A POLUIÇÃO NOS RIBEIRÕES ARRUDAS, ONÇA E ISIDORO

Canalização de Córrego em BH

Em qualquer lugar do Brasil, quando se fala em Minas Gerais, as primeiras lembranças que vem a mente das pessoas incluem a tradicional culinária mineira, os queijos, as montanhas e, principalmente, as cidades históricas que nasceram durante o Ciclo do Ouro no século XVIII. Muitos são levados a pensar, inclusive, que a grande cidade de Belo Horizonte, atual capital do Estado, nasceu neste período. A história é um pouco diferente:

A histórica Ouro Preto foi capital da Província até 1897. Com suas ladeiras íngremes e ruas apertadas, a cidade não apresentava condições técnicas para ampliação da estrutura administrativa do Governo de Minas Gerais. Para resolver este problema, a região do antigo Arraial Curral del Rei foi escolhida em 1893 para sediar a nova capital de Minas Gerais. Em 1894, foi iniciada a construção de uma cidade totalmente planejada e moderna – em 1897 foi inaugurada a Cidade de Minas, nome que foi mudado para Belo Horizonte em 1901. O resto virou história. A nova capital nasceu e cresceu ao redor de um importante curso d’água – o Ribeirão Arrudas.

O Ribeirão Arrudas tem nascentes na Serra do Rola Moça e atravessa toda a cidade de Belo Horizonte até desaguar no rio das Velhas, no município de Sabará. Ao longo do seu curso de cerca de 40 km, o Arrudas recebe contribuições de uma infinidade de córregos: Jatobá, Barreiro, Bonsucesso, Cercadinho, Piteiras, Leitão, Acaba Mundo, Serra, Taquaril, Navio-Baleia, Santa Terezinha, Ferrugem, Tijuco, Pastinho entre outros. Como sempre aconteceu na história da maioria das cidades brasileiras, o Ribeirão Arrudas, desde os primeiros anos da fundação de Belo Horizonte, passou a funcionar como um coletor de esgotos da cidade: as casas e edifícios foram sendo construídos e as manilhas de esgotos foram instaladas sob as ruas e avenidas, com as saídas de efluentes nas margens do Ribeirão. Com o processo de industrialização, os efluentes industriais em escala crescente também descobriram rapidamente o Ribeirão dos Arrudas. O forte crescimento urbano estrangulou as margens do Arrudas para permitir a construção de grandes avenidas, o que somado à destruição de áreas verdes e a impermeabilização dos solos trouxe as grandes enchentes dos períodos das chuvas.

De acordo com as medições feitas pelo IGAM – Instituto Mineiro de Gestão das Águas, o Ribeirão Arrudas é o tributário mais poluído do Alto Rio das Velhas. As águas escuras, contaminadas por esgotos e lixo, é o resultado dos despejos dos esgotos domésticos de Belo Horizonte, Contagem e Sabará e também de efluentes de uma infinidade de indústrias dos ramos da metalurgia, siderurgia, química e têxtil. Dados disponíveis indicam que, somente nas sub-bacias dos Ribeirões Arrudas e do Onça, existem mais de 3.100 indústrias, das quais metade são consideradas poluidoras, uma vez que as indústrias não realizam um adequado tratamento dos efluentes. O Ribeirão Arrudas, juntamente com os Ribeirões Onça e Isidoro são os grandes poluidores do rio das Velhas, poluição que se soma aos efeitos dos resíduos da mineração já presentes nas águas do rio.

Os níveis de poluição no Ribeirão Arrudas estão muito próximos dos níveis encontrados em rios “campeões” no ranking dos mais poluídos do Brasil como o Tietê, o Iguaçu e rio dos Sinos. Tecnicamente, o Ribeirão Arrudas é classificado como um corpo d’água Classe 3, categoria onde as águas podem ser captadas e utilizadas para consumo humano após um tratamento convencional ou avançado, podem ser usadas para dessedentação animal, para irrigação e também para a navegação. Na prática, porém, os altos níveis de poluição nas águas estão muito mais próximos da chamada Classe 4, denominação usada para indicar corpos d’água altamente poluídos, com uso restrito apenas a navegação e para compor a harmonia paisagística como em lagos e lagoas. Testes laboratoriais indicam que os níveis de coliformes (bactérias encontradas no intestino humano e que são eliminadas junto com as fezes), de fósforo, manganês e de detergentes domésticos estão acima dos limites permitidos pela legislação.

O crescimento desordenado das cidades onde se incluem grandes loteamentos clandestinos e áreas de invasão, não foi acompanhado de um crescimento proporcional das infraestruturas de saneamento básico – historicamente, sempre que as populações não dispõem de sistemas de tubulações apropriados para o lançamento dos esgotos gerados em suas casas, partem para o improviso: moradores se juntam em mutirões e constroem suas próprias redes coletoras de esgotos, onde na ponta final sempre existe um córrego ou rio que vai funcionar como o “coletor principal” dos esgotos do sistema .

Outra fonte importante de poluição conhecida das autoridades são os imóveis que não foram ligados às redes coletoras instaladas pelas empresas de saneamento das cidades. Esse “esquecimento” da parte dos moradores tem uma razão muito clara: evitar a cobrança da taxa de coleta, afastamento e tratamento dos esgotos que, normalmente, faz o valor da conta de água dobrar. De acordo com a COPASA – Companhia de Saneamento de Minas Gerais, existem mais de 25 mil imóveis que não foram ligados às redes coletoras de esgotos já instaladas e em operação na bacia hidrográfica do Ribeirão Arrudas. Se considerarmos que em cada um destes imóveis vivem 4 pessoas, estamos falando do volume de esgotos de 100 mil habitantes sendo lançado diariamente em sarjetas, ruas e redes de águas pluviais, que desaguarão em algum momento no Ribeirão Arrudas.

Existe um outro problema que nem sempre aparece nas listas de poluidores dos rios – a chamada poluição difusa. Todo o lixo descartado nas ruas e calçadas, restos de legumes, frutas e verduras das feiras livres, poeira, areia, resíduos de pneus, óleo e graxa de veículos, restos da construção descartados irregularmente, animais domésticos mortos, entre outras agressões ambientais diárias, acabam sendo carreados pelas águas das chuvas ou são lançados diretamente nas águas pela população – aqui vale lembrar que na bacia hidrográfica do Arrudas vive uma população estimada em 1,6 milhão de habitantes e muita gente usa o Ribeirão como lixeira. 

Uma outra causa importante que ajuda a explicar os altos níveis de poluição no Ribeirão Arrudas e comum em outras grandes cidades brasileiras são os chamados “rios invisíveis” (vide foto). Explico: durante o processo de crescimento desordenado das grandes cidades, os governantes descobriram que, canalizando ou desviando córregos e rios urbanos, surgiriam áreas livres para serem utilizadas para a construção de grandes avenidas, as chamadas Vias de Fundo de Vale. Com o “desaparecimento” repentino dos córregos e rios sob uma grossa camada de terra e asfalto, ficou muito difícil de se saber onde estão as ligações e despejos irregulares de esgotos e efluentes, que só irão dar as “caras” nas águas do Ribeirão Arrudas. Muitos destes “rios invisível” estão escondidos e esquecidos há tanto tempo no subsolo que só voltam a serem lembrados quando ocorre o desabamento de uma laje ou de uma tubulação de concreto – eventualmente, durante os reparos deste problema, algum funcionário da prefeitura ou da companhia de saneamento irá descobrir uma ligação clandestina de esgotos. Na maioria das vezes, é muito difícil encontrar esses “gatos”.

E é assim que os Ribeirões Arrudas, Onça e Isidoro, entre tantos outros de tantas cidades, dão a sua “singela” contribuição para transformar o rio das Velhas num dos mais poluídos do Brasil.

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