de basalto que cobrem uma parte do leito do rio e que dificultam a subida dos peixes na época da piracema. As águas do rio Piracicaba são responsáveis pelo abastecimento dos mais de 3 milhões de habitantes da Região Metropolitana de Campinas e também de parte da Região Metropolitana de São Paulo.

Por ser um grande afluente do rio Tietê, o Piracicaba foi uma importante rota de navegação fluvial na região ao longo do século XVIII. A partir de meados do século XIX, quando a região se transformou num polo de cafeicultura e de produção de cana de açúcar (ainda hoje, a região produz as melhores cachaças do Estado de São Paulo), o rio passou a ser utilizado para a navegação em pequenos vapores. A cultura do café, fundamental para o desenvolvimento econômico do Estado de São Paulo, teve início na região do Vale do Rio Paraíba do Sul, no Leste do Estado. Com o esgotamento dos solos, os cafeicultores rapidamente rumaram na direção do chamado Oeste Paulista, que nesta época era a região de Campinas, Piracicaba, Limeira, São Carlos e arredores. Os férteis solos de terra roxa e a disponibilidade de grandes cursos d’água foram fundamentais para o sucesso da cafeicultura e o desenvolvimento e povoação da região. A consolidação econômica da região se deu com a construção das primeira ferrovias, que ligavam as cidades da região ao Porto de Santos na segunda metade do século XIX, e que foram fundamentais para o escoamento da produção de café para todo o mundo e que marcariam a ascensão econômica do Estado de São Paulo.

Com o crescimento das cidades da região, particularmente de Campinas, a maior cidade do interior do Estado de São Paulo, e também do forte crescimento industrial e agrícola, as águas do Piracicaba passaram a receber volumes crescentes de esgotos domésticos e industriais, além de grandes volumes de resíduos de fertilizantes e de pesticidas. A partir da década de 1980, o rio Piracicaba passou ser incluído, infelizmente, na lista dos mais contaminados do país. A superexploração das águas, especialmente para a irrigação das grandes plantações de cana de açúcar, também levou a uma redução no volume de águas do rio, expondo grandes trechos do fundo rochoso do rio.

A redução no volume de água do rio Piracicaba também tem ligações com o Sistema Cantareira, construído na região das nascentes formadoras da bacia hidrográfica ainda na década de 1960 e que desvia grandes volumes de água para o abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo. Ao longo dos anos, esta questão criou diversos embates entre os comitês de bacia hidrográfica do Rio Piracicaba, Jaguari, Capivari e Atibaia, de um lado, e do rio Tietê no lado da Região Metropolitana de São Paulo. Na recente crise hídrica que levou o Sistema Cantareira ao volume morto entre os anos de 2012 e 2015, os embates na disputa pelas águas escassas foram mais intensos do que nunca.

Todos estes embates tiveram, como um ponto positivo, a criação de grupos de consumidores que aumentaram a pressão sobre as diversas autoridades responsáveis pela gestão dos recursos hídricos no Estado de São Paulo, no aumento na fiscalização e nos usos das águas, além da luta por espaços nas comissões que estabelecem a divisão dos volumes de águas entre as duas bacias. Em diversas cidades da bacia hidrográfica do rio Piracicaba, numa corrida contra o tempo, estão sendo construídos sistemas de coleta e tratamento de esgotos, buscando-se ao menos estabilizar o grau de contaminação das águas do rio, que continua sendo, apesar de todas as agressões ambientais que sofre, um dos mais importantes mananciais de abastecimento de uma região densamente povoada.

Que sobrem águas para serem jogadas para fora do rio Piracicaba…

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