OS RISCOS DA AGRICULTURA IRRIGADA NA ÁFRICA AUSTRAL

Angola

Nas últimas décadas, nenhum país do mundo obteve melhores resultados econômicos do que a China. Durante anos a fio, o país manteve taxas de crescimento econômico acima de 10% ao ano – recentemente, este fôlego chinês foi um pouco reduzido e tem se mantido em “parcos” 7% ao ano. 

Como aconteceu na Europa nos tempos da Revolução Industrial em fins do século XVIII e depois em outras nações pelo mundo a fora, o desenvolvimento econômico da China tem sido construído a partir de inúmeras agressões ao meio ambiente, com muita poluição nas águas, solos e ares do país. Já citamos aqui no blog alguns desses abusos, como a poluição do rio Yangtzé e o desaparecimento do baiji, uma espécie de boto de água doce. Felizmente, o respeito ao meio ambiente lentamente começa a ganhar adeptos na grande potência emergente. 

O desenvolvimento econômico da China, silenciosa e sistematicamente, avança além das fronteiras do país e se espalha mundo afora. E o continente africano é onde os chineses mais investem. De acordo com informações da publicação Hoje Macau, jornal chinês de Macau publicado em língua portuguesa, somente no primeiro semestre de 2016, os chineses investiram mais de US$ 50 bilhões em países africanos, superando os investimentos de americanos e europeus. Entre os anos 2000 e 2015, a China concedeu US$ 95 bilhões em empréstimos e linhas de crédito para Governos e empresas estatais africanas. Mais de 63% desses empréstimos foram destinados a obras de infraestrutura como ferrovias e rodovias, além de projetos nas áreas de energia e telecomunicações. Países como Angola, Etiópia, Quênia e Sudão lideram a lista dos investimentos

Uma área extremamente sensível, onde investidores chineses têm atuado no continente africano, está ligada a projetos agropecuários. Com terras baratas e farta disponibilidade de mão de obra, as terras africanas se prestam muito bem aos projetos de produção de grãos para o abastecimento do mercado chinês. Conforme comentamos em postagem anterior, a China enfrenta sérias dificuldades com os seus estoques de água doce, que têm sido, prioritariamente, destinados para o abastecimento de cidades e de indústrias. Não sendo possível produzir grãos em seu próprio país, os chineses têm buscado alternativas pelo mundo – o Brasil, inclusive, está no radar dos chineses. Uma região da África onde os chineses têm demonstrado forte interesse para o desenvolvimento de projetos agropecuários é Angola. 

Depois de mais de 37 anos de uma guerra civil devastadora, Angola se esforça para se reerguer e recuperar o tempo perdido. A região das nascentes do Rio Okavango, que foi um foco importante dos conflitos, iniciou em 2002 um intenso trabalho de localização e remoção de minas terrestres, criando condições para o retorno de centenas de milhares de famílias expulsas pelos conflitos armados – órgãos oficiais estimam que a população na região chegará aos 2 milhões de habitantes nos próximos quarenta anos.  

Os frágeis e pouco férteis terrenos de savanas dessa região, não conseguindo responder às expectativas de produção dos agricultores, passaram a ser trocados pelas áreas de florestas, que após a derrubada e as queimadas (a coivara, técnica agrícola usada por populações indígenas, quilombolas e ribeirinhas do Brasil), apresentam resultados um pouco melhores: até 100 kg de painço por hectare – para efeito de comparação, a produtividade média da soja no Brasil é de 2.882 kg por hectare e em algumas regiões da Europa se produz 7.000 kg de trigo na mesma área.

Esse avanço sobre a floresta costuma ser fatal para as nascentes de água, que diminuem a produção e sofrem com o entulhamento das erosões do solo. É justamente nessa região que empresários chineses pretendem implantar grandes projetos de agricultura irrigada, valendo-se das águas do rio Okavango. Os chineses têm muita experiência em agricultura irrigada em terrenos secos e pouco férteis na região Norte da China, onde, à custa de grandes volumes de água, produzem mais de 40% da safra de grãos do país. Esses projetos agrícolas, porém, poderão destruir uma das maravilhas do continente africano: o Delta do rio Okavango.  

A região do Delta do Rio Okavango em Botsuana é considerada um dos últimos refúgios selvagens de toda a África e uma das maiores atrações turísticas da região Austral do continente. A luxuriante vegetação alimentada pelas águas do rio é um verdadeiro paraíso para a vida selvagem, sustentando grandes mamíferos como elefantes, girafas, hipopótamos, búfalos e zebras, que por sua vez atraem os grandes predadores: leões, leopardos, guepardos e mabecos, sendo acompanhadas por toda uma sequência de carniceiros como as hienas e abutres. A ciência ainda não dispõe de estudos completos acerca do Delta do Okavango, mas, até o momento, já identificou 50 espécies de pássaros, 128 de mamíferos e 150 de répteis e anfíbios – o número de espécies de peixes e de insetos ainda é desconhecido. A bacia hidrográfica do Rio Okavango na África Austral, que ocupa áreas de Angola, Namíbia e de Botsuana, é o lar de, pelo menos, um milhão de pessoas.  

A retirada de grandes volumes de água do rio Okavango para uso em sistemas de irrigação poderá comprometer, irremediavelmente, a vida neste paraíso selvagem. 

Nós falaremos disso na próxima postagem. 

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