A MISTERIOSA MANCHA NEGRA NAS PRAIAS DO GUARUJÁ, OU O JOGO DO EMPURRA-EMPURRA

Mancha de poluição na Praia de Pitangueiras

Um “fenômeno” bastante conhecido voltou a preocupar os moradores e turistas que frequentam a Praia de Pitangueiras, em Guarujá, munícipio insular do litoral do Estado de São Paulo – uma grande mancha escura, provavelmente criada pelo lançamento irregular de esgotos nas redes de águas pluviais, tomou conta de uma faixa da areia e das águas da praia. Notícias publicadas pela imprensa em 1997 já falavam desta estranha mancha que surge sempre nos verões, período em que a cidade costuma ficar lotada de turistas.

Como sempre ocorre ano após ano, começou o conhecido empurra-empurra entre as autoridades para se saber quem é o “responsável” pela mancha e também sobre quais as providências que estão sendo tomadas para se resolver o problema. Técnicos da Secretaria de Meio Ambiente do município já divulgaram nota afirmando que “a mancha não foi causada por nenhum vazamento de óleo e que, possivelmente, é proveniente de um grande vazamento de esgotos.” A SABESP – Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, concessionária dos serviços de abastecimento de água e esgotos no município, nega qualquer ligação com o problema e, em nota, informa que a “ocorrência apontada tem origem no sistema municipal de drenagem urbana, do qual o referido canal faz parte, e cuja manutenção não é responsabilidade da empresa.” Enquanto as “autoridades” não assumem a responsabilidade pelo problema, milhares de banhistas que frequentam as praias da cidade ficam preocupados, e com muita razão, com os possíveis riscos para a sua saúde.

Essa preocupação das pessoas tem fundamento – vou citar dois exemplos: em janeiro de 2010, os turistas e moradores do Guarujá enfrentaram um surto de virose com origem desconhecida, onde mais de 1.700 pessoas foram atendidas nos hospitais e postos de saúde da cidade em apenas um mês. No mesmo período em 2011, um novo surto virótico surgiu na cidade – 1.000 pessoas chegaram a ser atendidas em unidades médicas do Guarujá em um único domingo. Em ambos os casos, os doentes apresentavam fadiga e dores pelo corpo, febre e forte diarreia. As autoridades locais informaram que pesquisas foram feitas para que se determinasse a origem do problema, mas “a resposta não foi encontrada”. A suspeita mais forte era a contaminação das águas do mar por despejos irregulares de esgotos.

A história do Guarujá é bastante peculiar e merece uma rápida apresentação para que todos entendam este problema: os primeiros europeus desembarcaram em terras do Guarujá ainda em 1502, logo após o Descobrimento, e não gostaram do que encontraram – grandes extensões de terrenos ocupados por pântanos e manguezais, além de morros com encostas muito íngremes. Com o início da colonização do litoral paulista a partir de 1532, áreas de Santos e de São Vicente, com relevo e solos mais adequados, foram escolhidas para a formação das primeiras vilas – a Ilha de Santo Amaro (onde fica o município do Guarujá) ficou esquecida, sendo habitada apenas por alguns pescadores e por militares das fortificações de defesa do litoral que foram construídas na ilha. Foi somente no final do século XIX, quando o chamado Ciclo do Café criou uma poderosa elite econômica em São Paulo, que o Guarujá foi redescoberto – um grupo de empresários resolveu implantar um luxuoso complexo hoteleiro na ilha, que anos mais tarde passou a contar com um cassino (lembrando que os cassinos só seriam proibidos no Brasil em 1946), que tinha como público alvo exclusivo os “Barões do Café” paulistanos e suas famílias. As ferrovias construídas para o transporte do café até o Porto de Santos permitiam o uso de vagões de passageiros altamente luxuosos e confortáveis para o transporte destes milionários até a região da Baixada Santista; a navegação pelo Canal de Santos era feita por barcaças sofisticadas e a travessia da Ilha de Santo Amaro desde a margem do Canal até a Praia de Pitangueiras era feita por uma linha de bondes, privativa dos hóspedes do hotel. Durante décadas a fio, o Guarujá – conhecido pela alcunha a “Pérola do Atlântico”, foi território exclusivo das elites paulistanas: pobre não entrava na ilha. Você poderá ver algumas imagens bucólicas deste antigo e exclusivo Guarujá assistindo o filme “É proibido beijar” de 1954, onde duas estrelas do cinema brasileiro da época – Tonia Carreiro e Mário Sérgio, participam de uma gincana automobilística pelas praias e avenidas semi desertas da ilha.

No final da década de 1970, após a construção da Rodovia Piaçaguera Guarujá e de uma ponte de ligação entre o continente e a Ilha de Santo Amaro, o acesso foi imensamente facilitado e centenas de milhares de turistas das classes econômicas menos favorecidas, que nós paulistanos de classe média chamávamos maldosamente de “farofeiros”, passaram a invadir a Ilha de Santo Amaro nos verões e feriados. A partir desta súbita popularização, a especulação imobiliária fez a cidade crescer exponencialmente e milhares de casas e apartamentos foram construídos em um curtíssimo espaço de tempo, sendo que grande parte destes imóveis tinham estes “populares” com público alvo (lembrando que este fenômeno também ocorreu em outros municípios da Baixada Santista como Praia Grande, Mongaguá e Itanhaém). Esta súbita expansão da mancha urbana do Guarujá ocorreu sem maiores preocupações com o planejamento urbanístico e com a infraestrutura geral da cidade, especialmente no que diz respeito à construção de redes coletoras de esgotos – as redes de águas pluviais e os canais de drenagem passaram a funcionar como redes coletoras de esgotos, lançando milhares de metros cúbicos de efluentes diretamente nas praias. Foram tempos em que os verões e os feriados eram sinônimo de caos em Guarujá – faltava água, energia elétrica, pão e gasolina na ilha; em compensação, sobravam lixo e esgotos nas praias. Os moradores mais endinheirados rapidamente abandonaram o Guarujá e passaram a buscar refúgio nas cidades do litoral Norte do Estado de São Paulo como São Sebastião e Ubatuba. Foi somente em meados da década de 1990, após sucessivos investimentos dos Governos do Estado e do Município em redes coletoras de esgotos e estações de tratamento, em sistemas de armazenamento e distribuição de água potável, novas redes de fornecimento de energia elétrica e melhoramentos na malha viária, que os problemas de infraestrutura em Guarujá começaram a ser resolvidos e a cidade começou a recuperar parte do brilho que teve no passado. Como uma consequência direta destes investimentos, a qualidade ambiental média nas águas das praias voltou a apresentar bons índices de balneabilidade.

Infelizmente, conforme já mencionei em postagem anterior, a construção de redes coletoras de esgotos tardias em cidades nunca consegue universalizar de uma só vez o acesso de todos os imóveis ao serviço – sempre ficam alguns “gatos” escondidos (o que, na minha opinião, é a origem da misteriosa mancha negra da Praia de Pitangueiras). Esses gatos, que são as ligações que fazem o despejo dos esgotos de forma irregular em canais e galerias de água pluviais, são bem difíceis de se localizar e são exigidos gastos de altas somas de recursos nestes trabalhos: ninguém quer assumir a “paternidade” do problema. E, como sempre acontece, é a população local e os turistas que pagam o pato (ou o gato), ficando expostos aos riscos de contaminação e às doenças de veiculação hídrica.

E assim, a “misteriosa” mancha negra vai continuar aterrorizando os verões em Guarujá por muitos e muitos anos…

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