EM SALVADOR, 13 PRAIAS FORAM CONSIDERADAS IMPRÓPRIAS PARA BANHO NESTE INÍCIO DE ANO

Farol da Barra Salvador

A cidade de Salvador, capital do Estado da Bahia, foi fundada oficialmente em 29 de março de 1549 com o objetivo de sediar a capital do Governo Geral do Brasil Colonial. A escolha do local foi estratégica, considerando a sua localização no coração da zona de produção açucareira e as suas águas abrigadas no interior da Baía de Todos os Santos, quesito fundamental numa época em que os transportes dependiam dos grandes navios à vela. A beleza natural da região foi uma espécie de “brinde” para os primeiros colonizadores. Durante 214 anos, a cidade de Salvador manteve o posto de capital da Colônia; em 1763, a combinação da crise açucareira com as descobertas de ouro na região das Minas Geraes levou as autoridades a decidirem pela transferência da capital para a cidade do Rio de Janeiro, cuja localização geográfica facilitava a logística de transporte e embarque do ouro para Portugal.

Largada à própria sorte, a cidade de Salvador foi se reinventando e criando uma identidade cultural e econômica própria ao longo do tempo. Atualmente, a capital baiana é a segunda cidade mais importante da Região Nordeste, com uma população próxima dos 3 milhões de habitantes – nos meses do verão e no Carnaval, Salvador recebe mais de 2 milhões de turistas, atraídos pela culinária única, pelos monumentos históricos, pelas festas, pela alegria dos baianos e, principalmente, pela beleza das praias da cidade. Infelizmente, a poluição das praias é um problema bem antigo e sistematicamente minimizado pelas autoridades Soteropolitanas, e que frequentemente causa problemas à saúde da população local e de muitos dos visitantes.

Na última sexta-feira, dia 5 de janeiro, o INEMA – Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, divulgou uma lista com 13 praias da orla de Salvador consideradas impróprias para o banho de mar. Esta lista inclui as praias de Periperi, Penha, Bonfim, Roma, Marina Contorno, Santa Maria, Ondina, Pituba, Armação, Boca do Rio, Patamares e Itapuã. Em Jaguaribe há uma recomendação para que a população evite o contato com as águas – houve o rompimento de uma rede coletora e os esgotos da região estão sendo despejados diretamente na praia. As autoridades informam que o conserto deverá ficar pronto no próximo dia 10.

Segundo as recomendações do CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente, uma praia é considerada imprópria para banhos quando mais de 20% das amostras de água, coletadas ao longo de cinco semanas consecutivas, apresentarem índices superiores a 1.000 coliformes fecais ou 800 bactérias Escherichia coli para cada 100 mililitros de água. As praias apontadas como impróprias pelo INEMA em Salvador se enquadraram nestas condições.

De acordo com dados oficiais, 80% das construções de Salvador (casas, edifícios comerciais e de apartamentos, lojas, fábricas etc) estão conectadas às redes coletoras de esgotos instaladas na cidade – o restante das construções despeja seus esgotos diretamente nas ruas, em córregos e rios, galerias de águas pluviais ou em fossas sépticas. Um exemplo do despejo irregular de esgotos sanitários pode ser visto no rio Camarajipe o maior de Salvador, considerado pelas autoridades como o maior escoadouro de esgotos sanitários da cidade.

Entre os anos de 1998 e 2005, a cidade de Salvador levou a cabo um ambicioso plano de ampliação das redes coletoras de esgotos, construção de estações de tratamento e de emissários submarinos. Conhecido como Programa Baía Azul, o projeto garantiu grandes avanços para o saneamento ambiental de Salvador, até então bastante precário. Porém, como sempre acontece nestes grandes projetos, a universalização dos serviços de coleta de esgotos não foi alcançada e, pelos menos, 400 mil moradores da cidade continuaram sem acesso aos serviços, de acordo com cálculos da própria EMBASA – Empresa Baiana de Águas e Saneamento, responsável pela implantação do Programa. Apesar de representar um valor percentual relativamente baixo (se comparado à média de cobertura dos sistemas de esgotos das cidades brasileiras), esses imóveis que ficaram “fora” das áreas de cobertura das redes coletoras costumam estar localizados em regiões de difícil acesso ou em áreas irregulares, onde se incluem terrenos invadidos e ocupados irregularmente por comunidades (nome politicamente correto para as grandes favelas e cortiços), áreas de preservação ambiental (onde não é permitida a realização de obras), além de morros e baixadas – são locais e regiões que exigirão grandes esforços dos poderes públicos para a solução dos problemas de saneamento básico e com prazos a “perder de vista” para a finalização.

Além das dificuldades de universalização do acesso às redes coletoras de esgotos, quem lida na área de saneamento básico sabe que um dos maiores problemas que ocorrem após a implantação dos sistemas de esgotos numa cidade ou bairro é o convencimento dos moradores para a necessidade da conexão dos esgotos de suas residências na rede pública. A população costuma resistir à ideia por um motivo bastante simples – o valor da conta de água vai aumentar, pois além de pagar pelo abastecimento de água potável, o morador passará a pagar pela coleta, afastamento e tratamento dos esgotos sanitários: em muitos casos, a conta simplesmente vai dobrar de preço. Mas existe um outro problema que costuma passar despercebido nos índices oficias: as empresas de saneamento básico não poupam esforços para conseguir a assinatura dos moradores no formulário conhecido como Pedido de Ligação do Esgoto Sanitário (é esse documento, cujo nome varia de cidade para cidade, que vai autorizar a empresa de saneamento básico a iniciar a cobrança em conta pelos serviços de coleta, afastamento e tratamento dos esgotos); porém, essas empresas não costumam realizar esforços semelhantes para fiscalizar se as ligações das redes de esgotos foram efetivamente realizadas – o resultado é que muitos imóveis começam a pagar as taxas, mas continuam a despejar seus esgotos em redes de águas pluviais e em corpos d’água por toda a cidade. Um exemplo “clássico” deste descompasso pode ser encontrado na cidade de Curitiba, chamada por muitos de “a capital mais ecológica do Brasil” – os dados oficiais indicam que praticamente 100% dos imóveis de Curitiba estão ligados na rede coletora de esgotos da cidade; porém, curiosamente, o famoso rio Iguaçu, que nasce nesta cidade, é considerado o segundo rio mais poluído do Brasil – isto é um sinal claro que muita gente continua lançando esgotos irregularmente nos rios, córregos e nas redes de águas pluviais de Curitiba.

Enquanto ainda persistirem estes lançamentos irregulares e difusos de esgotos por toda a cidade de Salvador, moradores e turistas vão continuar expostos ao lixo e aos esgotos que chegam em grandes quantidades nas praias da Baia de Todos os Santos.

Que todos os santos da Bahia os protejam!

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