A VOLTA DE VELHAS DOENÇAS

Descobrimento do Brasil

Dia 22 de abril de 1500.  

Essa é uma data que todos nós aprendemos a valorizar desde os nossos primeiros anos de escola – trata-se do dia do “suposto” descobrimento do Brasil pela esquadra de Pedro Álvares Cabral. Eu usei a palavra “suposto” por que ainda persistem muitas dúvidas sobre a data: para muitos historiadores, outras expedições portuguesas já haviam tocado as costas do Brasil anos antes e, por razões de segurança do pequeno país ibérico, a descoberta foi mantida em sigilo. Cabral veio bem depois apenas para oficializar a posse (vide ilustração). 

Teorias da conspiração à parte, eu comecei a postagem citando essa data para comentar o espanto dos índios naquele dia diante da chegada de homens barbudos, malcheirosos, com roupas estranhas e com os rostos pálidos cobertos por terríveis feridas provocadas pelo escorbuto, uma doença que atacava os antigos marinheiros, com uma taxa de mortalidade entre 50% e 80%. Os amistosos indígenas devem ter sentido uma enorme compaixão por aqueles homens com aspecto de doentes. 

O escorbuto era uma das doenças mais temidas naqueles velhos tempos. Demorou muito até se compreender que a doença era, na realidade, uma carência de vitamina C, provocada pela falta da ingestão de frutas e legumes frescos pelos marinheiros durante as suas longas viagens transoceânicas. A vitamina C só foi descoberta no século XX, mas marinheiros ingleses, ainda no século XVIII, descobriram ao acaso que chupar limões durante as viagens melhorava bastante a resistência do organismo contra o escorbuto e adotaram o hábito. Em muitos lugares do mundo, uma das palavras usadas para designar os ingleses é limey (abreviação de lemon juice ou suco de limão), um resquício do antigo hábito destes marinheiros. O escorbuto parecia uma doença esquecida nas brumas do tempo, porém, um estudo recente de pesquisadores australianos encontrou diversos casos de escorbuto entre pacientes diabéticos e com uma alimentação pobre em frutas e vegetais. 

Se você começar a prestar atenção nos noticiários, vai perceber que uma série de doenças antigas, como o escorbuto, que há muito haviam sido esquecidas por nossa sociedade, parecem estar voltando com força total. Vou começar falando da febre amarela, uma doença que vem causando uma verdadeira paranoia em algumas cidades brasileiras. 

Em diversas postagens anteriores eu falei da febre amarela e da Revolta da Vacina, um movimento popular que surgiu nas ruas da cidade do Rio de Janeiro em novembro de 1904. O médico sanitarista Oswaldo Cruz, que na época era o chefe dos serviços de saúde pública do Governo, conseguiu convencer os parlamentares a aprovar uma lei que tornava obrigatória a vacinação contra a varíola, doença que causava inúmeras vítimas na época. A população da cidade do Rio de Janeiro, que já lutava contra as operações para matar os mosquitos causadores da febre amarela e de caça aos ratos, realizadas pelos agentes de saúde de Oswaldo Cruz, se revoltou de vez e partiu para o confronto nas ruas da cidade. A revolta durou uma semana e terminou com 30 mortos, 110 feridos e centenas de presos. Os serviços de vacinação e de caça aos mosquitos e ratos foi retomado logo depois. A febre amarela, a varíola e várias doenças transmitidas por ratos foram erradicadas da cidade. 

Depois de décadas restrita a regiões de mata, especialmente no Norte e no Centro-Oeste do país, a febre amarela voltou a ameaçar as áreas urbanas, especialmente da região Sudeste. O crecimento descontrolado das cidades e o seu avanço na direção das áreas de mata remanescentes e os problemas de infraestrutura nas cidades, que favorecem a reprodução dos mosquitos, estão no topo na lista de motivos para o renascimento da febre amarela nas áreas urbanas. E tem mais – os mosquitos transmissores da febre amarela, especialmente o Aedes Aegypti, também transmitem doenças como a Dengue, febre Chikungunya, Zika, Sídrome de Guillain-Barré e Mayaro – novas e velhas doenças “atacando em conjunto”. 

Uma outra doença das antigas e que tem aparecido com frequência cada vez maior é o sarampo. A doença, que era considerada erradicada do Brasil, voltou a aparecer no Estado de Roraima, onde o vírus chegou de carona com a imensa quantidade de imigrantes venezuelanos que fogem para nossas terras em busca de melhores condições de vida. As autoridades locais já registraram oito casos da doença, todos em crianças venezuelanas, com uma morte confirmada. Existem 29 casos suspeitos em investigação, sendo 10 brasileiros. 

Você até poderia associar estes casos de sarampo ao verdadeiro caos humanitário que se instalou na Venezuela – errado. Na Europa, em 2017, foram registrados 21,3 mil casos de sarampo, com 35 mortes. Entre os 50 países europeus, 15 registraram casos de sarampo, especialmente na Itália, na Romênia e na Ucrânia. Entre outros países que enfrentaram surtos da doença encontramos a Alemanha, a Bélgica, a França, a Espanha e o Reino Unido. Autoridades de saúde afirmam que uma das razões para essa quantidade de casos de sarampo na Europa se deve ao declínio das campanhas de vacinação contra a doença no continente. 

A falta de vacinação e/ou de doses de reforço também podem estar relacionadas aos surtos de caxumba, rubéola, catapora e outras doenças que eram bastante comuns em décadas passadas e que têm ressurgido nas grandes cidades brasileiras. Notícias falsas que circulam na internet (as famosas fake news), onde supostos especialistas falam da total ineficácia das vacinas, tem estimulado país e adultos a se “revoltarem” contra a aplicação das vacinas. Um dos resultados desta falta de cobertura vacinal pode ser o retorno dessas doenças de tempos antigos e sobre as quais não ouvíamos falar a muito tempo. 

Agora, uma doença preocupante: a Febre de Lassa. A doença, também conhecida como febre hemorrágica viral, está se espalhando pelo Leste da África e, desde o início deste ano, já matou 110 pessoas, especialmente na Nigéria, em Gana e em Serra Leoa. A febre de Lassa é transmitida pelo rato comum africano e, normalmente, tem uma taxa de mortalidade de 1% – nesta epidemia, porém, tem se observado uma mortalidade de 20%. Não existe nenhuma vacina contra a doença. A grande preocupação com a doença é a sua velocidade de disseminação – os ratos se escondem em cargas de produtos em caminhões e navios, se deslocando a grandes distâncias, algo que faz lembra da Peste Negra, uma doença causada pela bactéria Yersinia pestis. Essa bactéria era transmitida aos seres humanos pelas pulgas dos ratos pretos e a doença, também conhecida como peste bubônica, matou metade da população da Europa no século XIV. 

Um detalhe preocupante: autoridades de saúde dos condados de Navajo e Cocconino, no Estado americano do Arizona, detectaram bactérias Yersinia pestis em pulgas comuns, o que pode levar à contaminação de seres humanos. Já existe tratamento para a doença, mas não dá para facilitar.

 

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