1711: SÃO PAULO É PROMOVIDA A CIDADE E O CRESCIMENTO DOS PROBLEMAS DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA

Páteo do Colégio

A Vila de São Paulo de Piratininga teve como embrião uma cabana com aproximadamente 90 m², construída com a técnica de pau a pique e coberta com folhas de palmeira. A singela edificação, construída pelos padres jesuítas com a ajuda dos indígenas, foi consagrada numa missa e batizada como o Real Colégio de São Paulo de Piratininga. A data: 25 de janeiro de 1554. Nenhuma das pessoas presentes na cerimônia poderia imaginar o que o destino haveria de reservar para a rustica localidade. Atualmente, esse local fica bem no coração da área central de São Paulo e é conhecido como Pátio do Colégio  (vide foto).

Em 1711, a pequena Vila de São Paulo foi promovida a Cidade e passaria a contar com autonomia administrativa – seus minguados 1.200 habitantes poderiam decidir sozinhos quais os rumos que deveriam ser trilhados pela comunidade dali em diante. A Cidade carecia de tudo e, como é comum ainda hoje nos pequenos municípios, não tinha recursos suficientes para fazer quase nada – ou seja, nada mudou na rotina dos paulistanos. Uma prova dessa carência de recursos foi a demora para a inauguração do primeiro chafariz público da cidade, batizado como Tanque Municipal e inaugurado somente no ano de 1746. Alimentado a partir das águas represadas de um pequeno afluente do rio Anhangabaú, este tanque recebeu uma espécie de ampliação logo depois, surgindo assim um segundo tanque, batizado como Tanque Santa Tereza, construído a uma distância de 240 metros do Tanque Municipal.

Um dos maiores entraves para a construção de novas fontes públicas de água na Cidade eram os altos custos das tubulações metálicas, importadas da Europa e que necessitavam de uma mão de obra especializada para a sua instalação, luxo que ainda não se dispunha naquela época. A carência de técnicos, aliás, era marcante na cidade, especialmente aqueles especializados na construção de edifícios de boa qualidade e pontes – as fortes chuvas de Verão sempre destruíam ou arrastavam os precários pontilhões de madeira, deixando as populações isoladas em diversas áreas do território do município. O deslocamento da pequena população, especialmente das áreas rurais em direção ao núcleo central, que já era extremamente difícil através de picadas rudimentares abertas nas matas, ganhava um drama a mais sempre que se encontravam cursos d’água – na maioria das vezes, era necessário atravessar os riachos andando com água na altura do peito ou simplesmente a nado; nos rios maiores poderia se ter a sorte de encontrar algum barqueiro para ajudar na travessia.

A carência de obras de infraestrutura também era marcante na área de abastecimento de água, onde pouca coisa havia mudado desde a fundação da Vila de São Paulo. Numa espécie de “jeitinho paulistano”, foi iniciada a construção de valetas nas ruas, através das quais a água de alguns reservatórios, de qualidade sempre duvidosa, era distribuída para a população. Diante dessa dificuldade já histórica na época, surgiu a figura do aguadeiro, um profissional especializado no transporte de água desde as fontes de abastecimento até as residências. Os bons aguadeiros buscavam a água em riachos distantes do centro da cidade com carroças carregadas de cântaros – essas carroças possuíam suportes de madeira onde os cântaros eram fixados, conhecidos como cantareiras – esta palavra foi usada depois para nomear a famosa serra ao Norte da cidade. Esses aguadeiros ofereciam um “produto” de ótima qualidade para a população; existiam, é claro, os maus profissionais que não se davam a esse trabalho e retiravam a água de locais mais próximos, como o rio Tamanduateí, que já começava a apresentar problemas de qualidade devido ao crescimento, tanto do núcleo urbano quanto das granjas e pequenas propriedades rurais, já se observando um grande aumento nos resíduos e efluentes lançados nas águas.

Os registros públicos indicam que até o ano de 1855, foram construídas 4 bicas, 11 chafarizes públicos e 3 pequenos reservatórios de água na cidade de São Paulo, números insuficientes para o atendimento da população. Nessa mesma época, pelo menos metade da população utilizava regularmente as águas do rio Tamanduateí, já bastante degradadas, para o abastecimento. Os pequenos riachos utilizados nos primeiros séculos da história da Cidade, ou já haviam desaparecido sob o avanço da cidade ou se apresentavam completamente poluídos pelo lançamento dos esgotos dos imóveis. No inverno, quando as chuvas raramente caíam sobre os campos de Piratininga, a falta de água era constante nas fontes públicas, tanto pela redução dos volumes quanto pelos entupimentos das tubulações devido ao excesso de barro nas águas. A regularização do fluxo de água na cidade só será conquistada no final do século XIX, mais precisamente em 1898, a partir da inauguração do Sistema Cantareira Velho, que funcionou até o ano de 1970.

Continuaremos a contar esta história no próximo post.

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