CALOR EXCESSIVO NO VERÃO PODE REPRESENTAR RISCOS PARA ESCOLAS E HOSPITAIS NA EUROPA 

Nos últimos dias uma massa de ar seco e frio entrou no Brasil e derrubou as temperaturas nas regiões Sul e Sudeste. Em algumas cidades do Rio Grande do Sul os termômetros têm registrado temperaturas abaixo de 0º C durante as madrugadas. No Estado de São Paulo, que fica na Região Sudeste, os termômetros marcam nesse momento 10º C. 

Enquanto vamos nos ambientando por aqui com as temperaturas deste início de inverno na Região Centro-Sul do Brasil (nas regiões Norte e Nordeste do país o clima é bem mais quente nesta época do ano), populações da Europa já estão se preocupando com as ondas de calor intenso que deverão se formar no verão do Hemisfério Norte. 

Só para recordar, a rotação e a translação são os mais importantes movimentos do nosso planeta e são responsáveis por uma série de fenômenos meteorológicos e pela mudança das estações do ano. As mudanças na inclinação do eixo do planeta fazem com que as estações climáticas sejam invertidas nos Hemisférios Norte e Sul – quando é inverno aqui no Sul, o pessoal do Norte enfrenta o verão. 

Um alerta recente da AEA – Agência Europeia do Ambiente, informou que cerca de 46% dos hospitais e 43% das cidades do continente estão localizados em “ilhas de calor”, onde as temperaturas podem ficar mais de 2º C acima da média regional. Essa característica torna esses locais especialmente vulneráveis às ondas de calor, cada vez mais frequentes na Europa. 

Conhecidas internacionalmente pela sigla ICU, as Ilhas de Calor Urbanas são provocadas pela grande concentração de edificações, especialmente nas áreas centrais das grandes cidades, onde são usados materiais como concreto, asfalto, telhas, tijolos e blocos, que absorvem e retém grandes quantidades de calor.  Além das altas temperaturas, essas áreas sofrem com chuvas violentas. É um fenômeno climático que começou a ser observado em décadas recentes nas grandes cidades do mundo 

Um exemplo de Ilha de Calor Urbano é a zona central da cidade de São Paulo. Se você consultar um mapa, verá que o município de São Paulo tem um formato que lembra a cabeça de um cachorro: o focinho é a Zona Leste, as orelhas são a Zona Norte e o pescoço comprido inclui a Zona Oeste e a Zona Sul, a maior de todas as regiões da cidade. O extremo Sul do município é coberto por uma densa vegetação de Mata Atlântica dentro da região da Serra do Mar, distante mais de 50 km do centro da cidade. 

O extremo Sul do município de São Paulo chega a apresentar temperaturas até 10° C mais baixas que o centro da cidade. Conforme se segue na direção do Centro, as temperaturas vão aumentando progressivamente. Quando alguém sai do Centro da cidade e vai em direção ao extremo da Zona Norte, onde fica a área florestada da Serra da Cantareira, percebe nitidamente uma redução da temperatura. 

Esse fenômeno ficou bem aparente na cidade de São Paulo entre as décadas de 1970 e de 1980, período em que a cidade viveu um enorme crescimento populacional e da sua mancha urbana, o que alterou, inclusive, o clima regional. Um exemplo que sempre citamos foi o fim da famosa garoa paulistana, uma chuva com gotas finíssimas que caia sempre no final da tarde sobre a cidade e que desapareceu no final da década de 1970. 

As mudanças climáticas globais estão elevando as temperaturas em várias regiões do planeta e tornando esse fenômeno cada vez mais evidente. E na Europa, que é um dos continentes com as populações mais urbanizadas do mundo, esse é um problema que deverá aumentar cada vez mais ao longo dos próximos anos. 

A formação das Ilhas de Calor Urbano pode agravar o fenômeno das ondas de calor ou tempo de canícula, que são os períodos de tempo excessivamente quente e úmido em uma região. Esse calor prolongado pode resultar em problemas de saúde na população, especialmente aqueles ligados a termorregulação corpórea e da percepção da necessidade de hidratação.  

Pessoas idosas e doentes são as mais susceptíveis a esses problemas, que podem inclusive levar a morte. Aqui é importante destacar que a população da Europa está envelhecendo, o que aumenta o tamanho do grupo de risco. Crianças também podem ser fortemente afetadas, o que foi demonstrado pelas preocupações das autoridades com as escolas. 

Como sempre comentamos em nossas postagens, as mudanças climáticas são inevitáveis e as ilhas de calor de calor urbanas tendem a se tornar cada vez mais relevantes. A forma mais eficiente de combater esse fenômeno é o com o “esverdeamento” das zonas centrais das cidades.  

Os solos precisarão ser permeabilizados, principalmente com a criação de grandes áreas verdes no coração das cidades, o que em muitos casos vai implicar na demolição de edifícios e outras construções – muitas deles históricos. A arquitetura dos grandes edifícios precisará ser repensada, buscando-se novas técnicas construtivas e materiais que não retenham grandes quantidades de calor. Córregos e rios já canalizados precisarão ser novamente abertos e precisarão ter suas margens renaturalizados. 

Um exemplo da complexidade do que estamos falando foi o que a cidade de Seul, capital da Coreia do Sul, fez para revitalizar o Cheonggyecheonum rio localizado no centro da cidade e que foi canalizado na década de 1960. Foram necessários dois anos de trabalho e um investimento de US$ 280 milhões (algumas fontes falam de US$ 380 milhões). A demolição de um viaduto que existia no local, só para exemplificar o tamanho da obra, gerou 600 mil toneladas de entulho. 

O trabalho foi concluído em 2005, e resultou num parque urbano linear com 5.8km de extensão, 400 hectares de área e 80 metros de largura (vide a sequência com as imagens da obra no alto) – 30 mil pessoas visitam o parque a cada fim de semana.  A temperatura nessa área é, em média, 3,6º C mais baixa que no resto da área central de Seul.

Agora tentem imaginar cidades grandes e históricas como Paris, Roma, Lisboa ou Londres demolindo quarteirões inteiros de construções para construir parques parecidos com esse de Seul… 

Sentiu o tamanho do problema? 

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