AS TEMPESTADES QUE ASSOLAM MINAS GERAIS

Chuvas em Belo Horizonte

Depois de tantas postagens sobre os problemas criados pela forte estiagem em diversos Estados, começamos a receber notícias que falam das fortes tempestades que vem assolando várias regiões de Minas Gerais. Em um país de dimensões continentais como o nosso, encontramos algumas regiões onde não cai uma única gota de chuva há vários meses e, em outras, é o excesso de água das chuvas quem está causando aflição na população.

Na capital do Estado, Belo Horizonte, o volume de chuvas nestes primeiros dias do mês de dezembro equivale praticamente a previsão para todo o mês – na região Oeste da capital, choveu o equivalente a 292 mm nos primeiros 4 dias do mês, o que corresponde a 91% da previsão para o mês de dezembro; já na região Noroeste da cidade, o volume de chuvas registrado no mesmo período atingiu a marca de 80% do previsto para o mês. A média de chuvas histórica em Belo Horizonte para o mês de dezembro é de 319,4 mm. A forte intensidade das chuvas num período tão curto de tempo colocou a cidade inteira em estado de alerta – a Defesa Civil Municipal registrou, até o dia 5 de dezembro, um total de 319 ocorrências relativas a alagamentos, deslizamentos de encostas, erosão, desabamentos de muros e quedas de árvores.

A chegada das chuvas de Verão volta a expor um antigo problema das cidades brasileiras – a falta de uma infraestrutura adequada para dar vazão aos intensos volumes de chuvas: estou falando, é claro, da famosa Rede de Drenagem de Águas Pluviais, sistema que muita gente, inclusive autoridades dos Governos, costuma confundir com as Redes Coletoras de Esgotos. Na capital mineira existem, pelo menos, 700 km de rios e córregos que formam a rede de drenagem natural da cidade – essa rede é o resultado de todo um processo de erosão natural desenvolvido ao longo de milhões de anos e que deu à região onde encontramos a cidade de Belo Horizonte as suas feições de relevo. Durante muitos milhares de anos, essa região esteve coberta por matas e outros sistemas vegetais, que absorviam boa parte da água das chuvas e que também controlavam a velocidade que a água chegava até os corpos d’água – os rios e córregos da região acabaram sendo moldados para receber as águas das chuvas dentro destas condições. Quando construímos as nossa cidades, gradativamente passamos a cortar a vegetação nativa e em seu lugar construímos casas, prédios, ruas e avenidas pavimentadas, que alteram completamente a absorção de água pelo solo e também a velocidade das enxurradas; também canalizamos córregos e urbanizamos as margens dos rios para liberamos áreas para a construção de ruas e avenidas.

Completando o quadro da tragédia anunciada, transformamos os corpos d’água da cidade em pontos de descarte de lixo e entulhos – quando as chuvas de Verão chegam, falta espaço nos canais da rede de drenagem para o volume total das águas das chuvas – é exatamente este o problema que testemunhamos em Belo Horizonte nos últimos dias e que, com toda a certeza, vamos assistir nas grandes cidades brasileiras nos próximos meses: enchentes, desmoronamentos de casas, deslizamentos de morros, desabrigados e, infelizmente, muita gente morrendo afogada ou soterrada. No Estado de Minas Gerais, duas pessoas já morreram neste início de mês por causa das chuvas. De acordo informações da Defesa Civil Estadual, até o dia 5 de dezembro 80 pessoas estavam desalojadas, 12 desabrigadas; 4 casas foram destruídas e 181 foram danificadas pelas chuvas. As informações também citam danos em uma 1 hospital e em 4 escolas municipais.

As relações conflituosas entre as atividades humanas e as chuvas não se limitam apenas às áreas urbanas. Na agricultura, a remoção de grandes extensões de cobertura vegetal para a formação das culturas resulta em alterações nos volumes de absorção de água pelo solo e formação de grandes correntes de água: sem a proteção da vegetação que reduz a velocidade da correnteza, grandes volumes de solo agricultável são arrastados para os leitos dos rios, deixando um rastro de erosões e voçorocas pelo caminho. O assoreamento dos rios reduzirá cada vez mais a capacidade da sua calha em receber futuros excedentes de águas de chuva – a água avançará cada vez mais na direção das bordas das margens e produzirá cada vez maiores assoreamentos neste rio. Cria-se uma continuidade de problemas que crescem cada vez mais.

Nas cidades, é o crescimento desenfreado das construções em áreas cada vez mais problemáticas o que está interferindo cada vez mais na dinâmica das chuvas:

1. A ocupação cada vez maior de encostas de morros urbanos leva a remoção da cobertura vegetal e ao corte do solo para a construção de habitações. Os terrenos nestas regiões normalmente são mais baratos, o que tem empurrado as camadas mais pobres à sua ocupação (ou invasão). Períodos de chuva mais intensos saturam o solo com água, o que pode provocar sérios desmoronamentos, com alto risco para os moradores;

2. A impermeabilização do solo resultante da aplicação de imensas faixas de asfalto nas ruas, concretagem de calçadas e quintais, reduz drasticamente a absorção de água pelo solo e provoca a formação de fortes enxurradas, com enorme potencial de inundações;

3. Construções ocupam grandes extensões de solo e concentram nos seus telhados grandes volumes de água que descem velozmente por sistemas de calhas e se somam as volumosas enxurradas do solo;

4. Áreas de várzea, que originalmente absorviam os excedentes de águas nos períodos de chuva, foram aterradas para permitir o aumento da área disponível para as construções;

5. Margens de rios e córregos foram retificadas e urbanizadas, diminuindo a área de recepção das águas excedentes e, em muitos casos, diminuindo a velocidade da correnteza do curso d’água, e aumentando assim o tempo de drenagem das águas da chuva;

6. Restaram nas áreas urbanas poucas áreas verdes e remanescentes florestais com grande capacidade de absorção de água nos seus solos e pela vegetação.

As consequências dessa somatória de interferências humanas no meio ambiente urbano são enchentes cada vez maiores e mais frequentes nas cidades, deslizamentos de encostas de morros, prejuízos econômicos enormes e, tristemente, danos algumas vezes irreparáveis na saúde de populações inteiras, inclusive com situações de invalidez permanente ou morte dos mais desafortunados.

O que estamos assistindo nestes últimos dias em Belo Horizonte e em outras cidades do Estado de Minas Gerais é uma pequena demonstração do que vamos assistir ao longo deste novo período de chuvas que está apenas começando em parte do país. Muito melhor que sair culpando a natureza pela violência das chuvas, precisamos mesmo é refletir sobre nossas ações e as suas consequências no meio natural.

Lembrando mais uma vez do imortal dramaturgo e poeta alemão Bertold Brecht (1898-1956):

“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento.
Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”.

E como comprimimos e oprimimos as margens de tantos rios neste nosso país..

OS CANAVIAIS DE CASTELO, OU A QUEBRA NA PRODUÇÃO DE CACHAÇA NO PIAUÍ

Serra do Apiapaba

Na divisa entre os Estados do Ceará e do Piauí encontramos a Serra da Ibiapaba (vide foto) também chamada de Serra Grande, Chapada de Ibiapaba e Cuesta da Ibiapaba. A imensa massa rochosa domina o relevo de Norte a Sul, com altitudes médias de 750 metros. Na face nordeste da Serra, que fica voltada para a Depressão Cearense, o relevo é bastante íngreme, apresentando uma vegetação densa, considerada como um fragmento da Mata Atlântica. A região é uma zona de transição, apresentando micro biomas com características de Cerrado, Mata dos Cocais, Caatinga e também Floresta Amazônica. A fauna desta face da Serra é extremamente rica, apresentando uma variada diversidade de aves e mamíferos, incluindo onças-pardas, veados-campeiros e pacas. O ambiente físico é diferenciado também pelos altos índices pluviométricos, superiores a 2 mil mm/ano, os mais intensos do território cearense.

A face Oeste da Serra da Ibiapaba, que fica voltada para o Piauí, possui um declive suave e gradual, apresentando terras férteis e grande fartura de fontes e quedas de água. Uma cultura que se adaptou bem ao lado piauiense da Serra foi a cana-de-açúcar, o que levou ao desenvolvimento de polos de produção de açúcar, rapadura, mel de engenho e, principalmente, de cachaças artesanais de muito sucesso em toda a região. Uma das cidades com maior reputação na produção destas famosas cachaças é Castelo do Piauí.

Localizada a pouco mais de 180 km de Teresina, a cidade de Castelo possui uma população de pouco mais de 18 mil habitantes e muito poucos atrativos na zona urbana – porém quando se fala em cachaça, a cidade é uma referência regional de qualidade. A cidade possui diversas fábricas dedicadas à destilação da cachaça, sendo uma delas considerada uma das maiores do mundo neste ramo, com 80 alambiques de cobre para uso exclusivo na produção da bebida. A produção da cachaça é uma das atividades econômicas mais importantes para a economia local.

Pois bem – assim como aconteceu com a cultura do caju, com a criação de animais e a com produção de mel, atividades que apresentaram fortes quebras na produção devido à fortíssima estiagem que vem assolando toda a região do Semiárido desde 2011, as destilarias de Castelo do Piauí também estão apresentando fortes quebras na sua produção. Com a falta de chuvas, as fontes de água da Serra do Ibiapaba começaram a secar, afetando como nunca a produção dos canaviais – calcula-se que a quebra da safra de cana chegou aos 60%. Sem grandes volumes de cana para moer, a produção de cachaça despencou. Uma das fábricas da cidade, que já chegou a produzir 1 milhão de litros de cachaça em anos anteriores, este ano deve chegar a uma produção máxima de 600 mil litros. Se você, caro leitor, não gosta de cachaça assim como eu, provavelmente não sentirá os efeitos dessa redução na produção – entretanto, para alguns milhares de fãs das cachaças artesanais em todo o Nordeste, em especial no Piauí e no Ceará, isso é uma verdadeira tragédia!

Em 2016, por conta dos problemas criados pela seca em toda a região, a Prefeitura de Castelo do Piauí foi obrigada a cancelar a festa do Carnaval na cidade. Em outras regiões do Nordeste, especialmente em cidades das regiões do litoral, uma notícia destas provocaria uma verdadeira revolta popular. Em Castelo, a população aceitou o cancelamento com relativa naturalidade – a festa mais importante da cidade é a Cachaça Fest, que em 2017 será realizada nos últimos dias do mês de julho. Esta FESTA (em letras maiúsculas mesmo) costuma atrair um público diário de 40 mil pessoas, o que representa mais que o dobro da população da cidade, público que vem apreciar as famosas “cachaças artesanais descansadas em toneis de garapeira”, experimentar as comidas e os quitutes típicos da Serra da Ibiapaba e se divertir muito ao som de inúmeros grupos musicais de toda a região. A Cachaça Fest é o verdadeiro carnaval da cidade. Com as notícias da quebra da produção das industrias locais, há um temor generalizado pela não realização desta FESTA, não por falta de público, mas por falta de cachaça.

A Serra da Ibiapaba é uma região disputada – e olhem que não estou me referindo apenas aos turistas e “cachaceiros” de plantão. Os Estados do Piauí e do Ceará disputam o controle da região, literalmente, há séculos.

Com aproximadamente 3 mil km², o que corresponde a quase três vezes o tamanho do município de São Paulo, a Serra do Ibiapaba está envolvida em uma disputa fronteiriça desde os tempos do Império. Um decreto assinado pelo Imperador Dom Pedro I, que tentava arbitrar uma solução para a antiga disputa, transferiu uma área na região do litoral do Ceará para o Piauí – em contrapartida, o Ceará recebeu do Piauí uma área equivalente na região do Semiárido. Porém, a questão não foi completamente resolvida – os dois Estados tem interesse mesmo é nas terras férteis e de clima ameno da Serra da Ibiapaba. Quase que totalmente cercada por regiões secas e de clima Semiárido, a Serra da Ibiapaba é uma verdadeira ilha verdejante: a questão agora está nas mãos do STF – Supremo Tribunal Federal e serão necessários muitos anos e muitas negociações para que os dois Estados consigam chegar a um acordo.

O relevo da Serra do Ibiapaba é do tipo Cuesta, uma formação que normalmente ocorre nos limites de bacias sedimentares. Cuesta é a definição geomorfológica usada para se nomear uma elevação ou serra com um cume assimétrico e com inclinação longa e suave. Com altitudes médias de 700 metros, esta Serra intercepta as massas de ar carregadas de umidade que vem do litoral. A umidade é direcionada para o alto dos morros, onde ocorre a condensação do vapor e a formação das chamadas chuvas orográficas ou chuvas de relevo. Conforme já comentamos, os índices de pluviosidade da Serra da Ibiapaba são bastante altos para uma região no meio do Semiárido e são as águas destas chuvas que alimentam os aquíferos, garantindo, em épocas normais, uma grande disponibilidade de fontes de água, elemento essencial para a produção agrícola em todas as terras de entorno da Serra. Com o agravamento da estiagem iniciada ainda em 2011, as massas de ar úmido vindas do litoral foram se tornando cada vez mais raras – sem as chuvas no alto da Serra, os aquíferos foram secando gradativamente e, sem as preciosas fontes de água do Ibiapaba, todas as culturas ficaram comprometidas – flores, frutas e, em especial, as lavouras de cana-de-açúcar de Castelo do Piauí. Por fim, é a produção de cachaça que fica abalada pela falta de matéria-prima.

Como eu venho comentando em minhas últimas publicações, a seca, além do drama que produz na vida de pessoas, animais e plantas pela falta de água – o elemento mais fundamental para a vida, compromete e desorganiza toda a economia da região do Semiárido, criando problemas que durarão muito mais tempo do que a falta de água.

ATÉ AS ABELHAS, QUEM DIRIA, ESTÃO SOFRENDO COM A SECA

Abelhas

Em minha última postagem, tratei do sério problema da redução dos rebanhos animais em todo o Nordeste em consequência da forte estiagem que assola a região desde 2011. Essa redução é mais visível nos rebanhos bovinos, mas ela está afetando outras criações como cabras, ovelhas, porcos, cavalos e aves. Sem pastagens ou culturas que possam ser transformadas em ração para os animais e, especialmente, a presença de água fresca para a dessedentação, milhares de animais morreram nas áreas rurais; produtores que conseguiram salvar seus rebanhos, venderam os animais pelos melhores preços possíveis e não renovaram os rebanhos por falta de condições para a sobrevivência e a engorda dos animais.

Além destes grupos de animais domésticos mais vistosos, existem algumas espécies mais difíceis de se visualizar, que também têm enfrentado imensas dificuldades para sobreviver em meio ao ambiente extremamente seco do Semiárido – estou falando das abelhas melíferas, incansáveis trabalhadoras e produtoras do valioso mel. A intensa seca transformou grandes áreas da Caatinga em um emaranhado de galhos secos e sem flores, privando as abelhas da coleta do precioso pólen, matéria-prima da produção do mel. Outro problema causado pela estiagem é a falta de sombreamento das colmeias, que expostas ao calor intenso acabaram transformadas em pequenos fornos, o que matou ou expulsou grande parte dos enxames.

A produção de mel em regiões do Semiárido nordestino é uma atividade relativamente recente, que ganhou um grande impulso a partir do ano 2000, tendo se consolidado como uma importante fonte de renda adicional para pequenos produtores rurais. As características únicas da flora selvagem nordestina garantem a produção de um mel de excelente qualidade, com mercado garantido em todo o mundo. Diferente de outras regiões produtoras, as áreas do Semiárido estão livres dos poluentes gerados pelos pesticidas largamente utilizados na agricultura moderna, o que possibilita a produção de um mel livre de resíduos de agrotóxicos; a região também apresenta baixíssimos níveis de resíduos de antibióticos, normalmente presentes nos efluentes domésticos das grandes cidades. O clima seco da região também é um diferencial importante – a baixa umidade do ar dificulta o aparecimento de doenças nas abelhas, dispensando a necessidade do uso de medicamentos.

Do ponto de vista ambiental, a produção de mel é uma atividade altamente sustentável – as abelhas retiram o pólen das flores da vegetação nativa, sem causar qualquer tipo de dano, mas ao contrário, contribuem no processo de polinização, que é fundamental para a reprodução das plantas. Apesar da Caatinga nordestina ser um dos biomas brasileiros menos estudado, especialistas calculam que mais de 50% da vegetação original já foi destruída desde os tempos da colonização do país – logo, o desenvolvimento de atividades econômicas que permitam a preservação das matas nativas remanescentes, como ocorre com a apicultura, é algo sempre muito bem-vindo.

Entre os anos de 2006 e 2010, a região Nordeste passou a ocupar o posto de maior produtora nacional de mel, respondendo por um terço da produção brasileira – em 2011, a região teve um pico de produção, atingindo 40,4% de todo o mel produzido no Brasil. Em 2012, por conta da estiagem que começou a assolar toda a região do Semiárido, a produção do Nordeste sofreu uma quebra de 50%, caindo de 16,9 mil toneladas para 7,7 mil toneladas. A região Sul retomou a liderança na produção, chegando a responder por mais de 50% da produção nacional de mel, enquanto que a participação do Nordeste foi reduzida para 21,3%. Em Estados como Pernambuco e Piauí, a quebra na produção chegou a 70%. O Ceará, o maior produtor de mel do Nordeste, sofreu intensamente com a redução da produção: de acordo com a FECAP – Federação Cearense de Apicultores, houve uma redução progressiva na produção de mel no Estado entre 2012 e 2017 correspondente a 45%.

O maior produtor mundial de mel é a China, com uma participação total de 31,4%. Apesar do preço altamente competitivo, a qualidade do mel chinês é bastante contestada pelos países mais desenvolvidos, especialmente da Europa, onde os testes de segurança alimentar encontraram altos índices de contaminação por resíduos de inseticidas e antibióticos. Outro problema, que inclui o mel de outros países do extremo oriente, é a adição de “mel falsificado”, produzido a partir do açúcar. A Argentina, ao contrário, é reconhecida como produtora de um mel de excelente qualidade. O país é o segundo maior exportador mundial do produto, vendendo 90% de toda a sua produção no mercado internacional. Apesar da alta qualidade do produto, a produção argentina sofreu fortes perdas nos últimos anos devido a diversos fatores climáticos. A produtividade média em muitas regiões caiu de valores entre 40 e 50 kg por colmeia para 15 a 20 kg por colmeia.

Além destas dificuldades com grandes produtores como a China e a Argentina, o mercado mundial de mel vem enfrentando um gravíssimo problema: tem se observado uma redução global da produtividade em decorrência da morte de grandes quantidades de abelhas. Ainda não existe um consenso científico sofre as causas desta mortandade de abelhas, mas as maiores suspeitas recaem no uso indiscriminado de agrotóxicos por produtores rurais de todo o mundo, além de problemas ambientais criados por mudanças climáticas regionais.

Existem mais de 20 mil espécies de abelhas conhecidas e calcula-se que o número de espécies não descritas pela ciência chegue a 40 mil espécies. Deste total, apenas 2% são espécies de abelhas sociais e produtoras de mel. As abelhas melíferas do gênero Apis mellifera (abelhas europeias) são as mais conhecidas e difundidas entre os apicultores de todo o mundo. O mel é utilizado como alimento pela humanidade desde tempos imemoriais. Os povos primitivos utilizavam técnicas altamente predatórias para a coleta do mel, o que normalmente culminava com a morte das abelhas das colmeias. Ao longo de vários milênios, as técnicas de produção e de coleta do mel foram se desenvolvendo até chegar às técnicas de produção atuais, altamente sustentáveis e produtivas.

Até o desenvolvimento das técnicas de refino do açúcar, o mel era utilizado como adoçante de bebidas e de alimentos, entre outros usos, por povos de todo o mundo. Também eram inúmeros os usos do mel na medicina, que incluiam também seus subprodutos – o própolis, a geleia real e a cera. Os antigos povos da Grécia, do Leste europeu, do Norte da Europa e, especialmente, da Escandinávia tinham um uso mais “nobre” para o mel – fermentando uma mistura de mel com água e levedura se obtinha o hidromel, uma bebida alcoólica forte (alguns tipos podem chegar a uma graduação alcoólica de 20%), que ajudava a suportar as noites frias do inverno.

A redução da produção mundial cria enormes possibilidades para os produtores de mel de alta qualidade como os da região Nordeste do Brasil. Infelizmente, a prolongada estiagem em todo o Semiárido vem provocando grandes perdas na produção local, o que é uma grande pena: com o produto altamente valorizado no mercado internacional, era a hora certa destes produtores fazerem um bom pé-de-meia e reinvestirem os lucros no aumento e melhoria da produção…

Mesmo com o fim do longo período de estiagem no Nordeste, que todos nós esperamos ansiosamente, a recuperação da apicultura na região não será nada fácil, uma vez que muitos produtores terão de recomeçar do zero. O lado positivo (temos de ser otimistas) é que o produto nordestino tem alta aceitação e valorização no mercado mundial, com muito espaço para crescer e se diversificar – além do mel tradicional, há grande demanda por mel orgânico e pelos subprodutos como própolis e a geleia real, que agregam grande valor à cadeia produtiva.

Que venham as abelhas do sertão!

A REDUÇÃO DOS REBANHOS NO NORDESTE POR CAUSA DA SECA

Morte de gabo por causa da seca

Na semana passada foi divulgado um relatório do Banco Central do Brasil confirmando que houve um pequeno crescimento da economia do país no 3º trimestre de 2017 – 0,1% de crescimento. Apesar de muito pequeno, esse crescimento se junta ao crescimento do 1º e do 2º trimestre do ano, confirmando que saímos de uma profunda recessão vivida nos anos de 2015 e de 2016. Olhando com maior cuidado os números, perceberemos facilmente que a situação econômica do país só não foi pior nos últimos anos devido ao crescimento dos setores ligados ao agronegócio, que apresentou um crescimento próximo de 3% em 2016 e em 2017 deve fechar com 2% de expansão. Segundo dados da CNA – Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, o setor agropecuário é responsável por aproximadamente 4% das exportações totais do Brasil.

O sucesso do agronegócio no Brasil se deve, em particular, às atividades agrícolas e pecuárias desenvolvidas na região Centro -Oeste, assim como no Sul e no Sudeste do país. Todo este sucesso e estes números acabam escondendo um grave problema que vem crescendo desde o ano de 2011 – a forte estiagem que assola a região Nordeste vem provocando uma redução sistemática dos rebanhos de animais, especialmente de bovinos. Enquanto em 2016, o efetivo nacional de bovinos atingia a marca de 218 milhões de cabeças, indicando forte crescimento nas regiões Centro-Oeste e Norte, além de pequenas altas nas regiões Sul e Sudestena região Nordeste, ao contrário, foi registrada uma queda de 2,1% e as razões são bem conhecidas: falta de pastagens e de água para os animais. A redução dos rebanhos de pequenos animais – especialmente de ovinos e caprinos, foi menor porque estes animais conseguem se adaptar melhor ao clima do Semiárido. Somente no ano de 2012, no início do período da estiagem, o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, apontou uma perda de 4 milhões de animais em toda a região Nordeste. Além da morte de imensa quantidade de cabeças por fome e sede, os números demonstram que não houve a reposição de animais aos rebanhos e que os produtores da região sofreram enormes prejuízos financeiros: o preço de venda dos animais se dá em função do peso, onde a cotação é feita em arrobas (equivalente a 15 kg) – boi magro (como se diz na pecuária) vale muito pouco. Um exemplo desta perda é o município de Itapetinga, na Bahia, onde a redução do rebanho bovino foi de aproximadamente 24,5%.

A pecuária, desde os primeiros tempos da povoação do interior da região Nordeste, é uma das atividades econômicas mais importantes, praticada especialmente em pequenas propriedades rurais. Diferente da pecuária comercial em larga escala, particularmente aquela praticada intensivamente na região Centro-Oeste em grande fazendas, nos sertões do Nordeste a pecuária é uma atividade essencialmente familiar e extensiva, onde pequenos rebanhos garantem o sustento das famílias. Os impactos negativos da forte estiagem sobre os rebanhos e, de quebra, sobre a produção agrícola de subsistência destas famílias, é fatal para a sobrevivência destas populações.

Os problemas socioambientais da região Nordeste, tema ao qual dediquei alguns anos de estudo, têm origens que estão diretamente ligadas a problemas climáticos sazonais e naturais, mas também apresentam muitos problemas derivados da ações humanas durante a ocupação de extensas áreas do Semiárido – o avanço das boiadas pelos sertões, tema sobre o qual já escrevi em postagens anterior, está na raiz dos problemas vividos pelas populações nos tempos atuais.

Os bois chegaram junto com as primeiras mudas de cana-de-açúcar ao Brasil, nas mesmas naus que trouxeram os primeiros colonizadores da terra. Em um dos meus textos sobre o tema, descrevi assim o momento dessa chegada:

“Os ventos alísios sopram com força o velame da nau; o madeiramento range de popa a proa e vibra à medida que avança rumo à costa. As folhas verdes dos chuços de cana-de-açúcar plantados nas caixas de madeira vibram intensamente, como se soubessem que estão próximos de sua nova morada. Em breve, os diferentes tons de verde da Mata Atlântica sucumbirão ao monótono verde folha da cana-de-açúcar. Grandes clareiras no meio da mata, onde outrora imperava o pau-brasil, estão com os sulcos já arados à espera da saccharum officinarum.

Em outras naus da frota é o gado vacum que se agita, talvez sentindo o cheiro da relva fresca que se aproxima. Trazido das ilhas d’além mar, será sua força bruta que dará vida às moendas fazedoras do valioso açúcar, suas pernas fortes puxarão os carros carregados de cana e, por fim, sua carne saborosa é que vai saciar a fome dos implacáveis colonizadores…

O boi e a cana-de-açúcar são dois lados de uma mesma moeda, que foi lançada pela mão do colonizador a fim de determinar os destinos de nossa terra. São elementos complementares de uma mesma paisagem, onde a existência de um está intimamente ligada ao outro.”

A relação de boa vizinhança entre os rebanhos e as plantações de cana não durou muito tempo: os famintos bois não resistiam à tentação de extensos campos cobertos com suculentos brotos de cana-de-açúcar: não tardou até surgirem leis proibindo a criação de boias a menos de 60 km dos canaviais. O açúcar expulsou as boiadas do litoral e os sertões do Semiárido passaram a ser o hábitat de sertanejos e de suas boiadas – o resto virou história.

A maioria das cidades de todo o interior do Nordeste têm sua origem ligada, direta ou indiretamente, às estradas boiadeiras, através das quais os criadores conduziam seus rebanhos na direção dos mercados consumidores, primeiro na zona canavieira do litoral nordestino, depois em direção aos polos de mineração de ouro na direção das Minas Gerais, isso a partir do século XVIII. A economia de toda a região do Semiárido, desde os primeiros tempos da colonização, sempre teve a pecuária como uma das suas atividades mais antigas e importantes. Muitos dos problemas ambientais que a região apresenta nos dias de hoje, estão ligados diretamente ao aumento das áreas de pastagens para o suporte de todas estas boiadas – grandes áreas de vegetação de Caatinga foram queimadas ao longo dos últimos séculos para a expansão dos campos de gramíneas para a formação de pastagens para as boiadas.

Teorias preservacionistas a parte, o momento vivido pelo produtores rurais de todo o Semiárido por causa da rigorosa estiagem são preocupantes. Sem condições de produzir e gerar o sustento de suas famílias, os pequenos produtores passam a ficar dependentes dos diversos programas assistenciais dos Governos, além de depender em muitos casos da distribuição de água através dos caminhões pipa, um tema que tratamos em publicações recentes. Essa dependência pode levar a toda uma série de consequências, que vão desde a formação dos conhecidos “currais eleitorais”, onde as populações acabam reféns de grupos políticos que tudo fazem para manter o poder político regional (as famosas oligarquias políticas) até ao abandono do campo por muitas famílias, que migram rumo a um futuro incerto nas grandes cidades ou em campos de outras regiões – a região Centro-Oeste, inclusive, tem se tornado o rumo de muito migrantes nordestinos nos últimos anos.

Os impactos socioambientais negativos criados com o intenso povoamento de todo o Semiárido nordestino, que é a região semiárida mais densamente povoada de todo o mundo, são irreversíveis – e a expansão dos rebanhos bovinos pelos sertões contribuiu fortemente para estes impactos. O “estrago” já está feito e temos uma população de mais de 24 milhões de habitantes vivendo na região do Semiárido, o que corresponde a 12% de toda a população brasileira – não é mais possível que toda essa população continue a depender dos caprichos do clima para tocar as suas vidas e suas atividades econômicas.

É preciso que se façam investimentos sérios e consistentes em culturas agrícolas adaptadas adequadamente ao clima dos sertões – a exemplo dos cajueiros anões-precoces que tratei recentemente em uma postagem. Outro exemplo que pode ser citado é a criação de ovinos e caprinos, animais que se adaptam muito bem aos climas semiáridos, e que bem gerenciados (a sobrecarga destes animais em áreas pequenas pode levar a processos de desertificação) podem ser uma alternativa econômica à criação de bovinos.

STF PROIBE O USO DO AMIANTO NO BRASIL, OU VIVA!

Telha de Amianto.png

Na última quarta-feira, dia 29 de novembro, o STF – Supremo Tribunal Federal, proibiu, através da expressiva votação de 7 votos a favor e 2 contra, a extração, a industrialização, a comercialização e a distribuição do amianto do tipo crisotila, matéria-prima muito utilizada na fabricação de telhas leves e caixas d’água. Em 1995 havia sido aprovada a Lei Federal N° 9.055, diga-se de passagem com forte lobby da indústria do amianto, que permitia o uso “controlado” da matéria-prima – a decisão do STF declarou que um dos artigos desta lei é inconstitucional e proíbe em definitivo o uso do amianto no Brasil. A partir de agora, o Brasil se junta ao seleto grupo de mais de 60 países que tem legislação que proíbe o processamento, a venda e o uso desta matéria-prima e de qualquer um dos seus produtos.

Quem lida com saneamento básico e recursos hídricos comemora esta decisão. Deixem-me explicar o que ela vai significar na sua vida:

O amianto é uma fibra mineral que sempre teve largo uso em aplicações industriais devido às suas características físicas: resistência a altas temperaturas, flexibilidade, resistência ao ataque de ácidos, isolamento elétrico e acústico e, principalmente, baixo custo. Ao longo do século XX, o amianto chegou a ser considerado um “mineral mágico”. Durante décadas, produtos fabricados em cimento amianto (massa com cimento e fibras de amianto) foi destaque na construção civil, especialmente nas construções populares, encontrado em materiais como placas, telhas, forros, pisos e caixas d’água.

Com o passar dos anos, estudos começaram a associar a intoxicação por fibras do amianto a uma série de doenças observadas entre trabalhadores da construção civil, mineiros e mecânicos, que tinham contato direto com o mineral. Se inaladas ou ingeridas, estas fibras estimulam mutações celulares no organismo, que podem originar tumores cancerígenos nos pulmões e em outros órgãos. A OMS – Organização Mundial da Saúde, afirma que cerca de 100 mil pessoas morrem por ano devido à doenças causadas pelo amianto e materiais que utilizam o mineral foram proibidos em mais de 60 países. O Brasil, ao contrário, permanecia como um dos cinco maiores utilizadores e exportadores de produtos com amianto do mundo.

De acordo com informações do INCA – Instituto Nacional do Câncer, as principais doenças relacionadas ao amianto são:

Asbestose: causada pela deposição de fibras de amianto nos alvéolos pulmonares, provocando uma reação inflamatória, fibrose e rigidez, reduzindo a capacidade de realizar a troca gasosa e da capacidade respiratória, levando à incapacidade para o trabalho;

Câncer de pulmão: O câncer de pulmão pode estar associado com outras manifestações mórbidas como asbestose;

Câncer de laringe, do trato digestivo e de ovário: Também estão relacionados à exposição ao amianto;

Mesotelioma: é uma forma rara de tumor maligno, mais comumente atingindo a pleura, membrana serosa que reveste o pulmão, mas também incidindo sobre o peritônio, pericárdio, a túnica vaginal e bolsa escrotal.

Devido a toxicidade deste material, a venda de produtos com amianto na sua composição foi proibida na cidade de São Paulo em 2001 e no Estado de São Paulo em 2007. Em outros 5 estados o amianto também foi proibido: Espírito Santo, Mato Grosso, Pernambuco, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. No Mato Grosso do Sul a lei existente foi revogada pelo STF – Supremo Tribunal Federal, que considerou que houve invasão da competência da União. No Pará, as leis aprovadas na Assembleia Legislativa não foram sancionadas pelos sucessivos governadores e a população continuou exposta aos riscos.

Apesar da proibição da venda de produtos a base de cimento amianto e amianto nestes 6 estados, existem milhões de residências que ainda continuaram utilizando telhas, forros, pisos, caixas d’água entre outros produtos fabricados com este material. Uma outra família de produtos muito comum que utiliza o amianto são as pastilhas e sapatas de freios utilizadas em carros, ônibus e caminhões. Este uso coloca diretamente em risco a saúde dos mecânicos que trocam as peças nos veículos e, indiretamente toda a população – conforme ocorre o desgaste das pastilhas e sapatas durante as frenagens dos veículos, partículas de amianto são liberadas na atmosfera, formando o que se chama de poluição do ar por material particulado; combinada com outras partículas e gases, essa poluição atinge toda a população, sendo inalada junto com o ar a cada respiração – imagine você a quantidade de partículas de amianto que pode ser encontrada na atmosfera de uma grande cidade: vou citar a minha cidade, São Paulo, onde o uso de produtos com este material é proibido desde 2001 (no Estado de São Paulo desde 2007), mas que recebe centenas de milhares de veículos de outros Estados dia após dia e que têm esses dispositivos fabricados com amianto instalados em seus sistemas de frenagem.

Nas caixas d’água fabricadas com cimento amianto, o grande risco são as fibras do material que se soltam quando esses reservatórios ficam velhos; também há grande liberação dessas fibras durante a lavagem das caixas d’água – como a superfície das paredes são muito rugosas, é necessário o uso de buchas mais abrasivas nestas operações, o que provoca o desprendimento de fibras de amianto que podem ser ingeridas junto com a água. Caso a sua residência ainda utilize algum modelo da caixa d’água de cimento amianto, chegou definitivamente a hora de trocá-la por um modelo em termoplástico ou fibra de vidro. Se você mora em um edifício ou prédio mais antigo, procure descobrir se são usadas caixas d’água feitas com esse material – a sua saúde e de toda a sua família agradecem.

A batalha pela proibição do uso da substância no Brasil é antiga, onde muitas entidades representantes de indústrias e de trabalhadores, com claros interesses na manutenção do uso, processamento e venda de produtos a base de amianto, sustentavam que a cidade de São Paulo e os Estados que criaram legislações contra a venda destes produtos não tinham competência jurídica para tal – somente uma legislação Federal poderia fazer tal proibição. A decisão do STF pôs fim ao vácuo jurídico criado pela Lei N° 9.055/95. É importante lembrar que no último mês de agosto, uma decisão da Justiça Federal já havia condenado a empresa Sama Minerações Associadas S.A., a pagar uma multa indenizatória de R$ 500 milhões, relativa a danos morais coletivos. A empresa explorou uma mina de amianto em Bom Jesus da Serra, no Sudoeste da Bahia, entre os anos de 1940 e 1967 e respondia processo por possíveis danos à saúde relacionados à extração do mineral.

Superada esta fase do processo, há uma outra muito maior pela frente – em dezenas de milhões de residências em todo o Brasil continuam existindo componentes fabricados a base de amianto: é preciso criar mecanismos que permitam a substituição destes componentes no menor tempo possível. Em outras aplicações, como nas pastilhas e lonas de freio, o próprio desgaste rápido das peças vai permitir a rápida eliminação do mineral.

“APÓS SEIS ANOS DE SECA, PRODUTORES DE CAJU DO RN TÊM EXPECTATIVA DE BOA SAFRA PARA 2017”

Cajueiros no RN

Nas duas postagens anteriores, eu falei dos problemas enfrentados pelas populações da região do Semiárido do Piauí que, como grande parte da população de todo o Semiárido nordestino e de partes do Norte de Minas Gerais, vem sofrendo, e muito, com a longa estiagem que já dura seis anos em muitas localidades. Usei como exemplo as perdas dos produtores de caju daquele Estado, que desde 2011 não conseguem colher uma safra satisfatória, inclusive com a morte de muitos cajueiros.

Pesquisando um pouco mais sobre este assunto, me deparei com uma reportagem extremamente otimista de Hugo Andrade da Inter TV Costa Branca do Rio Grande do Norte, que vem funcionar exatamente como um contraponto aos problemas dos cajucultores do Piauí – o plantio de mudas de cajueiro anão-precoce, que não deu certo no Piauí, no Rio Grande do Norte está dando ótimos resultados. Pode até ser que você leitor nem goste de caju ou prefira a castanha do Pará – a produção do caju, uma fruta típica de regiões do Semiárido e do Cerrado brasileiro, sustenta dezenas de milhares de famílias e está na base de toda uma cadeia de produção de sucos, polpas, sorvetes, doces, bebidas como a cajuína, castanhas e farinhas de castanhas, consumidas no Brasil e no exterior. E quando a produção da fruta é boa, a vida de muita gente nos confins do sertão melhora. Para que você tenha uma ideia da importância desta cultura a nível local, somente no Estado do Ceará, o maior produtor brasileiro, a cadeia produtiva do caju emprega mais de 150 mil pessoas.

Reproduzo a matéria na íntegra:

“Quem investiu na substituição do cajueiro gigante pelo anão-precoce está conseguindo produzir. A última grande safra de caju de Serra do Mel aconteceu em 2011.

Depois de seis anos seguidos enfrentando seca e perdas, os cajucultores de Serra do Mel, no interior do Rio Grande do Norte, têm muito o que comemorar. Quem investiu na substituição dos cajueiros gigantes pelo anão-precoce está conseguindo produzir. A colheita já começou e a expectativa para este ano é de uma boa safra.

Aos poucos, a paisagem dos cajueiros dizimados pela seca prolongada vai ficando para trás. Na propriedade de Ademar Nunes, na Vila Goiás, em Serra do Mel, a colheita do caju começou de forma intensa: em 15 dias, foram mais de 12 toneladas da fruta. “Esse ano a expectativa da gente é boa, porque choveu bastante. Desde 2011 que, durante esse mês, não tinha chovido”, comemora o produtor.

Nesse início de safra, a caixa com 20 quilos de caju, sem a castanha, é vendida, em média, a R$17. A produção vai para indústrias de polpa e suco, além de abastecer os mercados da região. Na cajucultura, a castanha ganha atenção especial atualmente, o quilo chega a custar até R$ 8. Muitos produtores estocam as amêndoas pra garantir maior lucro ao longo do ano.

“No começo, agora, ela tá num preço bom e a gente vai vendendo. Mas daqui pro mês de setembro ela baixa. A gente armazena aqui, no próximo ano a gente vende talvez até de seis reais. Aí já tem um lucro grande”, explica Anderson Gurgel, que também é produtor na região.

Dos 135 hectares da propriedade, 75 são utilizados na produção de caju. A maioria dos cajueiros é da espécie anão-precoce. A variedade se adaptou bem ao clima da região e trouxe vantagens para os produtores, como o crescimento rápido da planta e a colheita prolongada.

“O cajueiro precoce, ele chega cedo e termina tarde. Então esse ano eu já colhi 3 mil quilos de castanha. No gigante ainda não colhi nada. Quando o gigante for chegar à produção dele, nesse precoce eu já tenho colhido uns 10 mil quilos de castanha”, acrescenta Ademar Nunes.

Os benefícios do cajueiro anão-precoce frente ao cajueiro gigante também geram empregos temporários. Neste primeiro mês de safra, o produtor contratou 12 pessoas pra trabalhar na colheita do caju. Até setembro, a quantidade de trabalhadores nos pomares deve dobrar. “Começando mês de junho, nós trabalha seis meses do ano, e entra o mês de janeiro e fevereiro tirando caju também”, conta Manoel Silva, trabalhador das produções de caju.

A última grande safra de caju de Serra do Mel aconteceu em 2011. Naquele ano, de acordo com o IBGE, foram colhidas 15 mil toneladas. Nos últimos seis anos, a seca prejudicou a cajucultura na região, mas a chuva voltou a animar os produtores. Os pés estão carregados e a produção de 2017 pode surpreender. “Promete. Promete bom, mesmo, mas em muitos cantos aqui não vai haver. Porque não tem o cajueiro mais vivo, mas, onde tem o cajueiro vivo, dá muita castanha esse ano”, disse Ademar Nunes.

Mesmo com as dificuldades causadas pela seca, o produtor Emanoel Martins conseguiu manter 15 hectares de cajueiro gigante na propriedade dele. “A produção esse ano é pras pessoas que zelaram. A gente não vai ter uma produção, assim, normal, mas a gente vai ter uma produção razoável, que pelo menos vai dar pra gente sair das contas. A gente tando dentro, trabalhando todo dia, tendo fé, consegue”, garante Martins.”

Por Hugo Andrade da Inter TV Costa Branca