ONU ALERTA PARA A CONTAMINAÇÃO DAS ÁGUAS POR ANTIBIÓTICOS 

A água está sempre em movimento. 

O grande “reservatório” de água do nosso planeta são os oceanos, que acumulam cerca de 97,5% de toda a água disponível nesse nosso pequeno planeta azul. O calor do sol, que incide sobre os oceanos, cria uma gigantesca massa de vapores de água, com um volume total calculado em 383.000 km³ a cada ano.  

Esse vapor é espalhado pelos ventos por toda a superfície do planeta e uma parte considerável, cerca de 30%, é precipitada sobre os solos dos continentes e ilhas na forma de chuva, neve e granizo. Todas as reservas de água potável do mundo surgem daí. 

Do volume total de água disponível no planeta, apenas 0,5% está disponível para o consumo de plantas e animais, incluindo aqui os seres humanos. Além de limitados, os estoques de águas são distribuídos de forma muito irregular no mundo. Na Amazônia, por exemplo, encontra-se cerca de 20% de toda a água doce do mundo, enquanto que em outras regiões do globo terrestre o recurso é extremamente escasso. 

Um dos grandes problemas vividos em muitas localidades é a contaminação da água por resíduos químicos, onde se incluem remédios, entorpecentes, metais pesados, entre outros. Um problema particularmente grave são os resíduos de antibióticos. 

Um relatório recente do PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, enfatizou esse problema. O relatório afirma que 90% dos antibióticos ainda como substancias ativas são lançados no meio ambiente por meio de esgotos ou por defecação a céu aberto. 

Microrganismos presentes na água são expostos a estas substancias e podem criar resistência a esses medicamentos. Caso algum desses microrganismos desencadeie uma doença em uma pessoa ou mesmo uma epidemia, o uso desses antibióticos no tratamento dos doentes ficará comprometido. 

Segundo a ONU, as infecções que apresentaram resistência a antibióticos foram associadas a mais de 1 milhão de mortes em 2019. As autoridades médicas temem que, caso não sejam tomadas medidas para conter o descarte descontrolado de antibióticos no meio ambiente, essas mortes poderão superar a marca de 10 milhões em 2050. 

Outro temor da ONU são os possíveis impactos que poderão ser desencadeados caso surja uma nova pandemia em escala global. Tomando por base os problemas econômicos criados pela pandemia da Covid-19, é possível supor prejuízos nas economias dos países da ordem de US$ 3,4 trilhões, o que jogaria dezenas de milhões de pessoas para a pobreza extrema. 

Sempre que uma pessoa toma algum tipo de antibiótico para o tratamento de alguma doença, resíduos do medicamento são eliminados através da urina e das fezes. Onde não existem redes de coleta e estações de tratamento de esgotos, esses resíduos acabam sendo despejados em rios, lagos e outros corpos d`água. 

Além dos medicamentos, antibióticos vêm sendo usados em sabonetes, shampoos, hidratantes e em outros produtos, onde agregam valor como antibacterianos. Resíduos desses produtos acabam sendo carregados pela água dos banhos e da lavagem das mãos e do rosto. 

Também entram nessa conta os restos de antibióticos que não foram consumidos e que acabam sendo descartados de maneira incorreta no lixo doméstico e hospitalar. Descartados em aterros sanitários ou nos famosos lixões, o conteúdo dos frascos pode vazar e ser arrastado pelas chuvas na direção de córregos e riachos. É importante lembrar que medicamentos não consumidos precisam ser descartados adequadamente – esses resíduos devem ser encaminhados para incineração. 

O problema dos antibióticos e seus resíduos também está presente na produção agropecuária. Existem inúmeros medicamentos veterinários a base de antibióticos que largamente utilizados pelos criadores de suínos, bovinos e de aves. Resíduos desses produtos são eliminados pela urina e fezes desses animais e, na grande maioria dos casos, são descartados em corpos hídricos sem nenhum tipo de tratamento. 

A Universidade de York, da Inglaterra, fez um interessante estudo para avaliar os volumes de antibióticos presentes em rios de todo o mundo. Foram analisadas amostras de águas de rios de 72 países em todos os continentes. Em 65% das amostras analisadas foram encontrados resíduos de 14 antibióticos usados pelas populações. 

Um exemplo que ilustra muito bem o problema é o do rio Tamisa, o mais importante da Inglaterra. Os pesquisadores encontraram uma concentração total de antibióticos de 0,233 microgramas para cada litro de água. Já em Bangladesh, um país relativamente pequeno e densamente povoado no Sul da Ásia, a concentração dos resíduos foi 170 vezes maior. 

Os países onde os níveis de contaminação das águas dos rios excederam os limites de segurança foram Bangladesh, Quênia, Gana, Paquistão e Nigéria. Dentro do território europeu, a Áustria foi a que apresentou um rio com os piores níveis de contaminação do continente. 

A questão da contaminação das águas vai muito além da questão dos antibióticos. Existem inúmeras outras substancias cujos altos índices de resíduos nas águas começam a provocar grandes preocupações. Um exemplo é a cocaína, um entorpecente que muita gente usa como estimulante ou como uma forma de “recreação”. 

Estudos realizados em amostras de água colhidas no trecho do rio Tamisa que corta a cidade de Londres encontraram 17 bilionésimos de grama de benzoilecgonina (um resquício metabólico que sai na urina de quem consome cocaína) para cada litro de água. Um estudo semelhante feito na Itália em 2005, revelou que o rio Pó (o nome do rio é esse mesmo – não é trocadilho) dá vazão a resíduos de 4 kg de cocaína a cada dia. 

Esses resíduos estão afetando a vida animal desses rios. As enguias do rio Tamisa (Anguilla anguilla), citando um exemplo, estão sofrendo com inchaço e disfunções nos músculos, além de ficarem hiperativas (ou “doidonas”, como se diz no popular). Esses animais estão tendo dificuldades para completar as longas migrações que fazem para se reproduzir. 

A contaminação das fontes de água é um problema cada vez mais sério e é fundamental esse alerta da PNUMA. Alguma coisa precisa ser feita antes que o pior aconteça. 

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