UM TAL DE RAMAL INTERNO DE ESGOTOS

Pia

Sistemas de esgotos sanitários são utilizados há milhares de anos –  a cidade de Nipur na Babilônia, famosa por aparecer na narrativa do rei-deus Gilgamesh, começou a construir coletores de esgotos a partir do ano 3.750 A.C. Nesta mesma época, surgiam em cidades da Índia as primeiras redes eficientes para a distribuição de água e captação de esgotos e detritos, usando tubulações feitas de argila e canais subterrâneos. Um dos mais famosos sistemas de esgotos do mundo antigo, a CLOACA MAXIMA de Roma, foi construída nos finais do século VI antes de Cristo. Na época, Roma tinha uma população de 200 mil habitantes; dois séculos mais tarde a cidade abrigaria uma população de 400 mil habitantes, maior do que a população atual de algumas capitais brasileiras. Essa população dispunha de um complexo sistema de abastecimento com onze aquedutos, garantindo o fornecimento de 750 milhões de litros de água potável por dia, e de uma rede subterrânea de esgotos em toda a cidade. Apesar de toda esta antiguidade, a tecnologia e a cultura da construção de sistemas de esgotos acabou se perdendo nas brumas do tempo e, infelizmente, a maior parte da população mundial em nossos dias não dispõe de redes adequadas para a dispersão dos inevitáveis esgotos domésticos.

A descrição simplificada de um Ramal Interno de Esgotos que se segue, deveria ser encontrada em qualquer imóvel de nosso país, garantindo o uso adequado da água de abastecimento e a correta eliminação das águas servidas nos imóveis. Infelizmente, por mais simples que possa parecer a instalação desse sistema de tubulações e dispositivos hidráulicos nos imóveis (entenda-se como torneiras, registros, ralos, pias, vaso sanitário e tanque, entre outros), não são todos os nossos conterrâneos que dispõe desta infraestrutura em suas casas.

O Ramal Interno de Esgotos é formado por toda a tubulação de esgotos do imóvel e do terreno, que recebe as águas servidas, nome dado a toda água usada nas pias, tanque de lavar, ralo do banheiro, cozinha, lavanderia etc., além do esgoto do vaso sanitário. Esse Ramal Interno recebe todas as águas servidas e encaminha até o ponto de saída de esgotos, onde é feito o despejo na Rede Coletora de Esgotos na via pública. Além das tubulações internas do imóvel, o Ramal Interno de Esgotos também possui as caixas de inspeção ou passagem (usadas na limpeza e manutenção da rede) e a caixa de gordura. É claro que, no caso de quem mora em apartamento, as tubulações de descida e de saída dos esgotos, as caixas de passagem e a caixa de gordura são estruturas comuns do condomínio, compartilhadas pelos esgotos individuais de todos os apartamentos; nesses casos, os cuidados pela limpeza e manutenção destes componentes fica a cargo da administração do condomínio.

Existem quatro pontos que merecem destaque:

A). Nos casos das habitações individuais (casas, sobrados, vilas etc.), o tanque de lavar deve ser instalado em local coberto, protegido da chuva. A água da chuva, conhecida tecnicamente como ÁGUA PLUVIAL, não pode ser lançada nas tubulações de esgotos (falamos das águas pluviais no último post). Caso o tanque seja instalado em local descoberto ele passará a funcionar como um coletor de água de chuva (uma espécie de funil) e lançará essas águas na rede de esgoto, sobrecarregando o sistema.

B). O tanque e as pias da residência devem utilizar um sifão. Esse dispositivo tem a função de reter materiais sólidos como botões, areia e terra, restos de alimentos, anéis, pequenos objetos plásticos como tampas de tubos de pasta de dente, evitando assim entupimento das tubulações. Os sifões também funcionam como fecho hídrico, evitando ou reduzindo o retorno de gases malcheirosos dos esgotos para dentro dos imóveis.

C). Na tubulação de saída da pia da cozinha, deve ser instalada uma caixa de gordura. Essa caixa tem a função de filtrar e reter os resíduos de gordura presentes na água de lavagem de pratos e panelas. Essa gordura quando presente nas tubulações da Rede de Esgotos cria dois problemas:

Primeiro – Durante o processo de tratamento do esgoto na ETE (Estação de Tratamento de Esgoto), a gordura pode provocar entupimentos nos filtros e tubulações, levando às paralisações frequentes da operação da ETE para limpeza, sendo necessário o uso de produtos químicos desengordurantes. Em algumas situações, segundo estudos de empresas de saneamento básico, a somatória de todos esses procedimentos pode encarecer o processo de tratamento do esgoto em até 50%; esse custo extra fatalmente será repassado para as contas de água dos clientes.

Segundo – Em contato com a água fria, a gordura solidifica e gruda nas paredes das tubulações, podendo provocar entupimentos da Rede Coletora; diversos estudos de empresas de saneamento básico mostram que mais da metade dos entupimentos de Redes de Esgotos estão ligados direta ou indiretamente a acúmulos de gordura nas Redes. Para ter-se uma ideia do volume dessa gordura, uma família média pode lançar de 1 a 2 kg (a depender dos seus hábitos alimentares) de gordura a cada mês na rede coletora de esgotos. Essa gordura também é um verdadeiro banquete para insetos como as baratas que, com a fartura de comida, se multiplicam sem controle e invadem as ruas e residências. As baratas, como você deve saber são vetores (propagadores) de diversas doenças e podem contaminar alimentos e utensílios domésticos. Alguns predadores naturais das baratas como os escorpiões, podem ter suas populações aumentadas graças à fartura de alimentos, o que poderá resultar em picadas e ataques acidentais.

D). Caixas de passagem ou de inspeção tem a função de interligar as diferentes tubulações que formam o ramal interno de esgoto. Além disso, essas caixas facilitam os trabalhos de limpeza e manutenção do ramal interno de esgoto, evitando a quebra do piso e as escavações. Quanto maior o número de caixas instaladas, mais fácil será a execução destes trabalhos.

Essas informações podem até parecer óbvias para muitos de vocês, mas, na prática, se encontram tantos improvisos e instalações mal feitas em residências (principalmente de pessoas de baixa renda) que, mesmo com a instalação de uma Rede Coletora de Esgotos na porta do imóvel, a família vai continuar correndo riscos de contaminação com os  diversos vazamentos de esgotos.

Continuaremos este tópico no próximo post.

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