A BIODIVERSIDADE AMEAÇADA DO LAGO GUAÍBA, OU OS PESCADORES DO DOURADO “PERDIDO”

Dourado no Guaíba

O Oceano Pacífico, com uma área total de 180 milhões de km², é, disparado, o maior ecossistema do planeta Terra. A área do Oceano Pacífico cobre quase 1/3 da superfície terrestre e suas águas equivalem a quase metade do volume e da superfície de todos os oceanos do planeta. Em meio a tanta água, ilhas vulcânicas distantes de qualquer continente surgiram ao longo das eras – de massas estéreis de rocha ígnea, essas ilhas passaram a ser colonizadas inicialmente por líquens e, em sequência, por arbustos, coqueiros e árvores de grande porte. Aves, pequenos répteis, crustáceos e insetos foram chegando aos poucos. Os fortes ventos alísios e as correntes oceânicas que circundam os oceanos foram as responsáveis pelo transporte de sementes, larvas, cocos e vegetação flutuante – sistemas de transporte dos mais eficiente. 

O explorador e cartógrafo inglês James Cook (1728-1779), no comando do navio HMS Endeavour, realizou uma extensa expedição científica em toda a região do Oceano Pacífico a partir de 1768, sob patrocínio da Royal Society. No total, foram três viagens até a fatídica morte do Capitão Cook em uma luta com nativos nas ilhas do Havaí. Nestas viagens, os expedicionários descobriram e visitaram inúmeras ilhas oceânicas isoladas – os cientistas ficaram surpresos ao encontrar inúmeros animais domésticos conhecidos desde longa data pelos europeus como galinhas e porcos. Entre as espécies vegetais, uma das mais surpreendentes descobertas foi a batata-doce, uma espécie originária da América do Sul. Estudos realizados posteriormente revelaram que essas espécies animais e vegetais foram introduzidas nas ilhas a partir da colonização pelos povos polinésios, que iniciaram uma das maiores sagas migratórias da história da humanidade a partir de 1.200 a.C, inclusive visitando as Américas e tendo contatos com os indígenas locais. 

Usei esta breve citação do Oceano Pacífico para lembrar que não existe nenhum ecossistema isolado em nosso planeta, por mais distante que possa estar. Quando falamos do Lago Guaíba, temos de ter em mente que as relações ecológicas e físicas do corpo d’água vão muito além de suas margens. O Guaíba faz a ligação entre as ilhas do Delta do Jacuí e a Lagoa dos Patos, centro do maior e mais complexo sistema lagunar do Brasil. Por sua vez, esse complexo lacustre funciona como uma ligação natural entre o Oceano Atlântico e todo o sistema de rios e arroios que desaguam no Guaíba. Seguindo essa visão sistêmica, que enxerga todo esse complexo conjunto de corpos d’água como uma “entidade” única, quando um morador de São Francisco de Paula, no alto da Serra Gaúcha, dá descarga no banheiro da sua casa ou quando um curtume em Novo Hamburgo despeja algum efluente industrial num arroio, esses contaminantes podem afetar diretamente um pinguim de Magalhães, espécie que vive na Patagônia, no Sul do continente, mas que, em certas épocas do ano, passa meses nas águas oceânicas das costas da região Sul Brasil, se alimentando de peixes e crustáceos. A surpreendente ligação pode estar no linguado (Paralichthys orbignyanus) ou no dourado (Salminus brasiliensis – vide foto), espécies marinhas que frequentam (atualmente com uma frequência bem menor) a Lagoa dos Patos e o Guaíba – alevinos destes peixes, nascidos nos juncais dos lagos e que migram para as águas do Oceano Atlântico quando já estão crescidos, são um apetitoso petisco para os pinguins esfomeados: qualquer contaminante presente nas águas doces poderá acabar carregado para as águas salgadas pelos peixinhos. 

A região hidrográfica do Lago Guaíba compreende uma área total de 84.700 km², onde vive uma população de 7 milhões de habitantes, distribuídos em mais de 250 municípios, sendo que a população urbana corresponde a 83,5% e a população rural 16,5%. São 9 bacias hidrográficas e 30 microbacias (que correspondem aos arroios ou pequenos cursos d’água que desaguam diretamente no Lago Guaíba). A região responde por 86% do PIB – Produto Interno Bruto do Estado do Rio Grande do Sul. Vejam que são números altamente relevantes
 
Estima-se que, usando-se dados de um relatório do Pró-Guaíba do ano 2.000, 960 mil m³ de esgotos domésticos, 890 m³ de esgotos e resíduos industriais, 16.500 litros de agrotóxicos e 3.700 toneladas de lixo são despejados ou lançados nas águas da região hidrográfica do Guaíba diariamente. A conta também precisa incluir uma grande quantidade de sedimentos resultantes do carreamento de solos expostos por desmatamentos e queimadas, além dos danos biológicos provocados pela destruição de banhados e matas ciliares, que afetam diretamente toda a rica biodiversidade associada aos corpos d’água do sistema hidrográfico. Evidentemente, todo este “conjunto da obra” têm repercussões na biodiversidade específica do Lago Guaíba. 

Vamos começar falando dos peixes – as águas do Lago Guaíba são o habitat de cerca de 56 espécies de peixes residentes permanentes, sendo que 10 espécies são classificadas com valor econômico, ou seja, são as espécies mais buscadas pelos pescadores. A lista inclui: branca, peixe-cachorro ou tambicu (Oligosarcus jenynsii e Oligosarcus robustus), pintado (Pimelodus pintado), jundiá (Rhamdia quelen), grumatã (Prochilodus lineatus), piava (Leporinus obtusidens), traíra (Hoplias malabaricus) e voga (Schizodon jacuiensis). Também existem as espécies migratórias, que utilizam o Guaíba como um corredor de passagem para acesso ao Delta do Jacuí e cabeceiras dos rios formadores das diferentes bacias e microbacias. Um grande exemplo já citado é o dourado, uma espécie que já foi uma das mais apreciadas na culinária gaúcha, que hoje é raríssima nas águas do Lago Guaíba. 

A redução dos estoques pesqueiros e o desaparecimento de espécies, conforme já comentamos em postagem anterior, tem inviabilizado o trabalho de milhares de pescadores tradicionais, que a várias gerações tiravam o seu sustento das águas do Delta do Jacuí e do Lago Guaíba. Além dos níveis extremos de poluição e de lixo nas águas, que atingem diretamente os peixes, existem outros fatores que impactam diretamente a sobrevivência de inúmeras espécies: 

  • Nos sedimentos rasos de oceanos, lagos e rios, sobrevivem comunidades de algas, crustáceos, moluscos e vermes conhecidos como comunidades bênticas ou bentônicas. Essas criaturas e plantas, grande parte de dimensões microscópicas, formam a base da cadeia alimentar das águas. Para que todos tenham ideia do tamanho destas criaturas, algumas espécies tem uma densidade de 5 indivíduos por grão de areia. A sedimentação fora de controle, as cavas de areia e a poluição das águas são fatais para as comunidades bentônicas – sem o alimento proporcionado por estes sistemas, toda a cadeia alimentar do Guaíba fica prejudicada;
  • Outra fonte importante de problemas ambientais está ligada a invasão do mexilhão dourado nas águas do Guaíba e dos rios e arroios de toda a região hidrográfica. O mexilhão dourado é uma espécie exótica que chegou ao continente americano através da água de lastro de navios cargueiros que, para equilibrar a carga, bombeiam água do oceano e enchem tanques de lastro ao longo da embarcação – quando chegam ao porto de destino, esses cargueiros esvaziam os tanques e liberam junto com a água qualquer espécie marinha que foi aprisionada nestes tanques. O mexilhão dourado se fixa na raiz dos juncos e outras plantas aquáticas do Lago, reduzindo a resistência das plantas à força dos ventos e das ondas. As áreas de juncais e de outras espécies vegetais aquáticas são berçários naturais de peixes e crustáceos – sem estes ambientes, há um forte declínio populacional de espécies;
  • A pesca e a sobre pesca dão o golpe final, reduzindo ainda mais o número de indivíduos, levando espécies inteiras ao risco iminente de extinção; 
  • Esse conjunto de agressões pode levar ao isolamento de grupos de peixes de uma espécie em um determinado rio, o que ao longo do tempo pode levar a uma redução da diversidade genética e enfraquecimento reprodutivo dos indivíduos, o que pode levar o grupo à extinção. 

Continuamos na próxima postagem.

2 Comments

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s