RIO DE GOIÁS É CONTAMINADO ACIDENTALMENTE COM 10 MIL LITROS DE SANGUE BOVINO

Rio Vermelho

A curiosa história resumida no título desta postagem ocorreu no último dia 23 de fevereiro, quando um caminhão tanque que transportava um volume de 10 mil litros de sangue bovino tombou às margens do rio Vermelho, no trecho urbano da cidade de Goiás Velho. Com o impacto, o tanque do veículo se rompeu, liberando completamente a carga, que escorreu na direção do corpo d’água. O rio Vermelho, que corta toda a região central da cidade, fez jus ao próprio nome e ficou com as águas com tons de vermelho e com muita espuma branca (vide foto). O motorista do veículo sofreu ferimentos graves, sendo socorrido pela unidade local do Corpo de Bombeiros e encaminhado para o hospital municipal.

Apesar do bizarro acidente, os resíduos de sangue se diluíram rapidamente nas volumosas águas do rio. Os grupos de bactérias presentes nas águas dos rios têm alta capacidade para metabolizar e neutralizar este tipo de resíduo, que é de origem orgânica e não deixa nenhum traço nas águas. Antiga capital do Estado de Goiás, a cidade de Goiás Velho é uma das mais antigas e pitorescas dos sertões do Brasil Central, que tem no turismo uma das suas principais atividades econômicas. Este acidente não causou nenhum dano significativo ao patrimônio natural da cidade, que ganhou mais uma interessante história, ou “causo”, para o seu já vasto folclore local.

Apesar da carga envolvida no acidente parecer estranha para você, o reaproveitamento do sangue de animais abatidos em frigoríficos de médio e grande porte é bastante comum. Rico em proteínas e nutrientes essenciais, esse sangue é encaminhado para empresas processadoras de ração animal, especialmente aquelas que você costuma comprar para os seus pets. O sangue animal passa por um processo de separação, onde toda a água é eliminada. A seguir, a hemoglobina e as proteínas passam por um processo de secagem, sendo transformadas em um pó, que será misturada na massa de rações, biscoitos e outros petiscos que os animaizinhos adoram. Em diversas culinárias pelo mundo afora, se encontram diversos produtos alimentícios onde o sangue de animais abatidos é utilizado como ingrediente – exemplos são as linguiças de sangue, os chouriços e os “molhos pardos”.  Pessoalmente, e com a devida vênia a quem gosta destas iguarias, esse tipo de alimento não me apetece nenhum pouco…

Deixando de lado esse curioso acidente em Goiás, o lançamento de sangue, vísceras e restos de gordura oriundos de animais abatidos em pequenos “matadouros” pelo país afora é um grave problema ambiental e uma fonte importante de contaminação de pequenos cursos d’água. Em cidades pequenas, distantes dos grandes centros industriais, é comum a existência de “matadouros” ou abatedouros de animais que operam sem as mínimas condições de higiene. Nestes lugares também não existem estruturas adequadas para a coleta e o tratamento sanitário do sangue, das vísceras e de outros resíduos orgânicos – os efluentes líquidos precisariam ser encaminhados para uma ETE – Estação de Tratamento de Esgotos e todos os resíduos – restos de carne, gorduras, cartilagens e ossos, deveriam ser encaminhados para um aterro sanitário controlado.

Esses procedimentos, que deveriam ser obrigatórios em abatedouros de todo o pais, são fundamentais para garantir a higiene e a qualidade da carne, além de evitar a contaminação das águas e a proliferação de vetores (animais que são atraídos pelos restos de carne e de gordura descartados). Infelizmente, muitas destas unidades irregulares são geridas pela própria municipalidade, o que só demonstra a precariedade dos serviços de saneamento ambiental em nosso país. Vou citar um exemplo dos problemas ambientais criados por estes abatedouros irregulares de animais, com o qual me deparei no ano passado:

Em Santa Cruz do Capibaribe, município com uma população de pouco mais de 100 mil habitantes e localizado a aproximadamente 190 km da cidade do Recife, havia um problema crítico de poluição nas águas do rio: em um trecho do Capibaribe, as águas, repentinamente, ficavam com a cor vermelha, assustando a população. O rio é o maior e principal manancial de abastecimento perene da região, onde existem muitos rios temporários (que secam completamente nos períodos de estiagem). Esta região do Agreste pernambucano há muito tempo foi transformada em um importante polo de indústrias do segmento têxtil e suspeitou-se, a princípio, que a origem do problema poderia estar ligada ao lançamento de efluentes por alguma das muitas tinturarias instaladas no município. Investigações posteriores demonstraram que o responsável pela contaminação das águas era o matadouro municipal da cidade, instalado nas margens do rio, que ali despejava seus efluentes contaminados com o sangue dos animais abatidos, sem qualquer tipo de tratamento.

Após uma série de reportagens feitas em 2010, transmitidas inclusive por uma TV em cadeia nacional, a Prefeitura local informou que estava tomando providencias para mudar o matadouro para uma outra instalação com “melhor” infraestrutura. Pouco tempo depois, as águas do Capibaribe deixaram de ficar vermelhas e, aparentemente, o problema parecia ter sido resolvido.

Meses após estes acontecimentos, repórteres de um site da região receberam denúncias anônimas que falavam de um novo lançamento de resíduos de matadouros em um outro ponto. Seguindo as informações recebidas, os repórteres flagraram crianças conduzindo carroças com tambores cheios de sangue e de resíduos de carne de animais abatidos no “novo” matadouro da Prefeitura da Santa Cruz do Capibaribe. Os resíduos agora estavam sendo despejados em uma cacimba (tipo de poço usado pelos sertanejos) no município vizinho – Brejo da Madre de Deus. Além de continuarem a cometer os mesmos crimes ambientais de antes, os responsáveis pelo matadouro incluíram a exploração de mão de obra infantil em sua longa “ficha corrida”. Longe de ser um caso isolado, os matadouros de cidades pequenas, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, operam frequentemente em condições precárias de higiene e sem nenhum cuidado com o saneamento ambiental.

São verdadeiros casos de polícia, que pedem a impiedosa ação da Justiça e das autoridades sanitárias e ambientais dos municípios. Além de destruírem ou comprometerem a qualidade de importantes fontes de água, esse tipo de procedimento coloca a saúde e a vida de populações em risco com a venda de carnes de qualidade altamente suspeita.

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