Uma intensa onda de calor está varrendo o Sul da Europa nas últimas semanas. Grandes incêndios florestais destruíram grandes áreas em Portugal e Espanha – nesta semana, as chamas se espalharam sem controle por uma extensa faixa de florestes da famosa Cote d’Azur, no Sul da França. Hoje (04/08/2017), a onda de calor atinge toda a área central da Itália e da península dos Balcãs, com temperaturas na casa dos 42° C. Esta onda de calor “infernal” foi batizada com o sugestivo nome “Lucifer”. Eventos semelhantes tem sido observados, sistematicamente, em diferentes regiões do mundo.
Na área central da Itália, onde fica a cidade de Roma, uma forte e persistente seca tem afetado fortemente os mananciais de água e está ameaçando o abastecimento das cidades. Numa medida inédita e exemplar, alinhada com os eventos de calor extremo e incêndios florestais, o Papa Francisco ordenou o desligamento de todas as fontes públicas do Vaticano, medida que inspirou iniciativas semelhantes em outras cidades, como um exemplo de economia de água. Vejam a matéria publicada pelo Diário de Notícias (25/07/2017):
“Durante um período de seca prolongada em muitas partes de Itália, o Vaticano começou a desligar, na segunda-feira, as mais de 100 fontes existentes no Estado.
A iniciativa vai de acordo com os ensinamentos do Papa Francisco sobre o ambiente, tema sobre o qual apresentou uma encíclica, em 2015, onde constam os seus maiores medos ecológicos, denunciando as práticas de desperdício e sublinhando a importância da água potável.
Em declarações à agencia noticiosa Reuters, o porta-voz do Vaticano, Greg Burke, afirmou ser a primeira vez que alguém poderá recordar um acontecimento como este, sendo esta a forma de o Vaticano demonstrar a sua solidariedade para com Roma perante o período de seca vivido.
“Esta decisão está em consonância com o pensamento do Papa sobre ecologia: Não podemos desperdiçar e por vezes temos de estar dispostos a fazer um sacrifício”, acrescentou o porta-voz.
Esta primavera foi a terceira mais seca de Itália em 60 anos. Na cidade de Roma, que tem registado níveis de chuva mais baixos que a média, a maioria das fontes e bebedouro tinham já sido desligados. As autoridades estão ainda a ponderar racionar o consumo de água.
Nos próximos dias, todas as fontes do Vaticano serão desligadas progressivamente. Na Praça de São Pedro, o exemplo está dado: as duas fontes do século XVII já não deitam água.”
Faço votos que, sob as Bençãos do Papa Francisco, as populações da Europa consigam sobreviver a “Lucifer”. Amém.
Em postagens anteriores, você já leu que o rio Guandu é o principal manancial de abastecimento da capital fluminense, fornecendo 85% das águas usadas pela cidade do Rio de Janeiro e 70% dos volumes utilizados para o abastecimento de municípios da Baixada Fluminense. Também já ficou sabendo que este é um dos rios mais poluídos do país. Agora, peço que você preste atenção nesta lista de compras de produtos químicos:
140 toneladas de Sulfato de Alumínio, 20 toneladas de Cloreto Férrico, 15 toneladas de Cloro, 25 toneladas de Cal Virgem, 10 toneladas de Ácido Fluossilícico (o famoso flúor) entre outros produtos químicos, usados tipicamente no tratamento de água para abastecimento de cidades.
Em muitas cidades, esse é o consumo mensal de produtos químicos utilizados nas suas estações locais de tratamento de água. Porém, na Estação de Tratamento de Água do Rio Guandu (vide foto), em Nova Iguaçu na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, esse é o consumo médio diário – em dias de chuva, devido ao aumento da quantidade de lixo e de esgotos carreados para o canal do rio, esse volume de produtos químicos pode até triplicar.
A poluição excessiva das águas do Rio Guandu está na origem desse uso “abusivo” de produtos químicos. Como é de praxe em praticamente todos os mananciais de abastecimento de água no Brasil, faltou gestão no saneamento básico em grande parte da bacia hidrográfica do Guandu: as cidades e as atividades agropecuárias e de extrativismo cresceram sem planejamento e rio acabou cercado de problemas ambientais por todos os lados. Calcula-se que, só de despejos de esgotos, a bacia hidrográfica do Rio Guandu receba uma carga diária de aproximadamente 4 bilhões de litros.
O Rio Guandu, como já comentado em publicações anteriores, é altamente dependente das águas do Rio Paraíba do Sul, do qual é retirado um volume equivalente até 60% das suas águas, que são transferidas através dos sistemas de geração de energia elétrica da Light para a sua bacia hidrográfica. Essa transferência de água corresponde ao volume de até 160 m³/s – estudos demonstram que, desse total, apenas 45 m³/s são utilizados para o consumo humano; o restante é usado para diluir o esgoto presente na água para “facilitar” o tratamento e para conter a entrada de água salgada no rio junto a foz na Baia de Sepetiba, onde se requer uma vazão mínima de 30 m³/s. Esse aparente desperdício de água é fonte de reclamações e de disputa judicial com os Estados vizinhos.
Para complicar um pouco mais a situação, a Região Metropolitana do Rio de Janeiro precisará aumentar a oferta de água para a população nos próximos anos. Na região Leste da Baía da Guanabara, onde vive uma população de quase 2 milhões de pessoas nos municípios de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Ilha de Paquetá, o Macrossistema de Abastecimento local, o Imunama/Laranjal, produz uma vazão total de 6,2 m³/s de água tratada, o que é insuficiente para atender a demanda atual na casa de 11 m³/s. Estudos indicam que a demanda desta Região no ano de 2035 deverá atingir o valor de 14,2 m³/s – a soma do déficit atual com a demanda futura mostra que será necessário um aumento na vazão de 8 m³/s. Os rios locais não possuem vazão suficiente para permitir uma ampliação do Sistema e o rio Guandu se apresenta como um dos únicos mananciais em condições de oferecer mais água. Na área Oeste da Região Metropolitana, onde ficam os demais municípios como os da Baixada Fluminense e do Rio de Janeiro, entre outros, atendidos pelo Macrossistema Guandu/Lajes/Acari e outros Sistemas isolados, já existe um déficit entre a oferta e a demanda de água de 3,6 m³/s, além de existirem grandes áreas sem atendimento por abastecimento público, o que exige um aumento da capacidade de produção dos Sistemas.
Em meio a tanta demanda reprimida de água, há uma situação paradoxal: dados do PERHI – Programa Estadual de Recursos Hídricos do Rio de Janeiro, indicam que a perda de água na rede de distribuição, causadas por vazamentos nas tubulações ou desvios de água (os famosos gatos), chega aos 40% – se essa perda fosse reduzida em 30%, se aproximando da perda média nacional, a água economizada seria suficiente para abastecer uma população de 1,5 milhão de pessoas. A situação é tão crítica que algumas autoridades estaduais já sugeriram um aumento da captação de água na Represa de Ribeirão das Lajes (existe um sistema de adutoras que transporta água diretamente para a estação do Guandu), situação que exigiria um aumento na transposição de águas do rio Paraíba do Sul e voltaria a acirrar os conflitos com os Estados de São Paulo e Minas Gerais. A atual situação fiscal do Estado do Rio de Janeiro, infelizmente, impede que essa ou qualquer outra obra de grande porte possa ser discutida com profundidade ou que saia do papel – já os riscos de desabastecimento, esses aumentam a cada dia.
É fundamental que, enquanto não se realizem todas as obras necessárias para o aumentar a oferta de água potável na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, que se façam esforços para melhorar a qualidade ambiental da bacia hidrográfica do rio Guandu. A consolidação da Área de Proteção Ambiental do rio Guandu (APA Guandu), por exemplo, criada por Decreto Estadual em 2007, precisa sair do papel e garantir a efetiva proteção e recuperação dos remanescentes florestais, protegendo e garantindo a qualidade das águas do rio Guandu. Também é importante proteger alguns aquíferos estratégicos como o Piranema em Seropédica.
Na situação atual, cada litro de água, mesmo “suja”, importa…
Em 1879, após a invenção da lâmpada elétrica por Thomas Edison, a eletricidade se transformou em um “produto” altamente comercializável e nas últimas décadas do século XIX, seu uso virou uma espécie de febre nas grandes capitais mundiais. Surgiam em todas as grandes cidades da América do Norte, Europa e Ásia sistemas de iluminação pública com lâmpadas elétricas, bondes e máquinas elétricas nas grandes fábricas, além do abastecimento de residências e estabelecimentos comerciais de todos os tamanhos.
A jovem República Federativa do Brasil, que naqueles anos passava por todo um conjunto de mudanças sociais, políticas e econômicas, não poderia ficar para trás nesta corrida. Em 1901, após a inauguração da Usina Hidrelétrica de Santana de Paranaíba, a modesta cidade de São Paulo passou a contar com todas a modernidade e o conforto da eletricidade, um evento que seria determinante para a consolidação do processo de industrialização e desenvolvimento de toda a Região Metropolitana.
A cidade do Rio de Janeiro, Capital Federal e metrópole mais importante do Brasil com 800 mil habitantes na época, não pouparia esforços para implantar também sua infraestrutura de geração e distribuição da energia elétrica. A primeira experiência da cidade do Rio de Janeiro com a eletricidade remontava a uma pioneira linha de bondes elétricos inaugurada em 1891, que ligava a região do Largo do Machado ao bairro do Flamengo – os altos custos para a aquisição do carvão mineral usado na geração termoelétrica da eletricidade e a falta de capitais levaram a empresa à falência pouco tempo depois e os bondes voltaram a ser puxados por burros.
Em 1895, a empresa belga SAG – Société Anonyme du Gaz, obteve a primeira concessão para exploração da eletricidade na iluminação pública, mas a distribuição da energia elétrica produzida a partir de usinas térmicas a carvão só terá seu início em escala comercial nos primeiros anos do século XX pela CBEE – Companhia Brasileira de Energia Elétrica, criada pelos empresários Cândido Graffrée e Eduardo Palassim Guinle. Na mesma época, se instala no Rio de Janeiro uma concorrente de peso – a empresa canadense de energia elétrica Light and Power Company, que já operava na cidade de São Paulo desde 1899.
Desde de sua chegada ao Brasil, a Light já vislumbrava o mercado de geração e distribuição de eletricidade no Rio de Janeiro e, desde 1903, já realizava estudos técnicos para a implantação de usinas hidrelétricas no Estado. Após obter a concessão para operar no Rio de Janeiro em 1905, a Light iniciou a construção da Represa de Ribeirão das Lajes (vide foto) e da Usina de Fontes, inauguradas em 1908.
Até a década de 1950, a Light realizou diversas obras visando aumentar sua capacidade geradora, inaugurando novos reservatórios, usinas e, especialmente, estações de bombeamento que captavam água da bacia hidrográfica do Rio Paraíba do Sul que, após a passagem por diversos grupos geradores de eletricidade, eram lançadas na bacia do Rio Guandu (60% das águas deste rio são retiradas da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul). Graças à todas essas obras de engenharia, a vazão do Rio Guandu passou dos históricos 25 m³/s para até 160 m³/s, um volume de água que passaria a ser fundamental para o abastecimento da cidade do Rio de Janeiro e municípios da Baixada Fluminense.
Relembrando um comentário feito em minha última postagem, a cidade do Rio de Janeiro e região sempre enfrentaram problemas de abastecimento de água e, graças aos investimentos feitos para a geração de energia elétrica, finalmente a região passaria a contar com água em volume suficiente para o abastecimento da sua população.
Infelizmente, como acontece com a maioria dos cursos d’água do país, não foram tomadas medidas que garantissem a preservação da qualidade ambiental das águas da bacia hidrográfica do Rio Guandu: as cidades cresceram sem planejamento e implantação de infraestrutura de coleta e tratamento dos esgotos; matas ciliares foram destruídas sistematicamente para a ampliação de áreas agrícolas e de pastagens; resíduos químicos de fertilizantes e defensivos agrícolas em volumes cada vez maiores continuaram a ser carreados pelas chuvas na direção da calha dos rios.
Resíduos sólidos de todos os tipos, descartados sem controle pelas cidades, eram arrastados pelas chuvas e entulhavam cada vez mais os rios; a extração de areia para uso na construção civil avançou sem controle por extensas áreas nas margens dos rios de toda a bacia hidrográfica, especialmente no município de Seropédica – o promissor rio Guandu, gradativamente, passou a ser um dos rios mais poluídos do país (algumas publicações afirmam que o rio já está no topo da lista). Calcula-se que a bacia hidrográfica do Rio Guandu receba aproximadamente 4 bilhões de litros de esgotos todos os dias.
Rios altamente poluídos e com altas cargas de esgotos domésticos, industriais e resíduos sólidos não são novidade nas grandes cidades brasileiras – o Tietê, principal rio que atravessa a Região Metropolitana de São Paulo, é um exemplo deste descaso ambiental. Porém, há uma grande diferença em relação ao rio Guandu: a Região Metropolitana de São Paulo possui outras fontes de abastecimento de água e não precisa captar as águas poluídas do rio Tietê (um dos sistemas de abastecimento de São Paulo, o Alto Tietê, utiliza águas do rio a montante da Região Metropolitana).
A Região Metropolitana do Rio de Janeiro, ao contrário, depende das águas do rio Guandu para o seu abastecimento: 85% das águas usadas pela cidade do Rio de Janeiro e 70% dos volumes utilizados para o abastecimento de municípios da Baixada Fluminense vêm deste manancial, sem dispor de fácil acesso a outras fontes de abastecimento de água.
No nosso próximo post vamos falar do desafio diário para o tratamento e potabilização das águas do rio Guandu, tarefa que consome centenas de toneladas de produtos químicos.
O rio Paraíba do Sul é paulista de nascimento com forte parentesco mineiro, mas é fluminense e carioca de coração. O Rio de Janeiro é absolutamente dependente das águas do rio, responsável pelo abastecimento de 12 milhões de pessoas em todo o Estado, sendo 8 milhões na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Para que você tenha uma ideia mais precisa do que estamos falando, a população total no Estado está na casa dos 17 milhões de habitantes – ou seja, 70% dos habitantes do Estado do Rio de Janeiro dependem das águas do rio Paraíba do Sul.
Seria simplesmente impossível falar do Paraíba do Sul sem dedicar inúmeros “capítulos” aos problemas do rio no Estado do Rio de Janeiro. Para começar, vou apresentar para a maioria de vocês o Rio Guandu, um típico “riozinho” de montanha (vide foto) que, a partir de todo um conjunto de obras de transposição feitas inicialmente para possibilitar o uso das águas do Rio Paraíba do Sul para a geração de eletricidade, foi transformado no principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
Esse ilustre desconhecido da maioria dos brasileiros que não mora no Estado do Rio de Janeiro é o responsável pelo abastecimento de água em nove municípios da Região Metropolitana: Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, Duque de Caxias, São João de Meriti, Belford Roxo, Nilópolis, Itaguaí, Queimados e Mesquita. O sistema produtor de águas do rio Guandu atende aproximadamente 85% da cidade do Rio de Janeiro e 70% da Região da Baixada Fluminense. Apesar de toda a sua importância, o Rio Guandu sofre imensamente com a alta carga de esgotos in natura que recebe de dezenas de cidades, vilarejos e indústrias ao longo de seu curso; é o destino final de toneladas de fertilizantes e defensivos químicos de áreas agrícolas carreadas para a suas águas; lixo e resíduos sólidos de todos os tipos, descartados sem maiores cuidados pela população, acabam arrastados pelas águas das chuvas para a calha do rio; é vítima de desmatamentos em áreas de mananciais em sua bacia hidrográfica, que reduzem a produção de água nas nascentes; a extração de areia sem respeito às normas ambientais destrói quilômetros de suas margens – essas são algumas das muitas agressões que o Rio Guandu sofre diária e sistematicamente.
A primeira vez que vi o rio Guandu de perto foi numa semana de muita chuva na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Eu estava com um primo carioca, que me apontou o rio – juro que a única coisa que consegui enxergar pela janela do carro foi um “mar” de garrafas PET flutuantes e muito lixo. Como “a primeira imagem é que fica”, sempre que penso no Guandu lembro dessa “impressão inicial”.
O jornalista André Trigueiro, um grande especialista nas áreas de meio ambiente e sustentabilidade, em seu livro Mundo Sustentável, classificou, acertadamente, o Rio Guandu como “um grande dependente químico”. Explica-se: nos processos de tratamento da água destinada ao abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro são utilizadas diariamente mais de 200 toneladas de produtos químicos, entre eles o sulfato de alumínio, produto indispensável para tornar a água bruta (aquela que é retirada do rio) em água potável. Em um manancial com água de boa qualidade, seria necessário apenas 10% deste volume de produtos químicos para tratar a mesma quantidade de água – é possível ter uma ideia bastante precisa dos níveis de poluição no rio Guandu somente com essa informação. Em dias de chuva, como descrito em meu testemunho, por causa da maior quantidade de esgotos e de lixo que são carreados para a calha do rio, o volume de produtos químicos utilizados no tratamento da água chega a triplicar.
Apesar de ser um ator dos mais importantes na vida de milhões de pessoas, o rio Guandu fica “meio que” longe do dia a dia da população. Diferente da Baia da Guanabara que, mesmo extremamente poluída e suja, é um cartão postal da cidade do Rio de Janeiro e região, vista por milhões de visitantes a cada ano (a maioria vê a Baia de longe, do alto do Pão de Açúcar, do Morro do Corcovado ou atravessando a ponte Rio-Niterói), o rio Guandu é mais discreto e corre através de áreas periféricas da Região Metropolitana até o seu melancólico encontro com o mar na Baia de Sepetiba. Pode-se afirmar que, enquanto a Baia de Guanabara fica na porta de entrada do Rio de Janeiro, o Rio Guandu fica nos fundos, como aquela porta que atende os serviçais da residência – faz todo o trabalho pesado e sujo, sem receber grande reconhecimento por isto. A cidade se preocupa com áreas turísticas como Copacabana, Leblon e Ipanema e, mais recentemente, com a Região da Barra – que o subúrbio fique onde sempre esteve: longe das vistas da elite econômica e com todos os seus problemas proletários.
A cidade do Rio de Janeiro, a primeira fundada na região da Baia da Guanabara, sempre sofreu com a baixa disponibilidade de fontes de água potável. Os rios da região não apresentam caudais vigorosos e na época da seca, com a redução ainda maior no fluxo de águas, sofria-se imensamente com a intrusão de água salina do mar, que deixava a pouca água disponível salobra. Os Arcos da Lapa, ponto turístico dos mais conhecidos da cidade, faz parte de um antigo sistema de aquedutos, construídos a partir do século XVIII, que trazia água de fontes nas matas mais distantes em reforço ao abastecimento da população da cidade. Quando a empresa canadense de energia elétrica Light and Power Company (empresa que também construiu o Sistema Billings / Usina Hidrelétrica de Cubatão em São Paulo) inaugurou a Represa de Ribeirão das Lajes e a Usina de Fontes em 1908, as águas transpostas a partir do rio Paraíba do Sul passaram a ser despejadas no rio Guandu, e pouco a pouco passaram a ser essenciais para o abastecimento da antiga Capital Federal.
Em uma disputa nada virtuosa, que conta com o Tietê (trecho da Região Metropolitana de São Paulo), Iguaçu no Paraná e Ipojuca de Pernambuco nas três primeiras posições, o Paraíba do Sul já está ocupando o 5° lugar na classificação geral dos rios mais poluídos do Brasil – em 2010, o rio estava na 9° colocação. O levantamento foi feito pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, e imagino que ninguém vai querer comemorar o avanço do rio na classificação geral.
De acordo com dados da CETESB – Companhia Ambiental do Estado de São Paulo, o trecho mais poluído do rio fica no município de São José dos Campos, em São Paulo, mas, pelo conjunto da obra, é o trecho fluminense do rio que garante a “boa” classificação do Paraíba do Sul na disputa nacional.
Sem apresentar nada de surpreendente, o levantamento informa que o despejo de esgotos domésticos sem tratamento e a contaminação das águas por resíduos de agrotóxicos e fertilizantes são as principais causas da poluição. Podem ser incluídos na relação de problemas do rio a destruição das matas ciliares e a remoção de areia em suas margens, despejos de resíduos sólidos, esgotos de origem industrial e vazamento de rejeitos de mineração (lembro aqui o vazamento em Cataguases em 2003).
Para complicar um pouco mais o quadro sombrio da poluição no Paraíba do Sul, é preciso lembrar que este rio é o responsável pelo abastecimento de 14 milhões de pessoas nos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro – na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, são as águas do Rio Paraíba do Sul, transpostas através do rio Guandu, as responsáveis pelo abastecimento de 8 milhões de pessoas (no Estado do Rio de Janeiro, o número total de usuários das águas chega aos 12 milhões de habitantes).
De acordo com a Ana – Agência Nacional de Águas, de um total estimado de 365 milhões de m³/ano de efluentes domésticos lançados na bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul, apenas 54,5 milhões de m³/ano ou apenas 15% do total de efluentes recebem um tratamento adequado. Quando este dado é analisado a partir das informações de cada Estado, percebe-se uma enorme discrepância nos índices de tratamento: enquanto os municípios da área paulista da bacia hidrográfica tratam, em média, 54,3% dos efluentes domésticos, no Estado de Minas Gerais o valor cai para 7,2% e no Rio de Janeiro são 5,7%.
Esta distorção também pode ser vista quando se compara a diferença entre os níveis de tratamento de esgotos domésticos entre municípios de uma mesma região: enquanto São José dos Campos, uma das mais importantes cidades do Vale do Paraíba, trata 89% de seus esgotos domésticos, a cidade de Cruzeiro, distante apenas 128 quilômetros a jusante, o índice de tratamento cai a 0%, o que mostra que a preocupação com o saneamento básico não é uma unanimidade nem nacional nem regional.
A poluição de origem industrial também provoca fortes impactos nas águas do rio Paraíba do Sul. A região atravessada pelo rio está entre as mais industrializadas do país, destacando-se o Vale do Paraíba, no Estado de São Paulo, e a cidade de Volta Redonda, no Estado do Rio de Janeiro, onde está localizada a CSN – Companhia Siderúrgica Nacional (vide foto), a maior usuária individual de águas do rio, com um consumo de 10 m³/s, equivalente a toda a demanda industrial no trecho paulista do rio. Fundada em 1946, a CSN foi, durante décadas, uma das maiores poluidoras das águas do Paraíba do Sul.
Felizmente, com os avanços da legislação ambiental e das ações de fiscalização nos últimos anos, houve uma grande evolução no controle dos despejos de poluentes pela empresa. Mesmo assim, estudos realizados na região têm encontrado contaminações no solo e nas águas subterrâneas com substâncias tóxicas e cancerígenas, como bifenilas policloradas (PCBs), cromo, naftaleno, chumbo, benzeno, dioxinas, furanos e xilenos, resíduos que foram enterrados clandestinamente pela empresa em aterros ilegais antes do ano 2000 e que até os dias atuais contaminam as águas do rio Paraíba do Sul.
A CSN já foi condenada em diversas ações movidas por autoridades do Estado e do Governo Federal, e vem sendo obrigada a remediar as agressões ambientais em diversas terrenos já identificados. Além do descarte ilegal de resíduos químicos, diversos “acidentes” industriais ocorridos nas instalações da CSN também terminaram em vazamentos de substâncias químicas nas águas do rio Paraíba do Sul.
Um dos processos em andamento afirma que a empresa foi responsável em 2010 pelo vazamento de 18,3 milhões de litros de efluentes industriais, contendo lama, carvão e minério de ferro; o despejo destes efluentes obrigou a interrupção dos serviços de captação e fornecimento de água em diversos municípios vizinhos, causando também grandes prejuízos para os demais usuários das águas do rio como agricultores e pescadores.
No território mineiro da bacia hidrográfica do Paraíba do Sul, uma das maiores preocupações são as barragens de rejeitos de mineração, uma das atividades econômicas da maior importância para o Estado de Minas Gerais. Estudos do ano de 2013 do INEA – Instituto Estadual do Ambiente, órgão do Governo fluminense, apontavam para o risco de acidentes em 12 barragens de rejeitos de mineração, onde estão armazenados 22 bilhões de litros de resíduos.
As autoridades de Minas Gerais negam a existência do problema – não custa lembrar que foram estas mesmas autoridades que afirmaram que a barragem de rejeitos de mineração da empresa Vale do Rio Doce, em Mariana – MG, era segura: essa barragem se rompeu em 2015 e destruiu o Rio Doce, naquele que é considerado o maior acidente ambiental da história do Brasil. O Estado do Rio de Janeiro, que é o maior dependente das águas do rio Paraíba do Sul, teme que um acidente com rejeitos de mineração transforme o Paraíba do Sul em um outro Rio Doce.
Como se vê, são muitos os problemas ligados a poluição no rio Paraíba do Sul – o alerta amarelo está ligado.