REINO UNIDO: A TRÁGICA COMBINAÇÃO DO BREXIT E DA EPIDEMIA DA COVID-19 NAS ATIVIDADES AGROPECUÁRIAS

Na postagem anterior falamos rapidamente dos problemas criados pela epidemia de Covid-19 para a mão de obra “nômade” que trabalha na agropecuária dos principais países da União Europeia. Vindos dos países mais pobres do bloco europeu, esses trabalhadores já há muitos anos realizam toda uma série de trabalhos braçais e pesados que os europeus “mais ricos” se recusam a fazer. 

Com o início da pandemia da Covid-19 e com os diversos fechamentos dos países e restrições à circulação das populações, grande parte desses trabalhadores estrangeiros se viu impedida de trabalhar e acabou optando por voltar a seus países de origem. Sem mão de obra para realizar os trabalhos no campo e, especialmente, fazer as colheitas, muitos produtores sofreram pesadas perdas e houve uma redução substancial na oferta de muitos produtos hortifrutigranjeiros em muitos países. 

No Reino Unido, formado pela Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, esses problemas foram e estão sendo bem maiores. A pandemia da Covid-19 encontrou um grupo de países em processo de desligamento da União Europeia – o famoso Brexit, uma combinação explosiva que amplificou ainda mais os efeitos da doença. 

A entrada do Reino Unido na Comunidade Econômica Europeia, precursora da União Europeia, em 1973, não foi exatamente uma unanimidade entre os políticos – vários grupos eram contra a medida, mas tiveram de se submeter à vontade da maioria. Já em 1975 foi organizado um plebiscito perguntando à população sobre a permanência ou não do Reino Unido no bloco europeu e a maioria dos cidadãos votou pela continuidade. 

Um sinal claro do desconforto dos britânicos em relação a União Europeia se deu em 1999, quando o Euro foi adotado como moeda comum entre os países-membros – o Reino Unido manteve a sua tradicional Libra Esterlina como sua moeda oficial. As tensões prosseguiram e em junho de 2016 foi realizado um plebiscito sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia – 51,8% dos eleitores decidiram pela saída. Esse processo, que já vinha sendo chamado de Brexit – Britsh exit ou saída dos britânicos, foi concluído no dia 31 de janeiro de 2021. 

Entre as inúmeras consequências políticas, econômicas e sociais, a questão dos imigrantes temporários é a que mais nos interessa nesta análise. O desligamento do Reino Unido da União Europeia acabou, numa tacada só, com a livre circulação de mercadorias e também de pessoas entre os países-membros. Produtos agropecuários que circulavam livremente entre o continente europeu e as Ilhas Britânicas, agora precisam passar por controles alfandegários, onde ficam sujeitos às normas sanitárias específicas do Reino Unido e também aos tradicionais protecionismos para os produtos locais. 

O fim da livre circulação de cidadãos é outro ponto que já está criando gravíssimos problemas para a agropecuária britânica. Trabalhadores vindos dos países-membros da União Europeia entravam no Reino Unido apenas apresentando a carteira de identidade e gozavam de uma série de facilidades para trabalhar temporariamente nesses países. Com as novas normas de imigração que passaram a valer, agora é necessário apresentar o passaporte e solicitar um visto temporário de trabalho. Essas dificuldades para a entrada nas Ilhas Britânicas tem um grande potencial para reduzir o fluxo anual desses imigrantes, que tenderão a buscar outros países “menos complicados” para se trabalhar.

Desde a vitória do Brexit no referendo de 2016, os produtores britânicos já vinham encontrando dificuldades para a contratação de mão de obra estrangeira para os serviços de colheita. Até 2019, os custos de mão obra subiram cerca de 19% – sem conseguir contratar os ‘baratos” estrangeiros, os produtores passaram a contratar cidadãos britânicos, principalmente estudantes e autônomos, o que forçou a um reajuste dos valores pagos. Esse aumento nos custos de produção reduziu a competitivade de muitos produtos agropecuários locais.

Em 2020, com a explosão da pandemia da Covid-19, os problemas que já eram grandes ficaram enormes. De acordo com estimativas governamentais feitas em dezembro de 2020, somente na Região Metropolitana de Londres mais de 700 mil trabalhadores estrangeiros já haviam deixado o país e voltado para seus países de origem. Empregados principalmente no setor de serviços, esses trabalhadores sentiram o impacto da restrição de circulação nas cidades.  

Com restaurantes, hotéis, comércios e prestadores de serviços fechados, muitos desses imigrantes ficaram desempregados e sem perspectivas de encontrar um novo emprego. Diante das incertezas do Brexit e da Covid-19, a maioria optou por voltar para os seus países. Nos campos, a situação não foi muito diferente e houve um verdadeiro “êxodo” de imigrantes europeus. 

De acordo com os produtores rurais, cerca de 98% da mão de obra empregada nos campos britânicos era formada por trabalhadores estrangeiros, vindos principalmente de países do Leste Europeu. Mesmo recebendo baixos salários em troca do seu trabalho, esses imigrantes ainda conseguiam ganhar até 6 vezes mais do que nos seus países de origem.  

Com a pandemia da Covid-19 e, principalmente, por causa das incertezas criadas pelo processo do Brexit, pelo menos 2/3 desses imigrantes temporários que trabalhavam no setor agropecuário do Reino Unido foram embora e ficou a grande dúvida – quem vai realizar os trabalhos no campo nos próximos meses. Essa dúvida fica ainda maior quando se observa a fortíssima segunda onda da epidemia que vem assolando o Reino Unido. Ninguém pode afirmar, com certeza, quando é que as coisas vão voltar ao “normal”.  

Com relação à saída do Reino Unido da União Europeia, existe uma enormidade de problemas e de novas regulamentações ainda a serem resolvidas, que vão desde a aceitação de passaportes de animais de estimação até a cota de pescados, das normas para o trabalho de “estrangeiros” até os impostos sobre produtos e serviços. Todas as relações e interações do Reino Unido com a União Europeia precisarão ser repensadas e refeitas. 

A pandemia da Covid-19 sozinha já causou e ainda vai causar enormes prejuízos econômicos para a imensa maioria dos países do mundo (a China é um dos poucos países que lucrou com essa situação até agora). Os países europeus não são exceção e cada um está enfrentando a sua própria cota de problemas. No caso do Reino Unido, essa cota de problemas foi aumentada pelo Brexit.  

As estimativas oficiais indicam que a economia da Inglaterra, o maior e mais importante país do Reino Unido, sofreu uma retração de 9,9% em 2020, uma das maiores da história do país. E parte considerável dessa perda econômica veio do setor agropecuário. 

O Brasil, que já vinha conversando sobre um possível acordo comercial entre o Reino Unido e o Mercosul, até poderá acabar sendo beneficiado pelos problemas do agronegócio britânico. Porém, ainda é muito cedo para se especular qualquer coisa. 

Em resumo: ninguém sabe com certeza como será o amanhã. Só quem viver, verá! 

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