DEPOIS DE MAIS DE 40 ANOS, BALEIAS-AZUIS VOLTAM A FREQUENTAR O LITORAL NORTE DA ESPANHA

O preocupante aumento do número de encalhes de baleias-jubarte em praias brasileiras foi tema da nossa última postagem. Uma das hipóteses para esse aumento de ocorrências do tipo é uma redução nos estoques de alimentos em águas do Oceano Antártico – especialmente do krill. Parte considerável dos animais encontrados mortos são espécimes jovens e com peso muito abaixo do que seria esperado para esse período de migração das baleias. 

Continuando ainda na linha do “Mundo Animal” (os leitores mais velhos devem se lembrar desse ótimo programa de TV), vamos falar de outro tema ligado as baleias – animais da espécie azul, a maior entre as espécies e também o maior animal vivo de nossos tempos, estão voltando a frequentar as águas dos mares da Costa Atlântica ao Norte da Espanha. Antes da decretação da moratória de caça as baleias, um acordo costurado pela Comissão Baleeira Internacional em 1986, as baleias-azuis foram caçadas quase que a extinção nessa região. 

Apesar de aparentar ser uma boa notícia ou um sinal que as populações da espécie voltaram a se recuperar a exemplo do que aconteceu com as baleias-jubarte, essa súbita migração de volta a uma região onde a caça praticamente aniquilou a espécie pode ser um sinal de problemas ambientais nas águas do Oceano Ártico. 

Segundo alguns pesquisadores, as mudanças climáticas que estão se desenrolando no Ártico podem estar comprometendo os estoques de alimentos desses animais. As baleias-azuis se alimentam quase que exclusivamente de pequenos crustáceos marinhos conhecidos como krill, podendo se alimentar também de pequenos peixes e lulas. Assim como ocorre com suas “primas distantes” da espécie jubarte, essas baleias possuem lâminas córneas no céu da boca que filtram a água para capturar seus alimentos. 

As baleias-azuis (Balaenoptera musculus) podem atingir um comprimento de até 30 metros e um peso de até 180 toneladas. Antes da caca intensa, principalmente a partir de fins do século XVIII, a espécie era abundante nos mares. Somente nas águas ao redor da Antártida suas populações eram estimadas em 240 mil indivíduos. Em um estudo publicado em 2002, as estimativas falavam de uma população entre 5 mil e 12 mil indivíduos. 

Evidencias históricas parecem indicar que a caça às baleias começou há cerca de 5 mil anos atrás – pinturas rupestres desse período, encontradas em paredes de cavernas, mostram seres humanos caçando esses animais. É provável que se tratassem de espécies de pequeno porte como a baleia-de-minke (Balaenoptera acutorostrata) ou animais da família dos golfinhos como as orcas (Orcinus orca) e as baleias-piloto (diversas espécies do gênero Globicephala). Esses animais provavelmente nadavam muito próximos da costa ou foram abatidos após encalhe nas praias. 

As primeiras evidencias documentais sugerem que foram os bascos, povo que tem seu território distribuído entre o Nordeste da Espanha e o Sudoeste da Franca, os primeiros a desenvolver técnicas específicas para a caca das baleias. Essa pesca era feita na região do Mar Cantábrico. Entre os séculos XI e XII, a pesca da baleia foi introduzida na Galícia, região do Nordeste da Espanha que, ao longo de mais de setecentos anos, foi considerada “um país de baleeiros”.  

Inicialmente, o alvo da caça desses baleeiros espanhóis eram as espécies menores como as já citadas baleias-piloto, as baleias-brancas, os narvais e as toninhas. Eram usados pequenos barcos para navegar até longe da costa. Quando os baleeiros avistam grupos desses animais, eles faziam um forte barulho de modo a forçar as baleias a nadar em direção das praias, onde grupos as aguardavam munidos de lanças. Com o passar do tempo foi aprimorado o uso dos arpões, o que permitiu a caca de baleias maiores como as da espécie franca. 

A caça das grandes baleias como as da espécie azul só se tornou possível a partir da década de 1860, quando o norueguês Svend Foyn inventou o canhão-arpão com ponta explosiva. O pico da caca às baleias-azuis se deu em 1931, quando, segundo os registros, foram capturados 29 mil animais em todo o mundo. O primeiro grande esforço para tentar salvar a espécie da extinção se deu em 1966, ano em que a Comissão Baleeira Internacional proibiu a caça das baleias-azuis. 

Durante muitos séculos, as baleias foram caçadas principalmente para a produção do óleo usado na iluminação de casas e de ruas. Um dos maiores clássicos da literatura mundial, Moby Dick de Hermann Melville, publicado em 1851, conta em detalhes a rotina em um barco baleeiro. O autor, que durante vários anos na década de 1840 trabalhou em um desses navios, descreveu muito de suas experiências pessoais. A trama foi inspirada na história real do navio baleeiro norte-americano Essex, naufragado após o ataque de uma baleia em 1822. 

O processamento e a comercialização da carne de baleia ganharam força a partir de meados do século XIX, quando foram criados os navios-fábrica, embarcações com capacidade para enlatar grandes quantidades do produto em poucas horas. Também entram na lista de produtos feitos com “matérias primas” retiradas de baleias o toucinho (feito com a gordura do animal), as barbatanas (usadas pela indústria da moda – principalmente em espartilhos), o espermacete (usado na produção de cosméticos, velas especiais e óleos lubrificantes), o âmbar (aromatizante), além de tendões, pele e ossos. 

Essa “aparente” fonte inesgotável de matérias-primas levou inúmeras espécies de baleias a uma situação muito próxima da extinção, especialmente ao longo das primeiras décadas do século XX. Com forte tradição na caça as baleias, as regiões da costa Atlântica do Norte da Espanha deram a sua contribuição para o forte declínio das populações de várias espécies, principalmente a baleia-azul. 

Entre as atuais preocupações dos pesquisadores está o fato de não terem sido observadas alterações nas quantidades de plâncton nas águas da costa espanhola. Plâncton são microrganismos animais e vegetais que vivem em suspensão nas águas dos mares e oceanos e que formam toda a base da cadeia alimentar das espécies maiores. Sem esse aumento nos estoques de plâncton e do consequente aumento nas populações de outros animais maiores, não é possível afirmar que as baleias-azuis voltaram a frequentar essas águas por causa da busca de alimentos. 

Alguns pesquisadores até sugerem a possibilidade desse retorno das baleias-azuis estar ligado a uma memória-ancestral instintiva. Assim como acontece com outros animais, a exemplo dos salmões, as baleias-azuis são impulsionadas pela memória e podem assim estar voltando para as mesmas águas onde seus ancestrais viveram. 

Enquanto os estudos sobre esses eventos não forem concluídos e indicarem as exatas razões da volta das baleias-azuis aos mares da Espanha, é importante ver com cautela essa situação. Como diziam os antigos, “cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém” … 

AUMENTAM OS ENCALHES DE BALEIAS-JUBARTE NA COSTA BRASILEIRA

Quem está acompanhando as últimas postagens aqui no blog deve estar estranhando o título de hoje: qual seria a relação entre ondas de calor extremo, incêndios florestais e a morte de baleias-jubarte? 

Em resumo – tudo! 

De acordo com levantamentos feitos pelo Instituto Baleia Jubarte, uma organização não governamental que se dedica ao estudo, preservação e ações de educação ambiental voltadas à conservação da espécie, já foram 48 encalhes desses animais em praias brasileiros entre janeiro e junho deste ano. Todos esses animais já estavam mortos. Em julho, foram registrados mais 26 encalhes, elevando o total registrado para 74 em 2021.  

Há coisa de uns três anos atrás, eu vi (a uma distância bem confortável) um desses encalhes na Praia do Centro em Peruíbe, cidade do litoral Sul de São Paulo. Segundo as informações dos especialistas que estavam no local, o animal havia morrido vários dias antes e foi arrastado até a praia por correntes marítimas. Quem tentou chegou mais perto do local para ver o “cadáver” teve suas narinas tomadas pelo forte cheiro de toneladas de carne em avançado estado de putrefação. 

Segundo os registros feitos nos últimos anos, a média de casos documentados vinha se mantendo na casa de duas dezenas de encalhes anuais. Existem também registros de anos com números atípicos como 2010, quando foram registrados 96 casos, e 2017, com um total de 122 casos. 

A maior parte dos encalhes registrados neste ano foram de animais jovens e com peso muito abaixo do que seria de se esperar. Pesquisadores especulam se esses animais se aproximaram da costa em busca de alimento e assim acabaram morrendo enroscados em redes de pescas ou após encalhar em trechos rasos. 

As baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae), que normalmente são chamadas apenas de jubarte, também são conhecidas como baleia-corcunda, baleia-cantora, baleia-de-corcova, baleia-de-bossas e baleia-preta. É um mamífero marinho da ordem dos cetartiodáctilos. Os machos da espécie podem chegar a um comprimento de 14 metros e as fêmeas, ligeiramente maiores, podem chegar aos 16 metros. O peso se situa entre 25 e 30 toneladas, sendo que já foram encontrados espécimes com mais de 40 toneladas. 

As baleias-jubarte são encontradas em todos os oceanos do mundo e tem como característica comum a realização de grandes migrações anuais de verão entre as suas áreas de alimentação em águas polares até as águas quentes de regiões tropicais e subtropicais para acasalar e ter seus filhotes. Em alguns casos, essas migrações cobrem rotas de 25 mil km. É justamente este aspecto da ecologia dessas baleias que as ligam aos focos de calor e aos incêndios florestais. 

Conforme já tratamos em postagens anteriores, as regiões polares estão entre as que mais rápida e intensamente estão sofrendo as consequências do aquecimento global. A Antártida é um grande exemplo – nos últimos 40 anos, o enorme continente gelado assistiu a velocidade do derretimento do seu manto de gelo aumentar 6 vezes. A Antártida perdeu cerca de 3 trilhões de toneladas de gelo apenas nos últimos 20 anos

Grandes volumes de água doce resultante desse degelo são despejadas nas águas dos mares polares, alterando substancialmente a ecologia dessas águas e, muito pior, fazendo o nível dos oceanos de todo o mundo aumentarem gradualmente. Entre 1979 e 2017, foram 1,4 centímetro de aumento médio no nível dos oceanos

Os mares polares formam grandes correntes de água fria que circulam através de todos os oceanos do mundo, criando um mecanismo de circulação de nutrientes marinhos. As águas geladas favorecem o armazenamento de carbono nas profundezas do oceano, o que atrai milhares de espécies marinhas para essas águas férteis. Um desses casos é o do krill antártico (Euphausia superba), um pequeno crustáceo que é o principal alimento de animais como as baleias-jubarte. 

Os krills se parecem com pequenos camarões e atingem um comprimento de até 6 cm e um peso de 2 gramas. Apesar de pequenos, os krills costumam se reunir em grandes cardumes, onde a densidade fica entre 10 mil e 30 mil animais por metro cúbico de água. As baleias-jubarte são dotadas de conjuntos de placas de queratina que descem do céu da boca e formam estruturas chamadas de barba. Essas barbas filtram o seu alimento da água do mar, onde o krill é um dos principais. 

As alterações climáticas nas regiões polares e também nos mares que circundam essas regiões estão reduzindo os estoques de alimentos como o krill, o que vem prejudicando o ciclo de vida de animais como as baleias-jubarte. Durante as suas migrações e estadias em águas polares, as baleias-jubarte comem dezenas de toneladas de krill e de outros crustáceos e pequenos peixes, armazenando energia para o período das migrações de verão e acasalamento em águas tropicais e subtropicais. 

É justamente esse elo da ecologia das baleias-jubarte que pode estar sendo quebrado e que pode estar por trás da morte dos animais encontrados encalhados em praias brasileiras. Com a baixa oferta de alimentos nas águas da Antártida, esses animais não estão contando com estoques de energia suficientes para chegar até suas áreas de procriação, a exemplo do Arquipélago de Abrolhos, no litoral Sul da Bahia.  

Buscando cardumes de pequenos peixes e/ou de camarões em águas mais próximas da costa, essas baleias se aproximam das mesmas águas usadas pelos pescadores. Segundo as informações disponíveis, ocorreram ao menos 34 casos de emalhe, situação onde as baleias ficam enroscadas em redes de pesca. Segundo informações do Projeto Baleia Jubarte, nem todos esses acidentes resultaram em mortes de baleia, mas seu número também foi recorde.   

O aumento do número de encalhes de baleias-jubarte ao longo do litoral brasileiro, felizmente, parece não representar qualquer risco à sobrevivência da espécie num curto e médio prazos. Ao contrário – é um sinal claro do sucesso dos programas de conservação implementados ao longo das últimas décadas. Uma das medidas mais importantes se deu em 1986, quando a Comissão Baleeira Internacional, formada por mais de 80 países – inclusive o Brasil, decretou uma moratória na caça de baleias. 

Os resultados dessa moratória não tardaram a aparecer – no ano 2000, o censo populacional da espécie baleia-jubarte em águas brasileiras encontrou cerca de 3.500 indivíduos. Atualmente, essa população é estimada em mais de 20 mil indivíduos. 

A situação relativamente confortável da espécie hoje poderá ficar seriamente ameaçada em um futuro próximo caso as populações de krill e de outros pequenos animais que formam a dieta das baleias-jubarte no Oceano Antártico continuem a declinar. Tudo culpa do aquecimento global criado por nós, os seres humanos.